04/06/07

Boivin foi a Provins

Boivin foi à feira a Provins. Boivin era um jogral miserável e talentoso. Gostava das palavras cantadas e dos versos obscenos, de bom vinho e de putas. Sobrava-lhe em talento o que lhe faltava em dinheiro. Boivin percorria as feiras da Champagne disfarçado de camponês. Inventava histórias sinuosas nas casas de tolerância, por entre a algazarra dos bêbedos. Bebia com eles, inventava trapaças e cantava-as em verso, acabando sempre ovacionado. O escárnio que destilava deixava sempre um rasto lendário e inimizades fundas que o obrigavam, invariavelmente, a demandar outras paragens. Fugia sempre para outras feiras e outras terras, pois que não faltavam na Champagne, naqueles tempos medievais, as trocas e o bulício das feiras e mercados.

Boivin foi à feira de Provins. Disfarçado de camponês, dirigiu-se à rua das putas e entrou na casa de Mabile. Bebeu e cantou. Bebeu menos do que aparentava, e apregou a fortuna que lhe coube nos negócios fechados em Provins. Ergueu a taça de bom vinho e, para que o ouvisse Mabile, a meretriz mor da casa, anunciou o sucesso alcançado. Os alqueires de trigo que vendeu a bom preço, o boi de criação que valeu o peso dos testículos em soldos, os fardos de lã, os ungentos comprados a um turco e logo vendidos a um saxão, mais um rol de grandes negócios que lhe valeram para cima de cem soldos. Enquanto apregoava a sorte, erguia com uma mão mais uma taça de vinho e com a outra chocalhava uma bolsa de couro onde tilintavam pesadas moedas . Ninguém sabia do logro. Só Boivin, o jogral trapaceiro, sabia que a bolsa não guardava mais do que um soldo e muitos pregos retorcidos. Já ébrio, o manhoso Boivin debruçou-se na mesa e chorou pela saudosa Mabile, sua sobrinha. Desfiou uma lamúria chorosa. As saudades que tinha de Mabile, a sua única sobrinha, a única herdeira que lhe restava pois que a peste lhe levara as filhas, a mulher e os irmãos. De toda a família lhe restava somente a memória de Mabile que em tempos o falecido irmão expulsara de casa. Ai Mabile, Mabile, puderas tu consolar os últimos dias deste velho, minha doce sobrinha, que eu, em nome de meu cruel irmão, te perdoo o pecado que o levou a banir-te de sua casa! Chorava de seguida fartas lágrimas por entre vapores etílicos. Prometia a si mesmo, para breve, o exílio num convento onde aguardaria a morte na companhia dos cem soldos ganhos. E as terras que venderia lhe renderiam outros cem, acrescentava com a voz entaramelada. Nunca tantas moedas valerão tão pouco, lamentava-se.

Todos choravam já, comovidos com a desdita deste desgraçado. Mabile, a meretriz, saiu então da penumbra e apresentou-se como sendo sua sobrinha. Balbuciou para os seus próximos o propósito de se aproveitar do pobre tolo, pegando na coincidência do nome:

- Eis-me aqui, meu tio. Agora vos reconheço.

O pobre reconheceu-a logo. Gabou-lhe os longos cabelos, iguais aos de sua mãe, o colo esguio e sedoso, os seios avantajados e os olhos que conservavam ainda a pureza da infância.

- Minha Mabile, minha pobre criança. Que fazes neste antro?

Conversaram. Tio e sobrinha abraçaram-se comovidos em longa conversa. O velho falou-lhe das filhas defuntas e dos rigores da viuvez. Mabile apiedou-se e insinuou-se perita na análise dos humores, asseverando serem muito graves e inconvenientes os efeitos de tão longa privação. Sete anos de jejum carnal é mau agoiro. Calhava ter ali naquele dia acolhido uma virgem puríssima, Ysane de seu nome, destinada ao prazer dos ricos senhores que todo ano percorrem as feiras da Champagne e demandam os favores de Mabile, afamada por bem servir com discrição e diligência. Há quem venha de muito longe pedir-lhe para que acolha as filhas, pois que a vida de puta sempre poupa as miseráveis da fome, ainda que lhes falte a bênção de uma abadessa para que ganhem a respeitabilidade dos votos. Mabile ofereceu Ysane a Boivin e anunciou o favor em voz alta. A multidão, comovida, aplaudiu o felizardo, enquanto o par se retirava para os aposentos. Ao cruzar-se com Ysane, Mabile segredou-lhe: corta-lhe a bolsa. Desconhecia Mabile que já Boivin a cortara, vendo apenas que ao passar sobre a mesa pousara sonoramente um soldo para que todos festejassem a sua felicidade. O único soldo.

Enquanto no recato dos aposentos traseiros o casal se saciava, Mabile ordenou que uma criada lhes levasse bom vinho e boa carne. Largos minutos passaram até que Boivin surgiu de rompante da porta dos fundos, ainda mal amanhado, tolhido de fúria, enraivecido e insultando todos os que rastejavam naquele antro de pecado. Ladrões! Queixava-se de lhe haverem cortado a bolsa, exibindo desesperado os fios de couro rasgado e lamentando a perda de uma fortuna que subia acima de cem soldos.

Mabile revelou-se então. Ciente do sucesso do estratagema, arrancou-lhe das mãos os cordões soltos e deu ordem para que o escorraçassem. Boivin fugiu.

Enquanto isso, Mabile aguardou que Ysane lhe trouxesse o produto do saque. Porém, quando a falsa virgem lhe anunciou não ter encontrado nenhuma bolsa, e que do farto tilintar mais não encontrara do que inúmeras cavilhas metálicas sem qualquer valor espalhadas pelo soalho, logo a ira tomou conta da meretriz. Ysane, ficou sem dentes e Boivin ia longe, para outra feira bem longe de Provins.

Adaptação livre de uma cantiga medieval francesa.

Ver excelente estudo aqui.

Referência bibliográfica: Como se Vivia na Idade Média; Cascais; Pergaminho; 2001

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