19/10/06

Marx e os Duendes, por Robin Wood

O marxismo, como todas as ortodoxias, tem as suas variantes, os seus subprodutos, as suas derivações, interpretações desviantes e até mesmo heterodoxias.

Não é como ideologia política que agora o marxismo me interessa, mas sim num sentido não menos ideológico, embora mais vasto, enquanto filosofia da História. O marxismo, como cientismo que é, julgou ter captado a lei e o sentido da História, tendo circunscrito esse entendimento a um enunciado racional e científico. A luta de classes e o materialismo histórico supunham a subalternização dos factores espirituais no desenvolvimento das sociedades. A religião era uma superstrutura ideológica usada como instrumento de repressão, segundo as teorizações de Louis Althusser, no sentido de manter os privilégios das classes dominantes, obstando aos ritmos de dinâmica, transformação e progresso da sociedade. Assim, por este mecanismo repressivo, se retardava o rumo e o sentido da História, mantendo privilégios de classe e reforçando a repressão.

Dentro desta concepção, o feudalismo medieval seria um estádio de transição entre o período esclavagista e o capitalismo moderno. O longo milénio de obscurantismo entre a queda do Império e a Renascença prolongou-se graças ao domínio despótico das classes senhoriais que, na defesa dos seus privilégios de classe usaram de todos os meios para retardar os ritmos do progresso e da mudança. A estaticidade medieval demonstrava quão despótica havia sido. As formas jurídicas de organização do Estado e da Sociedade, os regimes de propriedade senhorial, os mecanismos de controlo e produção cultural, as instituições e os discursos religiosos, tudo, a um nível ou a outro, de uma forma mais explícita ou subliminar, contribuía para o contrariar do sentido da História.

Georges Duby (1919–1996), apesar de haver desenvolvido os seus trabalhos entre a herança do estruturalismo e do marxismo, procurou sempre uma abordagem cultural e crítica do passado. Por isso, nunca foi um ortodoxo, nunca se limitou aos modelos de análise histórica, nem sequer renunciou à dimensão literária da produção historiográfica. O seu grande sucesso junto do grande público entende-se em relação com o trabalho de renovação historiográfica, descobrindo novas perspectivas, sempre muito enriquecedoras e fascinantes, na abordagem do passado histórico.

Partindo de uma formação marxista e de uma concepção estruturalista, Duby escreveu a mais marxista das suas obras, segundo os seus biógrafos, em 1973: Guerreiros e Camponeses. Logo o título deixa supor o que a obra analisa, isto é, as relações sociais na Idade Média de acordo com as concepções marxistas. O despotismo senhorial, ao apropriar-se do trabalho camponês, impede os ritmos da mudança e perpetua as desigualdades.

Todavia, Duby confronta-se com um problema. É que o surto de progresso e transformação nas sociedades medievais a partir dos finais do século XI, incontestável e surpreendente sob todos os ângulos de análise, mesmo na perspectiva da análise estruturalista, coincide com uma era de apogeu do poder senhorial. Isto é, a transformação observada não se compatibiliza com o interesse senhorial embora promovida pelo seu investimento. Duby atinge uma conclusão surpreendente: a circulação dos bens promovida pelos senhores feudais através de esmolas e generosas doações contribuiu de forma decisiva para o dinamismo económico, para a mudança social e para a desestruturação da sociedade medieval, sem que se possa afirmar ser essa atitude movida por um interesse material. Ou seja, não é um investimento.

Posto neste beco, Duby, na vez de torcer a realidade, como o faria um ortodoxo (aqueles por exemplo que olham para a revolução de 1383-85 como uma manifestação da luta de classes) recorre a outro prisma de análise. Encara então o despesismo nobiliárquico, não numa visão economicista, mas, seguindo pistas deixadas por outros historiadores, como uma generosidade caritativa, necessariamente exibicionista, como uma prodigalidade que contribui para a manutenção do prestígio social dos dadores. A riqueza assim posta a circular, e é este o magnífico golpe de asa de Duby, é encarada não num sentido produtivo, não como um investimento, mas como uma atitude mental. Ou seja, a análise económica do modelo marxista é preterida, ou complementada heterodoxamente, pela consideração de um factor cultural e mental. Isto abrirá rumos inteiramente novos no estudo e compreensão dos fenómenos históricos. Por exemplo, nessa altura, assiste-se a um enorme dinamismo no mundo rural. Um dos sinais desse dinamismo é o arroteamento de novas terras. Florestas são derrubadas, pântanos são drenados, encostas até então incultas são lavradas, terrenos arenosos são cultivados e a área arável aumenta consideravelmente. Logicamente, numa perspectiva estruturalista, tal se deve relacionar com o aumento demográfico que, por sua vez, resulta da melhoria material das condições de vida. Mas Duby encontra uma nova explicação, fascinante e surpreendente. A floresta é o espaço maravilhoso do mundo pagão. É onde habitam os duendes e as bruxas, os ogres e todos os seres fantásticos de uma mentalidade pagã. É o universo obscurantista prévio ao advento da Luz civilizadora do Cristianismo. Portanto «quando a floresta recua, é também o paganismo que regride» – refere o biógrafo de Georges Duby, Patrick Boucheron, que tenho vindo a seguir, concluindo: «e a conquista dos solos avança ao mesmo ritmo da cristianização da sociedade».

Desta perspectiva, a metáfora bíblica do semeador, do verbo e da terra, adquire um novo significado. A agricultura não é só uma actividade económica, adquire agora uma nova dimensão, cultural, mental e religiosa. O mosteiro medieval, não é apenas um símbolo de organização e estruturação social e religiosa, um centro de produção cultural e espiritual. O mosteiro e o convento, de Alcobaça, ou do Lorvão, de Arouca ou Santa Cruz, são autênticos colonatos, centros de difusão religiosa e espiritual, núcleos de conquista civilizacional que entendem o espaço como antro aberto à cristianização pelo arado. A agricultura é uma forma de evangelização, de submissão do mundo pagão e mágico às condições da refundação civilizacional promovida pelo Cristianismo. Trabalhar o campo é um acto cultural e civilizacional. Imaginem agora as novas possibilidades interpretativas que esta análise consente, ainda que só aqui desfolhada em termos superficiais. Quando D. Dinis planta o pinhal de Leiria, é uma natureza domesticada e saneada que ele promove, depois justamente de seu pai, Afonso III, ter concluído a reconquista do território e de haver expulsado os mouros. D. Dinis é o Lavrador, além do mais mestre na arte da palavra. E quando, por exemplo, D. Fernando promove a construção do Palácio da Pena em Sintra com aquele enquadramento paisagístico, teremos que ver nesta sensibilidade do príncipe alemão um traço que deve ser compaginado com o romantismo germânico que recupera toda a mitologia pagã de nibelungos e valquírias que tanto inspirarão, por exemplo, as ópera de Wagner, a epopeia germânica e o neopaganismo estético e ideológico do nacionalismo romântico. Da mesma maneira quando D. João V manda construir a tapada de Mafra. È uma natureza domesticada, hedonista, edénica, destinada ao prazer barroco. As expedições bandeirantes no Brasil amazónico são actos fundadores, tal como as viagens de exploração no interior da floresta africana. David Livingstone era um missionário e um desbravador, naturalmente, obviamente e não por coincidência. Tal como os jesuítas que penetraram no Brasil amazónico. Por outro lado, o regresso à floresta é sempre um gesto simbólico de exílio ou recusa da civilização e das normas sociais. Seja quando Rambo se isola na floresta e aí luta contra tudo e contra todos, seja quando Robin Wood e os seus amigos se escondem nas frondosas matas de Sherwood. E quando a mãe do Capuchinho Vermelho lhe diz para ter cuidado, para não seguir o caminho da floresta?

foto: http://www.forestserviceni.gov.uk/our_forests/forests/east%20district/Belvoir.htm

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