29/09/06

A Terra, o Ventre e a Urna, por Falópio

Foi só em 1923 que o anatomista americano Edgar Allen estudou o processo de formação e desenvolvimento do óvulo feminino, o que o conduziria à descoberta do estrogénio. Um século antes, já Karl Ernst von Baer estudara os óvulos dos mamíferos não humanos e, desde o Renascimento, cientistas como Gabriele Fallopio, Bartolomeo Eustachi ou Andreas Vesalius, estudavam a anatomia humana, com especial atenção para os órgãos reprodutores onde procuravam iluminar com a luz da razão o mistério da vida, tornando mecânico um encantamento. Dissecavam cadáveres que roubavam dos cemitérios, justificando o pecado com a curiosidade científica, fenómeno mental que inaugura a modernidade e que tem nos estudos anatómicos de Leonardo, especialmente nos que têm como objecto o embrião humano, o manifesto mais emblemático.
Até então, e antes da descoberta do óvulo, a contribuição feminina para o processo reprodutivo era encarada como sendo um receptáculo que albergava a semente masculina e a fazia germinar. Como a terra. Geneticamente, assim como a terra nada acrescenta de constitutivo à essência da planta, também o ventre não participa na formação do novo ser que perpetua somente a natureza paterna. Como a terra se deseja fértil, porque da fertilidade depende o desenvolvimento da semente, também o ventre feminino se quer fecundo. Que a mulher seja úbere e boa parideira, tal como a terra produtiva. A mãe não detinha qualquer direito sobre as crias, tal como, pela lei sálica nos espaços onde foi adoptada, a terra não podia ser propriedade feminina. A mulher e a terra eram bens possuídos, equiparáveis em condição e, mais importante, a imagem da mulher reproduzia esta concepção agrária.
O prazer era indesejado para a mulher e a dor do parto era o justo castigo que resultava do pecado original, pelo que, naturalmente, o clítoris foi o mais desconhecido e desprestigiado órgão do corpo humano, tal como as dores do parto eram dadas como suportáveis. Além disso, conta-nos ainda Gilbert Durand, o sangue menstrual, associado à água e às marés porque ambos os fenómenos relacionáveis com as fases lunares, não sendo entendido como parte do ciclo da ovulação, era antes visto como marca de uma sujidade, de uma queda simbolizada na mulher que assim adquire um estatuto subalterno e disposto para o mal. Em suma, a imagem da mulher faz-se por associação à concepção da fertilidade da terra e sentenciada por uma moral masculina. Por isso, durante milénios, a história foi uma história de homens.
Só recentemente, a partir do século XIX, se iniciou um processo de emancipação feminina que ainda está longe de concluído. Já não falo das sociedades islâmicas, refiro-me mesmo à nossa realidade ocidental. De facto, e apesar de alguns exemplos de uma precocidade assinalável, como é o caso da Marquesa de Alorna cujo exemplo não deve ser dissociado do iluminismo racionalista, a verdade é que foi só a partir dos finais de oitocentos e nas primeiras décadas do século XX, que as mulheres se emanciparam verdadeiramente de uma opressão milenar.
O que é muito curioso, e depois de a ciência demonstrar, pela descoberta do óvulo, a influência da mulher no processo reprodutivo em plano de equidade ao homem, é como tal descoberta científica encontra no plano político-social o seu correspondente no movimento sufragista. Ou seja, à igualdade reconhecida fisiologicamente deve corresponder uma igualdade cívica. Porque, e isto é muito significativo, quando os arautos da igualdade, da Revolução Francesa aos republicanos portugueses, falavam de igualdade, eles falavam da igualdade masculina, da igualdade entre homens, desprezando ou combatendo, por razões circunstanciais, o reconhecimento da Igualdade entre os sexos. Este direito foi conquistado pelas mulheres. O que é muito interessante é que as mulheres, organizadas em movimentos mais ou menos radicais e primeiramente no mundo anglo-saxónico, elegeram como campo de batalha e de reivindicação o domínio político e do sufrágio. Reclamam um poder, um direito de participação cívica. A ranhura onde as mulheres querem introduzir o seu voto na urna das eleições é o correspondente antinómico do sulco da terra onde nos primórdios da civilização se introduzia a semente para germinar. Se este gesto definiu um estatuto de subordinação natural para a mulher, o direito de voto, como exercício de um direito político e não como um gesto de submissão à regra da natureza, faz com que o ventre feminino não seja um receptáculo natural mas um espaço de soberania da vontade, em face do qual a mulher pode hoje dizer, porventura de forma até algo hiperbolizada, o corpo é meu. Se antes o ventre era como um sulco de terra fértil, sem direitos e simples objecto de posse confinado a uma função reprodutiva, agora o seu ventre é regulado por uma vontade soberana e política, simbolizada na urna do voto e não no sulco da terra. São milénios de humilhação que se resgatam nesta exigência.


Foto: www.oxfam.org.uk

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