30/03/06

A Parábola Das Dez Virgens, de Mateus-25, por Heresiarca

No Evangelho segundo São Mateus, no capítulo 25, aparece a Parábola das Dez Virgens, que é das parábolas mais bonitas e estranhas do Livro. E antes de mais considerandos, passo a transcrever:

“O Reino do Céu será semelhante a dez virgens que, tomando as suas candeias saíram ao encontro do noivo. Ora, cinco delas eram insensatas e cinco prudentes. As insensatas, ao tomarem as suas candeias, não levaram azeite consigo; enquanto as prudentes, com as suas candeias, levaram azeite nas almotolias.

Como o noivo demorava, começaram a dormitar e adormeceram. A meio da noite, ouviu-se um brado: Aí vem o noivo, ide ao seu encontro! Todas aquelas virgens despertaram, então, e aprontaram as candeias.

As insensatas disseram às prudentes: Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas candeias estão a apagar-se. Mas as prudentes responderam: Não, talvez não chegue para nós e para vós. Ide, antes aos vendedores e comprai-o. Mas, enquanto foram comprá-lo, chegou o noivo; as que estavam prontas entraram com ele para a sala de núpcias, e fechou-se a porta.

Mais tarde, chegaram as outras virgens e disseram: Senhor, senhor, abre-nos a porta! Mas ele respondeu: Em verdade vos digo: Não vos conheço.

Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora.”

A lição base a tirar da parábola, segundo ensina a versão da Difusora Bíblica, centra-se no dever de estar sempre preparado porque o Senhor pode chegar a qualquer momento.

Mas para além desta moral de algibeira, a história tem muito mais que se lhe diga. Levanta muitas interrogações, ilações e suscita confusões. Já quis discutir isto com algumas Jeovás domingueiras e madrugadoras, mas as matronas ou desconfiaram da minha candura em pijama ou abominaram o título da parábola, certo é que fugiram como se vissem o demónio. Tá mal. Que diabo!, a parábola vem lá e a interpretação é livre, ou devia ser, que o Livro é humano e não divino.

Só queria discutir algumas das questões que isto suscita. Por isso aqui venho ao espaço de liberdade porcina. Façam favor e não se acanhem. Aqui não se absolve nem se condena ninguém, muito menos se sacam almas e duvida-se que ande por aqui alguma virgem de candeia apagada. Se anda, é insensata…

29/03/06

Qual Astérix, Qual Carapuça!, Os Irredutíveis, Somos Nós!, por Nicomedes do Ponto

As histórias de Banda Desenhada do Astérix começam sempre pela velha e relha lenga-lenga de que toda a Europa está submetida ao Império Romano. Toda não, existe uma pequena aldeia que resiste ainda e sempre ao invasor. E lá vai história de como os gauleses eram irredutíveis, corajosos, rebeldes e deram cabo do miolo ao Julinho.

Errado! Os Irredutíveis somos nós. Não são eles. É mais um dos erros do Goscinny. Já não basta o animal meter a torto e a direito o Coliseu no tempo do Júlio César, quando aquilo só foi construído 150 anos mais tarde, mas ainda tinha que mitificar a aldeia gaulesa, quando o que lá devia estar era a aldeia portuguesa, pois concerteza!

Na Gália dos Cabelos Compridos, César Chegou, Viu e Venceu. Mais, além de vencer, submeter e romanizar os pobres gauleses, Júlio César, para ter luta, teve que ir às laterais e abanar a árvore até cair fruta. A Guerra das Gálias começa com a provocação de César aos Helvécios e descamba em Gergóvia e Alésia, porque os Belgas e demais povos do norte se aliam ao Vercingétorix. A esse pobre coitado e depois de Alésia, César manda-o acorrentado para Roma onde mama uma data de anos cativeiro à espera da celebração do Triunfo de César – que nunca lhe foi concedido pelo Senado – após o que foi lançado para o abismo da Rocha Tarpeia, estoirando a mioleira no romano e rijo calhau. Durante o consulado e depois durante a ditadura de César, há algumas sublevações na Gália, mas sempre provocadas por povos germanos que passam o Reno e vêm fazer surtidas na Gália Cabeluda. A Gália em si, levou na careca e deixou de levantar cabelo.

Agora, barbas pela água demos nós ao Julinho. Aqui a ponta ocidental, o cu do mundo conhecido, a Lusitânia, dos algarves aos montes hermínios com inclusão dos caramielos hermanos, esta terrinha santa, nunca foi totalmente pacificada. Apostámos no bate, saca e foge e foi um sucesso. Não havia villa ou cidadela romana que não sofresse os nossos raides de roubalheira, pilhagem. Era um fartar vilanagem. E ó se aquelas matronas romanas eram apetitosas!

E atenção que não falo de Viriato que moeu a romana juizeira de 155 a 138 A.C., não senhor, a descida do Julinho cá à parvónia dá-se em 60 A.C. e ainda antes da Guerra das Gálias. Júlio César foi mandado para cá como governador à frente das suas legiões para controlar e pacificar isto. Trouxe duas legiões de 20 coortes e na Bética (Andaluzia) recrutou e treinou mais uma. Três legiões com cerca de 15.000 soldados. Não chegou!

Vinha ele a contar meia dúzia de castigos rápidos e ala que se faz tarde, mas enganou-se. Teve que ficar por cá a combater a guerrilha durante cerca de 2 anos. A nossa especialidade era fazer surtidas às ricas cidades, minas e villas romanas da Bética e roubar o máximo pra fugir em seguida de volta aos montes hermínios. César, arrepanhava os cabelos com isto – foi aqui que ele ganhou a careca -, raramente conseguia uma batalha de jeito e passava a vida a ver-nos escapar entre os dedos.

Teve que montar quartel permanente e acantonar as legiões para dar guerra aos índios, nós même pois claro! Viu-se obrigado a montar toda uma estrutura de bases militares entre o Guadiana e o Douro e fez de Santarém o seu quartel-general e daí ia combatendo a malta da patanisca e do agarrem-me que eu mato-o!, segurem-me senão eu desgraço-me!

Apesar de sair sempre vitorioso nos confrontos directos, nunca conseguiu acabar com as nossas surtidas de caça ao sestércio e à boa matrona romana. O Senado pediu-lhe contas, o gajo chateou-se e não teve com meias medidas. Ordenou a pilhagem e a destruição e queima de todas as aldeias e lugarejos entre Santarém e os Montes Hermínios e ordenou a redução à escravidão de todos os varões e a morte de todos os velhos, mulheres e crianças. Pilhou, queimou, escravizou, matou e deportou toda a gente, deixando a terra vazia e arrasada. Uma das tribos ainda se conseguiu escapulir para as Berlengas e o animal nem aí os deixou em paz. Desembarcou nas gaivotas e passou a fio de espada tudo quanto encontrou. Uma razia. E um facínora. Um autêntico suíno.

Mas nem assim, muita malta conseguiu esconder-se e escapar ao morticínio. Do fundo das cavernas e do alto das montanhas lá se continuou na má-vida. Com a mortandade, o Julinho considerou isto pacificado e foi-se. Pompeu e Crasso esperavam por ele para o mais famoso Triunvirato da história. E quando em Roma lhe jogaram à cara que os bardinas aqui da ponta continuavam no saque e pilhagem, César certamente terá repescado a tirada de um general de Sertório, que ainda hoje cola: “Os Lusitanos São Um Povo de Bárbaros Que Não Se Governa Nem Se Deixa Governar!”

Quantos são?, quantos são? Eles que venham, eles que venham! O Astérix somos nós!

27/03/06

La Dolce Vita, de Federico Fellini, por Salmanazar

O primeiro plano do Dolce Vita mostra-nos umas paredes em ruínas, sobre as quais voa um helicóptero que leva pendurada uma estátua gigante de um Cristo Redentor. Logo atrás segue um segundo helicóptero com a cobertura dos paparazzi. Decadência e modernidade. A partir daí acompanhamos o abraço aéreo do JC a voar sobre os subúrbios em construção de Roma, passamos por penthouses do jetset que nos saúda com beldades de piscina e terminamos na monumental Praça de São Pedro no Vaticano. Pedra voa sobre pedra e pousa em pedra com nome de pedra.

Esta famosa cena inicial de um simbolismo esmagador, dá o mote a todo o filme. A partir daí Fellini é impiedoso. Os sucessivos planos e cenas arrasam tudo e todos. Ninguém sai bem da fotografia. Minto, a Anita Ekberg - o mais portentoso par de mamas da história do cinema - sai muito bem.

Mais do que o filme, toda gente conhece a expressão italiana “La Dolce Vita”. E ao contrário do que possa parecer não é o filme que se inspirou na expressão popular ou linguística, mas que ao invés a originou. Hoje a expressão tem divulgação e significado mundial e entre nós até centro comercial dá. Para o Fellini a expressão visava retratar a decadência e imoralidade da alta sociedade. Desligada do filme que a originou, a expressão ganhou vida própria e hoje já não se liga a decadência e imoralidade, mas sim a gozo, saber e prazer de vida.

Além da expressão popular, o La Dolce Vita deixou-nos a imagem lendária, da decotada Ekberg em vestido de noite a passear no meio da Fontana di Trevi. Graças ao filme e à expressão romântica e langorosa proclamada por essa cena, ainda hoje os carabinieri se vêm à nora para controlar as turistas que em Roma têm que dar uma de Anita na Fontana da dita.

No filme, de 1960, Fellini pega em Marcello Mastroianni e na Anita Ekberg e pôs-se a filmar a high society sob o olhar cínico e mordaz do papparazzi Mastroianni que pelo meio vendeu a alma ao diabo. A nata italiana que tinha aberto as suas penthouses, castelos e casas de luxo ao Fellini para se expor por completo, não gostou do retrato Dolce Vita e sentiu que também tinha vendido a alma ao diabo.

O pós filme foi o cabo dos trabalhos para o mestre que se viu atacado pela nata que o acusou de mentir, falsear e deturpar e de os ter enganado e traído. As altas esferas artísticas e intelectuais da lazio não saem bem da foto, retratados como parasitas sociais, que nada mais fazem do que cultivar a sua própria decadência. La Dolce Vita…

O filme foi nomeado para quatro Óscares e miseravelmente apenas ganhou o do guarda-roupa, quando até a boa da Anita valia era pela parte que não estava vestida. Mas poucos filmes como este tiveram uma repercussão no imaginário e na linguagem internacional. É que além da Dolce Vita, da Fontana di Trevi, da procura do glamour nas esplanadas da Via Veneto, a própria expressão de “papparazzi” surge daqui. Paparazzo é uma das personagens do filme e o que ele faz já vocês adivinharam! O jornalismo, a televisão e a rádio também não saem bem da fotografia.

O filme é actualíssimo na sua critica e retrato assassino. Obra-prima absoluta, imagens e cenas de uma força imorredoira, mensagens poderosas encasquetadas no imaginário mundial, que mais pode um realizador ou um filme querer? Ah, e o guarda-roupa também não era mau!

22/03/06

Os Espanhóis, por Manolo

Quando passo a fronteira de Vilar Formoso sinto-me sempre como aqueles mexicanos que vão esquecer as tristezas na eufórica América. Talvez as eternas obras do IP5 contribuam para esse sentimento. É incrível: os anos passam e as obras estão na mesma. Raio de país especializado em estádios de futebol…

Os espanhóis não são como os portugueses. São excessivos onde nós somos moderados. São artísticos e criativos onde nós somos burocratas. São assertivos onde somos indecisos. Sã excêntricos onde somos concêntricos, divertidos onde somos convertidos.
Nós somos o povo que tem medo de parecer mal, somos a tribo que tem vergonha até da vergonha, que tem medo do medo, que não abre o coração. Um português nunca está bem, nem numa festa: estamos sempre a pensar na nossa preciosa figura, no que os outros possam pensar de nós, como se isso importasse muito, como se nós ou os que nos julgam fôssemos o centro do mundo. Nas festas portuguesas só se bebe até um certo ponto. Os portugueses não têm imaginação e não tiram as mãos dos bolsos… Os portugueses não falam, vigiam-se uns aos outros.

Os espanhóis falam alto nos cafés e aquilo não me parece um arraial, parece-me bem, parece-me vida. Comem tarde e muito e bebem ainda mais. Dormem siestas e fecham o comércio e reúnem-se em copas e tapas antes de jantarem à meia-noite. E, acima de tudo, abrem o coração e não têm vergonha disso. Se eu fosse espanhol era outro Mangas que é o gajo mais lamechas do Porco. E o Mangas, no fundo, é um espanhol, mas tímido porque é português porque senão fosse seria o D. Quixote de La Mancha. Ou o Sancho Pança…

Os espanhóis não nos saúdam com um aperto de mão, à maneira inglesa: pegam-nos na mão com as duas deles e apertam-na, à nossa, com muita força. Não se despedem com um calmo «adeus, até à próxima», mas abraçam-nos como se não quisessem despedir-se. Aliás eles nunca se despedem, até os desconhecidos dizem sempre «hasta luego».
E quando eles nos dizem que somos mais educados que eles, que ninguém se iluda: estão a mentir. Seguro! Eu acho que eles gozam com o nosso ar macilento, cadavérico, comprometido, de mal com a vida… Em Espanha não deve haver depressões, mas se as há devem ser as mais fortes do mundo, não podem ser como as nossas, depressõezinhas de merda, porque o gato está constipado ou porque o cão tem gazes ou porque nos dá prá angústia existencial... A Espanha é grande, enorme e Portugal é pequeno, minúsculo, é uma paróquia forrada de IPês merdosos e rotundas autárquicas que já deveriam ter atirado para a choça uns quantos autarcas sem gosto nem decência.

A primeira vez que levei o meu filho a Espanha, ele tinha 6 anos. Um dia, viajávamos algures por Castilla-la- Mancha, o puto exclamou, admirado com a imensidão da paisagem:
- De Espanha vê-se o mundo todo!
É o melhor slogan que alguma vez ouvi sobre Espanha! Sobre a imensidão dos seus horizontes, mas também pode ser sobre o seu cosmopolitismo, sobre a abertura de espírito dos seus habitantes, sobre o seu enorme coração e a sua excentricidade… Como isto foi dito por um pequeno português, talvez seja um sinal de que ainda temos esperança: não nesta geração bafienta ainda marcada pelas fronteiras que nos separaram, mas noutras que aí hão-de vir, como a do meu filho de 6 anos que, felizmente, têm a oportunidade de se admirarem tão cedo com o mundo todo que se vê de Espanha.

21/03/06

«A Lamentação Pelo Cristo Morto», de Giotto di Bondone. Por Francis Presunto

A arte e a religião supõem a existência de dois mundos: um real e um suposto, um profano e outro sagrado, um terreno e outro celestial, um real e outro representado, um físico e outro alegórico. De Platão a Santo Agostinho, os mundos apresentaram-se separados e praticamente incomunicáveis. Restava o êxtase ou a revelação, ambas dependentes da condescendência providencial. A comunicabilidade era descendente e exigia, para o mundo românico, uma observância moral. A arte era doutrinária e ortodoxa, fixista, tornava visível o mundo do além e ordenava o mundo histórico em duas categorias essenciais. Pecado e Virtude opunham-se na mesma medida em que o Inferno se contrapõe ao Paraíso. Corpo e Espírito, Exterior e Interior, Sombra e Claridade serão outros termos em que esta visão se pode desenvolver. Os mundos românicos eram incomunicáveis.

A sensibilidade gótica preanuncia uma revolução que se consumará na Renascença e que será, desde então, o principal problema filosófico, estético, histórico e político da civilização ocidental. Conciliar os mundos, a carne e a alma, o efémero e o eterno, religá-los.

Giotto di Bondone (1267 – 1337) foi o primeiro artista a unificar os mundos. Giotto, comtemporâneo de Dante e representador de S. Francisco de Assis, gozou de grande fama em vida e antecipa em muito os valores formais do Renascimento: corpos sólidos, sentimentos humanos, espaços reais, tratamento da perspectiva, torna contemporâneos os ambientes, procurando os temas no mundo latino e libertando-se definitivamente da tradição bizantina e oriental. Teve profunda influência no panorama artístico italiano e europeu, dando origem a inúmeros seguidores e escolas regionais.


A minha obra preferida de Giotto é «A Lamentação Pelo Cristo Morto», fresco pintado em Pádua nos inícios do século XIV a encomenda de Enrico Scrovegni. A dor perpassa no rosto de todas as personagens, é aliás o único traço comum entre os dois mundos: o celestial e o terreno, os anjos e os humanos choram a morte de Jesus de Nazaré. Os gestos são teatrais e eloquentes, os sentimentos definem o eixo conceptual deste fresco. Os mundos unem-se na dor partilhada pela morte de Cristo. Choram os anjos e choram os homens. O sacrifício de Cristo tornou comunicáveis os mundos, evitando o absurdo do sofrimento gratuito. A dor torna-se caminho de virtude e assim ma nova moral se confirma: a da renúncia, a do sacrifício, a da apologia da dor e do despojamento anunciados por S. Francisco de Assis.

EU TE AMO de Clarice Lispector


Não te amo mais.
Estarei mentindo, dizendo que
Ainda te quero, como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci.
E jamais usarei a frase

EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade:
É tarde demais...

(Clarice Linspector)

(MAS EXPERIMENTEM LER O POEMA DE TRÁS PARA A FRENTE...)

16/03/06

O Bitó E O Ti Cabierra, por Morsa

Naquele dia eu já sabia que vinha lá o Ti Cabierra. A minha mãe tinha-me avisado e sabia ao que vinha o capador. Sim, porque o Ti Cabierra era o Capador da aldeia. No vale e arredores, era o velho Cabierra, o capador de serviço e não havia reco que lhe escapasse.

O capanço a que vinha, era o do meu Bitó. O Bitó era um leitãozinho rosado de poucas semanas, com o qual jogava e corria pelo quintal a fora, até a minha mãe me chatear que já estava a rebentar os bofes ao bicho. Não era fácil agarrar o Bitó, mas nisso estava a piada da perseguição. O Bitó guinchava, grunhia e corria e até lhe pender a língua de lado. O porco rebentava, mas eu divertia-me que nem um doidinho.

Chegada a idade e depois de tanta brincadeira, julgava eu que os meus pais veriam o Bitó pelos meus olhos e o suíno rosado e brilhante não iria pingar na chaminé ou descansar na salgadeira como a restante família. Engano meu, o que me deram a escolher foi comê-lo como leitão avantajado ou poupá-lo para engorda, o que implicava chamar o Ti Cabierra. A escolha foi minha e por isso ali estava o Ti Cabierra, convencido eu, de que aquilo em nada iria afectar a continuação da correria e da brincadeira.

“ - Atão o bicho? Ondé que está o Porco? Perguntava de enfiada o Ti Cabierra mal chegado ainda e já tirando pra fora a ferramentaria do saco de serapilheira que trazia às costas. Como não lhe respondi e me viu de lágrima ao canto do olho, o Ti Cabierra virou-se para a minha mãe e perguntou-lhe pelo paciente.

O Ti Cabierra foi ao curral e num abrir e fechar de olhos estava o Bitó atado por um pernil traseiro e a ser puxado pelo calejado velho. Assim manietado, o Tó foi arrastado a chiar em altos berros para o terreiro. O bicho adivinhava os passos seguintes, até porque eu choramingava da plateia, mas nada podia fazer. O poder e o riso escarninho, estava nas mãos do capador, que naquele momento já pendurava o leitão por uma perna e procurava prender-lhe a cabeça entre os joelhos, para com a outra lhe sacar os tubaros.

Mas ali, estava o meu Bitó, leitão ginasticado e treinado no esforço e na capicua. Um bicho de fôlego, ou o não o tivesse eu treinado em correrias imensas e gincanas de pescoço. Com a cabeça rente ao chão e entrelhada nos joelhos do cirurgião, o Bitó fez das tripas colhão, espipou meio pescoço e espetou uma dentada na barriga da perna do Ti Cabierra. O velho urrou como jamais tinha ouvido urrar alguém, bestas de grande porte incluídas.

A dentada, logo começou a sangrar, mas o cabrão do velho apesar do ataque, do sangue e da dor, não deslargou o Bitó e com a navalha mil vezes treinada cumpriu a operação e num abrir e fechar de braguilhas cortou o que tinha que cortar ao bácoro. Quando dei por mim, já o Bitó estava solto e o Ti Cabierra segurava nas mãos triunfantes os dois túbaros removidos.

“ - Cabrão do suíno que bem me ferrou! Paciência, E tu não te rias meu catano ca ainda te capo a ti tamém, vai-me é buscar álcool à tua mãe para desinfectar esta porra!

Lá fui e quando voltei já o Ti Cabierra estava na cozinha velha e de sertã ao lume. Depois da ferida tratada, limpou os túbaros do Bitó e sacou de uma pequena botelha de aguardente amarela de medronho, cortou os dois túbaros ao meio, fritou-os na sertã com azeite e malaguetas que trazia no bolso. Chamou-me e deu-me uma das metades a comer espetada na ponta da navalha. Mais por curiosidade que por fome ou vontade, comi. Era Bitó, mas não estava mau. Esponjoso, aveludado e picante.

Voltei depois ao quintal e ao Bitó. Mas o bicho já não reagia, nem fugia. Tinham-se acabado as correrias. Eu sabia que a capadela ia doer e guinchar, mas sempre julguei que continuaria tudo como dantes. Erro meu, tudo mudou. Percebi-o nos olhos do bicho, mas já o adivinhava nas primeiras dentadas nos túbaros do Bitó fritos em medronho. Como diz o velho ditado não se pode ter o bolo e comê-lo, ou no caso brincar com o porco e comê-lo…

15/03/06

Um Gajo Perigosíssimo Que Nos Anestesia A Todos!, por Labirinho

Este governo de mercearia que nos vai fazendo a folha, agora redescobriu o nojo do Cartão identificativo unitário, global, totalizante. Facilita, é simples e vem lá tudo. Genial! Como é que ninguém se lembrou disto antes?

Por acaso até já se lembraram. Os EUA tentaram e não conseguiram, a Austrália idem aspas aspas e o Tony Blair ia-se lixando com a brincadeira. Por cá, o Guterres falou e regulamentou e o Mário Soares botou faladura a dizer que aquilo era um atentado às liberdades individuais e zás não se falou mais nisso. Agora vem este esperto e pimba, já está. Ninguém protesta e ninguém abre o bico contra. Nem o Mário.

Ora, o inocente cartãozinho facilitador é uma barbaridade. Tá lá tudo. A nossa completa fichagem, que vai passar a estar sob o controle de um organismo emissor, que obviamente vai aceder e poderá cruzar todos os dados. E alguém vai mandar nesse organismo. E as garantias de que não vai haver cruzamento é para rir. Alguém vai mandar naquilo, alguém vai gerir, alguém vai usar. E tá ali tão à mão…

E isto é apenas o início, porque depois para nos proteger e melhor cuidar seguir-se-á a lista de doenças agregadas ao chip da Segurança Social e as declarações ao fisco no chip das Finanças e as compras de cartão bancário etc, etc.

Este governo faz tantas e tão depressa que as pessoas nem têm tempo para parar e pensar. E eles sabem disso. Este Sócrates é um gajo perigosíssimo.

12/03/06

O Preço da Chuva

O Preço da Chuva de Daniel Abrunheiro, um dos nossos daqui, vai ser lançado em Coimbra no dia 1 de Abril de 2006, pelas 18h30, na Casa Municipal da Cultura.
Já está disponível em http://www.pedepagina.pt/

É o segundo livro do Daniel. Comecei a lê-lo ontem à noite, estava cheio de sono, mas só parei às 3 da manhã. É irresistível, dos que se lêem de um fôlego, embora pela sua densidade poética, não seja nenhuma dessas margaridas rebelos paulos coelhos que se produzem a martelo e vendem a granel. Não. Aqui falamos mesmo de literatura, poesia ou prosa poética, seja o que for, mas literatura, mesmo. É neste livro que podemos ler coisas como estas:

«Por assim dizer, tive um amor americano com uma mulher portuguesa. Íamos para um motel.»

«É Novembro e chove grátis em todo o mundo»

«Tecem soltas como aranhas, a teia mental: a caligrafia. Quão manuais somos? As mãos vêem no escuro».

Não sei se este livro será um sucesso, mas se não for é um vergonha para o sucesso. Noutro país que não este Portugal zapping, desses onde as pessoas gostam de ler, certamente que sim, que seria...No dia 1 de Abril de 2006, pelas 18h30, na Casa Municipal da Cultura em Coimbra, o resto do Porco vai estar lá em peso, amigo Cão.

10/03/06

A Desaparecida de Ford, por Mangas

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Quando a Porta se nos abre, vemos um homem a cavalo que regressa a casa três anos após fim da guerra civil. O filho pródigo beija a cunhada respeitosamente na testa que o recebe de olhos fechados. Ford orquestra nesta cena, um notável jogo silencioso, expresso na reverência de um beijo que descobre o véu sobre um profundo sentimento de amor que existiu ou ainda existe entre ambos. Talvez esteja explicada a razão de uma tão longa ausência de casa após o final da guerra porque, no dia seguinte, quando chegou demasiado tarde para impedir o massacre, é o nome de Martha e não de Debbie que ele suspira entre dentes quando se depara com as cinzas da família na casa incendiada. A partir deste momento, o regressado que nem sequer à rendição apareceu, arde por dentro, não contemporiza com juramentos à lei e não mais quer ser chamado de “tio” por um meio índio adoptado pelo irmão, agora morto pelos índios. Ethan, tem o seu sabre e não está para fazer dele um arado. O tempo não é para orações, mas de Améns rápidos e determina-se a vencer na vingança o que perdeu no amor primeiro, e na guerra civil depois.

A vingança e o ódio podem ser armas poderosas. Ethan é o instrumento da morte que serve ambos e que, sem grande alternativas, pelo meio vai descarregando com brutal violência uma e outro - desde a matança dos bisontes, passando pelos disparos na testa do índio com os olhos arregalados, até ao momento em que retira o escalpe a Scar já morto. E Martin, o mestiço, rapidamente percebe que quando encontrar o bando de Scar, Ethan, na sua fúria cega, não hesitará em matar também Debbie que considera desonrada. Nunca os olhos do Duke foram tão sombrios e venenosos como os de um cão raivoso. Há ali dor a latejar e complexidade que não se explica, porque se sente apenas. Como uma cicatriz que arde na carne, como se a alma estivesse em ruínas, ou à procura de uma paz que, lentamente, ano após ano, se afasta de qualquer alcance.

E no clímax final, Debbie (uma jovem e belíssima Natalie Wood em ascensão), também percebe que não é para a embalar nos braços, como costumava fazer, que o tio vem. E corre. E foge. E Ethan corre atrás dela para a gruta. E Martin corre atrás de Ethan tentando desesperadamente demovê-lo de matar Debbie. E Debbie fica encurralada entre a rocha e aqueles enormes ombros de armário do Duke. Apenas a areia em seu redor. E o Duke agarra-a pelos ombros e levanta-a da terra como se fosse uma boneca de penas, como há cinco anos atrás na noite anterior ao massacre. E ela, encurralada, debate-se por breves instantes, com o medo e o terror estampado no olhar. E o Duke olha-a nos olhos, desce-a à altura da redenção, envolve-a com os braços, pega-lhe ao colo e com a voz de pai que lhe podia ter sido, diz-lhe:

- Let`s go home, Debbie.

João Bénard da Costa, citando o crítico J.A Place, diz que como em outros filmes de Ford, a mitologia grega está aqui presente e que o realizador que em plena época da caça às bruxas comunistas um dia se apresentou à Comissão McCarthy como: «My name is John Ford and I make westerns.», teria dado ao Monument Valley o papel que Homero deu ao mar, na Odisseia. Eu sou apenas um apaixonado compulsivo e sem história e para mim, a Desaparecida é a história de Ethan Edwards, um homem racista, perdido na vingança pelo amor a uma mulher que, paradoxalmente, persegue os seus propósitos com a ajuda de um mestiço que o salva pela redenção do amor a outra mulher - Martha a cunhada amada e Debbie, a sobrinha querida. Levou-lhes a ambos, cinco anos, tempo demasiado para o que, ainda assim, regressou ao lar e constituiu família, mas pouco tempo para o que se habituou à solidão deslocada de uma vida como uma ferida aberta. Por isso se lhe fecha a Porta.

08/03/06

A Porta, por Janela

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Este post não é sobre o filme “A Desaparecida” (The Searchers”). Também não é sobre John Ford e muito menos sobre John Wayne. Este post é sobre uma porta. A Porta da foto ao lado. A Porta do final do Searchers, o mais politicamente incorrecto filme de cowboys de sempre. Mas por aí, já ia pelo filme afora e ia estragar a encomenda do Mangas. E eu, só quero falar da Porta.

A Porta do Searchers é um ícone poderoso, mil vezes usada. Nela se recorta o arrebique do canto superior e o corpo de costas de John Wayne, que se afasta da vida familiar e sozinho avança para a luz intensa do deserto, para o vazio infindo. É a solidão do herói, se é que se pode falar em heróis no The Searchers.

A Porta é uma moldura recortada contra a luz cruel e cegante do deserto. Dentro dela se afasta Wayne. Cá para trás, dentro, está a família, o humano e para lá dela, afastando-se, vai o homem de encontro à sua solidão. A Porta termina o filme. E resume-o.

Ontem revi a Porta. Não num Ford, nem num final, mas num outro filme sublime, que começa com a mesma Porta. Onde Ford terminou, Quentin Tarantino começa. A Porta é a mesma, com arrebique também e também recortada contra a luz intensa, branca e cruel do deserto. Uma luz quase impossível de ver. Assim começa o Kill Bill Vol. 2 - A Vingança, com Uma Thurman - quem tem Uma, não precisa de duas -, vestida de noiva prenhe e a sair para a solidão. Para lá da Porta está o deserto cruel, e Bill a Besta, mas isso já era falar do Kill Bill, e eu só quero falar da Porta. A Porta que marca a fronteira dos dois mundos onde se movem ambos os heróis. A Porta do The Searchers é uma lenda em si mesma, e o mais engraçado é que a sua reprodução mil usada em publicidade e cartoons enferma de uma ilusão visual, o que aliás acontece também com este post. Aceitam-se apostas e palpites.

Tarantino repesca o ícone e o engano, homenageia o mestre e tal como ele trata do desumano. Dois filmes desumanos. Dois Mestres absolutos. A mesma Porta.

07/03/06

A infância e os seus problemas: o caso “Noddy”, por Automotora

Foi publicado aqui recentemente um post sobre o Bettelheim e a sua análise das relações do Lobo Mau com o Capuchinho Vermelho que, confesso, não entendi perfeitamente. Há ali qualquer coisa errada, embora não saiba bem identificar o quê; como se fosse um erro de paralaxe. Há textos que têm sobre mim esse efeito. Para mais, irrita-me especialmente a abordagem psicanalítica dos problemas sociais, bem como o uso constante das ferramentas freudianas de análise dos comportamentos, como que para os desculpar, ou relativizar.

Na estante de documentários que tenho em casa, em DVD, existe uma série que retrata bem essa realidade dos comportamentos desviantes, de forma fria e sem a “muleta” das análises desculpantes. É a colecção do “Abram Alas para o Noddy”, no qual podemos acompanhar o dia a dia de um menor no País dos Brinquedos. A câmara, qual bisturi afiado, vai escavando por debaixo do verniz de um cenário bucólico, sem sombra de mácula aparente, revelando surpreendentes e amargas situações de podridão social que faz parecer a Cidade de Deus, do Fernando Meireles, um filme de desenhos animados.

Um desses documentários, intitulado “Noddy e os Muffins Desaparecidos” começa com o desaparecimento de uma espécie de tarte de morango que esse rapaz, o Noddy, tinha deixado no parapeito da janela, a arrefecer. O miúdo foi então denunciar o caso ao policia, o Senhor Lei. O que é surpreendente é que este não só elaborou auto de denúncia (lembramos que era um simples bolo…), como aceitou que o Noddy o acompanhasse nas investigações, contra todo o bom senso. Isto, para além da óbvia falta de coordenação das investigações por parte das autoridades judiciais, diz muito do estado da justiça naquele País e do seu estado de anomia em geral. É claro que sem esses cuidados processuais, a investigação foi totalmente inepta. Seguimos o olhar da câmara e simplesmente não acreditamos nos nossos olhos! Quem quer que conheça aquela cidade, e os restantes documentários estão aí para o demonstrar, sabe que roubar produtos alimentícios é a especialidade de dois delinquentes: o Marrafico e o Sonso. Pois não foram eles, Santo Deus, que roubaram cones de gelados à Gata Rosa e bombons à Boneca Dina? Acontece que a ninguém ocorreu, no decorrer das investigações, que poderiam ter sido aqueles a praticar o presente acto malfazejo. Acabam por chegar a essa conclusão no fim, num desfecho dramático, totalmente desproporcionado em relação aos valores jurídicos em causa.

Mas importa aqui sobretudo analisar o comportamento da criança de que falávamos, o Noddy. Pois que faz ele? Pura e simplesmente, no decorrer das investigações, lança suspeitas sobre o Orelhas, nada menos do que o seu mentor e amigo de longa data, aquele que sempre o apoiou, que sempre lhe deu ajuda nas horas dificeis, que sempre foi para si um verdadeiro avõ. Aceita mesmo provar um bocado de uma tarte que o Orelhas está a comer para confirmar se aquela é, ou não, a sua. O Orelhas, que já o conhece, portou-se com bonomia esperada. Mas foi constrangedor ver aquele pequeno rapaz a portar-se dessa forma… Que o fizesse com a macaca Marta, como veio também a acontecer, enfim…, é que a macaca também tem alguns problemas comportamentais. Como se costuma vulgarmente dizer “a macaca não bate bem da bola”.... Mas com aquele ancião, um senhor respeitável, cordato, já com uma certa idade e a quem custa locomover-se? É patente que tudo isto resulta de uma educação desestruturada do miúdo, resultando num défice de valores morais sólidos. É, aliás, estranho, que uma criança como ele, que não terá mais do que oito, nove anos, viva sozinho, sem qualquer acompanhamento por parte da segurança social ou de comissão de menores. Inclusive, e isto deixou-me pasmado, conduz um taxi, um automóvel, sob o olhar complacente, e mesmo cúmplice, das autoridades e da comunidade, que o explora. Que fazer? Invocar o ID freudiano, como fez o Bettelheim? Os complexos de Édipo e de Electra? O complexo do raio que o parta? É isso que vai fazer o Betleheim, no Tribunal de Menores, quando o miúdo, um dia, fatalmente, escavacar a cabeça do Orelhas com uma picareta? Não importaria antes actuar de forma célere, conduzindo o rapazinho para a Casa do Gaiato, por exemplo, ou para uma familia de acolhimento? A avó do Capuchinho Vermelho não quereria aceita-lo em casa, contribuindo assim para aplacar, de certa forma, as pulsões sexuais da neta? Isto são questões que, enfim, ficam aqui para reflectirmos todos.

06/03/06

Michael Nyman, por Xeko

Não será do conhecimento de todos, mesmo daqueles que nutrem um gosto particular pela música contemporânea, de raiz clássica. Mas quem já teve o ensejo de o ver e ouvir, ao vivo, não poderá deixar de lamentar o silêncio, em que não o sentiu. Como compositor, director de orquestra e pianista.

É um compositor eclético, na procura de novas sonoridades, um transgressor na forma como as interpreta.

O seu público amplo e heterogéneo não esquecerá, no vasto reportório disponível, o protagonismo da sua música, no filme "The Piano, de Jane Campion.
Mas Nyman é bem mais do que isto. A sua relação com Peter Greenaway é única, no seu diálogo com a orquestra, na mistura dos instrumentos de épocas diferentes, no espaço que ocupa. Não ouvi, até agora, nada que se lhe compare, no género, em termos de criatividade e compromisso estético.

Com "The Piano Sings", que será revelado em Ponta Delgada, Famalicão, Alcobaça e Portalegre, Nyman surge só, embora com um som mais íntimo e despojado, em tudo semelhante ao que mostrou no Convento de S. Francisco.

Assim como Ada, interpretada por Holly Hunter, usava o piano, exprimindo aquilo que sentia, também Nyman se mostra através dele. O estilo de interpretação perdura, agora que criou a "MN Records".

É o que irei sentir, em completo êxtase, mesmo sem a Michael Nyman Band.

http://www.michaelnyman.com/
http://www.mnrecords.com/

02/03/06

Padaria Woody Allen, por Padeira de Aljubarrota

Este fim de semana fui à padaria. Que é como quem diz: fui ver Match Point, o excelente filme de Woody Allen, recentemente eleito o melhor padeiro do cinema contemporâneo.

Aqui há uns tempos atrás escrevi aqui no Porco um post entusiástico sobre a bela Scarllett Joahnsonn. Estehttp://tapornumporco.blogspot.com/2005_11_13_tapornumporco_archive.html
11_13_tapornumporco_archive.html

Como podem ler eu defendia então que a bela Scarlett é, c´est, u, uhum, bien, ela é absolutamente aham, isso e por aí fora… Nos comments de então, o nosso eterno Mangas sentenciou «que não»! A Scarllett é, para ele, trovejou!, definitivamente «um pãozinho sem sal»!!!!

Haver um de nós que diga uma enormidade destas e sobreviva para poder contar o feito é, por si só, revelador do elevado espírito ecuménico que caracteriza a malta do Porco. Mas nós somos assim. O Mangas é que nunca mais se livrou do que disse, embora tentasse amenizar justificando que o estilo dele «é mais Rita Hayworth»…

Scarllett Johansson fez um papel mais ou menos discreto em Ghost World com aquela pinta de teenager blasée. Mas em Lost in Translation – quanto a mim, o seu melhor desempenho - ela é fenomenal! Hollywood reparou nela neste cult movie de Sofia Copolla e começou logo a tratar de construir um novo mito: Girl with a pearl earring, dedicado ao célebre quadro de Vermeer já vive quase exclusivamente dela. O filme procura reproduzir a luz do barroco flamengo, cada cena é uma tentativa de aproximação ao ambiente pictórico do próprio Vermeer, mas é Scarllett a alma de tudo aquilo. Os grandes planos do seu rosto são inesquecíveis. Comparem a beleza da foto de promoção do filme e o quadro do génio holandês: se Vermeer tivesse podido pintar Scarllett, a sua Rapariga com Brinco na Orelha tornar-se-ia o retrato mais famoso da história da pintura.

Woody Allen, o padeiro, fez o agora o resto. Matou definitivamente a miúda desengonçada de Ghost World, acabou de vez com o fascínio sereno e frágil da menina de Lost in Translation. Ãllen continuou Girl with a Pearl Earring, fixou-se de novo no rosto de scarllett johansson e filmou-o, filmou-o, filmou-o em vagas sucessivas de grandes planos. Resistiu à tentação de reduzir Match Point a um vulgar Nove Semanas e Meia (Allen não é Adrian Lyne e ainda bem), mas é inquestionável que o reallizador/padeiro está notoriamente seduzido pela força da actriz. Scarllett Johansson transforma-se aqui na sex symbol da década. A cena do vestido branco, a da chuva ou a do encontro no bar são sem regresso.

Não sei, embora tenha gostado muito de Scarlett em Match Point, sinto uma certa nostalgia da menina perdida de Lost in Translation… Agora ela está mais perfeita, etérea, divina... Perdeu um pouco o seu lado terreno. No fundo, talvez o espertalhão do Mangas tenha tido alguma razão quando lhe chamou «um pãozinho sem sal». Bom, isso também é um pouco herético, mas eu diria que o padeiro do Woody a meteu num forno a arder, lhe acrescentou uns ingredientes e fez dela não um pão e muito menos sem sal, mas uma verdadeira obra prima da indústria da gastronomia: un chef d`ouevre, talvez seja isso…

Ah, quanto ao filme, gostei muito, é muito bom, é mesmo o melhor Allen desde Manhatan, mas que importa isso?Vemos óptimos filmes tantas vezes...