27/09/06

Mais Depressa Se Apanha Um Cão Que Um Buendía, por Melquíades


O Cão é sem dúvida o Porco que mais lê. O Cão leu o Ulisses (não a bagatela do Homero, mas sim o calhamação de 842 páginas do Joyce), leu o Proust e não deu o tempo como perdido e, desconfio eu que até os 3 volumes do Homem Sem Qualidades do Musil, o homem leu. Já era assim no liceu, o Cão. Não só era o que mais lia, mas o que lia com mais qualidade. Mais avant gard. Quando aí, eu me aventurava ainda pelos juvenis Steinbeck e Hemingway, já o Cão se abalançava a um Cem Anos de Solidão e a um Retrato do Artista Quando Jovem Cão.

Um dia, ainda no Liceu, disse mal ao Cão do Cem Anos. Como diz o nosso Mister, que marra com o excesso de personagens, achei que aquilo era gente a mais logo na primeira página e um gajo via-se à nora pra memorizar tanto Buendía. Com tanto galo o disse, que nesse dia levava na mão um Morris West. Tragédia. O Cão ria e saltava. Ondé que já se viu um nabo com West na mão a marrar com o Gabo. A partir do West, já o Cão impante de gozo se espojava pelo chão, berrando contra a Sidney Sheldon (sim, sim confesso que também li), o Harold Robbins, Fast e quejanda americanice best-selleriana.

Nunca mais me livrei da sarna do Cão. E eu que tanto gostava de discutir leituras com ele, levava sempre e logo de entrada nas fuças, com o gozo da escumalhada aventurosa e adjectivante. E tanto fazia como não, tentar defender que o West inicial ainda fez a obra-prima do Advogado do Diabo, ou que o Michener ainda se excedeu no Chesapeak e que o Fast foi inultrapassável na Paixão de Sacco e Vanzetti. Népias. O Cão quando ferra, não há maneira de lhe fazer largar o osso. Ainda hoje, nos reencontros vínicos, meia volta lá vem do fundo da sala um berro pleno de auto-satisfação: Ken Follet! Jefrey Archer! Desmond Bagley! Ganda besta apocalíptica!

Mas, a vingança tarda mas não falha. E é um prato que se come frio. No caso, geladinho, mesmo. É que aqui há dias, fomos tascar com o Cão lá na serra profunda. Pró fim, e porque a conversa estava melhor que boa, lá fomos até casa do Cão. Entrámos, mais conversa, bitaites e vistas magníficas sobre a beira lá em baixo. Pelo meio vou de casa de banho e ali, logo ali no corredor de acesso, reparo em novas e esconsas rimas de livralhada. Paro, olho, corro as lombadas e ó deuses, ó supremo gozo, bem aventurados os anjos da guarda. Ali, em casa do Cão, arrumadinhos, cuidados e aprumados, ali, vejo eu três Konsalik, não um nem dois, mas três Konsalik. E mais quatro Robert Ludlum. E Steel, meu deus, eu juro que havia lá um Danielle Steel. Allende era mato. Berrei que nem um desalmado e a malta veio da sala a pensar que me tinha dado uma coisa má.

O Cão viu logo a coisa toda. Virou-se para a cara-metade e abandonou-se a um desalento profundo: “ - Eu não te disse!?, eu não te avisei que isto já devia ter ido embora, que não podia aqui ficar!?, à vista de qualquer um?, olha o que foste fazer!”

Não é fácil apanhar um Cão, mas como os coxos, com paciência também se lá chega. Com que então, Konsalik, ein Kão!?, e Steel, e Sparks e Nora Roberts e Paulo Coelho. Isto vai dar pra Cem Anos. Sem Solidão.

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Buendía Cão haveria de recordar aquela noite remota em que a cara-metade se esqueceu de esconder o gelo.”

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