12/08/07

O Princípio do Prazer – parte II: o Amigo dos Porcos

Em 1966, Alçada Baptista dirigia a Livraria Morais Editora, em torno da qual se organizava um grupo de católicos progressistas, quando foi publicada uma colectânea dos sermões de Martin Luther King. Força para Amar, tal é o título da compilação, é, ainda hoje, a única obra de originais do Nobel assassinado em 1968 editada em Portugal.

Luther King inspira-se em Gandhi e na mensagem cristã para reivindicar os direitos cívicos da minoria negra. A história e a coragem de King são épicas e sobejamente conhecidas. Num desses sermões – Que é o Homem? - coloca em epígrafe uma citação do Livro dos Salmos, derivando depois para Shaekespeare para concluir, primeiramente, que o Homem tem uma dimensão animal da qual não consegue desprender-se, pois «pertence à natureza e nunca pode desligar-se desse parentesco.» Porém, esta condição inicial e insuficiente não define o Homem cristão e King serve-se da Bíblia para apresentar o Homem como um ser livre feito à imagem de Deus, capaz de optar entre o bem e o mal. Afasta as teses rousseaunianas da natural bondade do ser, apresenta o Homem como pecador e desenvolve a parábola do filho pródigo para demonstrar que a liberdade de cada um construir o seu caminho lhe dá o direito de pecar mas tem sempre aberta a possibilidade do regresso, isto é, da misericórdia e do perdão divinos. Por este regresso, que implica a assunção de uma dimensão espiritual e redentora, o Homem liberta-se da sua contingência biológica, dos condicionalismos do tempo e do espaço, e afirma-se como ser moral e espiritual, cumprindo assim o seu destino que corresponde à realização do Bem. Assim se define o Homem, na perspectiva, claro está, de Luther King e do cristianismo.

Para King, a civilização ocidental, naqueles tempos conturbados da década de 60, padecia dos males do «secularismo, materialismo, fatalismo, sexualismo e injustiça racial». Tais foram os caminhos por onde se afastou o homem moderno. Mas a redenção é possível, Luther King tinha esse sonho, pois acreditava que esses caminhos ínvios seriam corrigidos, o regresso seria possível e, por isso, dirige-se directamente à consciência americana: «No país distante da segregação e da discriminação, tendes oprimido 19 milhões de vossos irmãos negros, tolhendo-os economicamente e arrastando-os para o ghetto; arrancaste-lhes o respeito próprio, assim como a sua dignidade pessoal, fazendo com que se sentissem completamente diminuídos e insignificantes. Voltai ao vosso verdadeiro lar, que é o da democracia, o da fraternidade e o da paternidade de Deus, e eu vos acolherei e concederei novas oportunidades para serdes uma grande nação.»

No fundo, este apelo do reverendo King reactualiza a polémica de Valladollid, travada nos meados de Quinhentos e opondo Bartolomé de Las Casas a Juan Ginés de Sepúlveda, onde o primeiro defendeu as suas teses acerca da dignidade dos gentios, recusando legitimar o direito da força e de subjugação dos indígenas. Foi um grande avanço civilizacional, como sempre acontece quando a inteligência se sobrepõe à brutalidade, por isso há quem considere de Las Casas como um pioneiro dos direitos humanos.

Na década de 60, nos Estados Unidos da América, Luther King retoma a batalha do dominicano espanhol, sendo vítima da ideologia racista e segregadora. É em nome de um conceito de Humanidade universalista fundado nas concepções do humanismo cristão que o reverendo alimenta a sua luta cívica. Tal concepção supõe uma convicção baseada na fé: o Homem é o centro da Criação. Discute-se pois o conceito de Homem.

Se afastarmos esta suposição cristã que faz do ser humano uma imago Dei, como o faz Peter Singer, então temos que rever o conceito de Humanidade. Para Singer, numa obra já citada anteriormente, a vida humana é equiparável, em tudo, à vida animal, argumentando que a discriminação e a violência exercidas sobre os «animais não humanos» são atitudes injustificáveis do ponto de vista ético e moral. Singer entende que a ética que nos rege é de base cristã e radica na ideia de que existe «um abismo enorme entre seres humanos e animais». Esta convicção foi dada como inquestionável durante séculos, até que Charles Darwin colocou em declínio a «credibilidade da história da nossa criação divina: criados à imagem de Deus com uma alma imortal». Se recusarmos esta crença, o que se aconselha dado o seu carácter religioso, seremos forçados a concluir que «as diferenças entre nós e os restantes animais são diferenças de grau, e não de categoria.»

Aqui chegados, e tratando a ética como isolada da religião, admitir-se-á que infligir a dor, subjugar, maltratar, aprisionar ou até comer animais não humanos configura um crime, uma violação de princípios éticos fundamentais, equiparável ao racismo de outrora. Ou seja, assim como nos tempos esclavagistas, e na sociedade norte-americana em que Luther King vivia na década de 60, a discriminação com base no critério da raça constituía crime e violação ética inaceitável sob a designação de racismo, Peter Singer propõe que se combata o novo crime que decorre da aceitação dos novos princípios éticos. Crime a que dá nome: especismo: «os especistas humanos não aceitam que a dor sentida por porcos ou ratos seja tão má como a dor sentida por humanos.»

A dor é então estabelecida como critério. Enquanto que a dor cristã era dignificante e contrária à lei natural, era por isso cultural já que o sofrimento que naturalmente é indesejado era visto como virtusoso e até desejável, agora a dor , e o seu inverso, isto é, o prazer, é encarada como o critério que define os limites das práticas e comportamentos eticamente aceitáveis: «A dor e o sofrimento são maus e devem ser evitados ou minimizados, independentemente da raça, sexo ou espécie do ser que os sofrem. »

A dor que os racistas achavam suportável pelos negros e que os sexistas achavam natural nas mulheres, nomeadamente durante o parto por ser uma forma de expiar um pecado original, é a mesma dor que, agora, os especistas ignoram quando sentida pelos animais. Se a evolução histórica determinou um rumo pelo qual se superaram os dois primeiros crimes, o mesmo sucederá agora relativamente aos animais. Singer propõe, por exemplo, a adopção de dietas vegetarianas e aos direitos humanos pelos quais propugnaram Las Casas e Luther King, contrapõe os direitos dos animais. Mais dignos porque mais abrangentes. Há até quem, de forma mais radical, como Ingrid Newkirk, seguidora de Peter Singer, fundadora e activista da People for the Ethical Treatment of Animals (PETA), entenda ser um tabu o sexo com animais. Tabu ultrapassável, como o foram todos os outros relativos ao sexo não procriador, como o sexo anal e a homossexulaidade masculina (o nefando pecado dos tempos inquisitoriais), o sexo oral (digamos que o caso Lewinsky deve muito a este preconceito), a masturbação ou o lesbianismo. Como se vê, urge rever o conceito de humanidade. E nós, os porcos, não estamos livres que um dia destes alguém nos trate como gente.

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