07/05/07

Os anos 70 no cinema americano - II: O Advento dos Psicopatas

É em 1971 que a década de 70, cinematograficamente falando, começa efectivamente. A Laranja Mecânica de Stanley Kubrick, ou o Get Carter com Michael Caine, ou ainda os Cães de Palha de Sam Peckinpah, mostram como o sonho hippie está esvaído. Agora, os temas são a violência gratuita, o psicopata consciente, a brutalidade organizada, a selvajaria dos instintos primários, a cobiça, a inveja, a desconstrução do mito do comunitarismo idílico e primitivo, em suma, a ressaca da década do amor.

A América tradicional, digerida a experiência do Verão de S. Francisco, das experiências alucinogénias de Thimothy Leary, da ritualização adâmica de Woodstock, regressa à realidade traumática do quotidiano. Hollywood busca novos heróis que confrontem a América com este retorno, como se fora necessário arrumar a casa num regresso à ordem.

Clint Eastwood afirma-se neste contexto e interpreta esta ansiedade. Como ninguém. Harry Callahan, o Dirty Harry de 1971, constrói-se com a plasticina mítica dos heróis solitários do Oeste Selvagem, mas é diferente, muito diferente, porque adaptado aos tempos pós sixties. A América ergueu-se nessa crença nos valores do individualismo que tiveram no colt a expressão de um voluntarismo épico e no Oeste selvagem o seu palco de concretização. Nunca uma prótese serviu tão bem um propósito como o colt no cinturão de um cowboy! Patton sabia isso muito bem. Neste sentido, o Smith & Wesson Magnum 44, que Eastwood popularizou, exorbita na dimensão e na carga simbólica o paradigma representado no colt dos primórdios. Tal como, aliás, o tipo de herói que Eastwood representa. Eastwood está para Wayne como a Magnum 44 está para o colt. Harry é brutal frio, parco de palavras, pragmático, sem remorsos, solitário, nem sequer tem mulher, o que faz dele uma espécie de sacerdote. Imune à hipocrisia da política, tem aversão ao discurso e à imagem públicas, dono de um humor negro e cáustico que, creio, mais tarde Schwarzenegger explorará, Harry Callahan tem o carácter que melhor se adequa às novas ameaças e aos novos criminosos. Despreza os media e o seu papel mitificador na nova sociedade americana. Na verdade, os media, e acima de todos o cinema, contribuíram para tecer uma imagem romântica do criminoso, fazendo da polícia a face negra do binómio.

Eastwood propõe-se recolocar os termos no justo lugar, daí que inicie o filme com uma homenagem aos polícias de S. Francisco mortos em serviço, na mesma medida em que não tem contemplação para com a imagem do fora-da-lei: é um psicopata que mata gratuitamente. Clarificam-se os papéis, depois das relativizações que fizeram dos gangsters heróis românticos ou dos vietcongs combatentes da liberdade. O psicopata é a nova ameaça, já não um outlaw à maneira do velho oeste, um ladrão de cavalos ou, muito melhor, um Jesse James. Nem tão pouco um John Dillinger ou Bonnie & Clyde, envoltos numa aura de mistério e romantismo, como que tendo a criminalidade atenuada pelo ambiente da Grande Depressão e por um idealismo vagamente vitimizado, imagem que o filme protagonizado por Warren Beatty e Faye Dunaway em 1967 contribui decisivamente para perpetuar. Afinal, nem Beatty nem a bela Faye têm rostos que encarnem criminosos violentos. Este tipo de gangster, mafioso e culturalmente enquadrado nos valores sicilianos da comunidade ítalo-americana, teve o seu expoente em Al Capone, contextualizado na era da Grande Depressão, e serviu de inspiração para uma série de filmes e para um tipo hollywoodesco que, desde James Cagney a Marlon Brando, teve inúmeros protagonistas de sucesso, ainda que, em 1975, Al Pacino represente caricatural e magistralmente o fim deste tipo de assaltante, no memorável filme de Sidney Lumet Um Dia de Cão onde o papel dos media é ironicamente questionado.

Este tipo de gangster acabou. A América entra na era do bandido psicopata. Harry Callahan combate-o, com uma Magnum calibre 44.

Sem comentários: