20/03/09

O Retábulo de Genebra - o quadro de Wittz, o livro de Sérgio Luís Carvalho e o post de Fritz Lopes, por Miguel Leonardo

Na segunda feira, 19 de Março de 2007, ouvi falar pela primeira vez em Konrad Witz. Precisamente aqui no Tapornumporco num post do Fritz Lopes. Nele o escriba do Tapor refere-se ao quadro de Konrad Wittz, A Pesca Milagrosa, uma obra marcante na história da pintura ocidental. O quadro faz referência à parábola bíblica da pesca na qual o apóstolo e pescador Simão Pedro, quando viu o Senhor «vestiu a túnica, pois estava nu e lançou-se à água».

O quadro do pintor suíço tem dois aspectos particularmente interessantes: um, Simão aparece duas vezes, uma dentro do barco e outra já vestido na água. Esta foi a solução encontrada pelo pintor para retratar os tempos diferentes em que decorre a acção. Uma espécie de banda desenhada mas numa só tira, sem haver tiras sequenciais.

O segundo aspecto – este marcante – é que em vez de retratar a acção no lago Tíberíades, o verdadeiro palco bíblico, Konrad Wittz rompe com todos os cânons dominantes à data e situa a acção no lago Léman, ao largo do qual se situa a sua cidade da altura, Genebra. Os próprios apóstolos pintados terão sido inspirados nos pescadores de carne e osso que labutam no Léman. A Pesca Milagrosa é uma peça histórica pois é considerada a primeira pintura de paisagem da arte ocidental, no caso a paisagem local de Genebra. E muito hesitou Konrad Wittz antes de se decidir por essa opção, consciente que estava do alcance revolucionário do seu gesto.

Em Fevereiro de 2009, cerca de dois anos depois de ter conhecido Konrad Wittz por obra do Tapornumporco, vim a saber que um escritor português de quem nunca antes ouvira falar, de seu nome Sérgio Luís Carvalho, publicara um romance intitulado O Retábulo de Genebra (Campo de Letras) acerca do famoso quadro. Procurei informação sobre este escritor e as referências eram elogiosas. Sérgio Carvalho tem uma obra já reconhecida onde se contam títulos como Os Peregrinos Sem Fé, Os Rios da Babilónia, El Rei Pastor e As Horas de Monsaraz e ganhou alguns prémios literários nacionais e internacionais. Percebi que estava perante um cultor do chamado romance histórico - rótulo perigoso que tanto abarca notáveis como Fernando Campos como uma trupe de curiosos, cujos nomes nem fixo, dedicados à exploração da veia mística e sobrenaturalista. Pelo currículo do autor depreendia-se que estávamos perante alguém de sólida formação histórica, mas sabemos como a análise curricular é frequentemente falaciosa… De qualquer modo havia as críticas da blogosfera que eram manifestamente elogiosas e o quadro de Wittz ficara-me a bailar na memória…

Procurei o livro durante uns tempos até que, ainda em Fevereiro de 2009, dei por ele em cima de uma mesa na Fnac. Comprei-o e mal o comecei a ler percebi que estava perante um escritor a sério. O Retábulo de Genebra fala da vida de Konrad Wittz e do seu aprendiz, o jovem mendigo Gex, talvez a personagem mais interessante de toda a narrativa. Konrad Witz nasceu em Rottweill em 1400 e morreu em 1445. Foi discípulo e amigo do grande mestre flamengo Jan Van Eyck. O período histórico da vida de Wittz foi conturbado: a guerra dos 100 anos, o processo e execução de Joana D`Arc, a peste, a sagração em Basileia do anti-papa Félix V (Amadeu VIII de Sabóia). Por cá reinava El Rei D. João I. É este o mundo do livro.

Sérgio Carvalho conta-nos ainda a fantástica história que está por detrás da criação do Retábulo de Wittz e de como ele é o legado final do seu autor. A Pesca Milagrosa é uma das partes laterais de um grande retábulo que fora encomendado a Wittz por François de Metz, bispo de Genebra, para a catedral de S. Pedro, em Basileia. No auge das lutas entre protestantes e católicos, em 1535, um grupo de iconoclastas radicais destrói parte do retábulo de Genebra mas A Pesca Milagrosa salva-se misteriosamente. O legado de Wittz sobreviveu ao fanatismo e pôde assim chegar ao Tapornumporco em Março de 2007 pela pena de Fritz Lopes.

Já em Março de 2009, espicaçado pela leitura do livro de Sérgio Carvalho, voltei a reler o post de Fritz Lopes sobre A Pesca Milagrosa. Qual não foi o meu espanto quando verifiquei que o post tem um único comment lá deixado numa sexta feira, 5 de Dezembro de 2008, mais ou menos um ano depois da publicação do post no Tapor. Autor do comment? Sérgio Luís Carvalho, o próprio. O comment? Este, dirigido ao Fritz Lopes:
«Interessante o seu artigo. E conhece Konrad Witz, o que é sinal de cultura.
Acabo de escrever um romance sobre esse quadro. Chama-se "O retábulo de Genebra". Tem razão, o quadro não é uma grande "espingarda". Mas tem uma história fascinante.
E parabéns pelo seu site.» (http://tapornumporco.blogspot.com/2007/03/um-pintor-suo-e-um-enigma-portugus-por.html)

É notável como A Pesca Milagrosa, pintada em 1444, ainda continua viva em 2009. Tanto tempo depois de ter sido pintada em condições extremas pelo seu criador e depois de ter sobrevivido aos fundamentalistas cristãos, católicos e protestantes, vive agora no incrível mundo da blogosfera onde tudo é possível.

21 comentários:

Froscão que me fazem (ca)barão disse...

Isto é qué um post com níbel, munta nibelaço, não é cá dar de frosques ós mitras.

J disse...

O Tapor transcende a crise e 1260 posts depois, continua um blog imprescindível. Excelente postadela.

Anónimo disse...

O Tapor é lixado nesta pôrra, antes os mitras e mil vezes os mitras. já fiquei com a pulga atrás da orelha e lá vou ter que ler o Retábulo de Genebra. PORCOS!

ass: Gajo Coa Pulga

Anónimo disse...

Tenho-o cá em casa, Cajo Coa Pulga e posso emprestar-to. Para variar até cai bem que seja eu a emprestar-te um livro depois das centenas que já te trouxe de casa.
Mas não sei se entras naquilo: não é como o Cromac Mccaethy, não há navajos nem mexicaos para abater. Mas sempre tem umas lutazitas entre católicos e protestantes pelo meio.
Miguel Leonardo

Jacarandá disse...

Ó Miguel, deixa o homem comprar o livro, qual empréstimo?! Então o Sérgio Carvalho não terá de comer e de pagar a renda de casa? Vamos mas é ajudar os artistas, sobretudo se são bons artistas. Se o gajo quiser ler que compre.

Anónimo disse...

e a roubalheira benfiquista continua.....

benfiCão disse...

já cá canta, a tacinha. já cá mora.

oscar santos disse...

Obrigado ó Tapor pela linkada.
Já foste às minhas postinhas sobre o universo da BD, v.g., Lucky Luke, Iznogoud e Asterix?
Estou a pensar atirar-me aos autores mais exotéricos, aqueles de culto, de tendência onírica e a puxar pró intelectual. Mas sou muito jovem e temo não estar preparado para atingir a profundidade dum Tio Patinhas.

João Tapor disse...

Qual linkada ó oscar? E qual Tapor? Foste? Quem? O Zé Tapor, o Manel Tapor ou o Chico Tapor?

Anónimo disse...

Um rapaz que reduz o Bloody Meridian do Cormac MacCarthy a lutas de navajos e mexicanos, é personagem a quem devia ser retirado o livro das mãos. E quiçá, a haver justiça neste mundo, vê-las aparadas ao estilo Juiz Holden.


Perdoa-lhe Mcarthy que o homem não sabe o que lê.

ass: Gajo Coa Pulga

Charlie Brown disse...

é isso e o encarnaçãos ser reeleito na cidade do "conhecimento", a lusa-aPenas.

britannicus disse...

Abrenuntio! Vade retro!Arrenego-te, arrenego-te, arrenego-te! Libera nos domine do encarnação, do eduardo simões mãos de entesoura, do bafio académico-estudantil e da louvaminhice futebolesa, do agramatical calinas, da caquexia universitária, da Coimbrice fedunciosa! Libera nos domine!

Cícero Cãotilinário disse...

Domine, libera nos Aeminii doctoris mulae russae.

Anónimo disse...

Cão, ou és Cícero ou és Catilina. Os dois juntos não me parece. Cícero liderou a luta contra Catilina e Catilina o ambicioso usurpador terminou mal. Muito mal. Ou então és um Cão muito Cínico, o que não sendo um oxímoro como o Cícero-Catilina é certamente uma redundância..

Delenda Carthago

Cãocero disse...

eu não disse catilina. disse catilinário. ou seja, fiz de cícero invectivador de catilina.
na antiguidade, aliás, a corrupção do FCP já era notória, a ponto de ser denunciada por uma tal Catilina Salgado. eheheheh

Anónimo disse...

et tu brutus

brit disse...

Tibi assentio, Cãotilinário!

FCãoP, salvo seja disse...

Tibi foi guarda-redes do FCP, lembras-te?

brit disse...

Ainda tenho o cromo, colado com farinha de trigo e água numa caderneta como se fosse pagela de santinho. Um santinho de calções liliputianos, que quase deixam lobrigar o tomatal pudibundo.Tempos idos!

Anónimo disse...

colado com farinha de trigo? eras mesmo pobre, ó brit, e ainda por cima gastavas a farinha que servia para a tua mãezinha fazer o pãozinho. Eu tenho lá em casa o tibi colado na parede do quarto, mas com cola cisne.

brut

Anónimo disse...

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