24/10/06

São Bagas, Senhor!, por Rainha Santa Isabel

Entre a enorme variedade de castas vínicas usadas em Portugal, há uma que se destaca pelo seu carácter indomável: falo da casta Baga, uma coisa terrível, um pesadelo para qualquer produtor, principalmente, pela sua adstringência radical. A Baga é uma casta típica da região da Bairrada. Durante muitos anos, quando a velhice dos vinhos ainda era considerada um factor de prestígio, a Baga era bem vista. Os taninos suavizavam com o tempo e, passados uns anos, valia a pena abrir uma garrafa bairradina. Ficaram famosos e ainda hoje são verdadeiras peças de culto, os tintos do Bussaco e, digo-vos eu, com inteira justiça.

Mas os vinhos não são uma excepção entre as coisas da vida. Vivemos numa sociedade apressada, que não tem tempo para deixar o vinho envelhecer serenamente. Instalou-se o culto do novo, nos vinhos como nas restantes coisas da vida. Na era da produção em série, não dá lucro produzir vinhos para envelhecerem. Agora os vinhos bebem-se novos, com um ou dois anos, feitos de castas macias, quentes, aveludadas, como os Shiraz ou os alentejanos Aragonês… Em matéria de vinhos, a pedofilia não é criminosa, muito pelo contrário.

Foi por isso que a casta Baga caiu nas ruas da amargura. Sem tempo para envelhecer as várias tentativas de produzir Bagas novos ficaram condenadas ao fracasso. Provei alguns mono varietais da casta, feitos na Bairrada, e só vos digo que aquilo era imbebível. Felizmente tiveram o bom senso de os retirar do mercado. Os produtores nunca conseguiram resolver o problema: ou se deixava envelhecer o Baga ou mais valia desistir de produzir vinhos novos com esta casta. Não fui o único a tirar esta conclusão. Os produtores Bairradinos também assim pensaram e, nos últimos anos, o Baga praticamente desapareceu da circulação. Declarada maldita, associal e indomável, a casta praticamente foi banida. Toda a Bairrada se rendeu. Toda? Não. Num pontozinho do reino, um produtor resistiu e continuou a produzir mono-varietais de casta Baga. E ainda bem que o fez.

Falo do produtor Luís Pato e, principalmente, do seu Baga 2005. Trata-se de uma ousadia e de um acto de resistência notáveis nos dias que correm. O Baga 2005 consegue o feito extraordinário – vá-se lá saber por que artes, mas eu não sou enólogo – de socializar, de domar a casta. Ainda por cima o preço, para o consumidor, é de uns incríveis 5 euros. O vinho mantém a agressividade e a adstringência típica dos Baga, mas controlada, equilibrada pelo corpo pujante. É uma óptima escolha que, imagino, se deve bater magnificamente com um prato forte. O Inverno está aí e este Baga 2005 apetece.

Com este excelente Baga 2005, resolve-se, enfim, a quadratura do círculo da Bairrada vinícola: o Baga mostra-se domável e sem precisar dos tradicionais anos de estágio. O de 2005, mais novito, uma criança, portanto, é o melhor, o de 2003 revela um estado ainda incipiente. Não sei se o produtor de uma tal maravilha, não deveria merecer o título de domador. A mim, parece-me que sim. Sempre gostei daqueles indivíduos que enfrentam leões armados com uma simples cadeira e com um chicote

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