24/02/07

O Círculo dos Tigres, por Santo Ireneu de Leão

Foram recentemente divulgados os resultados surpreendentes de uma equipa pluridisciplinar de cientistas chineses do Instituto das Ciências Comportamentais de Beijing, chefiados pelo etólogo da Universidade de Beijing III, o dr. Zhao Ziaming, que, conjuntamente com a direcção do Parque Zoológico de Bangalore, na Índia, durante os últimos 8 anos se ocuparam a estudar o comportamento dos tigres indianos. Foram feitos registos sistemáticos e comparativos do comportamento dos felinos em cativeiro e em ambiente selvagem, tendo-se utilizado pela primeira vez tecnologia de monitorização produzida em Silicon Valley por empresas fornecedoras da NASA, graças a um protocolo inédito de cooperação entre os representantes destes dois países e o governo federal dos EUA, ainda no tempo da administração Clinton. Este acordo foi à época muito criticado pelos adversários do antigo presidente, uma vez que previa a utilização de microprocessadores e ligações por satélite passíveis de aproveitamento militar, tecnologia que, segundo os críticos, deveria ser classificada e restrita, uma vez considerados os perigos para a segurança nacional, particularmente no que respeita às cerâmicas de alta condutividade que, entre outras aplicações, equipam as ogivas dos mísseis de última geração. Superadas as desconfianças iniciais e desfeitos os temores relativamente às intenções dos investigadores chineses, são agora divulgadas as conclusões do estudo, salientando-se desde logo a utilização pacífica da tecnologia. De facto, a mais moderna tecnologia de detecção, monitorização, processamento de dados e comunicação por satélite foi aplicada na observação do comportamento dos grandes felinos. Foram produzidas milhares de horas de gravações video, milhares de páginas de relatórios, milhares de fotografias e registos sonoros.

De entre todas as interessantes conclusões do estudo, divulgadas no último número da revista "Natural Studies of the American College of Ethiology", o dr. Ziaming destaca um pormenor que, sendo aparentemente irrelevante, despertou a atenção dos cientistas, orientando a investigação para uma conclusão surpreendente. No seu habitat natural, em liberdade, os tigres indianos, aliás como todos os grandes felinos e quase todos os mamíferos, nunca, nas suas deambulações, descrevem círculos. Contrariamente aos especimens de cativeiro que observamos constantemente em itinerários circulares na exiguidade das suas jaulas. A equipa do dr. Ziaming começou por reparar que, quando deslocados para jaulas mais vastos, os tigres persistiam no mesmo tipo de comportamento que estamos habituados a observar, descrevendo os mesmos exíguos círculos, não se tratando pois de um processo de adaptação à exiguidade física, mas sim um processo de adaptação à clausura. O enigma adensou-se quando os cientistas se aperceberam que dos 38 indivíduos monitorizados por satélite em estado selvagem, nunca nenhum, durante os cinco anos que durou o estudo, desenhou alguma vez um trajecto circular.

Em face desta constatação, procedeu-se à observação da actividade cerebral dos animais através dos dados electroencefalográficos obtidos por microchips instalados na parede craniana dos tigres. Os elementos assim obtidos foram enviados em tempo real, graças aos modernos satélites postos à disposição da equipa, para os computadores das universidades cooperantes, vencendo-se a distância através do contacto permanente por internet. Foi então que o grupo se confrontou com uma descoberta surpreendente: os tigres de cativeiro desenvolviam ciclos de actividade cerebral em conformidade com os círculos percorridos na jaula, de tal modo que, ao passarem pelo ponto de partida, uma descarga eléctrica controlada produz um efeito anamnésico, de forma a que o percurso se apresente como uma novidade. "Podemos concluir - adianta o dr. Zhao Ziaming - que o tigre enjaulado utiliza como estratégia de sobrevivência em cativeiro o apagamento da memória, o que é dizer, ministra descargas eléctricas controladas que impedem as células de conservar a memória do trajecto percorrido, permitindo que se apresente como incessantemente renovado. É o suicídio episódico como estratégia de sobrevivência. O controlo sobre a actividade cerebral impede a acumulação de memória, a formação de conhecimento e até a percepção de si próprio, sendo que, em rigor e dado o efeito anamnésico causado pela descarga autoinduzida, por cada círculo descrito é uma nova identidade, ainda que episódica, que o tigre assume. Deste modo, em cada percurso, tudo se lhe afigura novo e suportável, concluem os especialistas. A corroborar esta tese está outro dado avançado pelo Patologista Michael Cyrne, da Universidade de Colorado e coordenador da equipa biomédica, que confirmou que a produção de espermatozóides pelos machos enclausurados baixa cerca de 75% relativamente aos exemplares selvagens. Tal dado é interpretado pelo prof. Cyrne como sendo mais um elemento da estratégia de adaptação dos grandes felinos indianos, pois que o empobrecimento do material genético pela drástica diminuição do “catálogo” cromossomático disponibilizado é um autêntico «genosuicídio» para usar a expressão do cientista no relatório que publicou na já citada revista do «American College of Ethiology». É que, conclui o prof. Cyrne, tal estratégia inviabiliza mesmo a adopção de técnicas de fertilização assistida pelo que, a prazo breve, «os exemplares nascidos estarão adaptados às condições de cativeiro o que, numa espécie tão apreciadora da liberdade como parecem ser estes felinos, equivale a dizer que estarão extintos, por decisão própria e como reacção ao cativeiro que lhes é imposto.»

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