09/05/07

Os anos 70 no cinema americano - III: Callahan na Cidade do Vício

O novo psicopata que Callahan combate é um novo tipo de criminoso que, na tese de Eastwood, resulta da liberalidade consentida nos costumes pela década do flower power. Todos os excessos têm o seu reverso e quando a norma moral é quebrada, mesmo que em nome dos melhores princípios como o amor livre e o pacifismo militante, abre-se também a via à infracção de sentido contrário, isto é, a violência gratuita.

A liberdade sexual que caracterizou os anos 60 merece a reprovação de Harry. Ela é a causa de todos os males. Harry Callahan representa, no seu modo muito peculiar, a América puritana. No filme, o irlandês Callahan tem um quase-alter-ego, um sacerdote católico que é dado como alvo e usado como isco. Scorpio, o criminoso psicopático, prepara-se para actuar à porta de uma igreja. Sob um anúncio de néon que anuncia «Jesus Saves», Harry está vigilante, qual arcanjo, trocando, na sequência, um violento tiroteio com Scorpio. O realizador Don Siegel divaga aqui em torno do famoso esquema da «Janela Indiscreta» de Hitchcock, pondo Callahan a vigiar com um par de binóculos, a partir da rua, o que se passa no interior das habitações. A intimidade dos jovens inquilinos é assim publicamente escrutinada, e o que Harry vê merece censura moral e adivinha-se logo quando se admite que a privacidade possa ser escrutinável: é sexo não convencional. O olhar moralizador da América que Eastwood representa exige a admissibilidade da perversão privada, e atalha-a pela devassa, ao mesmo tempo que julga assim garantir a ordem pública.

Há, neste sentido, uma cena no filme que revela como o abandono dessa moralidade matricial esteve na causa do vício, da perdição e do crime irracional, quando Callahan segue no carro patrulha, noite alta, acompanhado peloo seu parceiro, um hispano-americano de nome Gonzalez formado em Sociologia, ciência que Harry considera completamente inútil. Seguem pelas ruas da depravação e do pecado, pela baixa da cidade. Os néons anunciam casas de streep tease e peep shows, as prostitutas exibem-se, S. Francisco é a moderna versão americana da Cidade do Vício. Enquanto deambulam, o rádio policial descreve um suspeito de homicídio, estabelecendo-se assim uma relação entre a desregulação sexual, o crime violento e a insegurança pública. Callahan comenta com o parceiro: «These loonies. They ought to throw a net over the whole bunch of them.» É ele o detentor da semente da virtude, inseparável da moral e da autoridade, e por ele se fará o regresso à ordem. Callahan aparece deste modo como um novo profeta do Antigo Testamento que anuncia um tempo novo, evangélico, de inauguração de uma nova ordem construída sobre a salvaguarda da autoridade. Antevê-se um duelo bíblico.

Sem comentários: