06/12/06

Gauguin, o Paraíso e a Modernidade, por Jacinto

No dia 4 de Abril de 1891, Paul Gauguin partia de Paris com destino ao Tahiti. Esta partida tem o valor de um protesto e significa a sua renúncia às convenções clássicas, ao mesmo tempo que denuncia uma necessidade de evasão que podemos considerar inauguradora da modernidade. É esta repulsa, que supõe uma renovação, que o vanguardismo modernista perseguirá incessantemente, desde os finais de Oitocentos até à actualidade.
Este gesto radical acompanha uma reflexão crítica acerca dos rumos da civilização num ambiente decadentista finissecular esteticamente compatível com o simbolismo em que o optimismo progressista começa a esmorecer e que se tornará muito mais agudo durante o período do 1º conflito mundial. A crítica da civilização burguesa, a desconfiança relativamente ao progresso e a recusa da tradição estética são fenómenos correlacionados. O degredo voluntário de Gauguin no Pacífico é pois o manifesto de um precursor da modernidade.
No Tahiti, o pintor sente-se reconfortado: «A pouco e pouco, a civilização vai-se afastando de mim. Começo a ter pensamentos simples, a ter pouco ódio ao meu próximo – melhor ainda, a amá-lo. Tenho todas as alegrias da vida livre, animal e humana. Fujo ao fictício, penetro na natureza com a certeza de um amanhã igual ao dia de hoje, tão livre, tão belo, e a paz desce até mim; desenvolvo-me normalmente e não sinto inquietações.» A esta intimidade com a memória das origens corresponde uma reconsideração do estatuto do artista e da função primitiva da arte que se reflecte no modo como um indígena se dirige ao pintor:
«- Ei! Ó homem que faz homens (sabe que sou pintor), Haere mai tama’a (Vem comer connosco) – a fórmula da hospitalidade em Tahiti.»
A harmonia paradisíaca remete-nos para um modelo de sociedade em que as relações se pautam pela simplicidade e em que o pintor redescobre o seu estatuto primitivo. O pintor é um criador, um mágico, um demiurgo fazedor de símbolos necessários à estruturação da comunidade. O sifilítico Gauguin, o que outrora especulava e enriquecia na bolsa parisiense, o burguês que abandonou a família na Europa e que se sentia oprimido pelo bloqueamento em que vivia a pintura europeia, parecia ter reencontrado no paraíso tahitiano todos os contrapontos ao infortúnio e ao descontentamento da vida parisiense.
Este “exílio” de Gauguin é equiparável em significado à loucura de van Gogh porque ambos, pela necessidade do exotismo ou pela trágica loucura, se manifestaram inadequados ao seu tempo. Nesta medida, foram os dois precursores de uma modernidade latente, pois que a vanguarda é uma insatisfação ansiosa. Insatisfeita com o presente e, por isso, desejosa de futuro.

Paul Gauguin: Noa Noa (Viagem de Tahiti); Lisboa; Assírio & Alvim; 2003.

Imagem: Ia Orana Maria [Eu te Saúdo Maria]; óleo sobre tela, 1891; 113,7 x 87,6 cm; The Metropolitan Museum of Art; Nova Iorque.

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