05/01/07

Barroco assim…também eu! Por Agostinho do Caraças

Ludovico Carracci (1555-1619) era primo dos irmãos Annibale Carracci (1560-1609) e Agostino Carracci (1557-1602). Eram todos naturais de Bolonha onde fundaram, em 1582, uma Academia inicialmente chamada Desiderosi (Desejosos) e depois Academia degli Incamminati (Encaminhados) que pode ser considerada a semente da arte barroca. Aí ensinaram e desenvolveram temáticas alegóricas e mitológicas com que cobririam depois os salões dos palácios bolonheses.
Agostino, o teórico da Academia, sob a influência dos pintores de Veneza, participa na decoração do palácio Fava em Bolonha, partindo depois com o irmão para Roma, em 1595. É então que o primo Ludovico assume a direcção da Academia. Em Roma, os irmãos Carracci atingem a maturidade artística, após tomarem contacto com os trabalhos de Miguel Ângelo e Rafael.
Os seus trabalhos mais esplendorosos foram as pinturas do palácio Farnese, a convite de Odoardo Farnese.
Odoardo era e filho de Alexandre Farnese, 3º duque de Parma e neto do papa Paulo III, e de D. Maria de Portugal, neta de D. Manuel I. Alexandre Farnese e Maria eram pais de Ranúcio Farnese que, após a morte de D. Sebastião em Alcácer-Quibir, deveria ter sido declarado rei de Portugal, se se tivesse respeitado como válido o critério sanguíneo, pois era à data o descendente mais directo de D. Manuel I. Poderíamos ter tido um rei italiano, D. Ranúcio I!
Voltando a Agostino Carracci, deve dizer-se que se notabilizou, para além dos frescos, pelas gravuras, nomeadamente as pornográficas, envolvendo figuras da mitologia clássica, o que constitui um dos aspectos mais negligenciados da sua obra mas que representa muito bem o espírito barroco que se afirma entre a rigidez da norma e a tentação da transgressão, entre a ortodoxia e o desvio. Ninguém melhor do que Miguel Ângelo traduziu esta angústia existencial com enormes repercussões na sua produção artística. No entanto, se em Miguel Ângelo o objectivo era incorporar a estética naturalista na mensagem espiritualista cristã, o que torna o corpo o palco de um conflito, no barroco trata-se de iludir a virtude submetendo-a aos ideais dionisíacos, o que faz do corpo uma máquina de prazer.

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