06/02/07

Elogio de um homem sem rosto, por The Face

«El-rei, quando soube que aquela gente ali estava e a razão porque vinham, mandou-lhes perguntar (…) o que é que queriam e a que eram ali vindos. E Fernão Vasques respondeu em nome de todos: que eles tinham vindo ali porquanto lhes era dito que el-rei seu senhor tomava por mulher Leonor Teles, mulher de João Lourenço da Cunha, seu vassalo. E porquanto isto não era de sua honra, mas antes causava grande desgosto a Deus e a seus fidalgos e a todo o povo, que eles, como verdadeiros portugueses, lhe vinham dizer que tomasse como mulher uma filha de rei, como convinha a seu estado.»
Este relato de Fernão Lopes, extraído da «Crónica de el-rei D. Fernando», bastaria para fazer de Fernão Vasques o maior português de sempre.
Nos tempos que correm em que, como diz Miguel Sousa Tavares, um povo se define na sua ignorância e mesquinhez ao alcandorar Salazar e Cunhal ao estatuto de portugueses mais ilustres da sua história, convém lembrar Fernão Vasques, um homem sem rosto. Deixemos de parte a discussão sobre a justificação do concurso, o privilégio dado ao presente que se funda apenas na ignorância do passado e do processo, as dúvidas sobre os mecanismos de selecção, o conceito ideológico que está subjacente a este modo de encarar a história, a estratégia de divulgação, a pertinência de um concurso disparatado, a irrelevância do resultado, o método de votação e tudo o mais que permite desqualificar a brincadeira até ao nível ínfimo da idiotia.
Aproveitemos antes o pretexto para reflectir sobre a história de um país que se estende já por quase um milénio. Da primeira centena de seleccionados, a esmagadora maioria não tem relevância quando se considera o milénio. E mesmo nestes dez, uma figura como Aristides Sousa Mendes, malgrado a coragem e o exemplo cívico que manifestou, não tem estatuto histórico, na minha opinião, para o título que lhe querem atribuir. Quanto aos outros, e tirando Camões e Pessoa no domínio da literatura, a todos se pode apontar uma face negra que, por si, seria bastante para os afastar do título: Afonso Henriques, o Infante, D. João II, Vasco da Gama ou Pombal. Resta pois considerar os ausentes. Por mim, era o Padre Vieira. Ou Fernão Lopes. Não fora Fernão Vasques.
Fernão Vasques foi um alfaiate de Lisboa que interpelou o rei directamente, falando em nome de todos. Repito, falando em nome do povo de Lisboa, Fernão Vasques, um vil alfaiate de Lisboa, interpelou directamente o rei, dando-lhe notícia do desagrado relativamente ao consórcio que D. Fernando se aprestava para selar com D. Leonor Teles. Mesmo considerando que a intimidade do rei com as gentes do povo, comum na época, possa diminuir o carácter inusitado da interpelação, a verdade é que o episódio não deixa de ser de extraordinária relevância. Desde logo que Fernão Lopes o achou digno de menção, e todos o consideram como um antecedente imediato dos episódios posteriores que fariam da revolução de 1383-1385 o acontecimento mais importante da história milenar do país. Considere-se primeiramente o facto de ser um alfaiate, um ofício manual, maculado pelos preconceitos medievais relativamente ao trabalho mecânico, tido por vil. Depois, Fernão Vasques dirige-se ao rei questionando-o em matéria de honra! Extraordinário, peço que se considere o padrão mental da Idade Média em que a honra e a dignidade régias quando postas em causa justificavam a ira e a condenação à morte. Lesar o bom nome do rei era uma quase blasfémia quase sempre paga com a vida. Para se entender a coragem do alfaiate tem que se ponderar esta circunstância.
Em terceiro lugar, repare-se como ele fala de «portugueses» e, ao interesse de Deus e dos fidalgos, ajunta o interesse do povo. E isto é que é verdadeiramente extraordinário: Fernão Vasques afronta o rei, interpela-o, critica-o no campo mais sensível, o da honra, desafia-o em público e fá-lo em nome do povo! É único na história da Europa. Num país cujo contributo para a história da ciência é nulo, para a história da cultura se resume a contributos esparsos e individuais, um país que não promove a arte nem a educação, um país que tem raros empresários e académicos dignos do nome, um país que não tem - numa palavra - elites para além dos oportunistas e cortesãos que disfarçam a mediocridade com a prosápia e a ostentação, o que este país tem de melhor é a espontaneidade popular. Fernão Vasques é o símbolo desse arrojo. Foi esta gente que se lançou sobre o Sul e o anexou ao norte cristão, foi esta gente que disse não ao rei D. Fernando e o obrigou a fugir e a casar secretamente, foram estes que elegeram rei em Coimbra contra todas as leis e costumes e que acompanharam a fidalguia a Ceuta, foram estes que embarcaram nas caravelas e praticaram barbaridades inomináveis tal como feitos inimagináveis, foi esta gente que emigrou para os quatro cantos do Mundo, fugindo, labutando, matando, evangelizando, violando e roubando, foi esta gente que se meteu na epopeia do bacalhau, pescando em botes solitários horas e horas a fio em pleno mar Árctico. Foi esta gente que morreu nas trincheiras da Flandres em condições impressionantes, foi esta gente que saltou os Pirenéus clandestinamente, que desbravou o interior da Amazónia, que seguiu Fernão de Magalhães na mais louca das viagens e que encarnou em Fernão Mendes Pinto na mais extraordinária das personagens. É este misto de inconsciência e arroubo, de ignorância e destemor, imprevidência e vaidade, que está na base da identidade portuguesa. Fernão Vasques é o seu símbolo. Foi enforcado pelas palavras que disse. Foi o primeiro a usar a palavra como forma de afirmação de uma vontade colectiva que se reclama injustiçada. Fernão Lopes usou a palavra escrita e da oralidade fez crónica, até que Vieira elevou a arte aos cúmulos de uma parenética inigualável. São os três maiores portugueses de sempre. Pelas razões contrárias de Salazar e Cunhal.
As Crónicas de Fernão Lopes; Lisboa; Gradiva; 4ª edição 1997; selecção, introdução e adaptação de António José Saraiva.

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