11/10/07

Quem quer tramar Peculiar?

Vasco Graça Moura considerou-o o melhor livro de 2006. Eu não sou capaz de confirmar o dito, porque não leio o suficiente nem sei o bastante. Mas sei que o que li basta para o considerar um excelente livro, de leitura obrigatória por estar muito bem escrito, denotar um profundíssimo conhecimento dos factos que aborda, por adiantar interpretações inteligentes e esclarecedoras, por se referir a um assunto importantíssimo que não poderia ser mais actual apesar de velho de nove séculos. O livro é a biografia de Afonso Henriques publicado pela editora Temas & Debates depois de uma primeira edição pelo Círculo de Leitores. O autor é o consagrado José Mattoso, o nosso melhor medievalista, o mais original e rigoroso de todos os historiadores que se têm dedicado ao estudo da formação da nacionalidade e encontrado aí, no estudo do processo das origens, o terreno próprio, como já o fizera Herculano, para o questionamento e redifinição da identidade nacional.


Um dos aspectos que destaco da leitura deste livro é a importância reconhecida pelo biógrafo a D. João Peculiar. Mattoso não descobriu nada neste ponto. O papel do fundador de Santa Cruz e arcebispo de Braga na condução do processo de independência do condado, a sua influência junto do rei, a sua habilidade diplomática, a sua capacidade política, a força do seu carácter, a inteligência da sua estratégia, a sua actividade incansável já haviam sido notadas e reconhecidas por muitos outros historiadores, ainda que Mattoso derrame nova luz sobre os factos à custa de estimulantes hipóteses interpretativas.


De tal forma Peculiar foi importante que o índice remissivo do livro, ilustrando a omnipresença de Peculiar em todo o processo da independência, revela que o arcebispo é citado em 71 das 376 páginas do livro! Sem contar com o nome do próprio biografado, naturalmente, só Afonso VII merece mais referências, o que se entende.


Ora, o caso é o seguinte: se a figura e a acção de D. João Peculiar foram de tal modo determinantes, como é reconhecido pela historiografia mais isenta e rigorosa, porque razão os manuais escolares omitem o nome do arcebispo de Braga e fundador do importantíssimo mosteiro de Santa Cruz? Das dúzias de livros escolares que desfolhei, do 1º ao 12º ano, não encontrei um único que lhe cite o nome ou destaque a importância da sua acção. Pode ser que me tenha escapado alguma coisa, até pode acontecer que haja rodapés que me desmintam, anexos escondidos numa página final que contrariem o que afirmo, mas a razão da pergunta mantém-se. Tanto mais quanto o destaque dado a personagens como Jorge Sampaio ou José Saramago em alguns manuais escolares do 6º ano, por exemplo, torna mais chocante e inexplicável a ostracização de Peculiar.

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