05/09/06

Bacalhau, Sem Espinhas Quer Alho, por Kzar

Evocando a Noruega, de onde preferencialmente deve provir, o Gadus Mohrua (atenção, que comerciantes sem escrúpulos vêm vendendo um peixe do pacífico, aparentado com o fiel amigo, como se fosse o propriamente dito! Felizmente há legislação recente que obriga a identificar a espécie) sugere que o comamos como faríamos a uma jovem norueguesa de aspecto saudável e convidativo: lourinha, limpinha, sem espinhas nem aditivos dispensáveis e, sobretudo, com o seu aroma natural (aspecto importante em ambos os casos).

Com isto em mente, tomam-se algumas postas, apenas medianamente demolhadas e de boa espessura, cortando-as em tiras algo longas, com cerca de 2 cm de largura, firmes e rijas como as coxas da compatriota humana do bicho.

Deitam-se apenas sobre a frigideira, em azeite puro e bem quente, com as peles para baixo, até que pelo lado de cima as lascas começam a destacar-se umas das outras, nunca virando. Por baixo, a pele há-de estar um tanto tostada, rijinha, como se a tal norueguesa tivesse estado tempo demasiado ao sol da Costa Vicentina.

Empratam-se as apetitosas tirinhas e lança-se-lhes por cima alho que foi previamente picado e tostado no gratinador, até ficar entre o amarelo e o já levemente castanho. Em companhia, virão umas quantas batatas enfoladas e isto, senhores, é um segredo só por si, embora simples e que não custa revelar.

Os tubérculos hão-de ser de raça adequada à fritura (deve perguntar-se a merceeiro competente e honesto) e de tamanho médio. Descascados e lavados, cortam-se em rodelas de 5 mm de espessura, que se salgam e põem a fritar, em óleo bem quente, durante pouco mais de um minuto, até que adquiram cor semelhante à das horríveis congéneres pré-fritas. Por essa altura, retira-se a cesta da fritadeira e deixam-se as rodelas de ouro a descansar, esfriando, pelo menos quatro minutos e sempre tendo cuidado de as destacar umas das outras, para que se não colem. Finalmente, vão de novo à fritura, tendo-se mantido a temperatura do meio gorduroso, sendo coisa muito de ver e espantar como incham, enfolando a película, que se deve deixar quase queimar, marco da confecção perfeita.

Temos então em cada prato tirinhas de bacalhau, encimadas por alho tostado e acompanhadas de batatas enfoladas, completando-se a comandita com um vinho de estalo, que possa certificar uma jantarada em condições, mas não demasiado elegante nem tão forte que desequilibre a nórdica. Sugiro um Quinta de Foz de Arouce.

Exeunt

E como é preciso morigerar um pouco as agruras deste vale de lágrimas em que arrastamos nossos sofrimentos, mas o bom Deus dispõe que nisso sempre usemos de alguma frugalidade, passamos sem sobremesas e acabamos em meditação sobre uma garrafinha de Porto. Ouso dizer que o Quinta do Noval, LBV 98, Unfiltered, é uma escolha exactíssima. Beba-se à fartazana, em copázios e que se lixem os velhos e minúsculos cálices ou o maldito merchandising do Siza Vieira.

Insisto: quem é amigo, quem é?

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