05/09/06

O Sorriso Do Bogart, por Mangas

Para além da gabardina, Bogart era um tipo a quem assentava um belo fato cinzento como uma luva de pelica. E um relógio de bolso com corrente em ouro, no bolso do colete, como no Falcão de Malta. Mas, quando Bogart sorri, contrai apenas as bochechas até metade da amplitude normal. Não é um meio sorriso - é um aviso cínico que não está ali para brincadeiras porque ninguém lhe paga para fazer comédia, que a qualquer momento o céu pode chover, da mesma forma que um punho crispado pode desenculatrar um maxilar. Quem observar com atenção verá que, quando sorri, Bogart fixa o olhar de predador sem paixão e não procura mais nada, não evidencia sinais de baixar a guarda, não vai atrás de mexer em coisa alguma que não seja o lábio inferior onde habitualmente encaixa um Chesterfield. Nesse instante, fugaz como a nota surda de um piano calejado, ele olha sem pestanejar. Com alguma dose de sorte e bourbon, esse olhar mortiço e o sorriso, em conjunto, podem ser a manifestação mais exuberante do seu sincero calor humano. No final, tudo é feito em três tempos e com mortífera honestidade: primeiro as bochechas, depois o olhar não conformista e finalmente o golpe suspeito do lábio. A voz ciciada completa a ameaça. É preciso estar muito atento para não se perder nada desta linguagem corporal que se exprime movida por um código moral inabalável porque, logo a seguir, ele fecha-se de novo, vira costas e desaparece. Se pudéssemos chamar àquilo tudo alguma coisa, seria integridade.

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