22/09/06

Crónica Oportuna e Memorável da Conquista de Lisboa, para Informação do Leitor que a Lerá Como Lhe Convir, por J. Relativo

Foi nos inícios da Primavera do ano de 1147 a. D. que, no Porto de Darmouth, se concentraram cerca de 13000 homens embarcados em cerca de 200 naus. Vinham de muitos lugares, falavam muitas línguas e eram muito diferentes na aparência. De tal forma se diferenciavam em tudo que estranho parecia que se ajuntassem para uma empresa comum. Unia-os a fé em Cristo e o empenho na Cruzada.

A fim de se evitarem altercações e violências, acordaram os comandos entre si, ainda antes da partida, em juras de concórdia e amizade, consentindo na aplicação da pena de talião como princípio penal, banindo os luxos e proibindo a circulação das mulheres em público. Além disso, todos se confessariam semanalmente e comungariam ao Domingo. Assim se faria, publicamente pela comunhão e sigilosamente pela confissão, o escrutínio e controle da virtude de cada um.

Fizeram-se ao mar, percorrendo as costas da Bretanha, passando ao largo de Biscaia, dos Pirenéus asturianos, Gijon, Corunha, a costa galega, aportando à cidade do Porto. Aí, D. Pedro Pitões, bispo local, dirigiu-se-lhes em latim para que todos entendessem, pois que cada grupo tinha quem traduzisse para o vernáculo a prédica do bispo. O rei estava ausente e parece que contava já com a chegada dos Cruzados, deixando instruções para a negociação. O orador apela à colaboração da soldadesca, lembrando porém que devem lutar não movidos pela cobiça dos bens materiais mas com o objectivo de reerguer a prostrada Igreja de Espanha, apelando às armas dos expedicionários para exterminarem os «ímpios da face da terra». Não devem temer o juízo divino, pois que as mortes assim causadas não são homicídios, nem o saque será roubo. A guerra é justa, diz o bispo, pois faz reaver o que é nosso: «Quem mata os maus só no que eles são maus, e o faz com justo motivo, é ministro do Senhor.» Defende ainda que para ganhar os favores da Divindade, escusado é ir tão longe à Terra Santa quando se pode praticar a cruzada aqui na Espanha ocupada. Condena a inveja, a carne, a gula e o desejo da guerra pelo saque, precavendo desde logo mais do que adivinháveis excessos.

Chegados ao Tejo, as crónicas louvam a abundância do rio e das terras. Lisboa era «o mais opulento centro comercial de toda a África e duma grande parte da Europa», devendo África entender-se não no sentido geográfico actual, mas a terra ocupada pelos seguidores de Maomé neste ocidente mediterrânico. 60 000 famílias na cidade e arrabaldes, cerca de 154 000 homens, havendo a somar as mulheres e crianças. Solos férteis, éguas emprenhadas pelo vento, caça variada e abundante, a pesca que ocupava 1/3 do caudal do Tejo, limões, figos, vinhas, pomares, pastagens vicejantes, ares saudáveis, banhos quentes, vistas largas, clima ameno. Na cidade, cada um tinha a religião que queria, havia inclusivamente um bispo cristão, o comércio era intensíssimo e a cidade era também um «viveiro de toda a licenciosidade e imundície».

As chefias reúnem-se com o rei, muito desconfiando dele, não o tomando por pessoa séria. Por muito que nos custe macular o nosso fundador mitificado, e a mim nada custa, a verdade é que Afonso I era um homem que faltara à palavra quando da secessão, que quebrara todos os códigos da honra medieval, que arrenegara à linhagem, que desobedecera e fugira aos deveres de vassalo, que abdicara do propósito da unidade que deveria orientar os cristãos peninsulares, que desafiara a autoridade papal, que violara os códigos da guerra ao assaltar Santarém como um simples ladrão. Era pois um homem em quem não se devia confiar, um senhor da guerra, um proscrito, um chefe de milícia sem reconhecimento das autoridades diplomáticas e sem qualquer prestígio internacional. Os cruzados recusam-se a participar na conquista, não se querem desviar do seu projecto inicial, nem comprometer a expedição logo ali. Foi então que, muito a custo, de entre eles assoma um, Herveo de Glanvill, que apela à unidade dos cristãos. Comove a audiência ao falar da solidariedade sob a Cruz e das «gentes tão diversas vinculadas sob a lei da união jurada». Lembra ainda que os que se recusarem à empresa, serão lembrados no futuro e em caso de sucesso, com grande desonra. Posto isto, chega-se a um acordo. O rei concede-lhes o saque, os resgates a cobrar e futuras isenções no trato marítimo.

Depois, D. João Peculiar, Arcebispo de Braga e que era assim como o ministro dos Negócios Estrangeiros, sela o acordo, lembrando a «inata benignidade dos cristãos» que, longe de roubarem, reivindicam o que é deles, a posse da cidade, fraudulentamente usurpada pelos muçulmanos. Invoca assim um direito histórico que legitima a guerra. Lembra o Apóstolo Santiago e os seus seguidores, lembra a memória dos mártires que padeceram no passado e apela aos mouros para que pacificamente devolvam a cidade. Os mouros recusam e apontam o dedo à «inata instabilidade de ânimo dos cristãos». Não reconhecem os direitos históricos, invocam o seu domínio prolongado e depositam o desfecho futuro nas mãos de Alá. O bispo do Porto responde inflamado, lançando as palavras de guerra. Lamenta a obstinação, defende que a confiança mourisca não assenta no valor e na força própria e que os cristãos, quantas mais vezes virem um empreendimento frustrar-se, quanto mais empenhados se tornam. É a guerra, o cerco começa a 1 de Julho.

Após umas primeiras escaramuças, constroem-se cemitérios para sepultar os mortos e inicia-se um longo cerco. Trocam-se insultos. Os sitiados acusam os cristãos de serem movidos pela cobiça, falam do adultério que as suas mulheres praticam enquanto eles ali estão, insultam a Virgem Maria, acusam-nos de idolatria por adorarem a Trindade, e acham blasfémico e imperdoável que se possa restringir a um corpo figurado uma «tão alta divindade». Depois, pegavam em cruzes, cuspiam-lhes, limpavam com elas o cu, mijavam-nas e atiravam-nas para o acampamento.

Do lado cristão, espantavam-se com os milagres que pareciam assinalar a protecção divina. Mudos recuperavam a fala, um pão que se ensopava em sangue como se fora carne. Porém, e apesar dos sinais, preparavam as máquinas de guerra, da mais alta tecnologia militar de então. Torres de assalto que atingiam 25 m de altura, aríetes e catapultas. Cavavam-se túneis para minar os alicerces das muralhas.

Os mouros pedem reforços aos seus correligionários de fé, apelando às cidades de Évora e Palmela. Porém, as divisões intestinas tornam uma quimera a esperança na unidade. Muitos tinham aceitado tréguas com Afonso Henriques que preparara diplomaticamente a guerra. Antes do assalto final, os cristãos saquearam Almada, a pretexto de um ajuste de contas, e de lá trouxeram muitos prisioneiros, decapitando-os às dezenas e empalando as cabeças às portas de Lisboa, numa estratégia de guerra psicológica. O espectáculo, visto como «feito notável», causou «grande alegria» aos cristãos e «tristeza nos inimigos» que suplicavam por entre lágrimas que lhes devolvessem as cabeças. As catapultas lançam pedras sobre a cidade, à razão de 500 por hora. A fome instala-se, comem-se cães e gatos, alguns mais ousados e torturados pela fome ousam sair das muralhas catando figos que os cruzados plantam estrategicamente como iscos ao longo do caminhos para os atraírem a ratoeiras montadas com redes, sendo este entretenimento motivo de grande gozo.

No dia 16 de Outubro dá-se a grande ofensiva. À mina, escavada sob os alicerces da muralha, lança-se o fogo à estrutura de madeira que sustinha o túnel, causando o incêndio a derrocada final. Os mouros entram em pânico, adivinhado o mísero desfecho, enquanto os sapadores rejubilam de satisfação, antecipando o saque. Logo ali, ao local do desabamento, acorre uma turba de cristãos, desejando eles também engrossar o caudal dos salteadores que, como uma torrente, se preparava para se internar na cidade pela brecha da muralha. Mas logo os autores da brecha a reivindicaram como sua, reclamando que a fizeram para si e que fossem os outros arranjar o seu modo de se internarem. Assim fizeram, construindo uma torre de assalto. Quando pronta, solicitaram a benzedura. As autoridades eclesiásticas benzeram a terrível máquina, borrifando-a com água-benta, exibindo a sagrada, e pretensa, relíquia do Santo Lenho e sermonando. Lembraram o anjo da guarda que por cada um zela, que não temessem a morte, pois que ela é libertadora, que morrer ali seria um «lucro», maior do que a glória de ali somente lutar. Apelou à disciplina e classificou o inimigo: «bandidos, salteadores fracos e tímidos» Ergueu novamente a relíquia sagrada, a soldadesca ajoelhou-se, gemeu e chorou de comoção, foi benzida e depois foram empurrar a torre para o assalto derradeiro.

Os besteiros e frecheiros despejaram uma saraivada de flechas com o fim de afastar da muralha os defensores, para que a tenebrosa máquina pudesse encostar. Os sitiados respondem com bombas incendiárias e uma chuva de pedras. O dramatismo desesperado mostra como se joga o lance decisivo. O fogo de lá para cá, feito em madeira embebida em pez, estopa e azeite, é correspondido com o fogo de cá para lá. O cenário é apocalíptico. Cavam-se covas de abrigo, regam-se os escudos protectores feitos com cabedais tensos. Do lado de cá, contam-se só uns feridos, dos de lá, «morreu a maior parte dos mouros», o que, a ser verdade é milagroso e a ser falso mostra como a mentira também faz os seus milagres. Verdade é que os cercados percebem que estão perdidos e pedem tréguas para negociar a rendição, poupar algumas vidas, evitar a destruição e atenuar o saque. É dia 21 de Outubro, a cidade capitula.

A tarefa agora, entre os cristãos, é combinar a estratégia do saque. Por isso, afloram as desconfianças. Há tumultos e conspirações. Por fim, após árduas conversações entre as facções, chega-se a um acordo. Uma delegação constituída por algumas centenas de representantes dos diversos grupos do exército de Cruzados seria enviada dentro da cidade. Aí chegados, os vencidos deporiam os seus bens, jurando solenemente entregarem a totalidade dos seus haveres. Caso se viesse a verificar o incumprimento da jura, seriam condenados à morte. Caso contrário, poderiam abandonar as muralhas. Assim se fez, o grupo entrou e hasteou o estandarte cristão, por entre a euforia das tropas. Depois, o planeado saque disciplinado não foi cumprido. Todo o acordado se desrespeitou e a multidão de saqueadores entrou em tropel desenfreado e louco pelas muralhas de Lisboa. Arrombaram as portas, mataram, violaram, quebraram todas as juras e esqueceram todos os sermões, desrespeitaram todos os tratos e violaram todos os códigos. Foi uma orgia de loucura e violência, derramaram-se rios de sangue inocente e até o bispo cristão da Lisboa muçulmana foi degolado e decapitado. Era já nonagenário e o seu nome foi esquecido. Donzelas foram desfloradas e mortas, casas arrombadas e incendiadas, injúrias e violências inauditas foram cometidas por entre uma algazarra incontrolável, caótica e desonrosa. Saciados, consentiram por fim que os habitantes saíssem da cidade, o que demorou 5 dias: «uma tão grande multidão de gente como se toda a Espanha houvesse vindo ali». Depois «purificaram» o templo. Na mesquita encontraram cadáveres depostos e centenas de moribundos, num espectáculo que ao cronista pareceu uma «imundície horrorosa». Foi alçado bispo Gilberto de Hastings, e glorificado o nome dos cruzados em toda a Espanha. A peste caiu sobre os derrotados e tal foi visto como castigo. Alguns mouros, «vivos, mas semelhantes a cadáveres», rastejavam cadaverosos e abraçavam a cruz, suplicando misericórdia. Recebiam indiferença e desprezo, considerando a conversão oportunista, esquecendo que se tratavam afinal de cristãos moçárabes, isto é, adeptos da fé de Cristo vivendo sob domínio árabe. Lisboa torna-se cristã. Assim, deste modo. Dão-se graças ao Criador, apela-se à Sua misericórdia e à conversão dos derrotados, controlam-se os excessos de vaidade e glória e no fim tenta aplacar-se a Ira de Deus: «Pare a Vossa mão! Basta, Senhor! Já é bastante o ter até aqui combatido por nós contra estes! Mas converta-se antes (…) o seu luto em alegria, para que Vos reconheçam como Deus vivo e verdadeiro, e Aquele que enviastes, Vosso filho Jesus Cristo, que vive e reina por todos os séculos dos séculos. Ámen!»

Foto: http://www.enterprisemission.com/moon.htm

Adaptado a partir de Conquista de Lisboa aos Mouros em 1147. Carta de um Cruzado Inglês que Participou nos Acontecimentos; Lisboa; Livros Horizonte; 2ª edição; 2004. Apresentação e notas de José da Felicidade Alves.

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