02/12/06

Uma Mamada em Conimbriga, por J. Piçágoras

No último quartel do séc. I, Conimbriga viveu o seu período de máxima prosperidade. M. Júnio Latrão, ilustre filho da terra, foi eleito para um cargo importante em Mérida, capital da província. Sendo imperador Vespasiano, o primeiro dos Flávios, a orgulhosa e próspera cidade decidiu construir um novo forum, arrasando o velho do tempo de Augusto. Esta requalificação foi acompanhada de outras intervenções, projectando-se umas termas mais dignas. Porém, os elevados encargos orçamentais determinariam um atraso nas obras, e os banhos só se concluiriam no tempo de Trajano. Imaginamos o afã dos projectistas e construtores num corrupio constante para cumprirem os prazos acordados. As oficinas trabalhavam sem parar, o mestre-de-obras incitava os operários, ora aliciando-os com pagamentos extraordinários, ora ameaçando-os com severos castigos. Duácio seria um desses diligentes empreiteiros. Supomo-lo ansioso à medida que o tempo passava e a obra parecia não avançar. A cidade estava ansiosa pelo novo edifício. Os notáveis locais não terão deixado de exercer as inevitáveis pressões. Duácio insistia com os fornecedores para que apressassem as remessas, para que reforçassem a produção, que exigissem um esforço suplementar aos operários. Faziam-se tijolos a um ritmo acelerado, os estaleiros exigiam matéria-prima e os trabalhadores estavam à beira da saturação. Tamanha seria a azáfama e tão persistentes as incitações que os operários se desagradam. Duácio, o nervoso empreiteiro, está sempre presente, gesticula, ameaça, castiga, pune e insiste. Exige mais tijolos, mais rápido, mais trabalho, mais esforço, o prazo aproxima-se do fim. Duácio anda tão atarefado que pediu ao filho que o ajudasse neste derradeiro esforço. Um desgraçado e anónimo operário, saturado, exausto, insatisfeito, farto das ordens de Duácio agora sublinhadas pelo filho, impossibilitado de ripostar, temeroso e conformado, escreve: E se o teu filho te chupasse na piça?! A face argilosa do tijolo fresco acolheu o desabafo. O ilustrado trabalhador pousou-o em mais uma fieira, com a face insultuosa cuidadosamente voltada para baixo, e assim domesticou a ira. Duácio viu a obra concluída nos prazos ajustados. Quase mil e novecentos anos depois, arruinadas as termas pelo camartelo do tempo, os arqueólogos levantam a poeira do esquecimento e descobre-se o insulto: Duatius, tacim filius felat te, que o professor Jorge Alarcão traduziu por Duácio, à capucha, teu filho te faz a chucha.


Jorge de Alarcão: Conimbriga, o Chão Escutado; Círculo de Leitores; 1999.

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