15/09/06

Good Bye Gerês, por Pirotécnico

Este Verão o país ardeu alegremente e nós mal demos por isso. Graças ao governo – não porque tenha evitado os incêndios, mas porque conseguiu que as notícias da sua ocorrência não nos chegassem.

Em 2005 houve 300 mil hectares de área ardida. Este ano, 60 000. O governo apresentou os números como se de uma vitória se tratasse. Não é, longe disso. Em primeiro lugar porque, dada a devastação gigantesca do ano passado, este ano já não havia tanta área «útil» (para os interessados) para arder. A queima do ano anterior ainda rende… Logo é normal que os números baixem. E neste contexto 60 mil hectares é uma brutalidade. Principalmente se uma parte dessa área ardida tiver sido, como foi, o Gerês, o maior tesouro ecológico do país. Como é que alguém pode vir dizer que este ano correu muito bem, quando ardeu precisamente aquilo que nunca poderia ter ardido, a jóia da coroa, o Parque Nacional Peneda-Gerês? Eu preferia que tivessem ardido 300 mil hectares de eucaliptais a ter perdido o Gerês… O Gerês era o sítio mais bonito de Portugal. Mas o Governo acha que não e que fez uma grande figura este ano no combate aos incêndios! Valha-nos Deus…

Enquanto o país ardia, ao contrário do que se passou noutros anos, nós não soubemos de nada porque este ano a forma de passar a informação relativa aos incêndios mudou substancialmente. Nem vale a pena falar no branqueamento levado a cabo pela televisão do estado: parecia que estávamos no Ártico. Uma referência de rodapé e siga pás notícias da bola, raio de país este em que os telejornais abrem e fecham com futebol... Por outro lado, este ano, por imposição ds organismos governamentais competentes a forma de transmitir as ocorrências relativas a incêndios mudou substancialmente. Até aqui as instituições regionais ou locais faziam ao fim do dia o balanço da situação e havia informação quer local quer nacional para se saber exactamente qual a área que tinha ardido em cada dia e ao longo dos meses de Verão. Informação completa e detalhada, portanto.

Mas este ano o governo mudou esta forma transparente de informar: a lista de incêndios era publicada num site e desaparecia 10 minutos depois, em muitos casos. Conclusão: não era possível uma visão global nem detalhada da situação a não ser que houvesse um maluquinho permanentemente a retirar os dados publicados no site oficial. E assim fizeram com que não se desse pela gravidade da situação. Este verdadeiro buraco negro informativo é o sonho de qualquer pirómano que faz o seu trabalhinho discretamente sem se dar por ele. Se o Nero, o maior pirómano da história, tivesse uma equipa destas a trabalhar para ele, não tinha incendiado Roma uma só vez, mas 5 ou 10. No mínimo…

Pic de A.J. Smuskiewicz

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