31/03/09

MARROCOS, A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA E O AURÉLIO DAS TINTAS, por Heresiarca



Hoje no Público vinha um artigo meio escandalizado, porque o Reino de Marrocos expulsou três religiosas católicas que foram apanhadas em plena acto de penetração missionária. Perorava depois o artigo sobre a falta de liberdade religiosa em Marrocos.

Ora, eu acho isto muito bem. Proibição e expulsão dos missionários. Todos. São leis benditas que nós devíamos copiar do excelso reino das areias. Os camelos somos nós e não eles. Essas leis são sábias e impedem o proselitismo acéfalo desse exército de marteladores bíblicos, cuja especialidade é tocar campainhas às 10 da matina de domingo e às 11 da madrugada de sábado, acordando do sono bendito o devoto ao Senhor.

Quantos de vocês em vez de açular o rottweiler ao casal de velhos Jeovás, não gostariam de uma leizinha destas, que vos permitisse manter o corpanzil no remanso do leito conjugal e pegar no telemóvel a chamar a GNR: “ - ó Sargento é vir depressa com a brigada que anda aqui uma dessas feras à solta!, rápido senão eles fogem! Tragam as redes e os açaimes”.

Quantos de vocês não prefeririam de ter uma patrulha da PSP a controlar as hordas em parelha de Elders Mórmones da Igreja dos Santos dos Últimos Dias que vos destroem o sossego do disfrute da fruta da amásia, ainda por cima noite e madrugada adentro.

Isto é violência religiosa grave e devia ser controlada. E há casos mais graves ainda. Extremos. Há tempos em plena festa religiosa cristã cá do burgo a milf da Cremilde lá fez as suas caçoiladas de carne assada, que logo na primeira saída do forno regalaram o crente do marido, o Aurélio das Tintas.

No Sábado de festa, o incauto do Aurélio não estava em casa. E perguntam vocês: quem é que apareceu com toda a violência, à bruta e à falsa fé à porta da boazinha e inocente alma de Deus da Cremilde e a desviá-la do bom caminho? Bem perguntado. E eu respondo: nada mais, nada menos, que uma brigada de dois latagões de fatiota engravatada enviados pelo demo que dá pelo nome de Igreja Mórmon Dos Santos dos Últimos Dias. Os latagões, loiraços de olho azul e português americanado, enlevaram a milf Cremilde, que tratou de lhes beber a palavra desencaminhadora e os foi assentar na cozinha. Pior. Lembrou-se em agradecimento ao Senhor pelo envio de tão belos exemplares, de lhes dizer que não se fizessem rogados no caçoilame em exposição.

E como esta gente bebe do bom samaritano e dessas patranhas da oferenda e do lava-pés, dos ungidos e do vinde a mim os esfomeados, e do corpo de Cristo, etc coiso e tal, limpou a primeira caçoila e avançou para a segunda. A boa da Cremilde que encheu um olho com os loiraços, viu logo que lhe ia sobrar algo para o outro, e ainda titubeou, mas não teve coragem de cortar a palavra ao senhor.

É bem de ver que quando o bom do Aurélio das tintas chegou para o almoço de festa, carne assada viste-la, que já ia a caminho do Utah. E o puro do Aurélio não gostou e a Cremilde também não, já que o Aurélio das Tintas lhe afinfou um bom par de bolachadas, que lhe fez dum lado um olho azul e do outro um alto na testa, uma vez que foi bater com cabeça nos caçoilos vazios. E digam lá vocês se não há aqui uma espécie de justiça divina.

É evidente que hoje em dia o que se berra e aparece na estatística é violência doméstica e aqui del-rey que o marido afinfou na mulher. Tá mal. Isto é um caso claro de violência religiosa. Violência religiosa derivada apenas e tão só do facto deste manso país permitir que essa gente ande por aí a cirandar, a moer o juízo ao pessoal com as penas do inferno deles. Já não basta o nosso quando um temente a Deus chega a casa e se dá com as caçoilas vazias!

No fim de semana seguinte os Elders – himselfs – voltaram à casa da Cremilde. Acontece que o Aurélio das Tintas estava à coca. E aí houve de facto violência doméstica. Grave e com latas de tinta à mistura. Porque a religião é uma coisa colorida.

Mas repito, faz-nos falta uma leizita que evitasse este proselitismo desenfreado que por aí anda. Dormíamos mais e melhor e o Aurélio podia abrandar a vigilância.

30/03/09

A Tragédia do Mar de Aral, por Sumo Sacerdote da Igreja da Geografia


O post anterior que vem relembrar a doideira da Guerra Fria, fez-me lembrar um dos maiores desastres naturais da nossa época. Falo obviamente do Mar de Aral, que pura e simplesmente deixou de o ser. Era o Mar de Aral, hoje é um ridículo charco infecto de que toda a gente foge e do qual ninguém sabe o que fazer.

O Mar de Aral fica na conjugação de fronteiras do Casaquistão e do Uzbequistão da mítica Samarkanda, a cidade das cúpulas azuis. Estes dois países nascidos dos escombros da União Soviética dividem entre si o Aral, ou pelo menos o que resta dele.

O Aral era o maior lago de água salgada do mundo e o quarto maior lago em geral e daí o chamar-se de Mar. Era alimentado por dois rios gigantes que descem das montanhas do Hindu Kush no Afeganistão, o Amudarya e o Syrdaria. Alimentado continuamente por estes dois gigantes líquidos, o Aral contava em 1960 com 68.000 km2. Para terem uma ideia do colosso, basta comparar com o tamanho de Portugal que conta com 92.000 km2, incluindo Açores e Madeira.

A partir de 1960, a idiotia dos planos de irrigação mastodônticos da ex-União Soviética, levou a que aqueles iluminados barragassem os dois rios e fizessem zonas imensas de regadio para algodão de exportação. Cresceu o algodão, diminuiu o Aral. Hoje o Aral tem menos de 15.000km2 e continua a diminuir. Para terem termo de comparação basta ver que o nosso Distrito de Beja tem 10.225 km2.

As dezenas de aldeias piscatórias e portos de mar do Aral viram-no a fugir das suas margens a uma velocidade estonteante, sem que ninguém pusesse cobro à doideira. Para tentarem manter os barcos na água, as gentes do Aral foram escavando os canais de acesso à água que se vêm na foto anexa, mas esta fugia a uma velocidade tal, que não havia máquinas ou braços que acompanhassem a fuga. Há portos e cidades que em pouco mais de 25 anos viram o mar recuar mais de 100 km!

Para maior desgraceira, a diminuição da área de água salgada fez aumentar exponencialmente a concentração de sal, o que matou toda a fauna piscícola e vegetal do Aral. Tudo o que era peixusso e crustáceo do Aral ficou extinto. Pior ainda, no auge da guerra fria, o exército soviético fez do Aral local de testes e depósito de armas químicas e biológicas. Com a secagem do leito, toda essa estrumeira ficou a céu aberto, o que aliado aos fortes ventos leva à formação nuvens tóxicas, que devastam e matam o pouco que resta da vida à volta do Aral. Patético.

Em 2015 prevê-se que seque o pouco que resta do Aral. Um mar riquíssimo em peixe, incluindo o Esturjão do Aral, de caviar único, foi simplesmente morto. A peixaria abundante que alimentava uma frota pesqueira de arrasto e inclusivamente uma florescente indústria conserveira, está hoje a ver passar camelos. Além da extinção da pesca e da indústria conserveira, foram à vida 24 espécies de peixe, (incluindo o Esturjão do Aral) 70 espécies de mamíferos (incluindo antílopes e javalis) e 73 espécies de passarada (incluindo patos e perus). É muita comida junta, gourmet ainda por cima, a troco de umas toneladas de algodão. Malditos.

Ópera Bufa, por Pavaroti

O Público noticiou ontem que o primeiro ministro ingenheiro foi à ópera e levou uma vaia monumental da assistência quando entrou na sala com meia hora de atraso. Já se sabe que os cabrões dos comunistas e sindicalistas que infestam este país aproveitam logo para chatear. Ainda por cima agora já não é só nas inaugurações públicas e nas manifes, os seus habitats naturais, que eles atacam. Parece que também passaram a frequentar a ópera, mas também já lá dizia o outro que a ópera é para os operários.

O gabinete de sua excelência prontificou-se a justificar que o ingenheiro se atrasou apenas dez minutos porque teve uma agenda muito dura, coitadinho, e que os restantes vinte devem-se ao facto de ter ficado à espera do seu homólogo cabo-verdiano, portanto, o verdadeiro responsável pela demora. É de muito mau gosto e de uma grosseria inconcebível justificar o atraso com o erro da visita ( e fica a dúvida de que seria esta a justificação se o atraso fosse, digamos, de um ministro angolano...) E mais uma vez, o homem recusa admitir um erro, ele nunca erra, ele tem sempre carradas de razão, os outros é que o recebem com insidiosas «campanhas negras» (ainda por cima esta...).

Acho que o ingenheiro não percebeu, ainda não percebeu, o verdadeiro motivo da vaia. Então eu explico-lhe: zézito,o que se passa é que está toda a gente farta ti, FARTA pcebes,já ninguém te pode ver pela frente, desaparece, vaza, xôôô! Não é o atraso de meia hora, não é a tua ausência que incomoda as pessoas - é mesmo, pelo contrário, a tua presença em carne e osso e lata que é coisa que não te falta, que os incomoda. Não te atrases só meia hora - atrasa-te para sempre, fica longe. Fui claro? Percebeste, agora, porque é levaste aquela vaia?

27/03/09

Oh No, Not Again!, por F111

Nos anos 80 a Guerra fria estava no auge. Foi uma chatice quando a extinta URSS resolveu instalar os famosos mísseis SS 20 nos países comunistas fronteiriços aos países da Nato! Na RDA, na Polónia, na Ucrânia e nos Estados Bálticos, os soviéticos montaram um verdadeiro arsenal de capacidade nuclear que, em caso de conflito atingiria as principais capitais da Europa ocidental (Lisboa incluída). Além disso a capacidade militar convencional também foi reforçada nos países de Leste principalmente com a colocação de divisões blindadas soviéticas nestes países.

A esta política agressiva do Pacto de Varsóvia respondeu a Nato (ou o Tio Sam, depende do ponto de vista) com medidas agressivas do mesmo tipo. Assim, em 1981 a Nato instalou mísseis Cruise no território Europeu e acrescentou-lhes os Pershing II, de capacidade nuclear. Tudo material Made in Usa. Para os Americanos não era mal visto. Em caso de guerra seria a Europa o cenário de um conflito nuclear e eles ficariam mais ou menos protegidos do outro lado do Atântico.

Quem viveu esta época lembra-se do clima de prenúncio apocalíptico. Foi um período tenso. Recordo-me dos filmes dos anos 80, por exemplo de The Day After, que simulava o dia a seguir a um ataque nuclear vivido em Londres; recordo-me dos Frankie Goes to Hollywood e do seu seminal Two Tribes (com o fantástico vídeo que mostrava o Brejnev numa luta de golpes baixos num rinque de boxe com o Reagan Aqui: http://www.youtube.com/watch?v=yWLHK2h8EBQ).;
lembro-me da fantástica letra de The Russians de Sting (aqui: http://www.youtube.com/watch?v=pezAKWVgOvU)
dos crachats Nuclear Não Obrigada! (ou No Nukes!), das brigadas de pacifistas a lutarem contra a polícia para evitarem a instalação dos Pershing na Alemanha;
dos meteóricos Sigue Sigue Sputnick, punks pós apocalípticos (Aqui, o clássico Love Míssil F11 - http://www.youtube.com/watch?v=pk30a0qsVIk)

e dos Plasmatics, espécie de no futur musical(aqui http://www.youtube.com/watch?v=3_0r9OysZt)...

Vivia-se um terrível clima de tensão mundial, como não se via desde a crise dos mísseis de Cuba, 20 anos antes. Na altura cheguei a desenvolver um pesadelo que nunca mais vim a ter - é verdade, sonhava que a bomba tinha rebentado... A coisa não parecia nada ficção. Pelo contrário parecia estar bem perto de nós. E a verdade é que estava.

Felizmente tudo acabou bem. Gorbachchev subiu ao poder em 1985 e levou a cabo a Perestroyka que haveria de abrir a Rússia e os regimes de leste e desanuviar o mundo. O projecto Guerra das Estrelas da administração Reagan também ajudou, claro. Inicialmente considerado mirabolante, a verdade é que teve um efeito dissuassor real.
Entre as várias medidas tendentes ao desanuviamento, Gorby anunciou a retirada dos mísseis nucleares e dos blindados soviéticos, tendo como contrapartida idêntica retirada da parte da Nato. A Europa respirou fundo. Estávamos livres da incómoda situação de um frente a frente nuclear no palco europeu.

A história haveria de declarar – e Reagan também! – que o Ocidente vencera a Guerra Fria sem disparar um único míssil nuclear. O Pacto de Varsóvia dissolveu-se em 1990. Os filmes apocalípticos perderam o seu impacto, os Sigue Sigue Sputnick reformaram-se e a Wendy Williams, ex-estrela porno e vocalista dos Plasmatics, desapareceu para sempre deixando-nos os seus vídeos no you tube para matar saudades. O Sting, esse fez uns álbuns porreiros e virou-se para as causas ecológicas como as dos índios do Amazonas; os manifestantes anti-nuckes foram fazer moinhos eólicos para a serra dos candeeiros e eu, bem, eu deixei de sonhar com cogumelos nucleares e passei a sonhar com a Kim Basinger que era muito melhor que a Guerra Fria. Tudo bem quando acaba bem. Mas acaba mesmo?
O problema é que a Kim Basinger envelheceu e eu também, mas a loucura dos homens, essa é eterna e parece que a guerra-fria está de volta de novo. (CONTINUA)

24/03/09

Grandes Clássicos, por Rafael Ângelo

Claude Lorrain, (1600-1682), foi um dos mais conhecidos pintores franceses do período barroco. É considerado um dos maiores paisagistas do barroco francês e um dos pioneiros do género numa altura em que a pintura de paisagens dá os seus primeiros passos na história da arte ocidental.

Ora há uns tempos, a Sport TV lembrou-se dele e levou a cabo uma campanha baseada nas suas paisagens. A ideia era promover os jogos entre os chamados «grandes» clubes portugueses como autênticos «Clássicos». As paisagens de ambiente rupestre e clássico de Lourrain foram escolhidas para transmitirem ao público-alvo esse ambiente de classicismo. Para associar o futebol e os jogos grandes a este ambiente, os autores da campanha resolveram acrescentar uns jogadores à paisagem, como se vê no pic.Do ponto de vista estritamente publicitário o anúncio até resulta.

Mas do ponto de vista estritamente estético, a campanha é uma contradição nos termos. Lourrain pontuou as suas paisagens com figuras humanas. Mas minimizou-as claramente de modo a que o principal fosse a paisagem. Numa altura em que a pintura de paisagens era quase uma heresia, a introdução de figuras humanas alusivas de motivos bíblicos ou mitológicos foi um recurso usado por Lourrain para não chocar demasiado as consciências. Mas o que lhe interessava era a paisagem e, por isso, as personagens humanas aparecem numa escala ínfima de modo a não desviarem a atenção daquilo que verdadeiramente lhe importava.

Assim, de um ponto de vista estético, quando esta campanha da Sport TV vem acrescentar os jogadores de futebol à paisagem, parece que nos está a dizer que o importante é a paisagem. Na pintura de Lourrain, as figuras humanas só lá estão para disfarçar e, deste ponto de vista, é assim que passams a considerar as figuras dos futebolistas. É como se o anúncio nos dissesse:não liguem ao jogo, o que importa é a paisagem. O que também não deixa de ter a sua piada... Para a porcaria de jogos que vamos vendo na Sport TV...

20/03/09

O Retábulo de Genebra - o quadro de Wittz, o livro de Sérgio Luís Carvalho e o post de Fritz Lopes, por Miguel Leonardo

Na segunda feira, 19 de Março de 2007, ouvi falar pela primeira vez em Konrad Witz. Precisamente aqui no Tapornumporco num post do Fritz Lopes. Nele o escriba do Tapor refere-se ao quadro de Konrad Wittz, A Pesca Milagrosa, uma obra marcante na história da pintura ocidental. O quadro faz referência à parábola bíblica da pesca na qual o apóstolo e pescador Simão Pedro, quando viu o Senhor «vestiu a túnica, pois estava nu e lançou-se à água».

O quadro do pintor suíço tem dois aspectos particularmente interessantes: um, Simão aparece duas vezes, uma dentro do barco e outra já vestido na água. Esta foi a solução encontrada pelo pintor para retratar os tempos diferentes em que decorre a acção. Uma espécie de banda desenhada mas numa só tira, sem haver tiras sequenciais.

O segundo aspecto – este marcante – é que em vez de retratar a acção no lago Tíberíades, o verdadeiro palco bíblico, Konrad Wittz rompe com todos os cânons dominantes à data e situa a acção no lago Léman, ao largo do qual se situa a sua cidade da altura, Genebra. Os próprios apóstolos pintados terão sido inspirados nos pescadores de carne e osso que labutam no Léman. A Pesca Milagrosa é uma peça histórica pois é considerada a primeira pintura de paisagem da arte ocidental, no caso a paisagem local de Genebra. E muito hesitou Konrad Wittz antes de se decidir por essa opção, consciente que estava do alcance revolucionário do seu gesto.

Em Fevereiro de 2009, cerca de dois anos depois de ter conhecido Konrad Wittz por obra do Tapornumporco, vim a saber que um escritor português de quem nunca antes ouvira falar, de seu nome Sérgio Luís Carvalho, publicara um romance intitulado O Retábulo de Genebra (Campo de Letras) acerca do famoso quadro. Procurei informação sobre este escritor e as referências eram elogiosas. Sérgio Carvalho tem uma obra já reconhecida onde se contam títulos como Os Peregrinos Sem Fé, Os Rios da Babilónia, El Rei Pastor e As Horas de Monsaraz e ganhou alguns prémios literários nacionais e internacionais. Percebi que estava perante um cultor do chamado romance histórico - rótulo perigoso que tanto abarca notáveis como Fernando Campos como uma trupe de curiosos, cujos nomes nem fixo, dedicados à exploração da veia mística e sobrenaturalista. Pelo currículo do autor depreendia-se que estávamos perante alguém de sólida formação histórica, mas sabemos como a análise curricular é frequentemente falaciosa… De qualquer modo havia as críticas da blogosfera que eram manifestamente elogiosas e o quadro de Wittz ficara-me a bailar na memória…

Procurei o livro durante uns tempos até que, ainda em Fevereiro de 2009, dei por ele em cima de uma mesa na Fnac. Comprei-o e mal o comecei a ler percebi que estava perante um escritor a sério. O Retábulo de Genebra fala da vida de Konrad Wittz e do seu aprendiz, o jovem mendigo Gex, talvez a personagem mais interessante de toda a narrativa. Konrad Witz nasceu em Rottweill em 1400 e morreu em 1445. Foi discípulo e amigo do grande mestre flamengo Jan Van Eyck. O período histórico da vida de Wittz foi conturbado: a guerra dos 100 anos, o processo e execução de Joana D`Arc, a peste, a sagração em Basileia do anti-papa Félix V (Amadeu VIII de Sabóia). Por cá reinava El Rei D. João I. É este o mundo do livro.

Sérgio Carvalho conta-nos ainda a fantástica história que está por detrás da criação do Retábulo de Wittz e de como ele é o legado final do seu autor. A Pesca Milagrosa é uma das partes laterais de um grande retábulo que fora encomendado a Wittz por François de Metz, bispo de Genebra, para a catedral de S. Pedro, em Basileia. No auge das lutas entre protestantes e católicos, em 1535, um grupo de iconoclastas radicais destrói parte do retábulo de Genebra mas A Pesca Milagrosa salva-se misteriosamente. O legado de Wittz sobreviveu ao fanatismo e pôde assim chegar ao Tapornumporco em Março de 2007 pela pena de Fritz Lopes.

Já em Março de 2009, espicaçado pela leitura do livro de Sérgio Carvalho, voltei a reler o post de Fritz Lopes sobre A Pesca Milagrosa. Qual não foi o meu espanto quando verifiquei que o post tem um único comment lá deixado numa sexta feira, 5 de Dezembro de 2008, mais ou menos um ano depois da publicação do post no Tapor. Autor do comment? Sérgio Luís Carvalho, o próprio. O comment? Este, dirigido ao Fritz Lopes:
«Interessante o seu artigo. E conhece Konrad Witz, o que é sinal de cultura.
Acabo de escrever um romance sobre esse quadro. Chama-se "O retábulo de Genebra". Tem razão, o quadro não é uma grande "espingarda". Mas tem uma história fascinante.
E parabéns pelo seu site.» (http://tapornumporco.blogspot.com/2007/03/um-pintor-suo-e-um-enigma-portugus-por.html)

É notável como A Pesca Milagrosa, pintada em 1444, ainda continua viva em 2009. Tanto tempo depois de ter sido pintada em condições extremas pelo seu criador e depois de ter sobrevivido aos fundamentalistas cristãos, católicos e protestantes, vive agora no incrível mundo da blogosfera onde tudo é possível.

18/03/09

Como Defender-se de um Ataque de Mitras, por Maldini

Numa altura em que os números da insegurança no nosso país disparam para valores assustadores, o tapor sente que é sua obrigação fazer qualquer coisa para combater o flagelo. Assim, com a devida vénia, reproduz-se o excelente post que se segue (daqui:http://vaipaselva.blogspot.com/), baseado num facto verídico, repito, verídico e que nos dá preciosas indicações sobre o que fazer em caso de ataque de mitras. Leia-o com atenção: poderá fazer toda a diferença na sua vida.

Vou contar O segredo para te safares das abordagens agressivas dos mitras..

Um dia, houve um jantar de natal (já não me lembro quando), mas depois ia à sessão da meia-noite ver o Hulk com o john Terry, o Macaco e o dono dos tecidos. O dono dos tecidos já estava à espera no dv.. Vou eu o terry e o macaco a descer a Elisio de Moura e eles decidem que contornar um prédio era mais rápido. Conclusão, esconderam-se e acabei sozinho na minha caminhada para o DV. Estava a passar as anexas na rua entre o DV e a ESEC estavam à vontade 25 mitras! (era naquela altura da onda de assaltos, deviam estar a ver o que é que cada um tinha gamado). Mal me vêm um dirige-se a mim a dizer: "Kid anda cá!" e eu: "anda cá anda" (pensei para mim..) e não fiz mais nada..

DESATEI A CORRER PELA RUA A BAIXO sem olhar para trás até ao Dolce Vita..

=D

17/03/09

O verdadeiro maluco, por Doido varrido


Ouvi agora: o xuxalista teixeira dos santos autorizou o endividamento da madeira em 50 milhões de euros!
O alberto joão diz: " eu nem no meu dinheiro sei mexer, quanto mais no dos outros"
Palavras...para quê?

O Verdadeiro Meme, por BritaniCus

O meme das "gajas boas", como diz a Susan Blackmore no The Meme Machine, explora tendências determinadas biologicamente e propaga-se mimetica e meteoricamente através, por exemplo (preferido), dos calendários oficinais a mostrarem a enormidade das glândulas mamárias e o nalgal calipígio do femeal.

Não havendo "gajas boas", seria interessante pensar, como faz a Susan Blackmore, como é que o meme "masturbation is fun" ganhou vantagem competitiva relativamente ao meme "masturbation is dirty". Aqui, penso eu, ajudou o Woody Allen, esse grande fazedor de memes. É que, em boa verdade, a masturbação, o "esgaramentar a laustríbia" é o "único acto de amor com a pessoa de quem nós realmente gostamos".No fundo, no fundo, o "esgaramentar a laustríbia" é um caso de memética.

14/03/09

A crise dos valores, por Memelogista

«Em excelente forma intelectual, Almeida Santos procura reflectir sobre as mudanças políticas e económicas que percorrem o mundo e que, inevitavelmente, segundo o autor, provocarão reconfigurações do poder global. O autor propõe mesmo uma reflexão sobre o fim da civilização ocidental e do modelo capitalista ultraliberal, chamando à atenção para a crise de valores»

In Público, a propósito do livro “Que Nova Ordem Mundial?”, de António de Almeida Santos


O mito é uma das características mais interessante das sociedades humanas. Normalmente a mitologia é relativa ao universo religioso, mas também há mitos seculares. O biólogo e pensador britânico Richard Dawkins inventou para estes a designação feliz de “memes”. Um meme é, basicamente, uma ideia que se torna tendência e ganha foros de certeza.

O pequeno apontamento citado no início (extraído do suplemento de economia de ontem do Público) refere-se a um novo livro do pardo cardeal do PS e chamou-me à atenção, não por causa do livro em si, que nem li nem pretendo fazê-lo, mas porque expressa um dos memes mais frequentes da contemporaneidade. Refiro-me ao mito laico da “crise de valores”, que anda regra geral a par com o mito da “insegurança” ou de que “antigamente é que era bom” e que se reflecte em pormenores como o de Salazar ter hoje, em plena democracia, um índice de popularidade que provavelmente não tinha no seu tempo.

O meme é um conceito que se dissemina pela sociedade como um vírus. A certo ponto, toda a gente, com os jornalistas (a vanguarda memética) à cabeça, o aceita e propaga como se fosse indiscutível. Repare-se, por exemplo, que o autor da breve resenha citada não tem qualquer dúvida: Almeida Santos chama à atenção para a crise de valores. Já quando Almeida Santos expõe o óbvio (que as mudanças políticas e económicas que percorrem o mundo provocarão reconfigurações do poder global*), o redactor do Público sente-se na necessidade de ressalvar que é “segundo o autor”. Já em relação à “crise de valores”, apesar de ser algo que está longe ser óbvio, não é apresentada como uma tese de Almeida Santos (“segundo o autor”), mas sim como uma característica inequívoca da modernidade para a qual o autor alerta.

O meme da crise dos valores não é novo. Já vem da antiguidade e todas as gerações assumem esse discurso, de cariz saudosista. Sócrates, por exemplo, lamentava-se imenso acerca da decadência moral dos jovens da sua altura na antiga Grécia e são inúmeros os escritores ou filósofos que ao longo da História se vêem ocupando desta problemática da “crise de valores“. Como se algures para trás no tempo tenha existido um espécie de era de ouro que se perdeu. O passado (esse local mitológico) sempre foi realmente um sítio fantástico, sobretudo quando a memória é curta. Como se andássemos, de geração em geração, constantemente em busca de uma espécie de paraíso perdido que nunca existiu.

Almeida Santos e o redactor do Público não fazem mais do que perpetuar o meme, dando de barato, erradamente acho eu, que os “valores” estão em crise, sobretudo, o que é mais bizarro, na chamada civilização ocidental - onde o que a realidade concreta, presente e histórica, nos mostra é que os “valores“ nunca estiveram tão bem e nunca foram tão valorizados. Apesar de tudo.

E de que “valores” fala esta gente afinal? O discurso da crise dos valores é frequente, por exemplo, pelas religiões. A Igreja Católica e os muçulmanos  passam a vida a lamentar isso mesmo - há centenas de anos que o fazem, de resto, ou mesmo há milhares se tivermos em conta as narrativas do Velho Testamento - onde Deus, debalde, é suposto ter resolvido esse dilema com os lendários genocídios de Sodoma e Gomorra e do dilúvio. Os massacres divinos não resolveram coisa nenhuma e a “crise de valores” persiste. E isso, a lamentação dos religiosos, compreende-se, porque reflecte a eterna impossibilidade de conciliação entre a doutrina e a condição humana. Na óptica dos estritos padrões morais cristãos ou muçulmanos o mundo esteve, está e há-de estar perpetuamente mergulhado em “crise de valores”. É essa dinâmica irreconciliável, aliás, que alimenta a narrativa apocalíptica e redentora dos monoteísmos em busca de clientela. Já é mais estranho quando gente supostamente mais esclarecida e secularizada (como os almeidas santos e os jornalistas) embarca nessa lógica falaciosa, que radica, digo eu, na ignorância. Principalmente na ignorância do passado. Mas também na incapacidade de olhar para o mundo hodierno sem as palas da ideologia e da teologia.

Os almeidas santos e os jornalistas referem-se, regra geral, a outra ordem de valores, seculares e republicanos, alguns dos quais coincidem com princípios judaico-cristãos (que estão longe de serem originais, muitos séculos antes de Cristo já outras sociedades e religiões os advogavam), mas que são basicamente herança do iluminismo e do humanismo, da dinâmica cultural, social e económica que arrancou com a expansão ultramarina europeia e com a Renascença, a partir sobretudo do século XVI e que desembocou, no século XVIII (Revolução Francesa, independência dos EUA, etc.) com a republicanização das nações. Basicamente, quando a separação entre Estado e a Igreja finalmente se concretizou. Em termos simplistas, para não tornar o post mais maçudo, este processo histórico de secularização humanista da chamada “civilização ocidental”, acabou por resultar na democracia, nas liberdades cívicas e políticas, no Estado de Direito, no primado da ética e, sobretudo, no conjunto de princípios (valores) condensados na Declaração Universal dos Direitos do Homem.

A verdade, para além do histerismo mediático, é que nem é preciso conhecer muito de história para perceber, por exemplo, que nunca houve tanta preocupação com esta questão dos “valores“, principalmente a partir da Segunda Guerra Mundial. Em comparação com a miséria, a pestilência e a violência indiscriminada e quotidiana de séculos passados (incluindo a violência completamente discricionária e impune do Estado ou dos poderes religiosos e militares sobre o cidadão), das guerras constantes entre as nações e feudos europeus, da supremacia dos senhores da guerra, os tempos modernos são os mais pacíficos, prósperos e éticos de sempre. Os divertimentos públicos são um exemplo interessante: Há uns séculos atrás as famílias saiam ao fim de semana para assistir a enforcamentos, apedrejamentos e decapitações. Hoje, vamos à bola. Ou ao teatro, ou ao cinema. Ou passear no parque com os miúdos. Miúdos estes que já não se educam à estalada e ao pontapé, mas com muito amor e muito diálogo. Até há umas décadas atrás, as mulheres também eram disciplinadas à estalada e mal podiam abrir a boca. Hoje não há, e bem, quem as cale. Até há umas décadas atrás, um desastre natural era um castigo de Deus que, mal ou bem, se aceitava passivamente. Hoje, um terramoto mobiliza o apoio de milhões de pessoas, particulares, governos ou ONG’s, em movimentos de solidariedade internacional completamente impensáveis no passado.

Sendo óbvio que a explosão demográfica pós-industrial arrastou consigo inúmeros problemas e desafios, sobretudo ao nível das grandes cidades, também não é menos certo que, quer a nível estatal quer a nível associativo ou comunitário, ou mesmo online (o projecto Kiva é exemplar), se multiplicam os projectos e movimentos de solidariedade social. É também óbvio que persistem desigualdades sociais gritantes, mas a magnitude de pobreza não se compara com os níveis trágicos de antigamente, quando os únicos mecanismos de apoio aos mais desfavorecidos, às minorias ou aos deficientes, quando existiam, se limitavam à caridade das instituições religiosas. Basicamente, a miséria e a violência são fenómenos hoje em dia minoritários e não endémicos, generalizados, como eram até tempos muito recentes.

Tudo isto daria pano para muitas mangas, mas para atalhar, em apoio à minha tese, aconselharia que se ouvissem, por exemplo, estes dois senhores, que metem a “excelente forma intelectual” da eminência parda do PS num bolsito: São eles Stephen Pinker e Luc Ferry e podem ser ouvidos aqui e aqui, respectivamente. O primeiro fala do mito e da história da violência. O segundo fala da importância crescente da cultura do afecto nas famílias modernas.

* a este propósito, aconselharia (outra vez) por exemplo este documento norte-americano, que define alguns cenários para as próximas décadas

10/03/09

12-1!, por Dúzia

Membro do Tapor procura urgentemente contactos telefónicos zebórdinguistas. Quem for lagarto e fanático de preferência pode mandar que eu agradeço.
Já depois da coça de 5-0 da primeira mão fiquei com imensa pena de não ter números de tlms de zebórdinguistas como devem ser. E agora o «zebórdem» chupa com mais 7 em cima(atingindo a bonita cifra de 1-12 nos dois jogos) e eu não posso mandar sms a ninguém a chatear? Tá mal... Esta noite fartei-me de rir e perdi uma ocasião histórica de mandar sms do tipo «Vamos ao empate!» e «calma malta, se marcarem 12 ainda passam a elimiatória» ou «deixem-me ver o Liverpool-Real Madrid que está a dar na Sport TV descansado, porra»...
Tá bem eu sei que mais ocasiões haverá. Ao fim e ao cabo, o zebórdem é o único clube que nunca me falha, só me dá alegrias... Mas para a minha alegria ser total tem de ser partilhada e para isso preciso dos vossos números de tlm. Mandem-me números zebordenguistas, carago!

07/03/09

Xoque Tequenologico, por Popota

Mais uma: o magalhães está cehio de erros de portugês. O jornal expesso contou 80 e picos e desistiu. Note-se que não falamos da simples gralhas, fatalidade inerente a quem escreve, mas de indesculpáveis erros ortográficos, sintáticos e gramticais em número e em grabidade. Quando se escreve «fês» em vez de fez, «pedir-lo» em vez de pedi-lo e outras perolas como estas, percebese a imencidão dos erros e da ignorância que estam em jogo.
Isto é tanto mais grave quando se trata de programas com a chancela do ministerio da educaçam, quando se tratão de documentos e de jogos didáticos e pedagogicos dirigidos a criancas e a jovens. E, ainda por cima, o mal tá feito: cerca de 200 mil miodos já receberão o compotador com estas alarvidades. E agora? O minstério pediu desculpa que é o minímo que podia fazer, já prometeu corrigir os erros facultando um manual de intruçoens (!!!!) para desenstalar os programas e prontos, no pasa nada, ningém é responsabilizado e a culpa áde morrer sulteira. Como é normal neste governo de trocatintas e trapalhões. Mas alguém se lembra porque é que a menistra da educaçam do Çantana foi demetida? Não? Atão eu relembro. Porque ouve um atrazo nos concursos de colocaçam de prefeçores! Comparem com esta cobóiada e digam se ha alguma semelhança. Não á é vergonha na cara desta gente, vergonha na cara , vergonha na cara , vergonha na cara, vergonha na cara....

Este epizódio é a imagem de marca da cultura pinocrática em todo o seu isplendore: enchem as bocarras cos choques tecnológicos e desenvolvimento e bilgueites e inovaçam e nem escrever português sabem! Faz lembrar aquela gente de fatos armani (olha quem...) por fora e cuecas burradas por dentro. O que interesa é a imagem de avanço tecnológico que o pobão associa aos compotadores, escrever prtuguês corretamewnte é um pormenor, a quem é que isso intereça? bate tudo serto neste governo sem vergonha na cara vergonha na cara vergonha na cara vergonha na cara ....

Mas há uma explicaçom para esta trapalhada: depois de lermos os inacreditáveis despachos da directora da educação da zona norte, também eles redijidos num péçimo português que um aluno ucraniano xegado à dois anos a portugal já teria bergonha de acinar, nada disto nos admira. Talvês a redaçam destas pessas do magalhaens tenham sido encomendadas à dren e redijidas no português técnico dos despaxos. Acim, ao menos, era cuerente.

06/03/09

Across The Universe de Julie Taymour, por Michelle

Eu sei que a onda dos musicais tá para durar e até andava um bocado enjoado com a euforia em torno de Mamma Mia. Mas Mamma Mia tem música dos Abba e Across The Universe tem música dos Beatles. E comparar a música dos Abba à música dos Beatles é como comparar caviar com carapaus fritos no restaurante do Gordo.

Aqui no Porco há um preconceito mais ou menos generalizado contra os filmes musicais. Por mim falo que, geralmente, mal ouço gajos a falar a cantar, fico logo irritado. Acho que o trauma me ficou dessa verdadeira praga cinematográfica que são os filmes do Andrew-Loyd Weber. A lamechice do Weber deixou-me, certamente, traumas profundos ao ponto de ainda hoje não conseguir ouvir falar em Jesus Cristos Superstares ou Fantasmas da Ópera sem me arrepiar. Mesmo o Milos Forman, um cineasta de excelência, não fugiu ao mau gosto do musical quando se lembrou de fazer essa coisa abjecta do Hair. E até uma banda tão fantástica como os The Who só me fez rir com a cabotinagem do argumento e da estética de Tommy (embora a música seja excelente). Excepção feita à re-construção do universo Pink Floydiano em The Wall - com o selo da marca Hipgnosis – os musicais a mim dão-me sempre para roer as unhas de desespero. Os únicos filmes musicais que sempre me agradaram foram as puras e duras filmagens de concertos ou de digressões de grandes bandas Rock. Adorei The Song Remains the Same sobre os Led Zeppellin e o filme da digressão dos Stones dos anos 80 nos USA filmada por Al Ashby. Gostei de mais alguns filmes de tournées e de espectáculos de bandas de R`n`r e para mim chega.

Mas um destes dias vi um filme, um musical ao estilo mais clássico, desses que costumo abominar com os gajos a falarem a cantar, que é uma excepção à regra dos musicais absurdos. Trata-se de Across The Universe de Julie Taymour de 2007 com música e clima dos Beatles. Julie Taymour destacou-se anteriormente pelo seu trabalho em Frida e em O Rei Leão. Em Across the Universe consegue reconstruir o ambiente dos sixties, das grandes causas, da contestação estudantil à guerra do Vietnam, do flower power, da euforia das drogas e dos hippies.

Geralmente recriar os sixties é um número muito perigoso. Trata-se de uma época tão datada em todos os sentidos – estético, ideológico, político, cultural – que, geralmente, quem tenta aventurar-se por aí sucumbe à tarefa (até o grande Kubrick com o espantoso Laranja Mecânica acaba por realizar o mais perecível dos seus filmes, precisamente, por essa razão). Pois bem, Taymour consegue o feito de se aventurar por essa via sem cair no quase fatal anacronismo! O filme faz-nos sentir a todos um pouco hippies, mesmo os que, como eu, não têm nada a ver com aquilo. O que é notável!

O enredo é secundário – Across the Universe é mais uma história de amor. Jude (Jim Sturgess) é um emigrante inglês que se apaixona por Lucy (Evan Rachel Wood)num cenário onde co-habitam outros personagens com nomes próprios que figuram em canções do Beatles, como, por exemplo, a cantora Sadie (Dana Fuchs), uma referência a Janis Joplin e a Robert Plant, o músico Jo-Jo (Martin Luther McCoy), retrato de Jimmie Hendrix, e Prudence (T.V. Carpio). Hey Jude, Lucy in the Sky With…, Sexie Sadie, Get Back, Dear Prudence, estão lá todos… Across the Universe conta ainda com participações especiais de Bono (grande versão de I`m The Walrus),Joe Cocker("Come Together"),Salma Hayek("Happiness is a Warm Gun") e de Eddie Izzard("Being For the Benefit of Mr. Kite!"). O filme está carregado de referências, o que supõe várias camadas de leituras, sobretudo para quem gosta dos Beatles. No meio deste caldo simbólico, o enredo do filme não é, de facto, muito importante. É um simples fio condutor que permite ligar todas aquelas excelentes versões das canções mágicas do grupo e recriar o clima dos anos sessenta.Quem não adorar a música dos Beatles dificilmente entra no filme pelo seu enredo. A música é o fundamental e o argumento está lá mais para dar um nexo às diferentes canções dos Beatles do que por outra coisa. O que é habitual é que a música seja uma espécie de banda sonora da história; aqui é ao contrário, o argumento é que tenta dar sentido às diferentes canções (um aparte para um protesto: não se percebe que, sendo as letras das músicas tão importantes, a tradução portuguesa tenha feita apenas o seu trabalho nos primeiros versos das músicas, esquecendo o resto das letras). Portanto, falar deste filme é, sobretudo, falar da música.

Os Beatles ofereceram-nos exemplos do melhor que alguma vez se fez na história da música popular. Mas a sua obra está muito batida e o primeiro grande mérito de Across The Universe é a escolha pouco óbvia das 33 canções que fazem parte do filme. Julie Taymour resistiu ao facilitismo dos mega hits e foi buscar, não direi músicas de fundo de catálogo dos Fab Four, porque isso não existe, mas vá lá, músicas menos evidentes. Curiosamente a escolha da realização acerta nalgumas das melhores pérolas mais ou menos esquecidas: lá estão Dear Prudence, If I Fell, Benefict of Mr Kite e I´m the Walrus, (esta última interpretada por Bono), While my Guitar Gently Weeps, Helter Skelter, etc, etc). Ainda por cima muitas das versões são o que deve ser qualquer versão que se preze: não uma réplica do original mas uma recriação que traz algo de novo. I Fell, por exemplo, interpretada por Evan Rachel Wood é simplesmente inesquecível, um gajo apaixona-se por aquela música, mesmo sem conhecer a versão dos Beatles. Ou Oh Darling, um diálogo corrosivo entre Sadie (Dana Fuchs) e Jo-Jo que transforma a ternura do original em tensão e raiva. Mas há mais… Por causa de Across The Universe eu voltei a desenterrar os discos dos Beatles da estante onde eles se encontravam e agora passo o meu tempo a ouvi-los. Ainda bem – fui eu quem saiu a ganhar. Deixo-vos com If I Fell na versão do filme. Lindo!

05/03/09

Don`t Let me Down, por Mr. Kite

Esta ouvi-a de manhã na rádio: uma universidade de Liverpool acaba de criar um mestrado em Beatles. Não sei se é um disparate como pode parecer a mentes mais conservadoras. Se fosse um mestrado em Mozart ou em Wagner já estaria bem? E porque não em Rolling Stones em Jimi Hendrix ou em Madonna?

Esta coisa da cultura pop baralha-me um bocado, literalmente baralha-me, não sei o que hei-se pensar, mas em príncípio nem acho mal a iniciativa. Por mim frequentava na boa um mestrado sobre os Beatles. E vocês o que é que acham?

03/03/09

O Viking e a Lançadora do Martelo, por Urubu

Tenho um amigo que é um verdadeiro Viking. É um rapaz que mal chega a um restaurante, a uma repartição pública, a um qualquer guichet e pede logo licença, tira um capacete de viking da mala e marra a direito. Os empregados de mesa da maior parte dos restaurantes da zona centro já o conhecem e tremem só de o ver entrar, sentar-se muito sério e compenetrado e enfiar o célebre capacete na cabeça. Ele tem princípios: nunca marra sem o capacete, diz assim, «o senhor desculpe, dê-me só um segundinho, é o tempo de pôr o capacete, pronto já está» e aí vai disto. Assim sim, com ética, com elegância, com correcção... Um dia destes liguei ao P. que tinha ido almoçar com ele e o sms que me mandou rezava assim: «estamos no Ódelino. Ainda nem nos sentámos e o gajo já tá de capacete a marrar com o empregado».

Conheço uma rapariga a quem chamamos a Lançadora do Martelo porque tem o físico de uma, anda com os braços em u ao contrário e ainda por cima veste umas roupas meio bélicas, tipo uns collants pretos e umas botas, que lhe dão um ar de guerreira germânica medieval. Quando estamos ao pé dela falamos muito pianinho e pensamos muito bem nas coisas que dizemos porque não queremos correr o risco de apanharmos com umas chapadas nas ventas se ela se chateia..

Imagino o par que eles fariam. Até tenho pena dos desgraçados dos empregados dos restaurantes. Devia meter medo só imaginá-los a entrar no restaurante . A Lançadora do Martelo e o Viking deviam fazer um par de respeito, meu Deus, partiam aquilo tudo. Agora que penso nisso o cenário é tão interessante, mas tão interessante que um dia destes ouso e apresento ao Viking à Lançadora do Martelo. Pode ser que... Têm todo o potencial para formarem uma dupla temível, mais ainda que a dupla Reinaldo/Jorge Gomes dos tempos em que o Glorioso ainda papava títulos!

02/03/09

Balanço do Congresso, por Xuxa

Os xuxialistas lá estiveram reunidos no seu «congresso», termo engraçado, para referir a actividade religiosa de adoração do seu grande líder, o sr. inginheiro. Como se esperava, dali não saiu uma única ideia que mereça ser comentada porque aquilo era um espaço de veneração e não de discussão de ideias. Aquilo distinguiu-se por vários sinais, todos eles aberrantes:

- Começou logo pela bizarra opção do ingenheiro em estar presente nesta operação de veneração em vez de representar o país no fórum europeu onde se discutiu, entre outras coisas sem importância nenhuma, o fim dos off shores (palavra proibida no congresso xuxa) e as medidas para enfrentar a crise e o desemprego.

- A moção única do inginheiro foi aprovada com os votos de todos os mais de mil militantes presentes com uma única excepção de um único militante (quem será?) que votou contra. O cenário faz lembrar os unanismos próprios da Coreia do Norte do camarada Kim, da Venezuela do amigo Chavez ou do Iraque do sadam. Os unanismos são próprios dos regimes não pensantes, como é sabido.

- A concorrência desenfreada dos oradores de serviço que competiram na bajulação ao grande líder. Ouvi um ministro ou o que é aquilo a defender que o inginheiro, nosso Grande Líder é «corajoso, frontal, forte e firme», os hossanas continuaram, altura em que fiz um intervalo para vomitar, depois ouvi outra individualidade a defender que o líder é «inteligente, lindo, convicto» e mais não sei quê e outro dupond ainda «a dizer mesmo mais» que o líder é «carismático, entusiasta, justo e solidário». Ignoro se no final alguém ganhou o prémio «Lambe Botas do Dia» ou se ficaram todos empatados.

- O grande tema do congresso foi a nefanda «Campanha Negra». O «congresso» indignou-se em peso e o ingenheiro não explicou nada de nada, mais uma vez, mas exaltou-se muito. Cabalas!

- Discutiu-se, enfim, a magna questão: será o pêesse um partido de esquerda? Todos os congressistas entrevistados pelas televisões foram unânimes em dizer que sim. Mas quando a jornalista lhes pediu para darem um-exemplo-um de uma medida de esquerda aplicada pelo governo a resposta oscilou entre o Huuuuummmmm, tá a ver, efectivamente, isso é difícil, assim de repente e até houve uma senhora entradota que disse que tinha de atender o telefone. Campanhas negras da comunicação social, claro!

- Também disseram que queriam maioria absoluta e ninguém disse que não queria.

- E houve um senhor do portugal profundo que disse que não estava de acordo com o casamento dos homens sexuais porque o que ele vê no caso dos bichos é os cavalos atrás das éguas e os galos das galinhas e que nunca viu os cavalos atrás dos cavalos nem os galos dos galos...

- Houve o episódio Alegre que não foi e o episódio Vital que vai ser recompensado pelas defesas à Yachine que tem feito do governo. Vai para a Europa, mas pra mim tava melhor na Rússia.

- Também foi giro ver os incondicionais do pêesse actual: caminetes de carreira cheias de velhotes que vão lá passar o dia vindos do país profundo, um must do pêesse já visto aquando das eleições do costa em lisboa. A julgar pela amostra, não há jovens no pêesse a não ser essa praga de jotas que andam sempre agarrados aos partidos, verdadeiras ninhadas de cola-cartazes de onde saem tantos espécimes daninhos ao país (o ingenheiro também foi jota). Quando entrevistados os idosos das caminetes declaram pérolas como esta que ouvi a um: «eles querem é poleiro. Falam, falam, mas quando lá chegam querem é o deles». Mai nada, o que interessa é o passeio à borliu.

- Houve espectáculo de trapezistas e equilibristas como o da ana gomes que, depois de passar os últimos anos a contestar as políticas do governo, acabou por aceitar um lugarzinho nas listas para a europa, tendo ainda mandado dois ou três hossanas ao líder. Lindo!

- E a luz faltou! Gostei do apagão que levou ao encerramento do congresso mais cedo (também para o que aquela gente tinha para nos dizer foi uma verdadeira poupança de energia e assim como assim os velhotes queriam ir dormir, como muito bem disse o camarada almeida santos). Num governo que enche a boca com as novas tecnologias não deixou de ter a sua ponta de ironia. Deve ser isto o tão apregoado choque tecnológico...

A Origem do Mundo de Courbet, por Magiar


Nos últimos tempos, presume-se que devido ao incidente troliteiro de Braga, tem-se assistido a um verdadeiro recorde de entradas no Porco em busca deste texto, publicado vai para aí um ou dois anitos. Pela sua actualidade e para facilitar a vida aos súbitos interessados em pintura, aqui se posta de novo. E um obrigado à polícia de Braga que, sem querer, está a cativar o interesse das pessoas para as grandes questões da filosofia da arte.

Charles Darwin com o seu Darwinismo veio colocar a origem do homem na cloaca oceânica dos primórdios brumosos do tempo. O Criacionismo Bíblico foge às brumas e postula claramente que Deus mandou fazer luz, do barro fez homem e duma costeleta fez a mulher

Gustave Courbet, pintor francês do séc. XIX, esteve-se nas tintas prós dois Ismos e pintou a Origem do Mundo. Há assim uma terceira via, realista, para explicar a origem do homem. Courbet dizia que nunca tinha visto Deus ou Anjos e que quando os visse os pintaria. Até lá, pintava o que via. Daí que a sua pintura seja o expoente do movimento realista

Os nus, sobretudo os femininos, que até então eram pintados sob a aura mitológica de ar ausente, tornaram-se com ele, crus, carnais e sensuais. Apelidaram-no de “pintor do feio”, mas ele esteve-se nas tintas e quando em 1855 os juizes da Exposição Universal de Paris, excluíram os seus quadros da mostra, Courbet montou uma barraquita ao lado da entrada, pôs os seus quadros lá dentro e meteu um placa por cima da entrada: “Le Realisme – G. Courbet.

No “Origem do Mundo” a figura deixa o mito e a ausência para ser premente e tocável. Aquela é uma mulher real como nunca, carnuda, sensual e brutal na exposição a que se oferece. É talvez o primeiro quadro da história a suscitar a eterna polémica sobre a fronteira entre a arte e a pornografia. Mas a realidade está sempre aí, nunca foge, como Courbet provou, armando barraca."

LIDO CO’ LÁPIS – 1: “Incoerências”, por Umberto Araújo

Esta nova série de textos sublinhados a lápis, começo-a com uma nota pessoal de somenos importância. Há quase 25 anos, adquiri (não anotei onde, coisa rara) um exemplar da primeira edição de “Incoerências”, um livrinho esquecível e justamente esquecido da autoria de um também esquecido e esquecível Umberto Araújo.

Foi no dia 10 de 1984 que o volumeco de 86 páginas me chegou à posse.

Vinha sem capa. Sempre gostei de pescar do pó vertical dos alfarrabistas estas pérolas pobres, sobretudo quando devidamente velhas, esquecidas, ignoradas e… autografadas – ou pelos respectivos Autores, ou por os donos anteriores à minha pessoa.

(Uma vez, luxo dos luxos, cacei, mais do que pesquei, em Coimbra, uma cópia - e em primeira edição! – de “Varanda de Pilatos” autografada pelo Autor, um tal… Vitorino Nemésio!!! Corria o mês de Novembro de 1927. Não esquecerei esse dia feliz: 23 de Agosto de 1986. Mas adiante, que o domingo se nos acaba.)

Bem, de volta a Umberto (sim, sem H) Araújo, sempre vos digo que o primeiro dono do meu (muito meu, há quase um quarto de século, sim?) “Incoerências” foi alguém chamado “Manoel Gomes de Mattos…” e não consigo decifrar o último nome do senhor, que o adquiriu, também em Coimbra, aos 20 de Junho de 1925.

Em 1925 foi, precisamente, publicado este Incoerências do Sr. Araújo. Deu-o a lume a “LVMEN – Empresa Internacional Editora LISBOA – PORTO – COIMBRA – RIO DE JANEIRO”. E mais vos informo que “ACABOU DE SE IMPRIMIR ÊSTE LIVRO AOS DEZASSETE DIAS DO MÊS DE MAIO DE MIL NOVECENTOS E VINTE E CINCO NA TIPOGRAFIA DA “LVMEN”, EMPRESA INTERNACIONAL EDITORA, SITA À RUA DE FERREIRA BORGES, NÚMERO CENTO E TREZ, NA CIDADE DE COIMBRA.”

Tudo coisas lindas, portanto – a começar pela ortografia, que era melhor do que a nossa, esta que, ainda por cima, nos querem prostituir “à la Simplex”…

Seguindo no vento, fiz a leitura do livrinho esta mesma baça tarde dominical e inaugural do mês de Março de 2009, quase 25 anos de o possuir e 84 depois de impresso. “Tempus fugit”, é uma porra.

Foge o tempo e foge-me o conhecimento de quem foi este Sr. Umberto Araújo. Tem, ainda, toda a pinta de coimbrinha, lá isso ninguém lhe tira. Dele, só conheço a leitura que fiz, que inclui o elenco de obras até então publicadas, a entrar no prelo e em preparação por ele, a saber:

PUBLICADAS:

Águias (“LVMEN”, Editora, 1922).

O Terror nas Beiras (Prefácio – Coimbra-Editora, 1924).

Homenagem a António Augusto Gonçalves (Colaboração).

A ENTRAR NO PRELO:

Página Antiga (Cartas de Amor).

EM PREPARAÇÃO:

A Mentira Portuguesa (Impressões Sociais Contemporâneas).

Lírios de Pedra.


E pronto: não sei mais.

Quero dizer: sei o que lapijei (aprendi isto do “lapijar” em “Os Putos”, de Altino do Tojal, era puto eu também) por baixo das Incoerências que li. Dela vos darei, infra, breve antologia. Permiti-me só que vos diga o que me ficou.

Ficou-me a ideia de o Sr. Umberto Araújo ser um cabotino do mesmo calibre daqueles que cerceia à pàzada de caneta em oito dezenas de páginas. Misantropo (mas lúcido), misógino (até à quinta casa), finissecular (apesar de publicar a o cabo do primeiro quartilho do novo século XX), decadente, português afrancesado “au (de)goût de l’époque” dita “belle”, o diabo a quatro, enfim.

Certo, certinho, é que a leitura me deu gozo, a ponto de querer partilhar algo dela convosco. São citações de um moralista-antimoralista-moralista, não sei se me faço entender.

O homem venerava, por cá, o Eça (vá lá…), o Camões (vá lá…), o Camilo (de quem Araújo diz que “foi o Wagner do pensamento e da morte”), o Antero, o Guerra Junqueiro (Umberto escreve do poeta de “A Velhice do Padre Eterno”, a páginas 81, isto: “Depois de morrer GUERRA JUNQUEIRO, tenho a impressão de que ninguém mais vive no universo…” – Chiça, digo eu…).

E borrava-se todo, por lá, com o Nietzsche (que epigrafa o livro com isto: “A única coisa que se proíbe é a Verdade.”), o Rabelais, o Diderot, o Picasso (já então, sim), o Tolstoi, a Sarah Bernhardt (saiu “Bernardth”…), o Victor Hugo (claro, só podia), o Molière, o Dante, o Schiller, o Verdi, o Anatole France, o Zola, o Goethe, o Verne, enfim.

Notas paralelas a anteceder a selecção de (anti)moralidades deste Sr.:

- “OCTÁVIO MIRABEAU é um estrangulador de almas.”

- de Ibsen, diz que “foi um sacrílego da vida”, porque “a sua obra dá a impressão extraordinária de um riso de pedra num cemitério adormecido…”;

- a António Nobre, chama-lhe “larvado, trágico e doente”, pois que “foi uma flor nascida em lama, sem virilidade e sem perfume…”;

- de Gomes Leal, que “foi o Aretino do século e um velho dandy sentimental”;

- de “A Velhice do Padre Eterno”, “parece que foi obra de um Satan vencido, caído à terra como uma ave despenhada…”;

- de certo filósofo alemão, “Deus fez muito mal em ter criado SCHOPENHAUER. Antes, em vez dele, tivesse dado vida a um burro…”

- de Maeterlink, quando o lia, tinha “a impressão de que andam no ar murmúrios supremos de velhas almas estranguladas…”;

- do, por assim dizer, paulo-coelho da altura, deixou uma engraçada: “Admiro GABRIEL D’ANNUNZIO. Porque é o maior bêbedo de glória da raça latina.”

- daquele que foi preso por gostar de rapazes, deixou araujamente estatuído que “OSCAR WILDE é um rouxinol com reumatismo e sapatinhos de seda…”;

- e, para acabar co’ baile de bufas laterais, fixou que o plácido “LUCRÉCIO foi um sujeito de muito bom estômago e de muito boa pança…”.

Prontos, prontinhos. Dito isto, vamos à amorosa selecta do anónimo Sr. Umberto Araújo:

AMOROSA SELECTA
DO ANÓNIMO SR.
UMBERTO ARAÚJO

-“Coimbra transformou-se últimamente em alfôbre de meninos de côro e em biberon maligno de intelectuais de contrabando.”
(Boa, boa!)

- “A teologia, na sua ânsia de imperialismo espiritual, envolveu na sua lógica todas as invenções, resumiu em si mesma a página ancestal e misteriosa da natureza.”

- “O equilíbrio é uma mentira. O movimento impulsiona a sua essência, e jàmais adquirirá a inércia que a poesia reclama.”

- “Quando a tarde estua nas vibratilidades poderosas dos seus vícios, o ar azul impregna o éter de miasmas, proclamando o império da patologia.”

- “O absoluto é uma negação dentro da complexidade do universo.”

- “A luz, quando rasga o hímen das alturas para chegar aos olhos da humanidade, vibra nas suas eternas espirais dominada pela atracção irresistível dos astros, e quando se transforma em calor poderoso, quando abrasa de evocações o oceano incomensurável da paisagem, vem dirigida em linha recta, numa gloriosa descida de avião pilotado pelo infinito, ungida pela sublime inconsciência das leis do movimento.”
(…da-se!…)

- “O estilo é o homem, disse alguém.
Mentiu.
O estilo é a alma.”
(O catano!, digo eu. E o “alguém” foi o Buffon, totó!)

- “Não há bons livros nem maus livros.”
(Hmm, cheira-me que não te safas assim com essa facilidade toda…)

- “Os corpos nús são a tradução das almas.”
(O que tu queres, sei eu, menino, olha se não sei, ando pràqui ó mesmo el’á séculos…)

- “Finge-se por instinto e por necessidade.”

- “A Arte, como as almas e como as mulheres, quero-as e sonho-as absolutamente núas.”
(Eu nã’ t’o tinha dito, meu?)

- “O manto diáfano da fantasia passou ao museu arqueológico das convenções estreitas (…)”
(Compreendi-te p’feitamente…)

- “É mais fácil derrubar um touro que dominar um insolente.”

- “Quereis fazer de um homem inteligente um cabotino, de uma alma boa um autêntico bandido, de um ajuizado um miserável louco, de um justo uma fera, de um santo um monstro, de um sensato um leviano, indicai-lhe apenas um caminho: o casamento.”

-“Não há amor como aquele que faz envelhecer.
A dôr redime e a felicidade engana.”

- “Os homens conhecem-se pelas invejas que levantam.
E as mulheres pelas leviandades que praticam.”

- “Defende-se com mais facilidade um criminoso que um inocente.
Porque os homens foram feitos de barro – e o barro confunde-se muitas vezes com a lama…”

- “Todas as vezes que ladram um cão nascem um orador e um poeta na terra portuguesa.”
(Mas isso do cão é comigo, meu? Mas isso do poeta também, meu?)

- “Sou herói todas as vezes que fôr preciso.
Basta uma mulher, um pedaço de terra, um punhado de oiro e um cântaro de vinho.”

-“O primeiro beijo pode ser a última virtude.”

-“Um pobre que pede é um insulto que passa.”

-“Mulher por mulher, antes quero a que se vende
A que se dá, procura sempre dominar pela brutalidade da sua soberania…”

-“A mulher que eu amei e que me roubou metade da vida, nem sequer já se lembra da sua virgindade. E assim anda levando a vida, roubando as outras vidas…”

-“As mulheres são a maior futilidade do universo.
Mas ainda assim ponha-as o destino à minha porta…”

-“Quando beijo uma mulher, tenho a impressão de que sou o conviva de uma banquete que terminou há muito.”

-“O adultério de certas mulheres é como o casamento de muitos indivíduos…”

-“A beleza é uma anomalia dos sentidos.”

-“Os exércitos são a maior chaga de corrupção que inventou o espírito do homem. Por cada quartel, levanta-se uma taberna e abre-se um lupanar.”

-“Devíamos andar nús.
Os vestidos são os assassinos do ritmo e da graça…”

-“O ódio é o amor exagerado.
Não esqueçamos que Satan foi um dos anjos predilectos de Deus…”

-“Filosofar é apenas escarnecer.
A Verdade nunca se encontra nem nunca se conhece.”

-“No dia em que me falta o dinheiro, não tenho nem um só dos meus amigos.”

-“ Gosto da morte.
Porque não me insulta e porque me não mente.”

-“Sempre que me falam em amor lembro-me logo da sífilis…”

-“Quiseram fazer-me padre.
Mas esqueciam-se de que eu era homem…”

-“Esmaga-me a todos os momentos a ideia de que a vida continuará na sua indiferença e no seu egoísmo depois da minha morte.”

-“O jornal é o trapo do progresso.
Por isso é sempre sujo, mísero e maldito.”
(Lá nisso…)

-“A mulher que eu amo verdadeiramente, é aquela que só vejo uma vez, que desaparece e passa…”

-“Há bandidos que parecem santos.
E há justos que parecem feras.
É apenas uma questão de oportunidade.”

-“Os artistas que eu conheço não alem tanto como o aranhão que faz sôbre a minha cama a sua caprichosa teia.”

-“As levianas são as mulheres mais sérias.
Simplesmente porque não se preocupam em forjar mentiras.”

-“O Estado é a mama generosa dos ladrões e dos vagabundos.”
(Lá nisso…)

-“Não odeio os homens nas suas preversidades (sic).
Apenas, como NIETZSCHE, aprendi muito cedo a desprezá-los.”

“Se não fôsse o amor, a ida nem sequer seria uma loucura.”

-“As andorinhas gorgeiam (sic) nos beirais do meu telhado. Mal sabem elas, coitadinhas, que cantam sôbre um túmulo!”

-“Tenho desflorado mulheres perdidas…
As virgens só existem nas telas dos artistas e nos mármores dos museus…”

-“A instrução é a inimiga do progresso.
Maldito seja quem nos ensinou a ler!”

-“O amor, para mim, é o cântico da carne.
Quero a mulher, mas só para a devorar…”

-“Se nos víssemos por dentro, não haveria na terra senão feras e bandidos.”

-“A pobreza é o estímulo da Verdade.”

-“Olho as estátuas e pergunto: qual de nós é que anda adormecido?”
(Ora deixa-me cá pensar…)

-“As bonecas são as melhores noivas que podem encontrar-se.
Simplesmente porque não falam e porque… não mentem…”

-“A verdadeira mulher é aquela que nunca desejou ser homem.”
(Este não chegou a conhecer o “Conde”…)

-“O homem só será justo quando viver sósinho (sic)…”

-“Até hoje ainda não consegui adquirir a máscara de vier.”

-“Conheço dois homens que se odeiam profundamente, como dois tigres.
E tanto assim que desejam ambos que um dêles se case…”

-“Mentir é dizer a verdade à natureza.”
(Esta foi bem…)

-“A aviação é o bandoleiro futuro do território das aves, das almas e da luz.”

-“Um monumento aos mortos?
Ergam antes, na praça, um cadafalso aos vivos…”

-“Um criminoso é apenas um tipo que não teve sorte.”

-“As mamãs são as alcoviteiras oficiais do amor das filhas.”

-“A geração do meu tempo parece que nasceu para envergonhar a humanidade.”
(A minha também; e eu também, deixa lá…)

-“Uma mulher linda é um azulejo de carne viva…)
(Diz-lh’ agora que sim…)

-“Um mulher núa é um fio de leite coalhado.”
(Porcalhão…)

-“Uma virgem é uma bela hipótese a demonstrar.”
(Lá nisso, menino, lá nisso…)

-“Conheço muitos patriotas que pregam a moral.
Mas, no fundo, nem um só se esquece de que tem um estômago.”
(Certo, sô Zé.)

-“As catedrais são gotas de mármore tombadas do céu…)
(Lindo, lindo…)

-“A virtude maior é sempre a que se confunde com as coisas mais pequenas.”
(Bem esgalhada, esta.)

-“Se me perguntarem qual é o conceito que eu tenho da humanidade, eu direi abertamente: em mil almas há novecentos ladrões, cincoenta verdugos e cincoenta doidos.”

-“Não há perfeição nem equilíbrio na humanidade.
Ainda há-de vir o primeiro ser que me desminta.”
(Não hei-de ser eu, meu.)

-“Os reis são os únicos homens que nunca poderam (sic) a andar sósinhos (id.).”

-“A vida nada mais é que o festim ininterrupto e constante dos mortos que passaram.”

-“Um casamento é um funeral que se faz à pressa por causa do contágio.”

-“A natureza é tão hábil e tão astuta, que sem darmos por isso conseguimos envelhecer.”

-“Certas mulheres para se despirem não precisam senão dos olhos…”

-“A pedra tem os estremecimentos da carne.
E por isso tem a preferência até nos túmulos.
(Atão nã’ sejas calhau…)

-“Um banquete de anos é uma afronta.
Ah! quem pudesse antes desfazê-los!

-“Onde começa e onde termina a minha individualidade?”
(Onde terminou, sei eu…)

-“Um beijo, por amor, vale mais que um milhão por esmola.”
(O Tanas, meu, o Tanas e o Jêtas da Ponte.)

-“O amor é uma triste brincadeira que traz o mundo eternamente ridículo e parvo.”
(Bistes?)

-“No dia em que terminasse a vaidade muitos pobresinhos (sic) deixariam de comer.”

-“A arte é como um fruto proïbido (sic) que Deus criou para castigo dos impotentes…”

-“Uma guitarra nas mãos de um português é um sino de aldeia a anunciar finados…”

-“O talento é a primeira qualidade para se morrer de fome.”
(Não debes-de-ter morrido magrinho, ó jeitoso, ó coimbrinha!)

-“Admira-se muita gente de que certos sujeitos sejam hoje monárquicos, ámanhã republicanos, ontem conservadores, agora demagogos, há duas horas democráticos e há cinco minutos socialistas.
Em todo o caso cuido que não há motivo para apreensões. É da própria psicologia do político a tendência ao direito de ser pulha.
(Certinho, certinho…)

E FINALMENTE, DEIXEMOS O SR. UMBERTO ARAÚJO A REQUIESCATAR-SE IN PACE COM ESTA:

Os filhos são o prolongamento lógico das anomalias paternas.
De modo que a natureza, por uma astuciosa irreverência, consegue manter sempre à face do universo um enorme superavit de bandidos…