19/09/06

Vivam as magras, por Hardy

Agora até os espanhóis! Logo eles, que são o povo mais politicamente incorrecto que conheço… Eles que falam alto e tarde nos cafés e restaurantes, que comem de tudo o que faz mal e é proporcionalmente bom, que adoram as touradas e os touros de morte, que organizam a tomatina em Buñol numa rua onde estão comprimidas 40 mil pessoas a correrem alegremente o risco de holocausto, que se perfilam bêbedos à frente de manadas de touros em Pamplona, eles, nuestros hermanos, acabam de aderir ao fundamentalismo higienista que, pelos vistos, está condenado a vingar nesta Europa cada vez mais asséptica. Os espanhóis acabam de publicar uma lei que proíbe o desfile de manequins magricelas, parece impossível... As modelos que não tenham determinada altura e peso correspondente, pura e simplesmente, são afastadas do mercado de trabalho… Não podem trabalhar em moda.

Isto é uma discriminação laboral ilegítima de pessoas por razões estritamente físicas. Ainda por cima quando as empresas de moda e desfiles são privadas, não se entende porque raio tem o estado de meter o nariz naquilo que é risco e iniciativa privadas. Diz-se que as modelos têm a obrigação de ser exemplos de saúde para os jovens admiradores. O tanas, não têm nada. E que se forem muito magrinhas as adolescentes copiam-lhes a pinta e tornam-se anoréxicas! É de loucos… Pela mesma razão deviam expulsar das respectivas profissões, médicos gordos ou excessivamente magros, professores obesos e ministros fumadores. Porque é que só as desgraçadas das modelos é que têm que ser exemplos de (aparente) saúde?

Mas o que mais me repugna nisto tudo é a standardização implícita de um ideal de beleza subjacente à legislação. Fica definido, por decreto, que uma pessoa bela é a que cumpre requisitos mensuráveis. A legislação espanhola resolveu finalmente o maior problema da estética tradicional. Respondeu objectivamente: basta medir, basta pesar e não haverá disputas entre nós. A beleza mede-se com um metro e pesa-se numa balança. Doravante é este padrão social de beleza o único admissível com direito a deslize na passarela. Beleza = saúde.

E quem acha que a beleza tem algo de decadente, de sombrio ou de sinistro? Kate Moss nunca seria modelo nem os exemplos junkies da Calvin Klein… E as gordinhas que as há e bem boas? Também não podem desfilar? Os gordos correm risco de saúde, é sabido… Não as podemos admirar, nós que gostamos de outras belezas que não só as convencionais? Em nome do higienismo estamos a ir longe de mais. Por causa do modo como as miúdas com tendências anoxéricas interpretam as modelos magrinhas, proíbem-se as próprias. Isto não é só perigoso: é uma barbaridade. Sejam coerentes e proíbam a Bíblia: por causa das interpretações que dela fizeram morreram milhões e milhões de pessoas. Espanha caiu. Salvemos a Europa do higienismo fundamentalista. Não sei é como…

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