30/12/06

Barbárie


A morte bárbara de um bárbaro aos bárbaros nos igualou.

29/12/06

Memória do dia 27 de Dezembro de 2006, por Atanagildo Silerca

Dia 27 de Dezembro de 2006, saímos às 8:30 de Coimbra a caminho do Campo Real, nos arredores de Torres Vedras.
Excelente dia de sol com temperatura agradável e pouco vento. Campo em excelente estado. Grande jogatana. Acabámos por volta das 16:30. Como era muito cedo, sacrificámos o restaurante Trás da Orelha (web page off line), do qual guardamos uma excelentíssima memória (aquela açorda de cação, e o camembert fundido, …). Decidimos rumar ao Tromba Rija, em Marrazes, nos arredores de Leiria. Aí chegados, tivemos uma desilusão: estava fechado. A partir de Janeiro só abre aos fins-de-semana. Azar. Optámos então pelo Casarão, no cruzamento da Azóia, um pouco a sul de Leiria. Em boa hora. Excelente lombo de porco com silercas (cogumelos selvagens colhidos no Alentejo), óptimo ensopado de robalo e costeletas de borrego com grão. As entradas banais e caras, é preciso cautela e contenção. Carta de vinhos cara. Atendimento excelente. Crise? Qual crise? Leiam a história da vaca pelo Vasco Pulido Valente, hoje, no Público.

27/12/06

Santa Jenna, por Analogista Simplificado


Jacob [latim: Iacob] > Iaco > Iago > Tiago
ou
Jacob > Jacome > Jaime [inglês: James] > Jameson [filho(a) de James]
1933 - 2006

22/12/06

O Poder é uma Batata, por O Poder do Acho Eu de Que o Poder Está na Verba

Então é assim.
Desconfio, à cabeça, de gente com convicções “profundas” ou “arreigadas”. Acho, nesse sentido, extremamente sábia a visão taoista da vida, que centra a sua filosofia na dualidade dos contrários universais. Como explanou Lao Tsé, tudo na existência possui uma faceta negativa e outra positiva, da electricidade à natureza humana, tudo é dual, tudo é uma coisa e o seu contrário. As convicções não são excepção a essa regra e se a elas se devem inúmeras conquistas e realizações positivas, também contêm em si a semente do ódio e da destruição. Um terrorista islâmico ou nacionalista é um homem profundamente convicto da sua crença, por exemplo. Da mesma massa mas em sentido oposto é feita gente como Ghandi ou Madre Teresa de Calcutá.
Um homem convicto, no entanto, e por norma, é um homem dogmático e prisioneiro das sua verdade. O mesmo se aplica, naturalmente, a um homem agnóstico ou que faça da dúvida o seu método, se não houver o essencial equilíbrio e moderação entre as paixões opostas. Dai a importância de uma conduta pessoal ética, humanista e universal, igualitária e transversal, supra-confessional e supra-ideológica: tolerante. Esta circunstância dualista do homem e das coisas, que tanto pano tem dado para as mangas de autores e filósofos desde o dealbar da História, aplica-se também à história do cristianismo e à das religiões em geral.
É desse modo que o cristianismo e o catolicismo romano em particular, consegue oferecer do melhor e do pior, a paz e a guerra, o amor e o ódio, a intolerância e a incondicional aceitação do “outro” diferente. Por essas e outras nuances, a história do cristianismo é uma realidade extremamente complexa e dualista, um caminho de luz mas também de sombra e sofrimento. É também por isso que o pequeno ensaio do Borat pode ser lido como um manancial de contradições. Precisamente porque a história da sua fé é também tecida de profundas contradições. É normal e é humano.
Ao sustentar que a sua é uma igreja pioneira e revolucionária na separação de poder temporal e espiritual (o que nem é mentira na sua génese doutrinária, nas tais palavras revolucionárias de Cristo) Borat acaba por encher a sua prosa de exemplos precisamente do contrário, de casos em que foi e é flagrante a promiscuidade entre os dois poderes, de Constantino ao César-papismo, da coroação de Carlos Magno em Roma à Inquisição, da capacidade papal para destituir ou entronizar príncipes e reis às teorias de São Bernardo, do cisma Protestante ao banco Ambrosiano, o percurso da Igreja Católica está cheia de exemplos marcantes da interferência religiosa no governo dos homens e das coisas da terra – basta lembrar que se calcula que na Idade Média a Igreja do Vaticano controlava/possuía cerca de um terço das terras cultiváveis da Europa, como verdadeiros senhores feudais. Aliás, desde 756 que o Papa era o administrador político do Património de São Pedro, o Estado da Igreja, constituído por um território italiano doado pelo rei franco, Pepino. Se isso não é poder temporal, o que será?
Por todas estas e outras manifestações ou emanações do poder terreno do Vaticano, não admira portanto e por exemplo que a Revolução Francesa tenha vitimado sobretudo a nobreza e o clero. Não foi certamente porque o Clero andava a dar milho às pombas e aos pobres, mas era provavelmente porque as vozes de gente boa como o celebrado Francisco de Assis chegou mais profundamente aos peixes e a uns poucos cristãos do que à estrutura ortodoxa da Igreja. Assim como também não foi certamente por capricho que Lutero se revoltou contra a ortodoxia católica papista dominante e as suas indulgências e vida mundana, pregando em 1517 as suas 95 Teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg.
O facto é que nada disto é linear e muito menos simples e que vai uma grande distância entre o universo cristão, latu sensu e o sub-universo católico.
Nesse contexto tendo a achar que razão tinha Antero de Quental na célebre conferência do casino dedicada às “Causas da decadência dos povos peninsulares”, onde traça uma clara demarcação entre cristianismo e catolicismo. Para o grande Antero, depois do Concílio de Trento, o Cristianismo, "que é sobretudo um sentimento", afastou-se radicalmente do culto Católico, "que é principalmente uma instituição". Segundo o autor, se o primeiro vive da fé, o outro medra do dogmatismo e da disciplina cega. A mesma que levou a iniquidades como a Inquisição ou a evangelização forçada de milhares e milhares de seres humanos, não à força do sacralizado “Verbo”, mas tão só à força da maior força, que em nome da Cruz arrasou culturas e credos milenares um pouco por todo o planeta.
Antero de Quental, recorde-se, foi também dos mais ferrenhos denunciadores do poder temporal da Igreja Católica no nosso país. Esse facto, de resto, levou a que as Conferências fossem proibidas por portaria real e por pressão da Igreja. Pressão essa que se manifesta ainda hoje em inúmeros capítulos da vida social e cultural e que de espiritual tem muito pouco.
É neste sentido que acho que uma coisa são as boas intenções e as boas palavras, outra bem diferente são os factos e as suas consequências efectivas. Por isso é que eu acho (e o eu, já agora, sou os eus celebrados na capa da Time aqui reproduzida nuns postes abaixo e que anuncia ao mundo a revolução “achista”) que uma coisa é a alegada mensagem de Jesus Cristo (é preciso não esquecer que os Evangelhos que compõem o Novo Testamento só começaram a ser escritos quase um século após a sua crucificação e muita coisa foi deturpada pelas conveniências do contexto ou da vontade do escriba) e outra bem diferente é a organização religiosa e doutrinal que a partir daí se foi desenvolvendo e enriquecendo, moldando-se às conveniências do momento histórico. E essa (lá está a qualidade dualista das coisas) acaba por ser também a vantagem do catolicismo sobre religiões como o islamismo, muito menos permeável à mudança e à força das circunstâncias.
Não obstante e dada a sua natureza tendencialmente “imutável”, a Igreja Católica associa-se regra geral às tendências políticas mais conservadoras e reaccionárias (salvo raras excepções, como a citada pelo Borat “teologia da libertação” na América Latina, proscrita de resto pelas chefias eclesiásticas). Se no Portugal da guerra civil dos anos trinta do século XIX a Igreja se posicionou, realmente, do lado das derrotadas forças absolutistas (apoio concreto e que traduz só por si uma manifestação de interferência no «poder temporal»), não admira também que tenha sido um dos esteios fundamentais da ditadura salazarista (“Deus, Pátria, Família”), ainda que para o final da sua vida e do seu consulado o presidente do Conselho tenha perdido totalmente a fé no ideário católico, como bem lembra Fernando Dacosta no seu excelente “As máscaras de Salazar”.
Tudo isto são também factos, e tudo isto e a História mostram à exaustão como é falaciosa a tese da Igreja Católica enquanto expoente da “separação de poderes”. Teoricamente até será assim, e era bom que assim fosse e que a Igreja se reduzisse ao seu ministério espiritual, mas a prática vivida é uma realidade bem diferente e, por outro lado, há imensas formas, mais ou menos dissimuladas, mais ou menos directas, de condicionar ou interferir nos assuntos temporais e concretos da nossa vida social, económica, cultural ou política.
Diz o Borat que a Igreja é “simplesmente” uma “comunidade de crentes”. «Não uma hierarquia, nem uma instituição, não uma ortodoxia nem um Estado, não uma tradição nem um poder. Simplesmente uma comunidade de crentes». Não concordo. Por um lado, todas as igrejas, seitas, religiões ou cultos são obviamente comunidades de crentes. Por outro, a Igreja de Borat também é uma hierarquia, também é uma instituição, também é uma ortodoxia, também é um Estado, também é obviamente uma tradição e também é muito naturalmente um poder. E esse poder, basta olhar para o tema desapaixonadamente, tanto é espiritual como concreto.
Quanto a caberem lá todos, como já afirmei, conheço poucos cultos religiosos onde não caibam todos os que assim queiram e creiam. Se isso é ser “universal”, repito, todas as religiões o são. E isto não sou só eu a achar, é o poder da evidência. Para terminar, apenas lembro que além de não haverem verdades absolutas e definitivas, principalmente nas matérias do espírito e do sentido mais profundo da vida, a Igreja Católica, como todas as outras, é uma Igreja de homens para homens, e tanto é humana nas suas virtudes como nos seus defeitos e um destes, como sublinhava por exemplo Nietzsche, é a sede de poder, de supremacia, seja qual for a sua natureza, a que ninguém é imune, muito menos os homens que compõem a Igreja Católica Apostólica Romana, que é grande, mas é apenas uma entre muitas. Em si mesma nem boa nem má; em si mesma, por ser humana, má e boa em simultâneo. É tudo relativo, enfim, por muito que o senhor Ratzinger não goste.

21/12/06

Coboiada, por Billy the Kid

À primeira, quando a Sr.ª D. Profª. Doutora Maria de Lurdes Rodrigues afirmou que as decisões dos tribunais açorianos não tinham valor em Portugal, houve quem dissesse que era um lapso. Eu achei que era um sinal.
À segunda, quando a mesma senhora viu a sua arbitrariedade contrariada por decisões judiciais, a propósito da repetição dos exames de Química do 12º ano que lhe retiraram razão e obrigaram à repetição dos exames por parte de alguns alunos, bem como a abertura extraordinária de vagas suplementares na Faculdade de Medicina, houve quem dissesse que era um contratempo. Eu achei que era uma confirmação. Esta senhora e a sua equipa desrespeitam a ordem jurídica. Acham a lei um obstáculo e os tribunais uma maçada.
Agora, os tribunais acabam de proferir uma sentença que não só contraria a interpretação do Ministério da Educação relativamente às famigeradas aulas de substituição, como fazem impor a lei, o Estatuto da Carreira Docente que este governo acha um obstáculo. Prova-se que o desrespeito pela lei e pelo Direito é uma forma de procedimento, é um modus faciendi quando a lei obsta à arbitrariedade e à prepotência. É como os cóbois.
O que me surpreende é que, no interior do jornal, ao se fazer o balanço da actividade governativa ministério a ministério, a jornalista Isabel Leiria (IL) fale de «mexidas» e «contestação» quando deveria falar de ilegalidades e prepotências. Surpreende-me que fale de «alterações» ao Estatuto quando não deveria ser subserviente e dizer desrespeito pelo Estatuto. Indigno-me que escreva «contestadas aulas de substituição» quando deveria dizer que as ditas aulas são ilegais, inúteis e desnecessárias, que o único propósito é tratar os professores como funcionários para assim tornar subserviente uma classe profissional. Por isso é que a Senhora Ministra mandou os professores ler poemas nas aulas porque, a darem aulas, o que seria útil, haveria lugar a remuneração extraordinária. É isto que os tribunais dizem. É bom que se conclua que a Sr.ª Ministra não está interessada nem na qualidade do ensino nem na ocupação dos tempos livres dos estudantes.

19/12/06

Abaixo de cão!, por Kumba Ialá

Zé Sócrates é mentiroso. Disse que os impostos não aumentariam e aumentaram.
Zé Sócrates é manipulador. Manipula os órgãos de comunicação social ao ponto de banir os incêndios da TV. Manipula os estudos de modo a que sirvam uma decisão errada.
Zé Sócrates tem uma fraca preparação académica. Dizem que estudou no ISEC de Coimbra.
Zé Sócrates é uma nulidade profissional. É um carreirista.
Zé Sócrates não tem valor como intelectual. Não se lhe conhece nenhum trabalho teórico de reflexão e sistematização de pensamento.
Zé Sócrates não é frontal. Numa célebre entrevista ao Expresso foi incapaz de dizer se era a favor ou contra o aborto.
Zé Sócrates é dissimulado, preocupa-se mais com a imagem do que com a verdade.
Hoje, o Zé Sócrates mostrou aos portugueses que é o pior primeiro-ministro do Portugal democrático. Pior do que Santana Lopes. Aqui reside o único mérito de Zé Sócrates: conseguiu ser pior do que Santana Lopes. Provou-o hoje, aos que ainda duvidavam.
Recordemos os factos: a Assembleia da República aprovara a nova Lei das Finanças Locais. O Presidente da República submeteu o diploma à apreciação do Tribunal Constitucional. Zé Sócrates escreveu aos juízes do TC, acompanhando a carta de cinco pareceres de constitucionalistas a defenderem, todos presume-se, a constitucionalidade do diploma.
Notemos a idiotice do justificativo do Zé Sócrates: «Isso não constitui uma pressão porque o que me parece é que o Tribunal Constitucional não é pressionável.» Esta burridade, ilógica antes de tudo, constitui a maior e a mais grave idiotice da história política contemporânea. Se descontarmos aquela da Ministra da educação que afirmava que as decisões do tribunais açorianos não tinham validade em Portugal. De um gesto, Zé Sócrates ultrapassa a Assembleia da República, desautoriza o PS, afronta o Presidente da República, pressiona de forma inadmissível o Tribunal Constitucional insultando os seus juízes, instrumentaliza politicamente pareceres de constitucionalistas, expõe-se ao ridículo e atenta contra os princípios básicos da ordem institucional de um Estado democrático. Além disso, a frase está sintacticamente incorrecta. Pior do que Santana. Melhor, abaixo de cão!

17/12/06


Toni Goffe: Não Precisa de se Louco para Jogar Golfe... mas isso Ajuda; Lisboa; Leianaia; 2002

15/12/06

O Islão para Principiantes – 1: Não Agarrarás a Piça com a Mão Direita. Por Borat

Iniciamos hoje uma nova secção que visa esclarecer os leitores acerca de alguns assuntos relacionados com a religião islâmica. Vivemos sob a ameaça de um conflito civilizacional. Teme-se um confronto entre o Islão e a Cristandade. Nós, envergonhadamente cristãos, respeitamos na outra parte, assumida e orgulhosamente mussulmana, muito que não deveríamos respeitar. Por reverente ignorância. Para se entender o mundo de hoje, para perceber o fundamentalismo islâmico, é necessário conhecer os seus aspectos caricatos. Não são poucos. É quase tudo. O Islão é uma religião irracional e fanática, tribal e avessa à modernidade, inimiga do progresso e desrespeitadora dos outros, desprovida de alcance filosófico e profundidade teológica. Todavia, não se defende aqui que o conflito seja uma inevitabilidade, nem sequer se propõe a Cruzada. Esta atitude, praticada no passado e insensatamente proposta por muitos na actualidade, conduziria à perversidade de nos igualar ao nível do que repudiamos. O Cristianismo, como única religião Universal concebida pelo Homem, caracteriza-se pela sua capacidade de integrar o outro no que tem de válido, compreendê-lo, argumentar através da palavra e do exemplo, aquilo a que Roger Bacon chamava sermo potens, isto é, o poder do Verbo.
Posto isto, lembremos que o Islão não se fundamenta só no Corão, mas também na Suna, isto é, a Tradição, a memória da vida de Maomé, a compilação dos ditos atribuídos ao Profeta. O Corão e a Suna constituem a Charia, a Lei Islâmica.
Há inúmeras compilações da Suna, todas elas elaboradas entre os séculos IX e XII, que chegam a reunir mais de um milhão de ditos (Hadiths). Nem todas as recolhas são reconhecidas pelas autoridades clericais como autênticas, sendo todos dizeres avulsos, sem qualquer sistematização ou comentário. Uma das colectâneas mais conhecidas é a do sírio Sahih al Bukhari (século IX), que validou 7 000 dizeres. É aqui, neste conjunto desconexo de frases, que os crentes encontram as normas orientadoras da sua vida. De carácter jurídico e comportamental, modos de conduta e regras para o uso quotidiano, enfim, e em suma, os princípios orientadores da sua vida. Completamente idiotas, diga-se. Como esta:
«O Profeta disse: sempre que um de vocês urinar, não deve segurar o pénis ou limpar as suas partes íntimas com a mão direita.» (Hadith nº 156 do 4º livro de Bukhari). Isto é mais ou menos a Summa Theologica lá deles.

14/12/06

A Solução, por Nikki

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Breve comentário às Hipóteses em estudo

Hipótese A

Caracteriza-se pela configuração de um L constituído por dois corpos que albergam diferentes funções; um de uso mais reservado, basicamente ocupado pelo escritório e pelos corpos e outro de uso mais ‘público’ – o da cozinha, das salas e do alpendre. A fechar o L uma fileira de arvores de frutos ajuda a compor uma espécie de pátio voltado a Sul e no qual o destaque vai para a piscina ecológica, espelho de água que permitirá vislumbrar a casa de diferentes maneiras e pontos de vista.

Como aspectos a salientar nesta proposta, a economia das circulações – reduzidas a um mínimo com um desenho cruciforme alongado – e a correcta relação que se estabelece com o terreno, com a paisagem e com os pontos cardeais. (…) Como seria de prever numa solução tipo casa-pátio, que não é verdadeiramente, mas que também não deixa totalmente de o ser, trata-se de uma proposta menos virada para a paisagem circundante; uma solução, portanto, mais fechada sobre si própria, mais concentrada sobre os elementos que a compõem e sobre as suas relações funcionais.

Hipótese B
Distingue-se claramente da anterior pela definição da casa em um só volume, embora subdivido em três corpos justapostos: o dos quartos, voltado a Nascente, o do escritório, salas e cozinha, voltado a Poente. Entre os dois, o corpo das circulações, desenhado sob a forma dum pátio interior sobre o comprido, poderá receber luz zenital e de Sul, luz essa que irradia para os corpos contíguos, principalmente para o das salas-cozinha. Nesta solução o acesso ao piso inferior faz-se pela parte central do volume havendo uma tendência para que a cave fique quase totalmente enterrada. O corpo dos quartos ficará parcialmente cravado, permitindo que a transição entre corpos se faça sempre de nível e assegurando uma ligação também de nível entre o corpo das salas e o jardim.

Novamente a piscina ecologia, com o seu magnífico espelho a reflectir a casa a nascente e as colinas a Poente, atrai os olhares e direcciona a vivência doméstica.

Como pontos-chave desta proposta, por um lado, a forte articulação entre os espaços interiores, interligados através dum corredor-pátio para onde dão todas as divisões. Por outro lado, a relação da casa com a paisagem (ao fundo), enfatizada pelo enorme e ininterrupto envidraçado que atravessa todas as zonas de uso menos reservado. (…)

Hipótese Alternativa

Paralelamente a uma solução mais lógica, de compromisso, como seria a da hipótese A – e a uma solução conceptualmente mais radical, de cariz quase funcionalista – como seria a da hipótese B – perfila-se uma terceira via, de maior complexidade formal. A esta última, surgida in the last minute, por virtualmente exceder o que é solicitado, designou-se como hipótese alternativa. Na verdade, e apesar da sua aparente originalidade, não passa de ser uma variante da hipótese A. Desde logo, recupera a ideia dos dois corpos e a respectiva disposição ortogonal em planta. Porém, nesta nova versão, abdica-se da comodidade de circulação de nível, presente nas soluções anteriores, inusitando-se a sobre elevação do corpo dos quartos que se assume volume independente. Apesar do corpo da cozinha-salas manter-se como em A a discordância altimétrica dos volumes dá parece dar à casa um novo fôlego: a casa é a casa é agora menos compacta, menos previsível também.

Como resultado da elevação do corpo dos quartos foi então possível recriar de modo bem mais elegante o hall de entrada que ganha um duplo pé direito e adquire ambiguidade na sua relação com os espaços interiores e exteriores. Este soltar de corpos antes fundidos, como em acontecia em B, ou linearmente combinados, como em A, permite ainda tratar de modo mais individualizado as superfícies do novo volume: ora se deixam rasgar em longas aberturas, ora se fecham, ora se convertem em panos envidraçados revestidos por ripados que controlam a relação com a luz e com a envolvente. Note-se como a posição elevada inaugura uma diferente relação dos quartos e respectiva zona de circulação com a linha do horizonte. Por fim, o efeito de quase prestidigitação deste corpo paralelipipédico, pairando no ar sobre esbeltas colunas permite introduzir, por baixo, um amplo espaço coberto; um espaço de usos multifuncional: parqueamento, área de jogos (ping-pong, dardos, cartas, etc) zona de repouso, zona de convívio-barbecue, mirante sobre o jardim e sobre o vale, sauna envidraçada, voltada para o pôr-do-sol,...

Esta solução, ao contrário das anteriores, preocupa-se, antes de tudo, em libertar o chão, tornando o próprio terreno, logo pela manhã, quando o sol varre todo o comprimento do lote, no primeiro protagonista da casa e do seu dia a dia.

A partir daqui, a piscina, a zona relvada por detrás das árvores, as montanhas, o vale, o sol nascente e o sol poente, e céu e as estrelas, sempre visíveis, sempre próximos, tornam-se, de forma indelével, parte intrínseca do quotidiano de quem habita.

Paisagem, Terreno, Escritor, Casa e Cosmos num todo indivisível.

As funções que na solução anterior aparecem enterradas poderão continuar a existir, e na mesma projecção horizontal do corpo dos quartos, muito embora a garagem, na acepção de parqueamento, poderia ser substituída, com algumas adaptações, pela área coberta exterior.

13/12/06

A Encomenda

A/C de Nikki, o Arquitecto:

Meu caro, gostaria que me desenhasses uma casa com base no esqueleto que vou tentar descrever-te. Deverá ter 4 quartos, uma cozinha com bastante luz solar, uma sala ampla com lareira e um pequeno desnível entre o “estar” e o “jantar”; um escritório e uma biblioteca; uma cave/garagem onde também possa ter uma garrafeira sempre vazia porque a felicidade dos vinhos é poder bebê-los.

O quarto principal deverá ter anexada uma cabine de sauna, bem vês, gosto de sauna, faço sauna o ano inteiro no ginásio e pago-a a 4 duros a sessão – quando chegar a casa, de rastos, depois de “another day in paradise”, quero transpirar como porco escaldado antes de adormecer no enlevo dos lençóis de linho. Com sauna e linho quem é que precisa de pérolas, concordas...?

A minha sala deverá ter uma parede de outra cor que não o branco. Uma cor forte, intensa, salmão fumado parece-me uma boa solução. Outra característica fundamental da sala será nela afirmar-se uma lareira. Uma lareira grande, imponente, aberta, onde se alcance o fogo e as brasas com o olhar – informo-te já que não confio em fogo que não vejo!

Uma cozinha prática e funcional com rentabilização e aproveitamento de cada canto. Uma ilha a meio com um local de encaixe cimeiro onde pretendo pendurar facas, facalhões e cutelos para cortar delicado sushi à lâmina e cabrito à cacetada.

Um pequeno escritório de trabalho. Este espaço deve servir os propósitos da informática, pastas, arquivos, impostos, reclamações e outros assuntos kafkanianos aos quais temos de regressar de tempos a tempos. Gostava que este escritório tivesse uma parede de tijolo, (cada bloco unido por cimento branco ou o que quer que seja que une os tijolos e contraste com a cor terra que lhes dá o carisma), posto lá de forma quase grosseira, como o resultado de um labor manual e imperfeito, mas sólido e sustentado como o argumento de um policial negro. Entendes-me?

A Biblioteca – questão fundamental. Gosto de bibliotecas, sempre gostei de bibliotecas. Daquelas bibliotecas onde William de Baskerville mergulhou o fascínio do conhecimento e pelo meio resolveu os crimes em O Nome da Rosa; daquelas bibliotecas onde somos possuídos pelo encantamento alienado de poder consultar, ler ou apenas contemplar tantos livros. A minha biblioteca não precisa de ter dimensões desmesuradas, porque o meu conhecimento dos livros também não o é. Mas tenho alguns quantos. E alguns quantos filmes. E cds. E recortes, e textos soltos, e artigos sobre receitas, charutos ou a cultura do chá que fui de forma tão apaixonada quando desordenada guardando ao longo dos anos. E é nessa biblioteca que quero arrumar as palavras e preservar a memória das imagens. Em prateleiras e estantes voltadas para uma secretária em madeira e uma bela poltrona de couro onde irei escrever barbaridades e estrebuchar delírios para o Tapor. Algures, uma garrafa de cognac Napoleon ao lado de uns puros cubanos onde o Grunfo irá pendurar as beiçolas como um pitbull ao cheiro da alcatra. Uma biblioteca tão pessoal quanto plural. Ocorreu-me que a biblioteca poderia ser o núcleo central da minha casa. A célula onde todos os caminhos vão dar. Como a Roma. De que forma e com que disposição geométrica? Não faço a mínima ideia, mas se te agradou, podes voltar a chamar-me Senador!

Um braseiro para assar carne e beber tintos. Com forno a lenha para cozer pão, assar leitões e chanfana. Uma grande mesa de madeira ao centro para celebrar muitas Últimas Ceias depois do golfe, ou as partidas de nuestros hermanos bascos para Bilbau. O espírito de Revenga sem portas nem sub-solo.

Pátios, varandas ou afins. São elementos fundamentais. Quero varandas em todo o perímetro da casa. A casa pode ser percorrida por esse lado exterior, à sombra dos pequenos telhados, em toda a sua dimensão. Haverá pequenas mesas de madeira com cadeiras de encosto nesse resguardo a céu aberto. Como nas casas do deep south americano, Mississipi, Louisana e nos arrabaldes de New Orleans, onde a Harper Lee se sentava ao luar com o pai e aprendeu a escutar os sons das cigarras e a as histórias dos homens contadas por Aticus Finch, e a escrever, muitos anos mais tarde, o Não Matem a Cotovia.

Uma piscina deve ser prevista, centrada com o verde da relva que quero plantar, a oeste dos pessegueiros e cerejeiras que quero fazer crescer ao fundo do terreno. O jacarandá, a magnólia e outras sombras com raiz, ficarão em lugar a destinar e perto de água abundante.

Gosto de matérias que provêm da terra - madeiras, pedra tosca, tijolos, barro. Gosto de cores com o mesmo genótipo – castanhos claros, mel, laranjas, Agosto em final de tarde, tonalidades quentes, mas também azul marinho, verdes ciprestes. Gosto de linhas direitas, da austeridade japonesa, de arrumações compartimentadas e simples, de geometria recta e desprovida de ornamentos, de portões, das colunas do Parthenon e de candeeiros estilo postes de iluminação iguais àqueles para os quais mijava o Vasco Santana no Pátio das Cantigas. Gosto das formas simplistas e térreas dos motéis americanos, das suas linhas carregadas de horizontalidade. Detesto candelabros, cristais, brilhos ofuscantes, estilos rebuscados e com muitas curvas, cornucópias como as das gravatas italianas, classicismo rococó, pormenores acentuados. Sou um gajo informal de hábitos e simples de trajes – gosto de andar descalço dentro de casa sem correr o risco de apanhar uma pneumonia ou fungos nos pés.

A terminar, e se é possível acrescentar algo mais à minha modesta capacidade para visualizar a minha casa, deixo-te a mais simples e memorável descrição de uma casa-lar que já ouvi. É do filme O Gladiador. Na fria e distante Germânia, após a batalha, Marcus, o Imperador pede a Maximus, o General, que lhe fale da sua casa. Uma felicidade pacífica e serena irradia de Maximus à medida que as palavras lhe saem da boca.

Diz Maximus:
«A minha casa situa-se nas Colinas acima de Trujillo. É um lugar muito simples, feito de pedra cor-de-rosa que aquece ao sol. Jardins que cheiram a ervas aromáticas durante o dia e a jasmim à noite. Para lá do portão existe um enorme pomar. Figos, maçãs, peras. O solo, Marcus, negro... negro como o cabelo da minha mulher. Videiras no terreno a sul, oliveiras a norte. Cavalos selvagens perto da casa costumam brincar com o meu filho. Ele quer ser um deles.»
Fico à espera da tua resposta e inspiração, aquele abraço,

Mangas.

11/12/06

Wim Mertens, por Xeko

O lançamento do seu novo projecto “Partes extra partes”, gravado com a Flemish Radio Orchestra, com Dante Anzolini, era um bom prenúncio. Decidi-me, então, por ir ao TAGV, em Coimbra, onde Wim Mertens encantou uma sala repleta, expectante e atenta.
Era minha vontade, de início, assistir a dois concertos - um a solo, com piano e voz, e o outro, com a participação de Gudrun Vercamp, no violino -, na expectativa de ouvir "Struggle for pleasure", "Close cover" ou "The belly of an architect", assim como material inédito como "In and for itself" ou "With all its might", em dois registos diferentes.
Fiquei apenas por Coimbra, para uma experiência notável, pelo destaque que deu ao violino, tocado por uma Gudrun Vercamp inspiradíssima, que encantou.
A voz aguda de Wim Mertens continua a anunciar-se, quase etérea, ainda que de forma repetitiva, sem desvirtuar a dimensão rítmica. Mostra-se em simbiose perfeita com o piano, tal como se pode verificar em “Maximizing the audience” ou “Strategie de la rupture”
É certo que, perante 25 anos de carreira e a edição de 50 discos, é difícil esperar algo de novo, de diferente.
Mas este “refazer” da música, que o distingue no panorama minimalista actual, apoiado agora pelo violino, deu-lhe uma intensidade diferente, outra melancolia. O poder da voz - tal como é conhecido -, ainda subsiste, assim como a sua singularidade.
Além de sublinhar a paixão por ela, na sua expressão pura, mostrou-se disponível para outras sonoridades, sem abdicar do piano, que tão bem o distingue, desde “For amusement only”.
Perdida a oportunidade de 2005, de conhecer “Un respiro”, em Famalicão, não iria perder esta ocasião de o sentir, agora ao vivo, com “Partes extra partes”.
Foi o que fiz, tal como ele, só por diversão…

09/12/06

Ando a digitalizar as estampas de um livro tão velhinho que se estraga com o virar das páginas:


Victor Duruy: História de Roma. Desde a sua origem até á invasão dos barbaros; Lisboa; Escriptorio da Empreza Editora de Publicações Ilustradas; 1891; 4 volumes. Tradução de Manuel Pinheiro Chagas.

Tamanho grande aqui.

06/12/06

Gauguin, o Paraíso e a Modernidade, por Jacinto

No dia 4 de Abril de 1891, Paul Gauguin partia de Paris com destino ao Tahiti. Esta partida tem o valor de um protesto e significa a sua renúncia às convenções clássicas, ao mesmo tempo que denuncia uma necessidade de evasão que podemos considerar inauguradora da modernidade. É esta repulsa, que supõe uma renovação, que o vanguardismo modernista perseguirá incessantemente, desde os finais de Oitocentos até à actualidade.
Este gesto radical acompanha uma reflexão crítica acerca dos rumos da civilização num ambiente decadentista finissecular esteticamente compatível com o simbolismo em que o optimismo progressista começa a esmorecer e que se tornará muito mais agudo durante o período do 1º conflito mundial. A crítica da civilização burguesa, a desconfiança relativamente ao progresso e a recusa da tradição estética são fenómenos correlacionados. O degredo voluntário de Gauguin no Pacífico é pois o manifesto de um precursor da modernidade.
No Tahiti, o pintor sente-se reconfortado: «A pouco e pouco, a civilização vai-se afastando de mim. Começo a ter pensamentos simples, a ter pouco ódio ao meu próximo – melhor ainda, a amá-lo. Tenho todas as alegrias da vida livre, animal e humana. Fujo ao fictício, penetro na natureza com a certeza de um amanhã igual ao dia de hoje, tão livre, tão belo, e a paz desce até mim; desenvolvo-me normalmente e não sinto inquietações.» A esta intimidade com a memória das origens corresponde uma reconsideração do estatuto do artista e da função primitiva da arte que se reflecte no modo como um indígena se dirige ao pintor:
«- Ei! Ó homem que faz homens (sabe que sou pintor), Haere mai tama’a (Vem comer connosco) – a fórmula da hospitalidade em Tahiti.»
A harmonia paradisíaca remete-nos para um modelo de sociedade em que as relações se pautam pela simplicidade e em que o pintor redescobre o seu estatuto primitivo. O pintor é um criador, um mágico, um demiurgo fazedor de símbolos necessários à estruturação da comunidade. O sifilítico Gauguin, o que outrora especulava e enriquecia na bolsa parisiense, o burguês que abandonou a família na Europa e que se sentia oprimido pelo bloqueamento em que vivia a pintura europeia, parecia ter reencontrado no paraíso tahitiano todos os contrapontos ao infortúnio e ao descontentamento da vida parisiense.
Este “exílio” de Gauguin é equiparável em significado à loucura de van Gogh porque ambos, pela necessidade do exotismo ou pela trágica loucura, se manifestaram inadequados ao seu tempo. Nesta medida, foram os dois precursores de uma modernidade latente, pois que a vanguarda é uma insatisfação ansiosa. Insatisfeita com o presente e, por isso, desejosa de futuro.

Paul Gauguin: Noa Noa (Viagem de Tahiti); Lisboa; Assírio & Alvim; 2003.

Imagem: Ia Orana Maria [Eu te Saúdo Maria]; óleo sobre tela, 1891; 113,7 x 87,6 cm; The Metropolitan Museum of Art; Nova Iorque.

04/12/06


António Maia: Handicap 13; Lisboa; Estar Editora Ldª;1998

02/12/06

Uma Mamada em Conimbriga, por J. Piçágoras

No último quartel do séc. I, Conimbriga viveu o seu período de máxima prosperidade. M. Júnio Latrão, ilustre filho da terra, foi eleito para um cargo importante em Mérida, capital da província. Sendo imperador Vespasiano, o primeiro dos Flávios, a orgulhosa e próspera cidade decidiu construir um novo forum, arrasando o velho do tempo de Augusto. Esta requalificação foi acompanhada de outras intervenções, projectando-se umas termas mais dignas. Porém, os elevados encargos orçamentais determinariam um atraso nas obras, e os banhos só se concluiriam no tempo de Trajano. Imaginamos o afã dos projectistas e construtores num corrupio constante para cumprirem os prazos acordados. As oficinas trabalhavam sem parar, o mestre-de-obras incitava os operários, ora aliciando-os com pagamentos extraordinários, ora ameaçando-os com severos castigos. Duácio seria um desses diligentes empreiteiros. Supomo-lo ansioso à medida que o tempo passava e a obra parecia não avançar. A cidade estava ansiosa pelo novo edifício. Os notáveis locais não terão deixado de exercer as inevitáveis pressões. Duácio insistia com os fornecedores para que apressassem as remessas, para que reforçassem a produção, que exigissem um esforço suplementar aos operários. Faziam-se tijolos a um ritmo acelerado, os estaleiros exigiam matéria-prima e os trabalhadores estavam à beira da saturação. Tamanha seria a azáfama e tão persistentes as incitações que os operários se desagradam. Duácio, o nervoso empreiteiro, está sempre presente, gesticula, ameaça, castiga, pune e insiste. Exige mais tijolos, mais rápido, mais trabalho, mais esforço, o prazo aproxima-se do fim. Duácio anda tão atarefado que pediu ao filho que o ajudasse neste derradeiro esforço. Um desgraçado e anónimo operário, saturado, exausto, insatisfeito, farto das ordens de Duácio agora sublinhadas pelo filho, impossibilitado de ripostar, temeroso e conformado, escreve: E se o teu filho te chupasse na piça?! A face argilosa do tijolo fresco acolheu o desabafo. O ilustrado trabalhador pousou-o em mais uma fieira, com a face insultuosa cuidadosamente voltada para baixo, e assim domesticou a ira. Duácio viu a obra concluída nos prazos ajustados. Quase mil e novecentos anos depois, arruinadas as termas pelo camartelo do tempo, os arqueólogos levantam a poeira do esquecimento e descobre-se o insulto: Duatius, tacim filius felat te, que o professor Jorge Alarcão traduziu por Duácio, à capucha, teu filho te faz a chucha.


Jorge de Alarcão: Conimbriga, o Chão Escutado; Círculo de Leitores; 1999.

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