27/07/07

O Caminho de Viseu

Foi recentemente republicado, em Março deste ano, um ensaio do historiador, já falecido, Armando de Almeida Fernandes, intitulado Viseu, Agosto de 1109, Nasce D. Afonso Henriques. A tese do autor depreende-se do título e foi pela primeira vez publicada em 1993. Porém, pouca aceitação terá tido, posto que sete anos depois, Diogo Freitas do Amaral publicava a sua biografia do rei Afonso Henriques e, embora apresentando a proposta, não a dava ainda como válida e indiscutível, antes a apresentando como uma entre outras: «Se as dúvidas e opiniões são muitas a respeito da data do nascimento de D. Afonso Henriques, maiores são ainda as incertezas e divergências quanto ao local do nascimento: segundo a tradição foi Guimarães; mas vários estudiosos contestam-na, defendendo antes que foi Coimbra, ou Viseu, ou Astorga.»


Ora, este enunciado de Freitas do Amaral é inadmissível porque só prova que não leu, ou não entendeu, a argumentação de Almeida Fernandes. A tê-lo feito, não poderia equiparar a tese sólida e devidamente fundamentada expendida por este historiador a uma delirante hipótese vimarenense, exclusivamente apoiada na tradição e nas falsificações da historiografia alcobacense seiscentista, ou a uma gratuita sugestão de Torquato Soares, seguida depois por Hermano Saraiva, que, no citado Dicionário de História de Portugal referido por Freitas do Amaral não diz mais do que isto: «D. Afonso nasceu provavelmente na Alcáçova de Coimbra». Um provavelmente e uma tradição não chegam para ombrear com uma investigação histórica.


É portanto inadmissível que Freitas do Amaral, um vimarenense de nascimento, despreze as conclusões de Almeida Fernandes, denegrindo a seriedade da proposta pela desconsideração sobranceira dos argumentos pró-viseenses, pondo-os ao mesmo nível de duas pretensões regionalistas e infundadas, uma invocando somente a tradição patrioteira caldeada com pretensões bairristas – a hipótese vimarenense – e outra fruto de uma hipótese erudita, também ela com laivos provincianos e sem qualquer base lógica ou documental – a conimbricense.


Foi preciso aguardar pela palavra de um historiador sério, José Mattoso, que, no ano passado, publicou uma biografia de Afonso Henriques, referindo a dado passo: « A demonstração feita por Almeida Fernandes alcança verosimilhança suficiente para se admitir como possível, ou mesmo a mais provável. É, de facto, admissível, com base nos documentos por ele invocados, que D. Afonso Henriques tivesse nascido em Viseu por meados do mês de Agosto de 1109.»


Na verdade, lendo a obra de Almeida Fernandes, a conclusão não pode ser outra: no estado actual do conhecimento, com base em dedução lógica e em face do suporte documental disponível, devidamente submetido à crítica, D. Afonso Henriques nasceu em Viseu. A análise de todos os dados disponíveis condiz com esta hipótese e nenhum facto a contradiz, o que conduz, suplementarmente, à corroboração indirecta da tese.


Almeida Fernandes defende, com uma argumentação factual, documentada e lógica, que D. Teresa, à data da morte de seu pai, Afonso VI, não assistiu às exéquias fúnebres por se encontrar em Viseu que preferiu, por razões várias, à moçarábica Coimbra para sede do seu paço. Sendo ela, no contexto da acesa disputa do trono deixado vago por seu pai, a principal interessada em estar presente em Toledo para assim melhor reivindicar os seus direitos e pretensões, a ausência só poderia ser determinada por razões imperativas. O esposo, Henrique, esteve também ausente da cerimónia fúnebre, tendo-se deslocado a Sintra, à frente de uma expedição militar com o intuito de punir uma sublevação da população muçulmana. No regresso, assiste em Coimbra a uma importantíssima cerimónia de doação do mosteiro do Lorvão à Sé. Sua esposa está ausente, mas envia uma deputação de vassalos viseenses à cerimónia, importantíssima sublinhe-se, que seria depois repetida em Viseu. Acresce ainda que, pouco depois, aquando da concessão de foral a Mangualde, mais uma vez D. Teresa esteve ausente, tal como D. Henrique, fazendo representar-se por Egas Moniz já indigitado aio da criança cujo nascimento se aguardava. Todas estas ausências e constrangimentos só podem ser justificados «pelo seu estado fisiológico». D. Afonso Henriques nasceu pois em Viseu.


A tese aqui resumidamente exposta tem base sólida e não é facilmente contestável, tanto mais quanto a seriedade do autor é imbeliscável, tendo usado de todas as cautelas indispensáveis à recusa da tese vimarenense, posto que o estudo foi resultado de uma encomenda realizada por uma agremiação de Guimarães, a «Unidade Vimarenense», em 1990. A encomenda era a resposta do orgulho bairrista à reactualização da tese de Torquato Soares pelo popular José Hermano Saraiva, que atribuía a Coimbra a dignidade de ter sido a pátria de Afonso Henriques, sem outro argumento que não fosse a credibilização do provavelmente já citado. Supõe-se o desagrado que Almeida Fernandes causou ao encomendante ao não ratificar as suas pretensões antes propondo a hipótese beirã, o que só abona a favor da tese, pois que assim se prova não ter sido condicionada pelo ensejo de colher qualquer retribuição. Deste modo se explicará ainda a pouca propaganda dada à conclusão de Almeida Fernandes, bem como a obstinada insistência de Freitas do Amaral.


O livro de Almeida Fernandes, depois da publicidade dada pelo estudo de Mattoso, conheceu nova edição, promovida pela Fundação Mariana Seixas e agora legitimada pelos pareceres de professores da Universidade Nova de Lisboa e da Faculdade de Letras de Coimbra que contribuiram para a edição crítica do texto, bem como prefaciaram o estudo. O mais curioso, contudo, e o que me interessa sobremaneira, é o apoio prestado à edição, lançamento e divulgação da obra, pela Câmara Municipal de Viseu, sendo que o seu presidente, Fernando Ruas, assina um curioso preâmbulo.


Aí, o presidente da edilidade rejeita quaisquer «polémicas bairristas» e tal é a única afirmação relevante do simpático e protocolar intróito. É que a rejeição da polémica supõe uma satisfação bairrista, o que é compreensível, tanto mais que sabemos o ambiente em que se desenvolveu todo este processo. Arrogarem-se como conterrâneos do Fundador era afinal o que desejavam os sócios da colectividade Unidade Vimarenense - Associação para o Desenvolvimento de Guimarães - ao encomendaram o estudo. A designação da confraria revela uma intenção simbólica que subjaz à iniciativa, isto é, promover a imagem do herói fundador ao estatuto totémico de elemento agregador de uma identidade que reivindica protagonismo, reclamando através da exibição de um laço inextricável entre o herói primordial e a terra local, uma dignidade estatutária e não circunstancial que força ao reconhecimento de uma centralidade.


Num contexto pós-moderno esta discussão ganha contornos novos, no sentido em que o nível nacional já não é reconhecido como enquadramento identitário exculsivo, sobrelevando agora outros níveis, seja à escala supranacional em que se discute a urgência de uma identidade europeia, seja à escala local e regional, para além de muitos outros enquadramentos étnicos, linguísticos, religiosos e culturais. Lembremos, a este propósito e apenas a título ilustrativo, as discussões acerca da Constituição europeia e a tentativa de definição preambular da identidade basilar da Europa, ou ainda as polémicas acerca da regionalização. Neste último aspecto, está na mente de todos que o assunto mais discutido aquando do referendo de 1998, particularmente no que à região beirã respeita, foi o conflito de centralidade entre Coimbra, Viseu e Aveiro.


Portanto, as palavras preambulares de Fernando Ruas, presidente da Câmara Municipal de Viseu, na reedição do texto de Almeida Fernandes, devem ser entendidas neste contexto, pois que as conclusões divulgadas historiograficamente reforçam uma capitalidade das terras viseenses, não apenas simbólica, que é incompatível, na estratégia definida pelos próprios autarcas, com a subordinação administrativa, ou de qualquer outra ordem, ao centro conimbricense.


Assim, a história é convocada, ou melhor, usada, em função destas pretensões. Tal facto é outra evidência pós-moderna. Lembremos como, no livro, Guimarães é referida, muita acertadamente diga-se, como um «burgo prestigiosamente municipalizado – um centro tipicamente popular (…), o menos favorável possível a residências nobres na época.» Ao passo que a capitalidade viseense é recuperada pela evocação da memória anterior ao advento da nacionalidade: «Das duas vezes que neste Noroeste hispânico, galaico, se constituiu um reino até aos limites arábicos, Viseu ficou como sua capital, ou residência do soberano. Assim foi com o infante Ordonho Adefonses (depois elevado ao trono leonªes, Ordonho II) após 910, e com o infante Ramiro Ordonhes, seu filho (o futuro Ramiro II de Leão).»


Ou seja, e para concluir, Viseu, no limite arábico do Sul, isto é, no caminho futurante da nacionalidade, tinha o que faltava a Guimarães: capitalidade prospectiva. Agora, no limiar do século XXI, a estratégia viseense, servida pelo desejo inconfesso dos seus autarcas, passa pela reconstrução da memória local para que Viseu recupere a centralidade de outrora. Tal é o único facto relevante de uma discussão que de outro modo seria estéril, o qual é o de saber em que terra Afonso, filho de Teresa e Henrique, viu pela primeira vez a luz. Ora, isto está muito para além da resposta acertadamente dada por Almeida Fernandes.

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