31/07/07

As Confissões de Zita

Há casos assim como os de Zita e S. Paulo. São raros, é certo, mas é a raridade que os torna simbólicos. Pelo facto de assumirem uma ruptura radical, uma recusa total do passado, um renegar de uma identidade anterior, implicam um renascimento, a entrada numa nova vida que as personagens assumem plenamente. São fenómenos mais íntimos do que sociais, mais psicológicos do que históricos, mais religiosos do que políticos. São, por isso, indiscutíveis. Não há polémica que se possa alimentar.

Em Portugal, são muitos os casos raros deste género. Não me refiro aos vira-casacas, aos adesivos como eram chamados após a revolução de 1910 os que aderiam ao republicanismo sem que se lhes reconhecesse anteriormente qualquer afinidade ideológica com as ideias triunfantes. Não, esses são hipócritas. Os revolucionários e progressistas, anti-fascistas e anti-salazaristas, anti-colonialistas e os opositores que apareceram aos milhares no dia 26 de Abril de 1974 não contam. Também não contam os do género Freitas do Amaral ou José Miguel Júdice, ambos actualmente à esquerda de Zita, que foram deslizando convenientemente no sentido favorável dos ventos dominantes, sempre coincidindo a progressão ideológica com o benefício pessoal. Não, esses também não contam. O Veiga Simão, que esteve no mesmo Conselho de Ministros que o Alberto Martins, não conta.

Este texto não trata dos casos tipo Júdice, mas dos casos tipo Zita. Zita publicou recentemente as suas memórias que intitulou, quase como agostiniana confissão, «Foi Assim». Não é uma história de vingança, não é um ajuste de contas à Carolina Salgado, é antes a história de uma conversão, como Agostinho ou como Francisco de Assis, ou como muitos outros exemplos que se poderiam dar, de Constantino a Bob Dylan. Como todos estes casos citados, Zita não evoluiu ideologicamente, Zita viu a Luz. À conversão de Zita, como em todas as outras, não faltam os elementos clássicos: a doença, a reflexão, o apelo místico e a experiência da morte próxima, a viagem, o abandono e o isolamento, o sentir da injustiça, o chamamento interior, a experiência da clandestinidade, a vingança, a coragem, o sofrimento, a redescoberta do amor, a maternidade, enfim, todos os condimentos indispensáveis a uma história de conversão e renascimento. Zita coloca em epígrafe uma frase do Evangelho de S. João: «A verdade vos fará livres». É pois sob o signo da verdade e da confissão que Zita escreve as suas memórias que, neste sentido, têm necessariamente que ser públicas.

Neste tipo de casos, o mais fantástico que conheço, e em alguns aspectos semelhante ao de Zita, é o de Manuel Ribeiro. O trabalhador ferroviário Manuel Ribeiro foi um dos mais importantes activistas sindicais da 1ª República. Entusiasta da revolução bolchevique, foi, em 1921, um dos fundadores do Partido Comunista Português e defensor da via revolucionária para a conquista do poder. Agitador, panfletário radical e jornalista, converteu-se ao catolicismo, tornando-se um importante ideólogo e intelectual de referência do movimento católico em Portugal, renegando ao seu passado comunista.

A afinidade entre catolicismo e comunismo não é tão surpreendente quanto possa parecer à primeira vista. Basta lembrar, apenas a título de exemplo, como Cunhal, nos finais da década de 40, fazia um apelo veemente à unidade com os católicos, num texto recentemente publicado pelas Edições Avante, intitulado «Católicos Unamo-nos», o secretário-geral defendia ser muito mais o que une católicos e comunistas do que aquilo que os separa. Por outro lado, Lino de Carvalho, militante e deputado comunista, num ensaio também recente sobre a reforma agrária, cita textos de João Paulo II e da Arquidiocese de Évora para justificar as posições do Partido acerca da política da reforma agrária. A importância do catolicismo no movimento operário é ainda hoje detectável na história e nos quadros da CGTP-Intersindical.

É claro que tudo isto é treta. Basta conhecer a história do movimento comunista internacional para perceber como isto é meramente táctico. Uma vez chegados ao poder, essa propagandeada concertação com o movimento católico seria renegada e iniciar-se-iam os tempos de perseguição e semi-clandestinidade para a Igreja Católica ou para qualquer outra Igreja. Lembre-se o caso, que por si basta, da Igreja Ortodoxa na União Soviética. A doutrina marxista-leninista e a história da Revolução Bolchevique são elucidativas e só se engana quem se deixa enganar, apesar dos pontos de contacto evidentíssimos entre as duas doutrinas.

Pela minha parte, sempre fui um anticomunista primário. Aquilo nunca me enganou. Tinha amigos militantes, que ouviam o folclore da Ucrânia e da Bulgária. Eu sempre preferi os Doors e os Rolling Stones. Eles liam o Maximo Gorki, eu preferia o Arquipélago de Gulag, eles veneravam Lenine e eu falava-lhes de Sakharov. Bem me enfiaram injecções de Soeiro Pereira Gomes na adolescência, mas não resultou. Aquilo é uma merdunça. Eles tinham uma reverência profunda pelo Camarada Cunhal, eu preferia Sá Carneiro, com os seus defeitos humanos, temperamental, com convicções profundas, discurso arrebatado, amante de mulheres bonitas, da boa mesa e de uma boa polémica. Como Soares, diga-se. A superioridade moral do camarada Cunhal nunca me enganou, pois eu sempre soube que esse puritanismo revolucionário explicava a perseguição aos homossexuais. Eu sempre soube, e não era nenhum segredo, que houve militantes comunistas que foram expulsos e humilhados em função das suas opções íntimas e da sua vivência sexual. Eu nunca acreditei naqueles que regressavam da RDA, como alguns familiares meus, a relatarem maravilhas daquele paraíso socialista. Eu nunca acreditei naquela propaganda barata. As nadadoras da RDA eram horripilantes, o Eric Honnecker e as suas vitórias por 99,8% dos votos nunca me enganaram. Sempre fui um anticomunista primário e, por isso e ao contrário de Zita, posso afirmar: a mim nunca me enganaram!

No entanto, declaro solenemente o seguinte: tenho um profundo respeito pelos comunistas. Admiro os militantes comunistas que, antes do 25 de Abril, lutaram contra o regime salazarista. Se não fossem os comunistas, ainda hoje a múmia do Salazar estava sentada em S. Bento com um país quase inteiro a venerá-lo. Freitas e Júdice nunca seriam socialistas. Poucos mais para além dos comunistas se opuseram eficazmente ao regime. Eles foram as principais vítimas da repressão salazarista. Por outro lado, e em face da realidade social vivida em vastas regiões do país, ser comunista era uma questão de dignidade. Todos nós conhecemos histórias do que se passava no Alentejo nesses tempos. E isso não foi propaganda. Manuel da Fonseca não é uma merdunça. É um grande escritor.

Além do mais, ser comunista requeria coragem. Por isso é que, nesses tempos, Freitas e Júdice não eram sequer socialistas. É dessa coragem que Zita Seabra nos dá conta. Esse é um dos pontos de interesse do seu livro. A história de uma adolescente da alta burguesia que adere ao Partido e vive uma clandestinidade perigosa e é uma história de idealismo e coragem. Zita foi corajosa. Ninguém pode apagar esse facto. Neste particular, e como documento histórico, as memórias de Zita Seabra podem ser comparadas com as de Maria Filomena Mónica, curiosamente publicadas pela mesma editora e que é dirigida por Zita. Mónica era uma menina bem, casada com um Pinto Coelho, com conhecimentos na sociedade lisboeta, não renunciou a nada, viveu de cunhas e favores, foi bolseira da Gulbenkian, andava de Porsche nas vésperas da revolução, beneficiou de cunhas dos amigos, tinha amigos com diminutivos como Micuxa e apelidos Galvão Teles, fez carreira cómoda e confortável. Maria Filomena Mónica confessa que, no Verão de 1974, a sua preocupação era a redacção da sua tese, tendo obtido o estatuto de bolseira e sendo dispensada da docência! Nesses tempos, confessa, apesar da agitação que se vivia, a senhora estava preocupada com a sua tese! Não lhe retiro nenhum valor intelectual e académico, tem trabalhos que muito aprecio, mas há uma verdade iniludível que me escuso de anunciar porque assoma refulgentíssima quando se lêem os dois livros. Basta lê-los e contrastá-los. Este é um dos pontos interessantíssimos das memórias de Zita. Zita abandonou os estudos e passou à clandestinidade, não andou pelo campus de Oxford, não recorreu a cunhas nem a compadrios, entrou na clandestinidade, abdicando dos confortos da vida burguesa e dos benefícios de um futuro burguês, largando mesmo as lições de ballet. Zita não é Mónica. Não digo que seja melhor nem pior, não aceito sequer que haja qualquer superioridade moral, noto é um contraste, noto um comprometimento não assumido por parte da elite burguesa com o antigo regime marcelista e isso ajuda a explicar o prolongar agónico do regime. Por outras palavras, a ascensão burguesa verificada a partir da década de 60, consentida pelos fantásticos níveis de crescimento económico, não era de molde a atrair este nível social para as dinâmicas de mudança. Tanto mais quanto o inconveniente se evitava com a cunha (como a guerra ou a prisão do filho na crise académica), o privilégio se adquiria com a cunha (como a bolsa, a viagem aos estrangeiro, o emprego num ministério) e tudo o mais vinha com o optimismo dos sixties e com os ritmos de crescimento.

Zita estava na clandestinidade porque Zita acreditou na quimera comunista. Zita acreditou na miragem soviética e na promessa do homem novo. Não há nenhum mérito nisto. Pelo contrário, o único mérito é reconhecer, hoje, o quanto estava iludida.

O livro de Zita Seabra não me interessa como base de discussão, não há nada ali para discutir pois que é intimista e ela é a primeira a reconhecer todos os erros que se lhe possam apontar. O livro causou pouca polémica aliás, se exceptuarmos uma reacção tímida e em aspecto secundário de Miguel Portas, que saíu em defesa de Ramos de Almeida sem provar a sua razão e impelido apenas por razões de amizade pessoal. António Hespanha respondeu também a Zita a propósito da questão do serviço cívico. Foi contraditado categoricamente e o assunto morreu. Alguns comunistas ortodoxos criticaram porque tinham que criticar e olham para Zita como Pinto da Costa olha para Carolina: com ódio. Outros olham para Zita como Leonor Pinhão olha para Carolina: com interesse manipulador. Claro que todos estão errados porque Zita é uma convertida.

Nem tão pouco o livro me interessa como documento histórico, não há nada ali que já não se soubesse por outras vias muito mais documentadas. Como produto literário, o livro também não tem qualquer interesse. Zita não escreve mal nem bem. O livro é uma confissão pública, o testemunho de um arrependido. Este é o seu interesse. Seria o único interesse, não pequeno, não fossem outros motivos que, estranhamente, ninguém realça. O que Zita revela é escandaloso e, em qualquer país civilizado, faria cair uma catedral. Mas em Portugal não. Em Portugal os «Contos Proibidos» de Rui Mateus, em que a escandalaria de Macau e do financiamento do Partido Socialista foi exposta com detalhes mórbidos e documentados, não serviram para beliscar Sua Excelência Republicana Laica e Socialista.

O que conta então Zita? Nenhuma novidade, mas vale a pena relembrar:

- Óscar Lopes, apesar do seu enorme mérito, era um vendido à propaganda comunista. Em 1975, veio da União Soviética numa viagem paga pelo partido a cantar as maravilhas do socialismo. Como é que é possível? Lopes é apenas um exemplo da atitude dos intelectuais comunistas que achavam que a malta cá no rectângulo saia da ditadura salazarenta para se ir enfiar numa comunista? Somos burros, mas não tanto.

- Cunhal era impiedoso para com os seus rivais e servia-se de todos os processos, inclusivé a calúnia, os ataques de carácter, a denúncia, a humilhação pública, para afastar os seus oponentes, como fez com Júlio Fogaça. Era um homem frio, calculista que utilizava a sedução como instrumento de domínio. Sacrificava tudo às suas convicções, não admitia réplica nem discussão. Não se entende o mito construído em seu redor, tanto mais quanto era um fantoche manipulado por Suslov a partir de Moscovo. Sacrificou o interesse nacional à política soviética. Tal como o PCP era financiado por Moscovo, apesar de todos os desmentidos.

- A estratégia do PCP foi sempre uma: não se olha a meios para atingir os fins pretendidos. O PCP advogava o uso da violência e da luta armada. Não há limites à Revolução. O PCP não tinha pudor em relativizar os valores fundamentais. Em relação à pena de morte, por exemplo, Cunhal defendia que eram contra a pena capital em Portugal, mas, caso subissem ao poder, a aplicação do castigo seria admissível para punir os inimigos da revolução.

- O centralismo democrático praticado no PCP é uma farsa que só visa um objectivo: aniquilar o pensamento próprio e impor uma disciplina férrea. Era preciso «aprender a dissolver o nosso eu no colectivo». O Partido tinha uma rede de controleiros que vigiava toda a vida dos militantes. E não foi só uma necessidade de segurança ditada pelos condicionalismos da clandestinidade. Não, já depois da revolução de Abril, em Liberdade, o partido examinava e aprovava as companhias dos militantes. O marido de Zita foi submetido a um exame dos controleiros.

- O PCP apaga a memória dos dissidentes, não admite divergências. Só heróis e proscritos. Há dúvidas sobre quem matou o militante Manuel Domingos, os que largavam o partido eram ostracizados, vítimas de boatos infames e acusados dos crimes mais vis, como o roubo, a delacção, a perversão sexual. Eram acusados até de terem uma origem de classe burguesa!

- O PCP era um partido machista que discriminava as mulheres, apesar do discurso em contrário e de alguns exemplos avulsos que, aliás, o regime salazarista também podia ostentar.

- O PCP tomou conta dos arquivos da PIDE logo a seguir à revolução e usou as informações da polícia política para servir a sua estratégia partidária.

- O MDP era manipulado pelo PCP, tal como posteriormente essa fantochada do Partido dos Verdes. Foi Zita que, a mando de Cunhal, inventou este partido, escolheu os dirigentes, tratou do programa e colaborava na redacção das propostas parlamentares, coisa que partilhava com José Magalhães e achava divertida. Um autêntico partido fantoche, coisa comum, segundo confessa Zita, no movimento comunista.

- O PCP serviu-se do filho do Costa Gomes, que atraiu, recrutou e manipulou, para influenciar o pai. Vale tudo! Fizeram o mesmo com a filha de Vasco Gonçalves e a sobrinha de Melo Antunes!

- O PCP tinha um plano para controlar as universidades, incluindo a utilização de meios violentos que previam a militarização da UEC. Nas universidades os saneamentos selvagens foram manipulados pelo PCP e os exames banidos, porque considerados «avaliação burguesa».

- O PCP tinha aliás um plano de infiltração do aparelho de Estado, que passava pela colocação de juízes nos tribunais! Suponho que ainda por aí andem juízes desses! Zita lembra aliás que, em 1983, quando ela é cabeça de lista por Aveiro, Vital Moreira é nomeado para o Tribunal Constitucional!

- Durante essas eleições, Zita convidou «jornalistas» amigos para cobrirem a campanha. Entre eles, Fernanda Mestrinho de quem diz ter feito um excelente trabalho. Saramago foi um pau mandado pelo PCP para controlar o DN.

- O PCP fez tudo para evitar as eleições democráticas. Mas tudo mesmo. Cunhal chegou a defender a possibilidade de uma farsa eleitoral: que o voto de um operário contasse 3 vezes, como na Rússia! O PCP esteve por trás do cerco ao parlamento. Os deputados comunistas eram fornecidos de frango assado enquanto os outros passaram fome. No Comité Central, quando Octávio Pato relatou a situação, fartaram-se de rir! Apesar de perder as eleições, o PCP delineou uma estratégia para redigir uma constituição que contrariasse nos bastidores a vontade popular. Ilustres constitucionalistas se prestaram a tão vil tarefa!

- Durante o processo das nacionalizações, o PCP prendeu indiscriminadamente empresários, acusando-os de conspiração, sem acusação formal, com mandatos em branco, sem direito a defesa. Tudo justificado com esta frase: «Se não tinham conspirado, paciência, tivessem-no feito». Ou então: «se não eram conspiradores, poderiam vir a sê-lo, cientificamente, a qualquer momento.» Prenderam gente com mandato em branco e por engano, só porque tinham o mesmo apelido ou eram familiares do visado! Cunhal comandou toda esta farsa indigna!

- O PCP tinha uma escola secreta para formar agitadores, numa quinta do Lumiar, que servissem os seus planos. O partido adquiriu aliás vasto património imobiliário servindo-se da posição de vantagem que adquiriu por via de comandar um processo revolucionário selvagem e indigno. O PCP, além do mais, enriqueceu com toda esta miséria!

- As injúrias difamatórias lançadas a Sá Carneiro acerca de um célebre empréstimo por ele contraído resultaram de uma estratégia delineada pela célula comunista do banco, depois de devassado o segredo bancário sob a aprovação do PCP, isto é, do Cunhal!

- Agostinho Neto era um tirano presunçoso, alcoólico e totalmente manipulado por Moscovo.

- O julgamento e expulsão de Zita Seabra do PCP foi uma vergonha inaceitável num país democrático.

Novidades? Não há.

1 comentário:

Anónimo disse...

NOTÁVEL! PARABÉNS!