26/02/06

A Menina do Capuchinho Vermelho, por Zen

Os contos de fadas têm muito que se lhe diga. Como os mitos ou as lendas, eles não valem pelo seu conteúdo literal, mas na medida em que expressam simbolicamente forças poderosas. É por isso que se tornam imortais.

Bruno Bettelheim foi um dos mais importantes psicanalistas do século passado. Nasceu em Viena em 1903 e tornou-se mundialmente conhecido pelo clássico Psicanálise dos Contos de Fadas. O Porco deixa hoje em primeira mão uma breve síntese, misturada com alguma liberdade hermenêutica, da leitura de Bettelheim da história da Menina do Capuchinho Vermelho.

Bettelheim começa por sublinhar o paralelo entre esta história e a de Hansel e Gretel, uma vez que o tema central é o mesmo: a ameaça de ser devorada. Em ambos os casos, as crianças lidam com as dificuldades e angústias que lhes são provocadas pela necessidade de desistirem do seu afeiçoamento dependente pela mãe. No caso do Capuchinho Vermelho (CV) acrescem os dilemas da rapariga em idade escolar, exposta ao perigo da sedução.

Neste conto temos dois espaços, a Casa da Mãe e a Casa da Avó. Na primeira, CV sente-se protegida pelos pais, é a criança pré-púbere sem perturbações. Mas em casa da avó que é doente e velhinha, CV está indefesa, perturbada e desprotegida perante a ameaça terrível do Lobo. Acontece que CV tem que percorrer o caminho de uma casa a outra para levar o lanchinho à avó doente. Se se mantiver no caminho correcto, explica-lhe a mãe, não há perigo. Mas se desviar está exposta aos perigos da floresta e, em particular, ao temível Lobo.

Apesar de saber que não se pode desviar, CV, sente-se dividida uma vez que reconhece a beleza da Floresta. A Floresta e as suas coisas bonitas – os pássaros, as árvores, as flores, as borboletas,– representa o Principio do Prazer que a faz desejar o que existe para lá do seu mundo protegido e confortável. Quando ela se decide a desviar-se do caminho correcto onde estava segura, segundo a indicação materna, é pois o Princípio do Prazer que vence o conflito clássico com o Princípio da Realidade. Este dilema é bem claro quando o Lobo lhe sai ao caminho e lhe diz:

«Olha como são bonitas as flores à tua roda. Porque não dás uma vista de olhos? Andas com um só propósito e uma tal concentração, como se fosses para escola, enquanto tudo o resto aqui na floresta é tão belo.»

Aqui chegados, creio que não podemos deixar de simpatizar com o Lobo que diz ao CV que a vida vale a pena, que há flores bonitas para serem colhidas na floresta. Claro, sabemos a intenção maldosa do Lobo que quer é comer – literalmente - a CV. Mas ainda assim que importa? Como dizia Nietszche «é preferível a eterna vivacidade à vida eterna». O Lobo é pois o representante do Princípio do Prazer, da sua beleza e dos perigos que lhe são inerentes.

Mas é outro o discurso da Mãe:

«Caminha com cuidado, não saias da estrada. E quando chegares a casa da avó não te esqueças de lhe dar os bons dias e não comeces a vasculhar por toda a parte»

Que chata que é a Mãe… Ela representa a ditadura do Princípio da Realidade, a negação da poesia e da beleza, mas garante a segurança de um caminho sem perigos. Enquanto ética de vida é manifestamente pobrezinho, representa o ideário pequeno burguês do funcionário zelozo das suas obrigações. Obviamente, esta gente não chega a acordar para a vida, a floresta passa-lhe ao lado.

CV, como sabemos deixa-se levar pela conversa sedutora do Lobo. As figuras matriarcais da mãe e da avó são reduzidas à sua insignificância perante o poderoso discurso do Animal que lhe fala à pulsão. CV projecta neste dilema os tradicionais conflitos Edipianos, o desejo de dependência e, ao mesmo tempo, de morte do progenitor – morte simbólica, claro.

O Macho, em contraste, é extremamente importante e a sua influência é decisiva. Nesta história ele aparece repartido por duas formas antagónicas:

- O sedutor perigoso, representado pelo Lobo, que se a vencer/convencer se tornará destruidor da integridade da própria e da avó. O sacana do Lobo, convém não esquecer, quer é comê-las e sabemos que, na sua voracidade, até a velha marcha!

- O Caçador, representação simbólica do pai responsável, forte e libertador.

Bettelheim, nota aqui, e bem, a natureza contraditória do macho com as suas tendências egoístas, associais, violentas e destruidoras (o ID representado pela força dionisíaca do Lobo) e, por outro lado, as propensões generosas, sociais e protectoras (o Ego freudiano, representado pelo apolíneo Caçador).

Outro aspecto que não passa despercebido ao psicanalista austríaco é a conotação sexual desta história. Nem é preciso falar da poderosa metáfora da alimentação, do desejo de comer do Lobo. É notório que no conto, o capuchinho tenha sido oferecido à Menina pela avó. Ele pode ser considerado um símbolo prematuro da transferência da atracção sexual (mais evidente pelo facto da avó ser velha, doente e fraca). A oferenda do capuchinho à menina é uma espécie de ritual fetichista de passagem, o correspondente dos primeiros sapatos altos da jovem, a sua entrada no mundo poderoso da sedução.

Repare-se ainda a importância da cor – vermelho, o vermelho das emoções violentas e sexuais. E sublinhe-se também a importância do diminutivo – capuchinho e não capucho, de modo a reforçar a imaturidade da menina. Ela é pequena demais para lidar com as suas energias emergentes, com as suas tendências «vermelhas». O perigo, para ela, é pois, a sua sexualidade nascente, fonte ambivalente de salvação e ameaça destrutiva. Ela luta dividida entre o sua vontade consciente de fazer o que é seu dever e o desejo inconsciente de triunfar sobre a avó-mãe.

A personalidade ambivalente e dividida de CV é bem diferente da personalidade definida da avó. O Lobo sabe-o quando devora a avozinha num ápice – come-se mas não se saboreia! Já em relação à CV, pensa ele, para consigo:

«Tu, coisinha fofa, belo pedacinho, vais saber muito melhor do que a velha: é preciso proceder com astúcia para apanhar ambas».

E, de facto, o perverso Lobo não devora CV imediatamente porque quer ir para a cama com ela antes. Esta imagem foi representada por pintores como Gustave Doré que, numa das suas ilustrações para contos de fadas, mostra a Menina e o Lobo juntos na cama. Este Lobo tem, portanto, o seu fascínio, o seu quê de atraente, ao ponto de convencer a CV a deitar-se com ele.

Bettelheim continua a sua análise até ao fim, referindo a morte do Lobo pelo Caçador, a libertação da avó que acaba a comer o lanchinho e o facto de CV ter aprendido a lição. Doravante não se deverá desviar do caminho correcto! Mas nós, que conhecemos a natureza ambígua da menina, podemos duvidar. A forma como ela se deixou encantar pelo apelo das árvores, das flores e dos pássaros, o modo como se meteu alegremente na cama com o Lobo deixam um rasto de suspeição. A menina perdeu a sua inocência quando o Lobo se revelou e a engoliu. Quando é retirada do ventre do lobo, renasce para a vida. Mas não renasce a mesma criança dependente que marchara sempre no trilho da segurança. O fascínio da floresta deve ter-lhe ficado bem vivo, embora agora ela esteja mais segura dos riscos que há nos bosques. No final desta história não é mesma do início, mas outra menina que nasce.

22/02/06

Messi no Circo de Stanford Bridge, por Gabriel

Acabei de ver na TV o melhor jogo de futebol do ano: o Chelsea-Barcelona. Foi um jogo com moral, com um happy end e nós sabemos que no futebol isso nem sempre acontece. De um lado os «artistas» - o Barça de Ronaldinho, de Deco, de Etoo, de Edmilson e do fantástico menino prodígio de apenas 19 anos, Leo Messi, o melhor futebolista argentino que vi jogar depois de Maradona. No banco um treinador sereno, que arma a equipa para jogar futebol e para dar espectáculo: Frank Rijjkard.

Do outro, onze blocos graníticos, grandes, imensos, fortes, ferozes, caceteiros, todos lá atrás e a correrem que nem desalmados. No banco um dos maiores teóricos de todos os tempos do futebol anti-jogo, do futebol manhoso, da arrogância, da má educação: mourinho, um admirador confesso, imagine-se, do «inteligente» futebol italiano…

O barça dominou o jogo por completo, aquilo chegou a parecer tauromaquia com os bandarilheiros Messi e Ronaldinho a pararem, a ajoelharem, a gozarem e os os miuras do Chelsea com medo de meterem o pé, não fossem ficar sentados, como aconteceu frequentemente.

O Chelsea chegou a estar a ganhar, o que seria mais uma injustiça daquelas em que o futebol é fértil. Felizmente a classe do Barça veio ao de cima e os blocos de granito azuis acabaram bandarilhados, com dois golos no pelo e o público catalão a gritar Olés em Stanford Bridge. Um mimo!

Agora esperemos pela segunda mão em Camp Nou com mais uma certeza: estamos perante mais um capítulo do mesmo jogo eterno entre as duas velhas escolas do futebol. Os representantes do futebol espectáculo, o grupo de artistas que joga a bola com o prazer dos putos de rua e o futebol eficácia feito por onze pedras de granito, disciplinadas e compactas que estão ali como estavam os guardas SS em Awschwitz: para foder os outros! É desnecessário dizer por quem é que eu torço: i love this game, ou melhor, me gusta este juego!

P.S. O Tapornumporco pede desde já desculpa antecipada por algum erro gramatical cometido no original espanhol.

Foge Cão Que Te Fazem Barão!, por Zé das Medalhas

Há tempos e a propósito do filme “Life Aquatic” que goza com o facto, já se cascou aqui no Presidente Jorge Sampaio e na sua tara-fetish da outorga de medalhas. Desde esse post de há poucos meses, houve já mais umas centenas de medalhados, comendas, liberdades e méritos, desde o pessoal da sua própria casa civil ao Bill Gatas.

Mas porra, agora também é demais. Já há um novo presidente eleito e o Lampadinha devia ter algum decoro. Há dias registava um jornal, que desde que o Cabaco dos Cocos e da Bibenda Mariano foi eleito, o Cabeça de Cenoura já atribuiu 60 medalhas e comendas e tem ainda marcadas para atribuir até sair, mais 30 medalhões de agraciamento, mérito e altos serviços prestados à pátria.

No meio destes últimos 90 comendadores (até ver), o homem resolveu de uma assentada condecorar quase todos os estilistas do jet-set, desde a Fátima Lopes ao Antónius e não se esqueceu de passar pelo faduncho, onde até fadista do Sporting, um tal de João Braga recebe comenda e agraciamento por altos serviços prestados a Portugal. Sobre o mérito de comendas como esta Fátima Lopes e o João Braga, eu já nem digo mais nada. Era só para que se saiba e se aquilate bem deste animal que se despede.

Ao fim de tantas condecorações o homem deve estar a sentir alguma dificuldade em arranjar mais pessoas que tenham peito para mais medalhas. Proponho assim, que se dê uma ajuda ao artista. Eu pessoalmente acho que se devia ainda condecorar o Emplastro pela presença televisiva, o gajo do ski de carpete por ter conseguido chegar ao fim, o Valentim outra vez por se deixar acusar sem fugir, a Fatinha de Felgueiras por ter voltado pra cá, o Padre Frederico por ter ido pra lá, o Silvino da Casa Pia pelas viagens de estudo a Elvas, o Menezes porque sim e o pai do Cavaco porque teve a primeira gasolineira de Boliqueime e era amigo do seu amigo e da alfarroba. E já agora os médicos e enfermeiros da Clínica dos Arcos de Badajoz que ainda são os únicos que vão dando um jeito na gente deste país.

21/02/06

I Love Mozart!, por Melo Mano

Este ano estou de parabéns! Acontece que adoro Mozart, sempre adorei Mozart, tenho mais discos dele que dos próprios Rolling Stones (para quem me conhece isto deve parecer incrível mas é a realidade!). É verdade que raramente ouço Mozart quando estou acompanhado, mas é, talvez, o compositor que mais ouço quando estou sózinho. E como estou sempre a ouvir música quando estou sózinho…

Agora é uma alegria para uma pessoa como eu porque há muitos programas sobre o Génio na rádio e na TV, artigos de jornais e de revistas e reeedições a preços razoáveis das sua obra ( e há muito para fazer nesta matéria: a produção mozartiana dá para cerca de 700 cds. O homem fez mais música num ano do que os Beatles em toda a sua carreira).

Aqui há uns tempos atrás um canal da tv cabo passou 24 horas de música do compositor: foi um fartote! Vi o Don Giovanni emocionado e delirei, mais uma vez, com a cena final da descida do Fidalgo Espanhol ao Infernos. Também chovem artigos interessantes de todos os lados e até o Amadeus, o filme seminal de Milos Forman, passou outra vez para que eu o revisse pela centésima vez. Parece que, segundo a historiografia recente, aquele Mozart nunca existiu: embora sendo um génio, Mozart trabalhava arduamente e também não parece ser verdade que tenha morrido na miséria…

Não sei porque é que adoro tanto a música de Mozart. Gosto das obras sou fanático por todas as que conheço, a Flauta Mágica acima das outras, o Don Giovanni, as Bodas de Fígaro. Sou um ouvinte compulsivo do Requiem, das missas, dos concertos para piano e orquestra, da sinfonia Júpiter, sei lá, gosto de tudo, prontos… Acho que é pela amplitude de emoções que ele consegue criar.Tanto é capaz de compor melodias tão suaves e comoventes, como faz descargas de energia poderosas como ouvimos no Requiem ou em Don Giovanni. É incrível, é como se fosse um pintor ao mesmo tempo expressionista e impressionista e surrealista e classicista e romântico e gótico e o contrário disso tudo... Não há rótulos que o definam , chamar-lhe «clássico» pouco diz no seu caso. É por isso que ele é o maior génio da história. A sua música tanto toca o sapateiro como o erudito, a criança como o adulto, o fascista como o comunista. Mas acho que nunca ninguém soube exprimir tão bem o fascínio que há na música como o pianista português, António Rosado – também ele, tal como Mozart, salvaguardadas as distâncias, um menino prodígio que já tocava piano aos 4 anos. Dizia Rosado, cito de memória:

«A música de Mozart é complexa e ao mesmo tempo tem a inocência de uma criança. À medida que vamos crescendo vamos estando cada vez mais longe dela. Nunca toquei Mozart tão bem como em criança. Agora é-me muito mais difícil chegar lá.»

E é isso que eu também sinto naquela música divina: que nela permanece a simplicidade de uma criança – apesar da sua sofisticação – e que ouvi-la é como que assimilar um pouco dessa pureza. Se Mozart fose vivo convidava-o para uma janta do Tapor!

20/02/06

O Poder Da Internet, por Passerelle 6

O princípio base da penalização volta a ser o da humilhação. Aquilo que durante séculos se andou a lutar para retirar da penalização do poder de imperium do estado, começa agora a voltar e em força. Já não basta o prevaricador da regra social ser multado ou privado da liberdade, agora começa a impor-se de novo, que além do mais o indivíduo deve ser humilhado perante os seus pares.

Nos Estados Unidos da América, um crime menor como o “ir às putas” tem passado a ser punido com a humilhação pública. Além da multa claro, que se o estado pode abdicar da privação da liberdade que lhe custa dinheiro, nunca abdica do dinheirinho que lhe rende a multa.

Um putanheiro, apanhado com a boca na botija leva assim com as fuças nas televisões locais, nos jornais, nos editais e mesmo na Internet worlwide.

Quando se julgava que a Internet seria das tecnologias que mais contribuiria para o avanço cultural e civilizacional da humanidade, eis mais uma gritante exploração das suas perversões. As fuças dos putanheiros americanos passaram até a ter um site nacional, que agora está em venda, o www.HookersAndJohns.com. Após o fecho deste, vários outros abriram em regra páginas dos sites de policia local. Não tardará muito que as páginas de policia sejam das mais procuradas para ver qual o vizinho ou conhecido que foi apanhado nas putas, com álcool ou a bater no cão.

Ainda irão descobrir a maneira do nosso email ou nick de conversação vir a ostentar ao peito, digo ao canto direito, uma qualquer letra escarlate de puta depravada, negro nojento ou judeu assassino de cristo.

18/02/06

17/02/06

Paranoia, por Mangas

Amesterdan encarou a escada de mogno muito polida com passos incertos que abandonavam os sons ecoados pelo convés. À medida que se aproximava, o swing de Joe Jackson ficava para trás distanciando-se na aparente intranquilidade do oceano. Jumping`Jive e Five Guys Named Moe, embalaram-lhe o espírito na espuma acima da brisa e das nuvens. Quando o seu pai tinha a sua idade, o jazz não era respeitável. Tocava-se em casas de putas e não no Carnegie Hall, dizia-lhe. Toda a gente que o tocava, queria era apreciar pelo gozo do ritmo e apanhar o riff certo no momento certo. Amesterdan despediu-se de terra e regressou ao pacto silencioso com os seus fantasmas.

Três antenas. Três luzes vermelhas no céu enfurecido. Três pontos que piscam para assinalar a altura das antenas aos Spitfire que por lá passam. Ontem à noite, por esta hora, só lá estavam dois. Duas antenas. Duas luzes vermelhas. Aconteceu algo entretanto. Só tu sabes, só tu testemunhaste a mudança no cenário. Bem que eles querem enganar-te, mas não conseguem.

Tripoli, pressentiu os passos do seu velho amigo e Capitão, levantou-se de imediato e encontrou uma posição de aprumo vertical. A farda impecavelmente alinhada ao tronco, o brilho dos sapatos, deu uma vista de olhos periférica para os galões dourados, corrigiu a simetria da pala do boné fechando e mirando alternadamente com o olho esquerdo e depois o direito. Executou o protocolo da saudação e baixou a continência quando Amsterdan retribuiu à sua frente, fixando-o a meio da testa, durante breves segundos.

Tem calma. Mantém-te lúcido, tens algum tempo antes que eles larguem as bombas. E o mais certo é eles mandarem alguns suicidas treinados pelas SS para te apanharem!

Tripoli vacilou quando o encarou de frente. Abraçou-o e naquele instante sentiu um corpo mais estático do que embaraçado perante a aproximação espontânea. Sentaram-se frente a frente, brindaram com uísque aos bons velhos tempos da Academia. Amesterdan contou como perdera o olho direito e ficara com metade do rosto carbonizado durante um ataque dos Messerschmitt a Londres quando estava de licença.

Sobretudo, nada de manobras em falso, nem derrapagens. Economiza o esforço porque vais precisar dele mais tarde. Elimina tudo o que não te fizer falta, tudo que não puder ser arremessado contra eles. Verifica o portão, certifica-te que não entram por lá sem que te apercebas dos teus passos. Apaga as luzes. Acende um vela junto ao assoalhado, na direcção oposta da janela. Fixa uma lanterna à volta da testa com adesivo ou um elástico forte para te orientares na escuridão. Raciocina.

O Imediato de serviço anunciou Churchill. Abarcava-lhe o tronco um imenso kimono verde azeitona com um dragão vermelho estampado nas costas. Gruniu-lhes um à vontade!, e serviu-se do uísque também enquanto Tripoli lhe entregava um cinzeiro para o seu meio charuto. A vida de um Capitão de navio prende-se com o dever solene, disse Churchill. Comandar batalhas e negociar a paz com inimigos implacáveis, sempre que a ocasião o indicar ser melhor para os nossos homens, acrescentou. Representar a pátria com os olhos bem abertos, fez questão de enfatizar. Que o faquir do Ghandi também se armou em esperto, pensava o país que tudo não passava de um sonho, de uma quimera indiana, e depois foi preciso acordá-lo!, concluiu de estocada. Entregou a Tripoli um envelope selado com instruções precisas de rota, manobra e alvo. A Amesterdan agrafou uma medalha ao peito sem aliviar a cinza no charuto entre beiços. Despediu-se com um abraço a ambos e, na velha tradição marítima, desejou a ambos horizontes límpidos. Um silêncio perdurou na sala após a sua saída.

Não interessa como chegaste até aqui ou porque tens todas as saídas cortadas. Nem que alternativas se te apresentaram antes de te terem empurrado para esta batalha. Podes dizer a toda a gente que eles te tramaram e não te deram hipóteses de fugir, mas sabes bem que, fizesses tu o que fizesses, estarias sempre lixado. Querem lá eles saber se foste apanhado em território inimigo entre fogo cruzado...! O que eles procuram é apanhar-te, vivo ou morto! O que eles procuram é cumprir uma missão, terminar o que começaram o mais depressa possível, e de uma forma categórica para que o mundo saiba o que te fizeram. O seu prémio é a tua pele. Por isso, azar o teu se o alvo és tu e estás sozinho. Não peças auxílio, não te vale de nada. E manda a família para bem longe antes que seja tarde demais. Estás só, entregue a ti próprio. Dava-te era jeito que aparecesse por aí o Capitão América, mas como já não tens idade para acreditar em heróis de banda desenhada, desenrasca-te!

Tripoli retirou de uma gaveta alguns discos de jazz que ofereceu a Amesterdan.

Barricar as portas com os móveis. Trancar as janelas. Cartuchos nos bolsos. Podem tentar pela chaminé. Não podes acender a lareira porque denunciaria a tua presença. A solução é cobrir o telhado pelo acesso ao sótão o que significa fazer curtas e rápidas viagens entre as escadas e o local onde te encontras e do qual tens um maior raio de observação para a estrada, para o céu, para o mar, para todo o lado! Precisas de café. A noite vai ser longa e não podes adormecer. Continuam lá os três pontos vermelhos no céu. Ontem eram dois, mas tu estás pronto. Estás encurralado e daqui já não sais, mas eles também por aqui não entram. Vêm por ti e eu tens de estar preparado.

Amesterdan olhou os discos que segurava com as mãos, olhou-se ao espelho no lado oposto da cabine, pensou no envelope pousado sobre a secretária ainda por abrir, e não conseguiu emitir uma única palavra. Tripoli sorriu-lhe, como quando lhe sorria durante os exercícios com fogo real na Academia. Antes de se despedirem, Amesterdan ainda balbuciou entre dentes:

- Se danças com o diabo, o diabo não muda. Quem muda és tu.

War II, por Acid Queen

Como o pessoal parece ter gostado do artigo do Eco citado no post anterior, aí vai a parte que falta. Para quem acabou de chegar, é favor começar por ler o post anterior. Aí vai Eco:

«Naturalmente, todas estas reflexões poderiam ser feitas, do outro lado da barricada, por um muçulmano sensato. A frente fundamentalista não seria imediatamente vencedora, uma série de guerras civis ensanguentariam os seus países culminando em horríveis massacres, também caíriam sobre eles contragolpes económicos, teriam menos comida e ainda menos medicamentos dos poucos que têm actualmente, morreriam como moscas. Porém, se partirmos do ponto de vista de um choque frontal, não devemos preocuparmo-nos com os problemas deles, mas com os nossos.

Voltando, pois, ao Oeste, criar-se-iam dentro das nossas fileiras grupos filoislâmicos, não pela fé, mas por oposição à guerra, novas seitas que negariam optar pelo Ocidente, seguidores de Gandhi que se sentariam de braços cruzados e recusariam colaborar com os seus governos, fanáticos como os de Waco que começariam (sem serem fundamentalistas muçulmanos) a desencadear o terror para purificar o Ocidente corrupto. Mas não é imprescindível pensar só nestas minorias. Estou a pensar na maioria.

Aceitariam todos a redução de energia eléctrica, sem poder recorrer sequer às lâmpadas de petróleo? O obscurantismo fatal dos meios de comunicação e não mais de uma hora de televisão por dia? Andar de bicicleta em vez de automóvel? Cinemas e discotecas encerrados, fazer bicha no McDonald's para ter a ração diária de uma fatia de pão de sêmea com uma folha de alface? Resumindo,o fim de uma economia próspera e de esbanjamento? Imaginemos o que importa a um afegão ou a um palestiniano viver em economia de guerra, para eles nada mudaria.

E para nós? Que crise de depressão e desmotivação colectiva enfrentaríamos? Estaríamos dispostos a aceitar o apelo de um novo Churchill que nos prometeria sangue e lágrimas? Se nós italianos, depois de 20 anos de propaganda fascista sobre a nossa missão civilizadora, a certa altura estávamos encantados por perder a guerra desde que cessassem os bombardeamentos! É certo que esperávamos em troca a chegada dos norte-americanos bons com as suas rações, enquanto que agora esperaríamos os serracenos maus que matariam os padres e os frades e poriam um véu nas nossas mulheres, mas estaríamos tão motivados de forma a não aceitar qualquer sacrifício?

Não se formariam nas ruas da Europa cortejos de oradores esperando desesperados e passivos o Apocalipse? Temos admirado a resistência e a energia patriótica dos norte-americanos depois da tragédia de 11 de Setembro, porém, apesar de toda a indignação e solidariedade que sentem, continuam a ter o seu bife do lombo, o seu automóvel e, quem se atreva, as suas linhas aéreas.

E se a crise do petróleo provocasse um apagão, a falta de Coca Cola e do Big Mac, a visão dos supermercados desertos com apenas uma lata de tomate ali e uma bandeja de carne com o prazo de validade caducado aqui, como vimos em alguns países do leste europeu em momentos de máxima crise? Até que ponto continuariam a identificar-se com o Ocidente os negros do Harlem, os deserdados do Bronx, os chicanos da Califórnia, os caldeus do Ohio (sim, existem, eu vi-os, com os seus vestidos e os seus rituais)?

O Ocidente (e os EUA mais que ninguém) fundaram a sua força e a sua prosperidade acolhendo em sua casa gente de qualquer raça e cor. Em caso de confronto frontal, será que aguentariam esta fusão?

E, por último, que fariam os países latino-americanos, onde muitos, sem serem muçulmanos, criaram sentimentos de rancor em relação aos gringos, ao ponto de, mesmo depois da queda das torres, haver quem sussurre que eles estavam a pedi-las?

Resumindo, a guerra E/O poderia muito bem mostrar um Islão menos monolítico do que se pensa, mas logo veria uma cristandade fragmentada e neurótica, onde pouquíssimos se apresentariam como candidatos a novos templários, ou seja, os "kamikaze" do Ocidente.

Eu não estou a inventar estes cenários de ficção científica. Há 30 anos, embora sem prever uma guerra total, mas apenas um apagão acidental, Roberto Vacca idealizou cenários apocalípticos como estes na sua obra "Medioevo prossimo futuro".

Repito: tracei um cenário de ficção científica e, naturalmente, espero, como todos, que não se torne realidade. Mas fi-lo para dizer o que, raciocinando com lógica, poderia ocorrer se estalasse uma guerra E/O. Todos os incidentes que previ derivam da globalização e, saliento, os interesses e exigências das forças em conflito estariam estreitamente entrelaçados, como já estão, numa meada que não se pode dobar sem destruir.

O que significa que, na era da globalização, uma guerra global é impossível, isto é, levaria à derrota de todos.»
Extracto do artigo de Umberto Eco, Cenários da Guerra entre Civilizações

16/02/06

WAR!, por Acid Queen

Umberto Eco é um dos mais geniais escritores e ensaístas contemporâneos. Vale sempre a pena ler as palavras do mestre, mas agora que está tudo em polvorosa por causa do conflito de civilizações, voltei a um texto dele que queria partilhar com a malta daqui do Porco. Parece-me profético, foi escrito na altura do atentado às torres e ganha agora actualidade. Não é nada doutrinário, apenas imagina cenários de guerra - um exercício de ficção científica, como ele diz - no caso da previsão do Huntington do Choque das Civilizações se concretizar. Por agora deixo-vos apenas parte do artigo de Eco intitulado Cenários da Guerra entre Civilizações . Se queiserem saber mais e discutidas as pistas que ele lança aqui, voltarei a deixar-vos o resto do artigo. Aí vai Eco:«(...)Voltemos, pois, a delinear o choque frontal; ou seja, a guerra E/O. Em que se diferencia este choque dos confrontos do passado? No tempo das cruzadas, o potencial bélico dos muçulmanos não diferia muito do dos cristãos: espadas e máquinas de assédio estavam à disposição de ambos. Hoje, o Ocidente tem vantagem em relação à tecnologia de guerra.

É verdade que, nas mãos dos fundamentalistas, o Paquistão poderia usar a bomba atómica, mas quanto muito conseguiria arrasar, por exemplo, Paris e imediatamente as suas reservas nucleares seriam destruídas. Se um avião norte-americano caísse, construiriam outro: se caísse um avião sírio, teriam dificuldades de comprar outro ao Ocidente.

O Este arrasa Paris e o Oeste lança uma bomba atómica sobre Meca. O Este difunde o botulismo por correio e o Oeste envenena todo o deserto da Arábia, como se faz com os pesticidas nos imensos campos do Midwest, e até os camelos morrem. Estupendo. Também não duraria assim tanto, quando muito um ano; depois, todos continuariam com as pedras, mas eles sairiam a perder.

Com uma ressalva: há outra diferença em relação ao passado. No tempo das cruzadas, os cristãos não necessitavam do ferro dos árabes para fazer as espadas, nem os muçulmanos do ferro dos cristãos. Agora, pelo contrário, até a nossa tecnologia mais avançada vive do petróleo, e quem tem o petróleo são eles, pelo menos a maior parte. Eles sozinhos, sobretudo se lhes bombardeiam os poços, não o podem extrair; mas nós ficamos sem ele. A não ser que se lancem de pára-quedas milhões de soldados ocidentais para conquistar e vigiar todos os poços, mas nessa altura seriam eles que os fariam ir pelos ares, e além disso uma guerra terrestre, nesses países, não é tão fácil.

O Ocidente teria, portanto, de restruturar toda a sua tecnologia para eliminar o petróleo. E visto que até hoje não conseguiu fazer um automóvel eléctrico que ande a mais de 80 quilómetros por hora e que leva uma noite inteira a recarregar, não sei quanto tempo demoraria este reconversão. Mesmo sem contar com a vulnerabilidade das novas centrais, seria preciso muito tempo para propulsar os aviões e os tanques, e fazer com que as nossas centrais eléctricas funcionassem com energia atómica. Além disso, teria de se ver se as Sete Irmãs estariam de acordo. Não me espantaria que as empresas petrolíferas ocidentais estivessem dispostas a aceitar um mundo islamizado desde que continuassem a obter lucros.

Isto não termina aqui. Nos bons velhos tempos, os sarracenos estavam de um lado, para além mar, e os cristãos de outro. Se durante as cruzadas, os árabes (quem sabe disfarçados) tentassem erigir uma mesquita em Roma, seriam degolados e não voltariam a tentar. Hoje, em contrapartida, a Europa está cheia de muçulmanos que falam os nossos idiomas e estudam nas nossas escolas. Se já hoje alguns deles se aliam aos fundamentalistas do seu país, imaginemos o que aconteceria se tivéssemos uma guerra E/O. Seria a primeira guerra com um inimigo albergado em nossa casa e assistido pela segurança social.

Mas, atenção, o mesmo problema colocar-se-ia no mundo islâmico, que tem em sua casa indústrias ocidentais e, inclusivamente, enclaves cristãos como a Etiópia. Como o inimigo é mau por definição, damos por perdidos todos os cristãos do outro lado do mar. Guerra é guerra. Eles são desde o princípio carne para canhão. Haveremos de os canonizar a todos, mais tarde, na Praça de São Pedro.

E o que faremos no nosso país? Se o conflito se radicaliza mais do que o devido, e caírem outros dois arranha-céus, ou mesmo São Pedro, termos uma caça ao muçulmano. Uma espécie de noite de São Bartolomeu ou de Vésperas Sicilianas: apanha-se qualquer um que tenha bigode e uma pele não excessivamente branca e degola-se. Trata-se de matar milhões de pessoas, contudo a multidão ocupar-se-á disso sem necessidade de molestar as forças armadas. Naturalmente, teria de se ver se também se degolaria um árabe cristão, ou um siciliano que não tenha olhos azuis de normando, mas somos tão politicamente correctos que no bilhete de identidade não figura se somos cristãos ou muçulmanos e, além disso, há que desconfiar também dos europeus ruivos que se tornaram infiéis.
Como já se disse na guerra contra os albigenses, de momento matamo-los a todos, e depois Deus reconhecerá os seus. Por outro lado, não nos podemos arriscar a fazer uma guerra planetária e permitir que fique em nossa casa um único fundamentalista, que depois pode vir a actuar como "kamikaze".

Poderia prevalecer a voz da razão. Não degolamos ninguém. Mas até os norte-americanos, tão liberais, no princípio da II Guerra Mundial recolheram em campos de concentração, embora com muita humanidade, todos os japoneses que tinham em casa, embora eles tivessem nascido ali. Portanto (e sempre sem fiar fino), localizamos todos os muçulmanos possíveis - e se, por exemplo, forem etíopes cristãos, o que faremos com eles, Deus reconhecerá os seus - e pomo-los em algum sítio. Onde? Com a quantidade de extracomunitários que andam pela Europa, para construir campos de prisioneiros seria necessário um espaço, organização, vigilância, comida e cuidados médicos insustentáveis, sem contar que esses campos seriam bombas que rebentariam com o simples facto de juntar uns milhares, e que não se podem fazer campos para grupos de quatro.

Ou, se não, apanhamo-los a todos (não é nada fácil - mas ai de nós se ficar um único que seja! - e há que fazê-lo depressa, de uma só vez), carregamo-los a bordo de uma frota de barcos mercantes e descarregamo-los... Onde? Dizemos: "Perdão, senhor Kadhafi; perdão, senhor Hussein, não se importaria de ficar com este carregamento de três milhões de turcos que estamos a tentar expulsar da Alemanha?" A única solução seria a dos traficantes de imigrantes: atirá-los ao mar. Milhões de cadáveres flutuando no Mediterrâneo. Gostaria de ver que governo se atreveria a fazê-lo, seria muito pior que os desaparecidos, até Hitler massacrava a pouco e pouco e às escondidas.

Como alternativa, visto que somos bons, deixamo-los tranquilos em casa, mas atrás de cada um pomos um agente policial a vigiá-lo. E onde encontramos tantos agentes? Recrutamo-los entre os extracomunitários. E se acontece como nos Estados Unidos, onde as companhias aéreas, para poupar, deixavam que os imigrantes do terceiro mundo fizessem o controlo nos aeroportos e, depois, achavam que eles não eram de fiar? »
Extracto de Umberto Eco, Cenários da Guerra entre Civilizações

15/02/06

Salman, O Escriba & Mahound, O Profeta, por Gamba

“(…) No oásis de Yathrib os adeptos da nova fé da Submissão viram-se sem terras e, por conseguinte, pobres. Durante muitos anos financiaram-se através de actos de banditismo, atacando as ricas caravanas a caminho, ou de regresso, de Jahilia. Mahound não tinha tempo a perder com escrúpulos, disse Salman a Baal, nem problemas de fins e meios.

Os fiéis viviam à margem da lei, mas fora nesses mesmos anos que Mahound – ou dever-se-ia dizer o Arcanjo Gibreel? – ou Al-Lah? – andara obcecado pela lei. Entre as palmeiras do oásis Gibreel aparecia ao Profeta e punha-se a despejar regras, regras, regras, até os fiéis só terem vontade de dizer que já chegava de revelações, disse Salman, regras para tudo e mais alguma coisa, se um homem se peida deve voltar o rosto para o lado do vento, e havia também uma regra sobre a mão a utilizar para limpar o rabo.

Era como se nenhum aspecto da existência humana pudesse ser deixado ao acaso, livre. A revelação – a Recitação – dizia aos fiéis quanto haviam de comer, com que profundidade haviam de dormir, que posições sexuais tinham recebido sanção divina, de forma que todos ficaram a saber que a sodomia e a posição de missionários eram aprovadas pelo arcanjo, enquanto as figuras proibidas incluíam todas aquelas em que a fêmea ficasse por cima. Gibreel fez ainda uma lista dos temas autorizados e interditos de conversa, e assinalou as partes do corpo que não podiam ser coçadas por muito insuportável que fosse a comichão que aí se sentisse. Vetou o consumo de gambas, essas bizarras criaturas de outro mundo que nenhum dos fiéis conhecia.
(…)
E no fim da guerra, abracadabra, lá estava o Arcanjo Gibreel a dar instruções aos varões sobreviventes para casarem com as viúvas, por forma a evitar que elas, ao casarem com alguém exterior à fé, ficassem perdidas para a Submissão. Oh, que anjo tão prático, escarneceu Salman no quarto de Baal.
(…)
Oh, aquelas revelações prosaicas, exclamava Salman, até nos foi dito que não fazia mal já sermos casados, podíamos casar atém quatro vezes se tivéssemos dinheiro para isso, bom, como imaginas, os homens ficaram todos contentes com a ideia.
(…)
Só que em Yathrib as coisas não lhe saíram logo como ele quis. Aquelas mulheres de lá puseram-lhe a barba quase branca em menos de um ano. O problema do nosso Profeta, meu caro Baal, é que não gosta de ouvir as mulheres dele responderem-lhe à letra, tanto as mães como as filhas;
(…)
Bom as nossas raparigas já começavam a aderir a esse tipo de coisas, a meter na cabeça sabe-se lá que ideias, por isso, pimba, lá veio o livro dos regulamentos, o anjo desatou a despejar regras acerca do que as mulheres não podiam fazer, começou a empurrá-las de volta para as atitudes dóceis que o Profeta prefere, dóceis ou maternais, caminhando três passos atrás do marido ou ficando em casa sentadas a dar à língua.
(…)
O caso mudaria de figura, queixou-se Salman a Baal, se Mahound tomasse as suas posições depois de receber a revelação de Gibreel; mas não, ele ditava a lei e o anjo vinha a seguir confirmá-la; por isso aquilo começou-me a cheirar mal, e eu pensei: deve ser o odor desses lendários e famosos seres impuros, como é que se chamam, as gambas.”



(excerto salteado de “Os Versículos Satânicos” de Salman Rushdie – na foto: a verdadeira visão do inferno!)

14/02/06

O Islão, esse Conhecido, por Burro Anónimo

Quem gosta de certezas fixa-se no horizonte limitado do presente. Quando recorre ao passado é de modo interesseiro. Quando não interessa, planta o esquecimento, banaliza a História. O estudo do passado leva à relativização das nossas certezas, tomamos a linha em vez do ponto. Por isso, o desprezo pela História é tão típico das sociedades do esquecimento. Estamos a um passo da discricionaridade, da subjectivação total do mundo social, cada um diz o que lhe apetece e tudo é válido.
Vem o prolegómeno a propósito de um dito e redito, aqui na acesa polémica do Tapor a propósito do Islão e dos cartoons, segundo o qual nós dispensamos a atenção e o estudo necessários ao nosso passado islâmico. Bastar-me-ia a imagem colocada como ilustração ao post para negar, definitiva e categoricamente, este disparate. Contextualizemos: Em 2001, na sequência do enorme êxito da edição da «História de Portugal» dirigida pelo prof. José Mattoso, o Círculo de Leitores decidiu prosseguir com um plano editorial contemplando uma série de publicações e colecções de temática histórica. Encomendou a redacção e direcção dos trabalhos aos mais proeminentes académicos que publicaram obras de referência nos mais diversos domínios: da história militar à história da arte, a expansão portuguesa, a história da história em Portugal, a história dos municípios e do poder local. Académicos de primeiro plano como César de Oliveira, Paulo Pereira, Reis Torgal, entre outros, editaram obras incontornáveis para a historiografia portuguesa contemporânea. Não estamos pois a falar de uma edição qualquer, nem de uns quaisquer autores, nem de uma editora de vão de escada. Ora, foi neste contexto que o Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, uma das melhores e mais prestigiadas instituições nacionais de ensino superior, sob a direcção de Carlos Moreira de Azevedo, coordenou a publicação de um «Dicionário de História Religiosa de Portugal». São quatro grossos volumes, com mais de 500 páginas cada um, em bom papel, ilustrados e encapados. E é nesta obra que em meia dúzia de linhas se despacha uma entrada sobre o islamismo. Não, não é um assunto menor. O Islão chegou aqui em 711 e só foram expulsos nos finais do séc. XV. Isto é negligência, não estamos a falar de um tema qualquer. Não é possível fazer uma história religiosa de coisa nenhuma, muito menos na Península Ibérica, sem um extensíssimo artigo sobre o Islão. E por fim, espero que sem ironia, remete-se o leitor para o artigo sobre as cruzadas. Faltaria acrescentar: e é se quer!
Dir-me-ão que é um caso isolado. Não, não é. Não só se repete, como é sintomático. A História de Portugal dirigida por João Medina, em 20 volumes de cerca de 500 páginas cada (cerca de 10 000 páginas) reserva 85 para a ocupação islâmica! 0, 85% ! Os estudos islâmicos são desprezados em Portugal. Contam-se pelos dedos de uma mão os académicos que se dedicam ao estudo da realidade cultural do Islão, e sobram dedos. Basicamente quatro: António Dias Farinha, Helena Catarino, Santiago Macias e Claudio Torres. Menção ainda para David Lopes, já falecido, e para o clássico de Borges Coelho, «Portugal na Espanha Árabe». Fora isto, um deserto!
No entanto, convinha que conhecêssemos a pujança cultural da antiga Silves, Mértola ou Lisboa. Nomes como o do poeta Abu-l Walid al-Baji são menos conhecidos do que o Geraldo Geraldes o Sem Pavor, ou qualquer arranca-cabeças da Reconquista. Abu Muhammad Abd Allah ibn Muhammad ibn al-Sid al - Batalyawsi (nome esquisito), autor de um «Livro dos Círculos», considerado uma obra prima e que Borges Coelho considera um dos maiores pensadores que nasceu no solo que hoje é português. A sua teologia e argumentação é, segundo os entendidos, semelhante à de S. Tomás de Aquino. Afonso Henriques nem sabia ler e só a custo assinava o próprio nome. Porém, a poesia islâmica não consta de nenhuma selecta de leitura, mas poetas como, dizem os especialistas que eu também sou ignorante, Ibn Ammar, Ibn Abdun, Al- Abdari, ou tantos outros, estão banidos da história e da memória. Porém, não fossem eles, e outros como eles, mais de metade do legado grego estaria perdido. Foram as escolas de tradução da Península Ibérica que traduziram do grego clássico os textos dos autores helénicos. Não fora isso, essa abertura cultural que o Islão teve, e o Ocidente teria perdido as suas referências matriciais.
Resta dizer que não sou um adepto do Islão. Orgulho-me da cultura europeia. Não tenho medo de proclamar a superiridade civilizacional do Ocidente que assenta no princípio da universalidade: da fé, da razão e do direito. Porém, deve dizer-se que esta superioridade não radica noutro sítio senão aqui: a nossa abertura cultural, a capacidade de entender o outro e integrar os contributos alheios. Todos os grandes vultos da cultura ocidental são grandes porque contribuiram para a concepção de uma ideia universalista: a Humanidade. Os piores momentos da nossa história foram os de fechamento cultural, de desprezo pelo outro, de fixação no presente, desprezando as heranças e os legados. Promover o desconhecimento do outro, menorizando a sua capacidade de reformulação, é uma forma de fechamento cultural.
E por favor, não insinuem que eu estou a minimizar os actos inqualificáveis dos fanáticos fundamentalistas. Não estou.

... E agora um poema de Mário Cesariny, um gajo que já se tinha lixado no Irão

PASTELARIA

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir
de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Nobilíssima Visão (1945-1946), in burlescas, teóricas e sentimentais (1972)

13/02/06

Os Rubaiyyat, de Omar Khayaam, por Sanchez Romero Carvajal

O Poeta, Persa e Muçulmano Ghiathuddin Abdul Fath Omar Ibn Ibrahim Al Khayaam Al Gacq, Omar Khayaam prós amigos, nasceu em Nishapur em 1015 (Séc. XI) e parou em Samarcanda, vivendo aí uma vida de copos e putedo. Nasceu no seio de uma família da comunidade Sufi (Derviches Rodopiantes) e foi compincha na juventude de dois outros colossos da época, o Sheik e Imperador Nizam-El-Mulk e do bandalho e fundador da Seita dos Assassinos Hassan Ibn Sabbah.

Omar Khayaam em honra e homenagem ao Nizam-El-Mulk que lhe permitiu uma vida de farra, poesia e investigação matemática, dedicou-lhe os Rubaiyyat. Até ao presente advento do radicalismo Islâmico, os Rubaiyyat foram tidos como um dos expoentes da poesia persa e muçulmana. Há inúmeras obras e autores islâmicos que a eles se vão referindo ao longo dos séculos como magia ditada dos céus. E o Ocidente comungou e comunga ainda desse fascínio pelos Rubaiyyat.

Infelizmente, a doideira radical que grassa no Islão, antes de atingir os Versículos, a Nasreema ou os Cartoons, atingiu os Rubaiyyat. Que foram banidos do Islão. O poeta Omar foi declarado maldito, blasfemo, e apelidado de suíno vendido e renegado sulfuroso que deve arder nas profundezas do inferno. Esta gente, antes de matar a beleza e liberdade dos outros há muito que matou a sua. Nisso são coerentes.

Os Rubaiyyat, são uns centenas de poemas algo estranhos, sem continuidade entre si e que glorificam a beleza da vida, que deve ser saboreada na máxima intensidade, com muito louvor ao vinho e à beleza feminina. Pelo meio, questionam o poder e a vontade ou a certeza divina. O Islão que aceitava e glorificava este poeta devia ser uma coisa que valia a pena. Da edição espanhola editada pelos Derviches Nuestros Hermanos, aqui vão alguns Rubaiyyat, para ler baixinho e em segredo:


“Alto canta el gallo, por su bebida
del alba, mi Saki!
Aquí estamos, en la hilera de los
vinateros, mi Saki!
Es ésta una hora para la oración?
Silencio, mi Saki!
Desafia viejas costumbres, Saki;
bebe hasta saciarte!”

(el Saki (Copero) de Dios El Amante, escanciada el vino para Dios El Amado durante cuarenta mañanas consecutivas.)


“Muchacho extraño que alzas
para saludar la aurora;
Favorece mi copa de cristal, sirve
rojo vino!
Por este momento hurtado al cadáver
gris de la noche
podremos mucho suspirar,
pero no recuperarlo.”


“Dicen que el Eden está enjoyado
de huríes,
Yo respondo que el néctar de la uva
no tiene precio;
Ríete pues del crédito y aférrate
a la moneda,
Aunque tambores distantes seduzcan
tu codicioso oído.”


“Cada arriate de rosas o tulipanes
que encuentres
Indica seguro el postrer descanso
de un rey,
Mientras que violetas fragantes,
surgiendo de negra tierra,
Señalan el entierro de una bella joven.”


“Levántate, por qué te aflige este fugaz
mundo de los hombres?
Pasa tu vida entera en gratitude y alegria.
Si la humanidad estuviera libre
del nacimiento y la tumba,
Cuándo habría sido tu turno de vivir y de amar?”


“Algunos piensan mucho sobre doctrina
y creencia,
Algunos oscilan entre la certeza
y la duda.
De repente, de su escondite salta
el Guía
Diciendo: “Necios, el Camino no es por éste ni aquél”.


“En el taller del alfarero, oculto
por el torno,
Reflexioné observando al Maestro hacer
Asas y tapas para sus jarras y cántaros
con arcilla
De las manos de reyes, de los pies
de mendigos.”


Ebrio esta noche, al passar por la taberna
Un compañero bebedor se unió a mi
con una jarra
Grité: “Anciano, no sientes temor
de Dios?”
“Ven”, dijo, “Dios es generoso!
ven, bebe!”


“Que el pecado es irresistible, Él lo sabe;
Sin embargo nos ordena abstenermos
de pecar.
Y así nos confunde irresistiblemente
Con la prohibición: “Inclínate,
pero no caigas!”


“En todos los caminos que emprendo
están tendidas
Tus trampas para atraparme,
si anduviera descuidado.
Extremos absolutos reconocen
tu vasto dominio.
Tú ordenas todas las cosas, y sin embargo
me llamas rebelde?

10/02/06

É estafado, mas aqui vai: “Eu Sou Dinamarquês!”, por Salman Rushdie

José Saramago, escritor e nobel, vem hoje no “Público” a criticar os cartoonistas, dizendo que estes foram “irresponsáveis”, que “a realidade crua impõe limites à liberdade de expressão”, que deviam ter reconhecido “a susceptibilidade que há em redor destes temas e usado do senso comum”.

Eu gosto – em geral - da escrita do Saramago. Acho o “Memorial do Convento” uma obra prima e “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” também. O “História do Cerco de Lisboa” é muito bom, assim como o “Conto da Ilha Desconhecida”. O “Intermitências da Morte” não vale um caracol. No mais, ainda não li.

Isto posto, importa dizer que este é o último homem a poder cascar nos cartoonistas. O “Evangelho Segundo Jesus Cristo” é uma obra-prima, mas é um livro assumidamente blasfemo para a Cristandade. Nele, o JóttaCristo é um homem comum à procura dos prazeres da vida e a procurar fugir a todo o custo do cabrão do Deus-Pai que o quer foder na cruz para sua maior glória. O Jótta tá-se a cagar prá Glória do Pai-Deus que duvida e nega e só mama com os pregos nas palmas, porque o sacana divino não é o Misericordioso do Novo Testamento, mas sim o Javista cruel, vingativo e sanguinário do Velho Testamento, que ali usa e abusa dos seus poderes mágicos e obriga o Jótta a dobrar a espinha. O Jótta não é redentor, mas palhaço em sangueira alheia.

Na altura, a saída da coisa deu Sousa Lara, deu um Abecassis a berrar à porta do cinema e uma saída airosa para Lanzarote. Não deu mortos, escritores assassinados, escondidos, embaixadas queimadas, fatwas de peso padrão-oiro para os assassinos redentores, promessas de virgens, boicotes de fábricas, exportações e países.

E o Saramago até deu Nobel e não teve que andar décadas escondido como Salman Rushdie que ainda hoje não pode sair à rua descansado. Como os Cartoonistas. O Saramago era a última pessoa a poder dizer aquilo que disse. Devia dizer sim: “Eu Sou Dinamarquês!”

Devido à falta de espinha dorsal dos nossos governantes e de certa inteligentzia, a Dinamarca está isolada como se tivesse posto uma bomba e morto milhares em Meca e até um ridículo atroz como um tal de Vitalino Canas, vem botar faladura a comparar como “farinha do mesmo saco” e “ambos irresponsáveis”, os cartoonistas e os manifestantes islâmicos, e para que não houvesse dúvidas até identifica os manifestantes como sendo aqueles que queimaram e mataram.

No meio disto tudo já nos foderam. Já toda a gente vai fazer auto-censura. Nos próximos anos – por essa Europa a fora -, qual é o cartoonista que vai voltar ao Maomé?, Qual é o Saramago que vai fazer outros “Versículos Satânicos”? A nossa “compreensão” e “tolerância” não os apazigua, só os leva mais longe. Eu Sou Dinamarquês e se soubesse desenhar metia aqui o verdadeiro Maomé, sanguinário e putanheiro, a ser enrabado por um Viking Dinamarquês! A Dinamarca Não Se Verga E Jamais Pedirá Desculpa!

09/02/06

Choque de Civilizações, por Bom Mé Mé

Se os nossos pais e avós tivessem cedido aos ayatollas na magna questão da liberdade de expressão e se na Europa tivesse vencido a lógica fundamentalista, teríamos crescido num mundo completamente diferente daquele em que vivemos. Nunca teríamos conhecido e curtido a maior parte dos nomes que nos marcaram a vida. Numa civilização (?) dessas nunca seriam possíveis:

O Tapornumporco, os Monthy Pithon, o Gato Fedorento, o Herman dos bons velhos tempos, os livros do Marquês de Sade, John Holmes, Rocco Sifredi e a Ciciolina, os Ena Pá 2000, a Garganta Funda, Eça de Querós e o seu Amaro, Brett Easton Ellis, Charles Bukowski, Henri Miller, Marilyn Monroe, 9 Semanas e Meio ou mais, Kim Basinger, o Sexy Hot, Julie Delpy e Scarllett Johansson, os Village People e os Culture Club do Boy George, os Beatles e os Rolling Stones, Nabokov e su Lolita, Alice no País das Maravilhas, Oscar Wilde, Jean-Paul Sartre e Gualtier, Albert Camus, Galileu, Albert Einstein, Andy Wharoll (aliás, todos os pintores não iconoclastas) a baixista dos Smashing Pumpkins, Milos Forman, a Playboy, a Hustler, Tintim e Asterix, o judeu Super Man, o leitão da bairrada, o Barca Velha, a Internet, Charles Darwin, Sigmund Freud, Aristóteles e Platão, pagãos do caraças, Jacques Lacan, David Cronenberg, Steven Spielberg, o rato Mickey e o pai dele, Walt Disney, António do Expresso e as selecções dinamarquesas dos irmãos Laudrup, Salman Rushdie, Santo Agostinho e o outro santo, Tomás de Aquino, Descartes, Rousseau, Voltaire, as Madonas todas, as santas e as outras, George Washington, o papa polaco, os palermas do prado coelho e do irmão-tolo do sampaio que também têm todo o direito em semanar baboseiras, uf, completem a lista que é infindável…

Em contrapartida veneraríamos Maomé e proclamaríamos que «Deus é grande». Quando tivéssemos dúvidas levávamos umas vergastadas de mullás atentos e fazíamos turismo em idas caóticas a Meca. Um mês por ano jejuávamos, tínhamos umas quantas mulheres, mas discutíamos se é pecado fazer amor com elas vestidas. No fim gritávamos «Morte à América» e íamos para o céu receber as não sei quantas virgens a que teríamos direito.

Fónix, eu não trocava a nossa civilização pela deles!

07/02/06

A tolerância, por Kzar

Aquilo que episodicamente muitos vêm sublinhando, expondo-se de imediato aos invariáveis epítetos de “xenófobos”, “racistas” e enfim “fachos”, tornou-se agora ainda mais brutalmente evidente: as massas islâmicas pretendem subjugar tudo e todos às suas medievais manias, julgam-se cada vez mais capazes disso, com imperial direito a isso e exigem-nos um cumprimento subserviente, mesmo nos nossos ocidentais países, das suas teocráticas determinações.

Os prosélitos estão entre nós, são cada vez mais e vamos séria e rapidamente lamentar não termos sempre feito questão de lhes exigir que ao entrar deixassem à porta aspectos da sua cultura que para nós são inaceitáveis e até imorais, e respeitassem pelo menos os elementos básicos da nossa civilização. Pelo contrário, além da frequência do uso dos referidos epítetos contra os mais sensatos, nunca faltou quem até relativizasse sobre os cortes de clitoris das miúdas, sobre os imãs que vociferam nas mesquitas contra as instituições dos países que os acolheram, de amiúde ensinarem que as fêmeas podem levar pancada à vontade e até ocasionalmente de ensinarem nos mesmos sítios os modos de o fazer sem que as autoridades dos infiéis dêem com a coisa – ao que tudo acresce um largo etc.

Por muito que um falinhas mansas como o “sheik” dessa gente em Lisboa insista em pregar que a sua retrógrada religião nutre um acrisolado desvelo pela paz e o amor, condenando veemente a violência, e outras mentiras despejadas no pressuposto de que somos todos idiotas chapados, o facto, indesmentível, empírico, de uma historicidade brutal, quotidianamente evidente enfim, é a atroz e cega violência obscurantista que caracteriza pelo menos uma larga porção dos seguidores de Mafoma.

É vê-los, em festejos bárbaros e ululantes quando uns aviões chocam contra edifícios de Nova Iorque e matam milhares. É vê-los, a manifestarem-se aos milhões, por todo o lado, sempre mais ou menos nos mesmos termos doentios, contra o Rushdie da Índia ou a Nasreema do Bangladesh, e tantos outros. É vê-los, ao bin laden e sus muchachos, quando abrem a boca hedionda com as suas ameaças e exigências histérico-fanáticas. É vê-los, grotescos, a mandarem obuses e patéticos tiros de metralhadora contra estátuas de Buda com dois mil anos, até fazê-las cair. É vê-los, a exibir reféns ocidentais, primeiro vivos e depois sem cabeça, na televisão. É vê-los, no Sudão por exemplo, a chacinarem e escravizarem os não muçulmanos. Mais, é vê-los, um pouco por todo o lado, a envolverem-se em confrontos com os fieis de todas as outras religiões e mais os ateus.

Todos estes maníacos são o quê? Seguidores da tal religião da tolerância, da paz e do amor? E isso não causa repugnância a quem o diga? Ou serão cristãos? Hindus? Budistas? Judeus? Xintoístas? Animistas? Ateus? São obviamente muçulmanos, diga o tal “sheik” o que disser. Em todas aquelas infames circunstâncias é por Alá que clamam e é infiéis o termo com que insultam os outros. Quem dirigia os aviões, quem põe as bombas, quem chacina com furor animalesco sempre que um bonzo lança uma “fatwa”, quase sempre grita ao mesmo tempo que “Alá vencerá”. A religião deles é totalitária. E não importa destrinçar religião, práticas sociais, usos e costumes dos países islâmicos, para evitar que com estes últimos, em cuja censurabilidade tacticamente e a contragosto se concede por vezes, seja contaminado o suposto valor ideal e impoluto da primeira: é à sombra dela que todos florescem neste nosso século XXI (XV ou XVI deles, o que é significativo); é ela e são os seus áulicos que prometem as virgens aos autores das proezas mais brutais. Não é o cristianismo que gera semelhante mal, ou pelo menos já não é.

A nossa civilização levou centenas de anos a libertar-se da tutela dos bonzos, e só há pouco mais de duzentos é que começou a consegui-lo significativamente. Respeita a fé deles, a organização deles e a intervenção social deles, mas não os deixa mandar ou impor. No meu país, escrevo, ou pinto, ou esculpo, ou falo sobre Deus e o clero, ou sobre qualquer outra coisa, o que me apetecer, o que me der na realíssima gana, sem admitir por um só momento que um primitivo qualquer da igreja me venha dizer que por ser ditame da sua fé não fazer isto ou aquilo, eu o não possa fazer também. Era o que me faltava. O limite é a Lei Penal, e dizer ou insinuar em caricatura que a religião muçulmana instiga a violência está longe, muito longe, de configurar os crimes de “ultraje por motivo de crença religiosa” ou de “ultraje a acto de culto”, previstos nos art. 251.º e 252.º do Código Penal. Por outras palavras, dizê-lo, escrevê-lo, ou desenhá-lo, é um direito meu, é uma liberdade de que não abdico.

O Sr. “sheik” não gosta? Problema dele. Digo e repito as vezes que quiser e ele diz o que lhe apetecer a ele. Fica ofendido? É lá com ele. A mim ofendem-me profundamente algumas práticas da sua religião e princípios da sua fé, mas nem por isso vou para as ruas gritar morras, espancar pessoas, pegar fogo a carros ou apedrejar embaixadas, e nem sequer defendo que ele seja proibido de ter a religião que lhe der na bolha. E ofende-me mais ainda que defenda, com aquele ar cândido, que eu não possa pintar quem ou o quê me apetecer por qualquer acto de respeito pela sua religião, mas nem por isso me manifesto para que o matem. E enfim não me insulte mais com essa da religião da paz e da tolerância; não o vi a ele nem a nenhum muçulmano a manifestar-se e a partir embaixadas contra a destruição dos Budas, contra o assassinato do Teo Van Gogh, contra os aviões, contra a perseguição ao Rushdie e outro larguíssimo etc. Não há igrejas cristãs, templos budistas ou hindus e nem sinagogas em Meca, mas não faltam mesquitas em Roma ou em Lisboa. Não me venha falar de tolerância com ar professoral e ecuménico que me dá vómitos. Ele e os ministros católicos, seus improváveis aliados de ocasião, com o olho na possibilidade de proibirem também caricaturas do papa com camisinha no nariz.

Mas verdadeiro asco provocam-me os políticos do compromisso, aqueles que não vêem, não percebem, ou fingem não ver nem perceber, que certos valores ou se defendem absolutamente ou se perdem absolutamente. Os nossos governantes, que deviam defender com raiva inflexível o nosso direito de pintar ou escrever o que quisermos, mas que começam logo a tergiversar, sobre como são amigos da liberdade de expressão mas ao mesmo tempo apelam ao respeito pela religião, e mais um largo etc. Os que nos deviam estar a preparar para a guerra que tarde ou cedo os furiosos nos vão mover, mas em vez disso escondem a cabeça.

País em choque tecnológico, por inginheiro paisagista

Portugal é um país com um ritmo vertiginoso. Tudo anda muito depressa. Veloz. Alucinante.
Conjugado com isto, temos um país muito atrasado. Pouco progressista. Provinciano.
Vai daí, aqueles cérebros brilhantes, desenvoltos, bacteriologicamente honestos e incorruptíveis, que se elegem de quatro em quatro anos e se preocupam com o bem-estar do mundo, decidiram fazer um “dois em um”: inventaram os semáforos de velocidade. Pois. É que, de uma assentada, resolvem-se dois problemas: abranda-se o ritmo e dá-se um ar de modernidade e de avanço tecnológico.

Assim, na mais pacata aldeola de Portugal, com setenta habitantes, dois burros, quatro vacas e quinze automóveis, temos cinco semáforos de velocidade: um, antes da casa do presidente da junta; outro, depois da casa do presidente da junta; um outro junto à casa do amigo merceeiro; outro, perto da casa paroquial e, finalmente, o último colocado à porta do senhor que financiou a campanha para as últimas autárquicas (como já não havia verba, não se colocou aquele junto à Escola do Ensino Primário).

Estes símbolos do progresso (tão bonitos que ficam a piscar) são colocados de quinhentos em quinhentos metros, com critérios que fariam inveja às directrizes da U.E.
A minha esperança é que estes critérios também se apliquem quando o propalado T.G.V. vier a passar em Portugal. Para sermos um país verdadeiramente turbo-lento.

A Guerra das Civilizações, por Capitão Nemo

Ontem era tarde.
Li no Espesso o artigo do Miguel Sousa Tavares, que gostei e ilustra muito do que penso. Toca em matéria que agora está na moda, os desenhos religiosos.
Tem argumentação interessante. A Dinamarca é um dos países com melhor nível de vida (no padrão Americano e Europeu claro), onde a democracia funciona também no plano fiscal. Onde a prestação de cuidados de saúde vai bem, e onde deveria, à semelhança dos padrões elevados referidos, respeitar-se a liberdade de expressão e imprensa.

Mas a União Europeia, os EUA e o Reino Unido enegreceram tal liberdade.
Objectivamente não me parece haver ofensa nos tão falados desenhos sobre símbolos Islâmicos. Os que vi eram do género dos que já vi sobre Cristo na cruz e sobre outros símbolos religiosos.
Andamos a pedir desculpa de quê??

Esses fanáticos acéfalos matam, esventram, apelam à destruição, inibem gestos de pura liberdade individual, manietam sociedades, manifestam-se e rejubilam com a morte de inocentes etc etc etc. A maior parte das vezes sem que nenhum governo abra comissões de inquérito ou fale em sanções.

Agora um artista desenha um boneco onde retrata o espírito infectado com o que supra referido e é censurado?? Estamos a ser invadidos pela censura podre e isso é apenas o princípio das intolerantes tolerâncias que temos de aceitar. E ainda a Turquia não chegou à UE…

Quando eu na Arábia Saudita ou no Dubai puder fazer um Presépio ou uma árvore de Natal aceito que um Muçulmano na Europa ande de véu… De contrário daqui a alguns anos teremos brigadas anti hamas e anti véu…
Ontem já era tarde para pensar nisto.

06/02/06

O Fado Instrói, por Chique Tecnológico

Apesar de gostar de fado e de considerar, até, a Amália Rodrigues um dos maiores vultos da música popular de todos os tempos, nunca tive paciência para o Carlos do Carmo. Achei-o sempre um personagem bizarro e é o mínimo que se pode dizer de um comunista empedernido vestido de fato e gravata mesmo nos tempos exaltadosda revolução Um dia destes reparei na letra de uma das suas músicas e reforcei, ainda mais, a minha convicção de que o personagem não deve ser bom da cabeça. O refrão da música, um «clássico» do seu repertório, acho, diz o seguinte ( e podem cantar, a música é essa mesmo):

Ai que cheirinho tem o lindo caldo verde que tu trazes nos teus olhos
Ai que cheirinho tem o alecrim da esperança que tu me atira aos molhos
Ai que cheirinho têm as roupas de linho que tu estendes nas janelas
Ai que cheirinho gosto mais de amor contigo do que das iscas com elas.

Se alguém consegue perceber o alcance poético destes versos, faça o favor de mo explicar nos comments a este post. A mim intriga-me a imagem do «caldo verde que (ela) traz nos olhos»… Estará esfomeada, a bem amada do carlos, e sonha com pratadas de caldo verde condimentado cuns bons nacos de chouriço serrano? E atira lhe, ao carlos, «alecrim aos olhos» porque carga de água? Pobre carlos… Talvez o alecrim tenha alguma propriedade mágica, quando atirado aos olhos das pessoas. Mas o alecrim não é conhecido pelo seu cheiro perfumado? Então devia ser atirado ao nariz do carlos…

Mas o mais misterioso neste refrão é o verso final em que o nosso herói diz que «gosta mais de amor contigo do que das iscas com elas.» Aqui, confesso, fico K.O. Gosta mais amor com ela do que das iscas com elas? Com elas quem? E as iscas a que ele se refere serão iscas de fígado? Tirando as iscas do Painel, ali na Bairrada, que são uma especialidade, as iscas de fígado nem me parecem grande prato… Quando era puto até tinha pesadelos com as iscas de fígado e com a sopa. E mesmo que sejam acompanhadas com «elas» seja lá o que isso for, será um grande elogio dizer-se a uma mulher que fazer amor com ela é melhor que comer umas iscas (embora com «elas, é certo)? Eu, se fosse mulher, não gostava nada que o meu namorado me dissesse:«filha,gramo mais uma queca contigo que emborcar umas iscas com elas»… Não soa bem, pois não?Ou então esta letra é cabalística. Talvez o Carlos estivesse esfomeado quando a escreveu. Ou talvez seja uma mensagem críptica, um código com instruções secretas acerca dos melhores pratos da culinária portuguesa para quando os extra-terrestres nos invadirem. Talvez, sim… Eu agradecia, caso alguém saiba decifrar esta letra, que mande umas bocas ali em baixo na caixa dos comments. Bem haja!

03/02/06

“La Columna”, de Frida Kahlo, por Emiliano Sapata

Este quadro é o famoso “La Columna” da mexicana Frida Kahlo. Mais do que um quadro, isto é a história de uma vida. Frida, por este quadro e outros ainda mais estranhos foi apelidada de “surrealista”. Frida, mulher de barba rija – e isto não é uma metáfora -, explodiu e mandou-os a todos pró caralho e que de caminho abrissem os olhos e vissem com olhos de ver.

O La Columna não é surrealista. É realista. É um auto-retrato da pintora e da sua vida. E passo a reproduzir um excerto do magnífico fresco mexicano que é o livro “Os Anos Com Laura Díaz” do escritor Carlos Fuentes, onde ele se espoja sobre a Frida e o seu Panzón, o grande muralista Diego Rivera:

“ – Foi em Setembro de 1925, há sete anos. Eu ia de camioneta da casa dos meus pais em Coyoacán, quando um eléctrico se espetou contra nós e me quebrou a coluna vertebral, o pescoço, as costelas, a pélvis, toda a ordem do meu território. Deslocou-se-me o ombro esquerdo – que bem o disfarça a minha blusa de mangas largueironas, não achas? – Bom, fiquei com uma perna estropiada para sempre. Entrou-me um corrimão pelas costas e saiu-me pela vagina. O impacto foi tão violento que me caiu toda roupa, imaginas?, a roupa evaporou-se-me, fiquei ali a sangrar, em coiros e rota. E nessa altura, Laura, aconteceu a coisa mais extraordinária. Choveu-me ouro em cima. O meu corpo nu, roto, jacente, cobriu-se de pó dourado.
Acendeu um cigarro Alas e soltou uma gargalhada de fumo.
- Um artesão levava uns embrulhos com pó dourado na camioneta na hora do espetanço. Fiquei rota, mas coberta de ouro.”

Frida teve uma vida desgraçada, como desgraçados, cruéis e sanguinários são os seus quadros. Na adolescência sofreu esse acidente que a incapacitou para sempre e a obrigou a passar anos engessada na Casa Azul e depois o resto da vida com uma armação de ferro que lhe rodeava o torso todo, do pescoço às ancas, porque a sua coluna vertebral ficou partida em vários lados.

E é isso que se vê no quadro, a coluna estilhaçada e a armação de ferro. E os milhentos pregos das eternas e dolorosas dores que a haviam de acompanhar pra sempre. A pele rasgada e o negro da abertura, revela o vazio do corpo e a negritude da alma. Frida destapa-se e não poupa sequer o bigodaço que aparava diariamente, nem as tetas orgulhosas de bi-sexual assumida e descarada que papava em público a Chavela Vargas.

O seu Panzón não se importava. Tinham feito um pacto de só se traírem um outro com mulheres. O lençol tapa por vergonhas as lesões genitais ensanguentadas que anos mais tarde, em Detroit, lhe haviam de valer um aborto e a perda do desejado filho com o Panzón, com quem viveu um dos amores mais fortes e mais bonitos de que há memória. Mas esse é tema pra outras núpcias. Pra já ficamos no La Columna. Um quadro Realista, porque Surrealista foi a vida dela.

02/02/06

Será Que Ninguém Lhe Ensinou Que É Feio Mentir?, por Salmanazar

Ontem vinha a ouvir o noticiário da TSF e ouvi a esplendorosa reportagem ao vivo do nosso Primeiro Sócrates - Socras para abreviar -, que desceu aos indígenas do Alentejo profundo, botando faladura na Escola Primária de Portel. Pois aí, sem papas na língua o Socras garantiu que aquela era a última das escolas deste país a ficar ligada à Internet em Banda Larga. A última, assim mesmo, e ele ali estava em pessoa e ao vivo para louvar o enorme esforço que conduziu a esta vitória triunfal sobre toda a União Europeia, porque segundo ele Portugal vai à frente no que toca à Internet, numa modalidade qualquer esquisita que já nem fixei.

Pelo meio ainda tivemos direito a um directo, em que o Socras falava infantilmente a uma criancinha aborígene – julgo que não teve que fazer grande esforço para o feito -, e lhe explicava tudo isto e as maravilhas da Banda Larga.

E eu fiquei abismado. Até porque a TSF a seguir engoliu a isca e o anzol e andou todo o dia a embandeirar em arco com aquilo. E os jornais de hoje lá trazem a mesma merda, repetida até à exaustão. Os idiotas da comunicação social que vivem todos em Lisboa, engolem sem espinhas esta patranha, porque são incapazes de ver além do umbigo e de fazer um simples telefonema às terras selváticas.

Eu não acredito que todas as escolas portuguesas tenham Banda Larga. E nem sequer acredito que tenham todas Internet. E muito menos que nisso se incluam as primárias. E isto, pela simples razão de que eu a viver a 8 km da baixa de Coimbra, numa aldeola urbanizada e industrial, ponto de comedero da cidade, com linha do norte, vias rápidas e auto-estrada, em rua compacta de prédios, com autocarros urbanos e telefones pois então!, pois aqui mesmo, népias de banda larga. A PT e a Telepac bem me enganaram a comprar o Sapo-Adsl e a instalar nova linha e depois de descoberto o embuste lá tiveram que desmontar tudo e devolver cada tostão. O Kanguru da Optimus idem aspas aspas. Não há banda larga nos arredores de Coimbra Norte, 4 km depois do centro. A largueza de banda com que aqui venho é da baixa de Coimbra.

E agora vêm cá garantir que Pampilhosa da Serra, Carrazeda de Ansiães e Freixo de Espada à Cinta já têm banda larga? Vão ser mentirosos pró caralho! E no meio disto disto tudo nem levo muito a mal ao mentiroso do Socras, agora da parte dos jornalistas é imperdoável. Era só de chicote, carago! E perderam uma oportunidade magnífica de levar o desavergonhado às cordas.

01/02/06

Nuclear, Sim Obrigado!, por Dervixe Rodopiante

Three Mille Island em 1979, Chernobyl em 1986 e a praga contínua dos Verdes aos berros ao longo das últimas décadas, deram cabo da energia nuclear. O medo da Guerra Fria também ajudou à festa, e o ocidente passou a ficar doente de cada vez que se fala do nuclear. E de um momento para o outro o Nuclear desapareceu. As pessoas – com um trauma psicológico profundo, têm uma reacção visceral ao nuclear e optam mesmo por esconder no mais fundo do inconsciente aquilo que todos sabem, que o nuclear está e estará ali ao virar da esquina.

A França opera 59 reactores nucleares em 21 centrais, produz 80% da sua energia eléctrica através do nuclear e exporta ainda a mesma para Portugal. Portugal bebe da energia nuclear barata francesa. Espanha opera 9 reactores em 7 centrais, duas das quais às portas de Portugal, em Almaraz sobre o Tejo e a menos de 100 km da fronteira. Os EUA exploram 104 reactores, o Japão 56, a Rússia 31, Índia 15, a Suécia 10, Suiça 4, Bélgica 2 e a Holanda 4. No mundo todo, são 31 países a explorarem o nuclear em 443 reactores. E depois temos os reactores nucleares para investigação e aí já falamos de 56 países e mais 284 outros reactores em funcionamento. E nec plus ultra, há que somar mais 220 reactores nucleares em outros tantos vasos de guerra americanos, russos, ingleses, franceses e ucranianos. A Índia além dos 15 reactores civis em funcionamento, tem mais 7 em construção.

Assim, quando dizem “Nuclear, Não Obrigado!” a coisa não soa lá muito bem. O mundo é nuclear e a nossa vizinhança espanhola e francesa também. E já nem vou ao corredor atlântico que nos passa a 12 milhas e por onde passam diariamente alguns vasos nucleares. Almaraz com duas centrais é logo depois da fronteira e arrefece os reactores com a água do Tejo que algumas horas depois entra em Portugal. O Nuclear, Não Obrigado! Começa a soar um bocado como os tristes placards dos municípios que proclamam o concelho livre de armas nucleares, como se em caso de castanhada, alguém tivesse a preocupação de ver se ali a terrinha admite ou não os nukes.

Após esta constatação, surgem mais duas. A primeira é que os Árabes fecharam a torneira, sabem que a mama se acaba e estão dispostos a fazer-nos pagar caro os últimos pingos da teta. A segunda é que o crescimento económico da China e da Índia não é sustentável sem o nuclear deles e do resto do mundo. E dois biliões de sedentos estão em velocidade de cruzeiro. Pará-los só com nukes…

O investimento e desenvolvimento do nuclear é inevitável, até para afastar de vez tecnologias e reactores obsoletos que nos põem a todos em perigo a cada dia que passa. Portugal tem o risco, mas não tem o benefício. Vai de cara alegre a passear de bicicleta ao pé das centrais dos outros.