21/04/07

D. Pietro dispondo pudicamente as imagens de S. Roque e de uma Vénus desnuda, ou o manifesto de Rossellini contra a barbárie na Roma ocupada de 1944

Há uma cena no excelente filme Roma Cidade Aberta de Roberto Rossellini, quando o padre D. Pietro Pellegrini se dirige a uma loja de antiguidades ao serviço da resistência comunista para cumprir uma missão clandestina, que merece atenção pormenorizada. Roma está ocupada pelos nazis, os comunistas organizam a resistência, e Giorgio Manfredi, o cabecilha, foi denunciado pelo que se torna perigoso circular na cidade vigiada. D. Pietro aceita pois a missão perigosa de contactar a tipografia clandestina na cave de uma loja de antiguidades.
Rossellini poderia ter imaginado uma alfaiataria ou uma loja de ferragens, uma barbearia ou uma taberna, mas não, encenou o episódio numa loja de antiguidades. Don Pietro entra no estabelecimento. Lá fora, mirando a montra, dois soldados germânicos fardados. O padre, com as vestes talares típicas do clero da época, é recebido pelo negociante de antigualhas. O cura não é esperado, pelo que antes de se apresentar diz procurar uma imagem Santo António. Desconsoladamente, o negociante declara que não pode satisfazê-lo e oferece antes um S. Roque. Apresenta-lhe a estátua do santo medieval representado nos trajes de peregrino com um cão pousado aos pés de acordo com a iconografia tradicional. Defronte, sobre o mesmo balcão, uma Vénus desnuda, à maneira clássica de Praxíteles, exibe a nudez luxuriosa. Don Pietro, incomodado, vira a estátua pagã de costas para o santo. Ainda insatisfeito, suspeitando que a contemplação das nádegas não condiz com a virtuosa castidade do santo, vira as duas estátuas de costas uma para a outra.
Esta cena só aparentemente é anedótica. Como piada poderia ser evitada, pois que, considerando a exiguidade dos meios, a premência dos prazos de filmagem e o facto de a película ter sido rodada em 1944, no cenário real da guerra, fácil é aceitar que a seriedade do momento não recomendaria humores duvidosos, nem tão pouco a falta de recursos era de modo a desperdiçar o celulóide com piadas fáceis.
O que está em causa é mais do que isso, é o contraste entre um ideal estético pagão recuperado da antiguidade clássica, arvorado numa era de olimpismo ariano como símbolo de uma superioridade germânica que fez do culto do corpo elemento de demonstração de uma pretensa vantagem racial. A estética nazi, recuperada do neoclassicismo alemão e fundada no culto do corpo, tem nos filmes de Leni Riefenstahl e na exibição da nudez atlética um poderosíssimo elemento de propaganda e de demonstração da superioridade germânica. Por outro lado, viviam-se tempos em que os horrores da Guerra produziam estropiados e cadáveres exibidos em amontoados inestéticos, como se fossem novos tempos de peste, cuja memória o horror nazi apesar de tudo suplantou, uma era de má memória em que a integridade corporal e a estética do nu aparece assim descontextualizada num tempo de massacres, perseguições, torturas e campos de concentração. A nudez feminina e voluptuosa, sensual segundo o cânone helenístico, aparece então inestética em face do contexto. À Vénus clássica, Rosselini contrapõe a imagem de S. Roque, o protector dos leprosos e pestilentos. Na iconografia católica, frequentemente, o santo é apresentado coberto com o manto do peregrino exibindo apenas uma ferida no joelho, pois ele próprio terá sido vítima da peste negra.
A nova peste que afecta Roma, a da barbárie nazi, coloca novamente a invocação de S. Roque como preferível à de Santo António, o douto santo casamenteiro, cuja imagem inicialmente D. Pietro procura.
Dispostas pudicamente as figuras, de costas voltadas num manifesto de incompatibilidade, o confronto civilizacional desloca-se do campo estético para o domínio ético, o que aproxima o ideal cristão da combatividade comunista no fundo de dignidade humana que ambos partilham na sua versão mais ideal. D. Pietro desce à cave, a nova catacumba, onde a clandestinidade comunista esconde uma tipografia onde são impressas as páginas do Unitá. Mais uma vez, como nas origens, é nas catacumbas, espaço simbólico da dignidade resistente face à barbárie, que Roma se fez universal, o centro do mundo civilizado. O preço foi o martírio de Pina fuzilada sumariamente na via pública aos olhos de Francesco, o noivo, estando grávida e sendo chorada pelo filho ainda criança, numa comovente e patética pietá invertida. Ainda a flagelação de Giorgio, o chefe comunista da resistência, que sucumbiu à tortura com uma dignidade crística e que é iconograficamente apresentado como um Ecce Homo supliciado, dando dignidade cristã à resistência comunista. Por fim, a execução de D. Pietro a que as crianças assistem do lado de fora da vedação.
O filme encerra com a marcha dos meninos com Roma como fundo. Ao centro, a cúpula de S. Pedro.

1 comentário:

Anónimo disse...

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