19/03/07

Um pintor suíço e um enigma português, por Fritz Lopes

Em 1444, um suíço que provavelmente nunca viu o mar pintou uma das mais importantes obras da história da pintura: A Pesca Milagrosa. O quadro, pintado sobre madeira e hoje no museu de Arte e História de Genebra destinava-se ao retábulo da catedral genebrina e é medíocre, não fora a fisionomia judaizante com que ainda retrata Jesus Cristo e, principalmente, o facto de se tratar da primeira pintura de paisagem da arte ocidental. Este facto é extraordinário, pois que a paisagem de fundo que enquadra o milagre bíblico ocorrido no Mar da Galileia é uma paisagem real e local, é o lago de Genebra.

Só o facto de fornecer à narrativa bíblica um fundo paisagístico já é em si uma novidade protorenascentista, pois que o mundo natural reclama, pela primeira vez, o protagonismo à narrativa sagrada, anunciando a disputa entre o sagrado e o natural que constituirá a principal linha de ruptura da cultura do Renascimento. O humanismo renascentista define-se na apropriação do mundo pelo entendimento, resultando, desse processo de conquista do natural pela razão quantificadora, a divinização do Homem, emancipado em relação à Providência e destinado ao domínio universal pelo exercício e pleno desenvolvimento da sua potencialidade cognitiva.

Para os homens da Renascença, mormente para Leonardo, posto que o estético e o científico são indestrinçáveis – isto é, o belo é científico e o científico é belo –, a pintura considera-se uma ciência, e já não um simples ofício mecânico, pois que a arte da pintura supõe o conhecimento das leis universais que regem o mundo, assim se elevando o pintor ao estatuto de Criador.

O lago de Genebra das tábuas de Witz anuncia, deste modo, a submissão da Natureza ao domínio do Homem e é uma amostra do Mundo cujas verdadeiras dimensões são descobertas pelas viagens portuguesas dos séculos XV e XVI. Na verdade, desde a segunda década do século de Quatrocentos, e pelo menos durante a centúria e meia seguinte, os navegadores portugueses desbravam todos os continentes e oceanos. O que, a este propósito, constitui um mistério inexplicável, de tal monta que se pode mesmo falar num enigma, é como é que os descobrimentos não deram origem a uma pintura de paisagem! Nenhum artista português pintou paisagem. Desenharam fortalezas e drogas exóticas, estudaram os astros e fixaram as tabelas de declinação solar, descreveram o regime dos ventos, das correntes e das marés, negociaram tratados e apuraram a arte da guerra, fundaram missões e preçaram todas as mercadorias, mas nenhum se deslumbrou com a paisagem dos novos mundos ao ponto de pintá-la! Não serve sequer de escusa a tradicional ausência de talento à altura do empreendimento, pois que Nuno Gonçalves colocara a pintura portuguesa na vanguarda estética da Europa. Além do que outros grandes nomes possuem justa dimensão internacional, como Álvaro Pires de Évora que merece a atenção de Giorgio Vasari ou Grão Vasco, apenas para citar estes. De entre todos, nenhum se lembrou de fazer dos vastos e exóticos espaços descobertos um tema de pintura. Exceptue-se uma Adoração dos Magos de Grão Vasco em que aparece representado um índio brasileiro pouco tempo após a viagem de Cabral. Esta excepção atesta como os artistas estavam atentos às novidades e se não encontraram nos relatos dos descobridores motivo de inspiração, a razão tem que se buscar nos factores culturais e mentais. Tanto mais quanto Witz era tecnicamente medíocre e a mediocridade não lhe toldou o sentido da modernidade. Tanto mais ainda quanto, em 1515, o genial Albrecht Durer, na longínqua e continental Nuremberga, desenhava, inspirado apenas num relato escrito indirecto, um rinoceronte que chegara a Lisboa e que causara espanto, sem que a distância lhe limitasse a percepção da espantosa novidade.

Em suma, Konrad Witz, que provavelmente nunca viu o oceano e para quem o lago de Genebra era o que de mais próximo conhecia da imensa vastidão oceânica, celebrizou-se ao levar a Natureza para o mundo da representação artística. Durer que só conheceu o mar na limitada visão da exígua varanda holandesa ou na mansa versão mediterrânica, interessou-se suficientemente pela descoberta dos novos mundos ao ponto de os desenhar a partir de um relato distante e avulso.

Quanto aos exploradores portugueses que desvirginaram terras exóticas, que se embasbacaram com as maravilhas da Criação, que calcorrearam o interminável Pacífico onde cabem milhares de Lagos genebrinos e Mediterrâneos amontoados, que foram ao Japão e ao Pegu, a Timor e ao Brasil, que viram índios e converteram o rei do Manicongo, que demandaram a Etiópia e o rio das Pérolas, que gesticularam com indígenas de todas as cores e religiões, que mataram e escravizaram gentios, tanto quanto os baptizaram e introduziram no estudo das letras, que navegaram em largos rios e viram animais fantásticos, selvas intermináveis e céus infinitos, riquezas indescritíveis e palácios esplendorosos, não se lembraram de transferir para o campo da representação estética esta ímpar experiência do fantástico.

Mas não é tudo. O maior de todos os enigmas o notou António José Saraiva, citado por Vitorino Magalhães Godinho que me suscitou esta reflexão. É que, nota Saraiva, Fernão Mendes Pinto, talvez o mais extraordinário dos viajantes, a par de Marco Pólo, não se sentiu impelido, ao contrário do veneziano, a redigir uma única linha por onde descrevesse as terras por onde andou! Incrível! Inexplicável! Enigmático! Tal é o enigma que nos define enquanto povo.

1 comentário:

slcarvalho disse...

Interessante o seu artigo. E conhece Konrad Witz, o que é sinal de cultura.
Acabo de escrever um romance sobre esse quadro. Chama-se "O retábulo de Genebra". Tem razão, o quadro não é uma grande "espingarda". Mas tem uma história fascinante.
E parabéns pelo seu site.