26/04/07

Uma questão de indicadores: Pico e Buonarroti, Grünewald e Leonardo

Pico della Mirandola morreu muito jovem (1463 - 1494). Mal dobrou as três décadas de vida, o Conde da Concórdia foi acometido por umas febres súbitas e sucumbiu precocemente. Foi, contudo, um dos intelectuais mais influentes da História da Humanidade, na medida em que constituiu uma das mais límpidas manifestações do espírito da Renascença. Não tanto pelo que deixou feito, mas pelo que se propôs fazer. Desafiando todas as hierarquias e todos os mestres, Giovanni Pico recolheu em 900 teses todo o saber acumulado pelo Homem e propôs-se discutir a súmula na praça Romana, custeando as despesas a quem se dispusesse a enfrentá-lo. É este espírito, universalista e ambicioso, que buscava concretizar a suprema síntese do saber, o que supõe também uma concepção universalista do Homem, que anuncia o génio de Leonardo. É esta atitude, optimista, prospectiva e universalizante, que está na base da modernidade. Pico é pois um precursor. Aos 23 anos somente, Giovanni condensava os seus estudos e pesquisas na publicação de 900 teses. O jovem propunha-se devorar o Mundo. Sendo que Deus mais não é do que o Homem com o Mundo no Estômago, Giovanni ameaçava o lugar de Deus com a Sua Criatura dilecta e perfectível: o Homem! Ele! Propunha-se agir com um método e um objectivo, isto é, pela síntese dos contrários visava a construção da Paz Universal.
No Discurso Sobre a Dignidade do Homem, escrito como prólogo à sua desmedida empresa, confessa no final que um dos seus grandes objectivos é a conciliação da filosofia de Platão com a de Aristóteles. Entre o idealismo platónico e o sistema aristotélico. É este, aliás, o tema central do fresco de Rafael na Stanza della Segnatura, a célebre Escola de Atenas. Ao meio da composição, Platão, pintado com a fisionomia de Leonardo e com o Timeu debaixo do braço esquerdo, ergue o indicador direito para os céus, como o S. João Baptista de Leonardo, enquanto Aristóteles abre a palma direita para o solo, ao passo que segura na outra mão a Ética.
O espírito piquiano encontra em Miguel Ângelo o seu cultor mais genial. Muito mais do que Leonardo, que iguala a pintura à ciência e vê o Homem como uma machina, Buonarroti experimenta a angústia provocada pela aspiração a uma síntese ousada, isto é, a compatibilização da estética clássica que faz do corpo masculino um ideal estético, por um lado, e, por outro, a espiritualidade cristã que, na esteira da tradição Paulina, encara o corpo como um cárcere do espírito, residindo aqui a verdadeira dimensão do Homem Cristão.
Por isso, ao Cristo flagelado e leproso que Matthias Grünewald, seu contemporâneo, pinta para a leprosaria de Isenheim, uma imagem ainda composta sob os modelos culturais e mentais do gótico tardio, segundo o qual o sofrimento é garantia de Salvação pelo que o indicador de S. João aponta o corpo crucificado do Filho de Deus, Miguel Ângelo contraporá, poucos anos após, nos tectos da capela Sistina, um Adão apolíneo segundo o modelo de Fídias no Partenon, cujo indicador quase toca o de Deus Pai. No fresco do Juízo Final, pinta um magnífico Cristo, belo e clássico, nu, musculado, hercúleo, com uma serenidade olímpica e triunfante. Mais metamorfoseado sob o cânone grego do que ressuscitado após o suplício da Paixão. É este fresco um dos momentos culminantes da história da Humanidade, constituindo expressão sublime de uma contradição irresolúvel, onde radica a angústia de Miguel Ângelo e a essência do génio humano.

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