11/05/07

Os anos 70 no cinema americano - epílogo: o duelo final

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Em 1969, Charles Manson mata barbaramente Sharon Tate, a jovem esposa de Roman Polanski, grávida e no recato do seu lar. Manson julgava-se uma encarnação de Jesus Cristo, reclamava-se em comunicação directa com a fonte mística inspiradora dos Beatles e supunha-se destinado a travar um combate final. Pelas paredes do cenário do crime deixou marcas de sangue e crueldade e escritos que encerravam ameaças terríveis, insultos e referências a músicas de Lennon e McCartney. É o fim traumático do sonho hippie e do psicadelismo onírico dos anos 60. Findam os tempos dionisíacos, a consciência parece retomar o seu domínio, Scott Mckenzie já não pede para virem a S. Francisco com flores no cabelo. A cidade é agora o palco de Scorpio, o tarado assassino que usa o símbolo pacifista na fivela do cinto, e do seu antídoto, Dirty Harry. É um duelo final, quase bíblico, entre as forças opostas.

Harry Callahan usa o cabelo comprido simplesmente porque não tem tempo para o cortar, não usa jeans nem camisas indianas, prefere um discreto tweed com gravata e calça de fazenda vincada. Fala pouco, não tem família nem amigos, é viúvo [saravá, Mangas] é anti-social. Harry é o último guardião da lei e da ordem. O poder está enfraquecido, o hipócrita, temeroso e potencialmente corrupto Mayor é uma caricatura, incapaz de enfrentar a ameaça psicopática. Resta Callahan.
O filme começa com um plano do memorial aos polícias de S. Francisco mortos no cumprimento do dever. É pois um filme ideologicamente comprometido com o resgate de uma memória esquecida. Ainda que, e a título de exemplo somente, pela lista surja um tal Gordon J. Olivera, cujo apelido me suscitou a atenção. Na busca, descobri um Gordon Oliveira que morreu vítima de um lamentável acidente de viação, deixando viúva e órfãos, e não por qualquer acção criminosa. Se é certo que a personagem de Scorpio se inspira num obscuro Zoodíaco, figura sinistra e nunca capturada que, em 1968 e 1969, aterrorizou a população de S. Francisco com uma série de assassínios, também não é menos verdade que o agente Oliveira morreu num desastre de viação. A evocação da sua memória, ainda que fugacíssima, em relação, ainda que não explícita, com um psicopata ficcionado no mesmo filme é uma realidade desmentida nos factos. Mas isso é o que menos importa, Oliveira poderia ter sido uma vítima do Zodíaco, tal é o que vale no plano ficcional, e é este o eixo que se deve considerar como alicerçando toda a trama narrativa.

A personagem do psicopata é representada por Andy Robinson, um tarado que, do telhado de um arranha-céus atinge uma vítima inocente, a primeira de uma série com que aterroriza a cidade. Num segundo ataque, rapta uma outra jovem, exigindo um resgate. O Mayor cede e é a partir daqui que se desenrola toda a história, expondo-se a incapacidade, derivada da falta de firmeza, a ineficácia e o excesso de contemporização da autoridade, da Justiça e da Ordem, para capturarem Scorpio. Este, em face desta incompetência, torna-se mais ameaçador, raptando uma jovem inocente que mantém cativa, fazendo exigências que, invariavelmente e para desespero de Callahan, merecem a anuência das autoridades. Callahan decide-se então a agir por conta própria, sem mandato judicial e com o desconhecimento dos seus superiores, completamente só. Como no Oeste. Persegue Scorpio à revelia, sem mandato judicial encurrala-o, domina-o, fere-o e tortura-o até lhe extorquir a informação que deseja, o paradeiro da rapariga raptada. Scorpio exige um médico e um advogado, o que mostra como está bem ciente dos seus direitos, não é um lunático e tira partido do excesso de liberalidade do sistema americano. Harry despreza-o e tortura-o ainda mais, calca-o na perna esfacelada, provocando-lhe um esgar imenso de dor que ecoa pelas arquibancadas desertas do estádio. A estratégia de Dirty Callahan produz efeito, Scorpio confessa. O facto, porém, é que a moça é encontrada morta e o raptor é libertado, posto que o formalismo da lei declarou nulo todo o processo que conduziu à captura do criminoso. A lei, mais uma vez, protege os criminosos, enquanto as vítimas inocentes desfalecem sem protecção e o próprio Harry se vê a braços com a Justiça que o acusa de haver desrespeitado os direitos de Scorpio. Uma lei que não presta, indigna-se Harry, mas apesar de tudo lei. Tal é, em suma, a tese de Clint Eastwood, a tese que a América sempre gostou. O que resta afinal? Posta a questão nestes termos, ou nos conformamos com a situação, ou regressamos ao modelo das origens: um homem, uma moral e uma arma. Lembremos que Eastwood é amigode Charlton Heston da NRA, National Rifle Association e tem posições próximas desta associação.

É este o caminho de Harry que, daqui em diante, retirado da polícia e por conta própria, será a sombra de Scorpio que é restituído à liberdade. Persegue-o pelo sub-mundo de S. Francisco, pelos bares penumbrosos, pelas vielas sórdidas. Gonzalez, o parceiro, abandona a polícia, será professor, Harry é o último guardião da moral e da rectidão. Numa encenação extrema, a cidade depende dele, mesmo que não tenha inteira consciência do perigo. E quando Scorpio volta a atacar, porque o Mal é incorrigível, tomando de assalto uma carrinha escolar carregada de crianças inocentes, - quão ingenuamente maniqueísta é a encenação -, resta Harry. 

A perseguição é hollywoodesca e famosa. Dirty Harry persegue-o até uma velha mina, ainda em laboração. Quando Scorpio avista Harry, anunciando o duelo, balbucia: «Jesus». Justamente a primeira palavra do filme, quando Harry lê o pedido de resgate que o assassino deixara no primeiro crime. O duelo final é bíblico, mas na variante western spaghetti adaptada, chegando mesmo a ser patético, de tão sentimental, previsível, encenado e maniqueísta. Mas a verdade é que, apesar de todos estes impiedosos defeitos, a cena é magistral, e aqui reside o profundo fascínio das personagens de Clint Eastwood. O criminoso é morto, a tiro de Magnum, o seu cadáver flutua no charco abandonado, ninguém acorre ao local, estranhamente, e Harry guarda o pistolão.

No fim, retira o distintivo da carteira, contempla-o entre as mãos e interroga-se silenciosamente. A consciência da América fica em suspenso. A pergunta é para toda a América e, de tão poderosa, dispensa as palavras. Harry levanta o olhar, com uma dignidade insolente e incompatível com a lei, que não presta. Decide-se. Lança o distintivo da polícia para o lago. É um manifesto de recusa e protesto. Vira costas, e vai-se embora. À maneira de John Ford, a câmara sobe e fixa-se no cenário imenso da mina abandonada. Mais do que uma renúncia, a retirada de Harry é o nascimento da reserva moral da América. Scorpio, isto é, Charles Manson, jaz morto flutuando num pântano. Como deveria ter sido.

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