09/08/07

O Princípio do Prazer


O padre jesuíta Manuel Antunes foi uma importante figura da cultura portuguesa do século XX. Distinguiu-se em variados domínios da actividade intelectual e cultural, foi professor na Faculdade de Letras de Lisboa, director da revista Brotéria, colaborador e amigo de destacadas personalidades como António Sérgio, Orlando Ribeiro, Jacinto do Prado Coelho, Jorge de Sena ou Vitorino Nemésio. Foi um espírito brilhante, estudioso e sempre discreto. A sua obra completa começou a ser publicada em 2005, pela Fundação Calouste Gulbenkian. No tomo II, o coordenador científico, José Eduardo Franco, reuniu os textos relativos à educação e sociedade. Foi este um dos campos a que se dedicou com o maior empenho. Poucos como ele, em Portugal, tiveram a percepção tão clara da grande revolução cultural e mental que, ao longo da década de 60, abalou os alicerces da sociedade ocidental. Ele entendeu claramente que aquilo que se passava, particularmente em França e no espaço anglo-saxónico, no meio juvenil e nas universidades, era mais do um simples episódio circunstancial, era um sinal claríssimo de uma mudança profunda que visava os fundamentos da nossa civilização, em todos os domínios, na arte, na cultura, no ensino, na religião, na política, na economia e na sociedade. O fenómeno propagou-se de Tóquio a Praga e da Califórnia a Coimbra, sendo anunciador de um tempo novo que outros depois chamariam pós-moderno, cujos contornos ele percebeu com uma acuidade e precocidade notáveis. As instituições tradicionais, da universidade à família, da escola às forças militares, da igreja às fábricas estavam submetidas a um desafio inédito: a recusa liminar por parte da juventude em dar continuidade àquele modelo de civilização. Ou seja, e por outras palavras, a ameaça do Fim não vinha com o espectro da peste, nem com a guerra, nem com os horrores da fome. O Fim não viria com uma invasão bárbara nem com a submissão ao turco, nem resultaria de um terramoto, da tirania de um louco ou do holocausto nuclear. Não, a nossa civilização estava ameaçada pela recusa das gerações vindouras em prosseguirem no caminho proposto e não estava, obviamente, prevenida para isso. A juventude era um problema. Pela primeira vez, a teleologia ocidental, a prospectividade redentora da nossa civilização comum encara um problema irredutível: os filhos renunciam ao seu destino histórico! Não lhes interessa o futuro nem o passado, mas o presente. Desprezam o legado de séculos, não se sentem portadores de nenhuma culpa nem impelidos a nenhuma redenção, declaram-se livres de qualquer submissão ou compromisso, rejeitam os valores tradicionais e renunciam à sua responsabilidade civilizacional em nome de um objectivo: o prazer! Pela primeira vez, a utopia é clitoriana, já não geográfica ou metafísica. O G-spot, e já não uma ilha afortunada ou a Jerusalém Celeste, o doutor Kinsey e já não Colombo ou Agostinho. O Paraíso é agora vaginal, depois de ter sido celestial e terrenal. O sexo está no centro do mundo, como Jerusalém outrora, ou Roma, e a felicidade relaciona-se com o prazer, pela primeira vez em dois milénos de história, desde os estóicos e do triunfo do cristianismo. A orgasmologia constituiu-se como ramo privilegiado do saber, como a cartografia o foi na era de Quinhentos ou a escatologia nos alvores da Cristandade.

A reacção imediata dos poderes instituídos a este protagonismo contestatário inédito e violento reivindicado pelos jovens foi de condescendência, inicialmente, e depois de autoritarismo punitivo. Em ambas situações se demonstrou a incapacidade para entender a juventude e os seus anseios. O general de Gaulle é o melhor símbolo desta incapacidade ainda que, um pouco por todo o mundo, todos tenham tido a mesma perplexidade e tenham reagido do mesmo modo precipitado.

Manuel Antunes não. Manuel Antunes escreveu um conjunto de artigos, que a edição crítica da Gulbenkian agrupou sob o título A Juventude como Problema, aproveitando as suas palavras. O jesuíta analisa a situação com uma abertura de espírito clarificadora. Procura perceber os movimentos estudantis e o espírito contestário, ouve o que dizem e o que escrevem, estuda os factos, relaciona-os, enquadra-os, lê os autores de referência, aproxima-se das personagens de culto e referência, os heróis, de Che a Mao, tenta entender os objectivos desta vaga e captar o que está no fundo de toda esta agitação que varre o Mundo e, no final, por baixo da espuma efémera dos dias, Manuel Antunes integra os factos no tempo longo e aponta caminhos, sugere adaptações, alterações, separa o que é episódico do que é estrutural, distingue o pontual do fundamental.

O padre Manuel Antunes surpreende-se com a inspiração que esta geração colhe da obra de Henri Marcuse, na altura um septuagenário mais ou menos ignorado, judeu de origem alemã, refugiado nos Estados Unidos onde adquiriu a nacionalidade americana. Os gritos da juventude contestatária equiparavam-no a Marx e a Mao, os três M: «Marx é o profeta, Marcuse é o seu intérprete e Mao é a sua espada.», cita Manuel Antunes.

Desde logo, e antes de se detectar o motivo deste insuspeitado relevo dado a Marcuse, note-se a disposição trinitária e o enunciado teológico do lema juvenil. Por outro lado, Antunes avança uma conclusão óbvia e apaziguadora: é que, se os jovens se tornam agora protagonistas da insatisfação, usurpando ao operariado a função histórica que lhes coubera desde a Revolução Industrial e ao campesinato desde sempre, a verdade é que a juventude, contrariamente aos outros dois grupos, não é, nunca será, uma classe social! Tudo isto, antecipa Antunes, é pois fugaz e efémero, passará quando os jovens deixarem de ser jovens, o que sucede irremediavelmente. Sabemos hoje que tinha razão, não há consciência de classe que se gere entre os jovens para além de uma identidade circunstancial. Sabemos hoje que Mick Jagger continua endiabrado e rebelde, mas é Sir, cavaleiro do Império, sabemos como Bob Dylan se converteu ao catolicismo e cantou para João Paulo II, ou como Cat Stevens se converteu ao Islão e é agora Yusuf Islam, Peter Townshend foi acusado de pedofilia, Cohn-Bendit renunciou ao anarquismo e aos ideais revolucionários, muitos hippies acabaram yuppies e Fidel Castro se tornou um ditador odiável. Restam os mitos, os que permaneceram fiéis ao ideal revolucionário e contestatário e morreram jovens: Morrison, Joplin, Hendrix, Che.

Qual o interesse então suscitado pela obra de Marcuse? – interroga-se o jesuíta. E responde de forma simples, sublinhando as profundas implicações deste novo cenário cultural e mental: «o princípio do prazer e o princípio do progresso são perfeitamente conciliáveis. Segundo ele [Marcuse], a “repressão” não pertence à essência da cultura.» Por outras palavras: a dor que foi o critério da salvação era virtuosa e garantia o Além, mas agora o critério da felicidade é o usufruto do prazer : «a razão mais óbvia para dar valor à vida de um ser capaz de sentir prazer ou dor reside no prazer que esse ser pode sentir», afirmará Peter Singer. Tal constitui uma revolução, ou melhor, uma inversão dos valores tradicionais, cujo alcance pleno é polémico e radical, obrigando a rever o conceito de Humanidade. Se tiver tempo e paciência, abordarei o tema.

A foto de Manuel Antunes foi digitalizada a partir de Manuel Antunes SJ: «Obra Completa. Tomo II. Paideia: Educação e Sociedade»; edição crítica sob orientação de José Eduardo Franco; Lisboa; Fundação Calouste Gulbenkian; 2005. O texto referido consta das páginas 267 a 284. A afirmação de Peter Singer foi retirada de «Ética Prática»; Lisboa; Gradiva; 2ª edição; 2002; p. 121.


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