26/02/07

Ossos Trocados, por Zé Manel


Vasco da Gama morreu em 24 de Dezembro de 1524. Tinha regressado à Índia, pelo caminho marítimo que ele próprio desbravara, para pôr ordem na balbúrdia que por lá reinava, a pedido expresso do rei, posto que os abusos da lusitana gente eram de tal monta que se temia que o desprestígio assumisse tal dimensão que ameaçasse a presença portuguesa. Em suma, o habitual: roubalheira, corrupção, crimes, conflitos, desrespeito pela autoridade, abusos de poder, cunhas, cobiça, inveja, e mais outras especialidades do génio lusitano. O Gama, que já havia garantido para si um bom quinhão em terras, títulos, comendas, rendas e tenças, acedeu deslocar-se à Índia pela terceira vez para pôr ordem naquela confusão. Tomou o título de Vice-Rei em Baçaim, quando lá chegou em Setembro de 1524, impôs a ordem com autoridade férrea, o que também é típico do procedimento nacional, sentiu-se mal, adoeceu gravemente e morreu na véspera de Natal, em Cochim, tendo sido aí sepultado.

Anos mais tarde, as ossadas do vice-rei foram levantadas pelo filho, em 1539, e trazidas para a Vidigueira, para um jazigo familiar. A igreja foi remodelada pelos finais do século, e os ossos foram novamente levantados, sendo depositados na capela-mor pelo neto. Foi gravada uma pedra que lhe chamava «Argonauta» e lhe recordava o feito e os títulos. Defronte, foi tumulado o bisneto, e mais outros familiares, sendo-lhe atribuída lápide idêntica, já que o herdeiro também foi vice-rei da Índia.

Por meados do século XIX, os túmulos foram profanados. Quem recolocou as lápides parece que já não sabia quem era quem e trocou-as. Em 1880, ano do tricentenário da morte de Camões, a Pátria decadente, a uma década do ultimatum inglês, decidiu mitificar e recordar os tempos áureos. Restauraram-se os Jerónimos, enrobusteceu-se o Partido Republicano, organizaram-se comissões comemorativas, desfiles, congressos e edições de luxo e puseram-se as ossadas de Camões e do Gama nos Jerónimos.

No dia 7 de Junho de 1880, os restos do Gama, sob a orientação técnica de Teixeira de Aragão, foram trasladados para o mosteiro. Houve cortejo fúnebre, cerimónias solenes, devoção religiosa, comoção popular, altas figuras do Estado assistiram ao préstito, sentinelas e guarda de honra, comboio especial, postes engalanados, tocaram-se os hinos, salvas de artilharia, foguetes e até a família real inteirinha assistiu à cerimónia. Ora, como o pobre Teixeira de Aragão desconhecia a troca dos ossos, a verdade é que quem foi alvo das honras solenes da pátria não foi o Gama autêntico, isto é o Vasco, mas o herdeiro que, embora não menos autêntico, não era o pretendido, posto que foi o bisneto que, episodicamente e por engano, por escassos anos habitou o supremo altar da devoção patriótica lusa, mesmo ali ao lado dos ossos do grande Camões. E não foi só o bisneto, parece que a urna continha as ossadas de mais familiares, descendentes do navegador.
Foi só na manhã de 9 de Maio de 1898 que os ossos do Gama autêntico foram depositados em Lisboa e a tropa fandanga regressou ao panteão de onde nunca deveria ter saído: a tumba da Vidigueira! Quer dizer que, durante todo este tempo, a família do Gama foi passear até Lisboa, hospedaram-se nos Jerónimos às custas do erário público e ninguém disse nada, ninguém reparou, ninguém comentou? ‘Tá mal, pois claro que está mal!

SANTOS, João Marinho dos e SILVA, José Manuel Azevedo e: Vasco da Gama. A Honra, o Proveito, a Fama e a Glória; Porto; Editora Ausência; 1999; 145 e ss.

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