08/02/07

John Rambo e a Nova América de Reagan, por Arnaldo Menarca

Durante a guerra do Vietnam, Ronald Reagan deixara já a discreta e pouco sucedida carreira de actor e era governador da Califórnia, tendo reprimido os movimentos contestatários na Universidade estadual com o envio de forças policiais, durante esses míticos e agitados anos do flower power. Como governador, foi um dos alvos preferidos da ironia crítica do movimento hippie. Ouçam a gravação de Woodstock e lá ouvirão a canção Drug Store Truck Drivin' Man dedicada a Ronald Ray-gunsss por Jeffrey Shurtleff e Joan Baez. O parceiro de Baez refere-se ao governador com um trocadilho que remete para o passado de Reagan nos westerns de segunda categoria e lembra a atitude repressiva em face dos tumultos estudantis.

Durante a década de 60, a par da contestação pacifista contra a guerra do Vietnam, a América vai perdendo a inocência e as novas gerações não se identificam mais com o paradigma de herói até então veiculado por Hollywood. Entre o modelo viril e primordial representado preferencialmente em John Wayne, e replicado em muitos outros epígonos e sucedâneos como Robert Mitchum ou Kirk Douglas e que se esfumará escandalosamente com a homossexualidade de Rock Hudson, ainda que venha a encontrar posteriormente em Harrison Ford uma das últimas edições válidas e em Clark Gable um compromisso com o outro tipo de herói. Este segundo modelo, o do galã irresistível, delicado e insinuante, encontrará em Gregory Peck uma versão menos exuberante do que Gable e em Jimmy Stewart ou Henry Fonda variantes mais subtis em que a insinuação sexual se dissimula sob a capa poderosa da hombridade. Warren Beatty, Paul Newman ou Robert Redford são, na minha opinião, reedições, com óbvias especificidades, daquilo a que chamaria o modelo Stewart / Fonda, e no qual incluo ainda George Clooney, para citar apenas um modelo mais recente.

Além destes, encontro ainda necessidade de referir outros dois tipos de herói masculino em Hollywood, além de outros de menor relevância: o dos ícones sexuais, que inclui Marlon Brando e James Dean à cabeça, e que chega à actualidade representado, por exemplo, em Brad Pitt ou Leonardo DiCaprio, sendo interessante verificar a evolução do modelo de beleza masculino; e, o mais interessante de todos, o dos feios magnéticos que tem em Bogart o seu expoente, mas que se prolonga em Jack Nicholson, passando por Anthony Quinn. Ao longo da década de 60, o modelo de heroicidade masculina propagado por Hollywood, em todas estas modalidades e noutras mais, entra num período de crise e rejeição generalizadas. A juventude, em suma, já não quer saber de John Wayne. Isto, claro está, apesar das excepções e persistências que, malgrado todas as classificações e tipologias que estabeleci e que não devem ser lidas para além deste contexto expositivo, sobreviveram mais à custa do carisma pessoal e apesar dos tempos adversos. A verdade é que, na década de 70, busca-se outro conceito de herói e assomam novos ídolos que confirmarão uma tentativa de readaptação da produção cinematográfica aos novos tempos. Lembro-me, muito particularmente, de Steve McQueen, em Bullitt, ainda dos finais de 60, por exemplo, ou o “Dirty” Harry Callahan de Clint Eastwood, o Al Pacino de Serpico ou Um Dia de Cão, ou ainda, e especialmente, o Robert De Niro do Taxi Driver. A América parece satisfeita com os seus novos ídolos. Mas não está. Esvaído o summer of love, confrontada com o escândalo Watergate e a renúncia de Nixon, concretizada a retirada do Vietnam, a verdade é que a América tem ainda que analisar as feridas. Michael Cimino, primeiro, com O Caçador, de 1978, e depois Francis Ford Coppola com Apocalypse Now, no ano seguinte, abordam da melhor maneira possível a temática do Vietnam. Mas falta um herói. A América faz a sua análise no celulóide, mas falta um herói. Marlon Brando e o seu Kurtz, apesar de genial, já não se adequa ao papel de herói da América. Muito menos Robert de Niro, que nunca foi para isso talhado.

A América quer um herói diferente e novo. E ele aparece. Num primeiro screen de um filme de 1982, com um ar melancólico, traumatizado, desengonçado, solitário, envolto pela paisagem da América profunda: John J. Rambo, Sylvester Stallone, um antigo veterano do Vietnam, que vai pela estrada, solitário como todos os heróis americanos, em busca de um amigo. Lembro-me de ver o filme na altura e de, precipitadamente, com os complexos naturais da idade, o haver rejeitado liminarmente. Há poucas semanas adquiri-o na versão DVD, por menos de 5 euros na FNAC, e só então, ao revê-lo, me apercebi da sua importância fundamental. É um dos grandes filmes do cinema americano, sem dúvida.

O amigo que Rambo procura morreu de cancro vítima da utilização de napalm. Os soldados americanos surgem como vítimas isoladas após o regresso, vítimas do esquecimento e da rejeição pacifista. Rambo anda sozinho, ninguém diria que é um herói de guerra. O chefe da polícia local toma-o por vagabundo e expulsa-o, conduzindo-o aos limites da sua jurisdição. Rambo não se revela, permanece conformado, com um olhar doente e adormecido, como um animal escorraçado, papel que evidentemente assume, ainda que se adivinhe a força contida e as agruras passadas. Quando o xerife o larga na estrada, Rambo tem um assomo de consciência e dignidade, inverte a direcção e regressa à localidade de onde o expulsaram. Em nome da memória e do sacrifício dos veteranos de guerra, supõe-se. Rambo, que é agora a América em busca de uma pacificação com os seus traumas, desafia a ordem e recusa ser um marginal. É uma declaração de guerra, uma luta pela inserção, pelo reconhecimento e pela dignidade, um esforço de se conformar com a memória da guerra. É afinal o que a América necessita, analisar o seu passado recente, reencontrar-se após os horrores da guerra, da hipocrisia da administração Nixon ou dos lirismos do flower power.

John Rambo é preso e mal tratado. É espancado e reage violentamente, pois vêm-lhe à memória as torturas sofridas no Vietnam. Inicia-se a guerra de um herói solitário contra a América inteira. A América entusiasma-se. O público aderiu ao filme e ao herói. First Blood foi um enorme sucesso comercial que daria origem a uma sequela cujos méritos já são mais duvidosos. Rambo refugia-se na floresta como um animal acossado, esconde-se numa velha mina abandonada, nas entranhas da terra, confronta-se com os ratos, é dado como morto, luta desesperadamente pela sobrevivência e pela evasão. Renascido das profundezas da terra, o que é dizer da mais funda das raízes originais, despojado de toda a condição e livre de todas as amarras, reergue-se solitário, refeito da dor e do sofrimento, e logra achar uma saída para a floresta onde fora perseguido por cães e policiais feitos caçadores.
Retorna à cidade e semeia o caos, numa orgia de destruição, chamas e explosões. Mas não de morte. Ninguém morre na destruição que Rambo provoca. A fúria do herói, mais do que vingativa, é cívica, é uma luta pela dignidade que a América procura. Fechado na sede da polícia local, acede apenas a falar com o seu superior, o coronel Samuel Trautman representado por Richard Crenna. Aí, Sylvester Stallone revela todas as suas insuficiências como actor. Num monólogo choroso, arrastado, melodramático, medíocre, Rambo verbaliza em face do seu paternal superior, que presentifica a memória dos fundadores da América, todos os horrores vividos no Vietnam. Do ponto de vista da representação a figura de Stallone é risível. Mas aquilo é a América a fazer uma auto-análise. Não no confessionário, nem no sofá do doutor Freud mas no celulóide já previamente preparado por Cimino e Coppola. Stallone chora, com aquele corpo musculado e animalesco e, quando se ergue, reparo como Stallone inventou um novo modelo de herói. O corpo musculado mostra como, entre o modelo duro e viril de Wayne, e o de galã delicado de James Stewart, evitando a tendência dos anos de 70, Stallone recupera e reinventa um outro modelo que até então só fora explorado por Johnny Weissmuller no seu inesquecível Tarzan. Rambo parte desse modelo de Weissmuller, que o seu espaço é também a selva e o seu talento é também o músculo, e oferece à América o herói que ela buscava.
Quando Rambo desce a escadaria da esquadra policial, algemado e acompanhado pelo coronel Trautman, as luzes dos carros policiais tingem-lhe a face, a câmara aproxima-se a imagem pára. O filme acabou, o olhar de Rambo tem agora dignidade e Ronald Reagan é o presidente da América.

É muito interessante como a América se redescobre neste regresso a Reagan que apela ao paradigma Wayne. Reagan apresenta-se como um velho actor de Hollywood, do tempo dos westerns saudosos, aparece vestido à cowboy, com uma linguagem simples e um discurso patriótico. A América renasceu e recuperou da depressão da administração Nixon e do trauma da guerra. Enquanto isso, na era dos Reaganomics e da prosperidade económica, do triunfo dos valores básicos e da ofensiva final contra o império soviético que dá sinais de cansaço ameaçando cair aos pés de Reagan, como se fora um filme de Rocky, filão que Stallone explora para além do filão Rambo. A América aplaude, finalmente, pois reencontrou um herói. Virá depois Arnold Schwarzenegger, o homem dos músculos de aço que, a partir do modelo Stallone, levará as suas personagens aos limites da brutalidade e da exuberância musculada, encontrando aí o caminho que o levará à governação da Califórnia, o ponto exacto onde, com Reagan, comecei este longo texto.

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