27/09/06

Mais Depressa Se Apanha Um Cão Que Um Buendía, por Melquíades


O Cão é sem dúvida o Porco que mais lê. O Cão leu o Ulisses (não a bagatela do Homero, mas sim o calhamação de 842 páginas do Joyce), leu o Proust e não deu o tempo como perdido e, desconfio eu que até os 3 volumes do Homem Sem Qualidades do Musil, o homem leu. Já era assim no liceu, o Cão. Não só era o que mais lia, mas o que lia com mais qualidade. Mais avant gard. Quando aí, eu me aventurava ainda pelos juvenis Steinbeck e Hemingway, já o Cão se abalançava a um Cem Anos de Solidão e a um Retrato do Artista Quando Jovem Cão.

Um dia, ainda no Liceu, disse mal ao Cão do Cem Anos. Como diz o nosso Mister, que marra com o excesso de personagens, achei que aquilo era gente a mais logo na primeira página e um gajo via-se à nora pra memorizar tanto Buendía. Com tanto galo o disse, que nesse dia levava na mão um Morris West. Tragédia. O Cão ria e saltava. Ondé que já se viu um nabo com West na mão a marrar com o Gabo. A partir do West, já o Cão impante de gozo se espojava pelo chão, berrando contra a Sidney Sheldon (sim, sim confesso que também li), o Harold Robbins, Fast e quejanda americanice best-selleriana.

Nunca mais me livrei da sarna do Cão. E eu que tanto gostava de discutir leituras com ele, levava sempre e logo de entrada nas fuças, com o gozo da escumalhada aventurosa e adjectivante. E tanto fazia como não, tentar defender que o West inicial ainda fez a obra-prima do Advogado do Diabo, ou que o Michener ainda se excedeu no Chesapeak e que o Fast foi inultrapassável na Paixão de Sacco e Vanzetti. Népias. O Cão quando ferra, não há maneira de lhe fazer largar o osso. Ainda hoje, nos reencontros vínicos, meia volta lá vem do fundo da sala um berro pleno de auto-satisfação: Ken Follet! Jefrey Archer! Desmond Bagley! Ganda besta apocalíptica!

Mas, a vingança tarda mas não falha. E é um prato que se come frio. No caso, geladinho, mesmo. É que aqui há dias, fomos tascar com o Cão lá na serra profunda. Pró fim, e porque a conversa estava melhor que boa, lá fomos até casa do Cão. Entrámos, mais conversa, bitaites e vistas magníficas sobre a beira lá em baixo. Pelo meio vou de casa de banho e ali, logo ali no corredor de acesso, reparo em novas e esconsas rimas de livralhada. Paro, olho, corro as lombadas e ó deuses, ó supremo gozo, bem aventurados os anjos da guarda. Ali, em casa do Cão, arrumadinhos, cuidados e aprumados, ali, vejo eu três Konsalik, não um nem dois, mas três Konsalik. E mais quatro Robert Ludlum. E Steel, meu deus, eu juro que havia lá um Danielle Steel. Allende era mato. Berrei que nem um desalmado e a malta veio da sala a pensar que me tinha dado uma coisa má.

O Cão viu logo a coisa toda. Virou-se para a cara-metade e abandonou-se a um desalento profundo: “ - Eu não te disse!?, eu não te avisei que isto já devia ter ido embora, que não podia aqui ficar!?, à vista de qualquer um?, olha o que foste fazer!”

Não é fácil apanhar um Cão, mas como os coxos, com paciência também se lá chega. Com que então, Konsalik, ein Kão!?, e Steel, e Sparks e Nora Roberts e Paulo Coelho. Isto vai dar pra Cem Anos. Sem Solidão.

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Buendía Cão haveria de recordar aquela noite remota em que a cara-metade se esqueceu de esconder o gelo.”

26/09/06

A Moral do Porco em Poucas Palavras, por Stygmata Martyr

«Prefiro perder um amigo a perder uma boa piada».

E é. Um amigo que não percebe ou que não aguenta uma boa piada não interessa ao menino Jesus. Não aprecio mesmo nada aquele estilo jarrão Ming que se leva muito a sério e, meia volta, afina com uma bocarra afiada. No Porco não somos nada assim, não há cá porcelanas... Quem nos vê diz que nos odiamos uns aos outros. Não é verdade. Só que gramamos ainda ainda mais o prazer de amandar umas bocas uns aos outros. Não tem nada que agradecer. Os amigos são para isso mesmo.
foto de Nicholas Nixon

25/09/06

Filhos da Região de Turismo do Oeste: guião para um episódio de uma série juvenil, por Manoel Bacoco

[A acção começa à porta principal da Escola Básica do 2º e 3º Ciclos numa cidade da região Oeste, nos arredores de Lisboa. Personagens: Professora de Biologia, Marta, João, Bernardo e Carolina. As duas raparigas saem do portão escola. Espera-as o Bernardo]

CENA 1

Carolina (para a Marta): Olha, não é o Bernardo?

Marta: Sim, parece. O que é que está ali a fazer? Será que faltou às aulas?

[Aproximam-se do Bernardo]

Carolina e Marta: Olá, Bernardo!

Bernardo (com um ar triste, o capacete debaixo do braço, encostado à mota. Veste roupa de marca. Fala com uma voz baixa]: Olá, Carolina, olá Marta…

Carolina: Passa-se alguma coisa?

Bernardo: Não, nada...

Marta: Faltaste às aulas.

Bernardo: ….

Carolina: E logo hoje que tivemos uma aula muito fixe de Biologia. Estivemos a estudar como se deve prevenir a SIDA.

Marta: Pois foi. A professora de Biologia é muito fixe. Hoje aprendi muita coisa.

Carolina: Deixa lá isso. Ó Bernardo, desculpa lá mas estás com um ar um bocado esquisito. O que é que se passa?

Bernardo: Nada, nada. Olha, tenho que me ir embora. Xau!

[Bernardo sai de cena, de mota. A câmara filma o Bernardo a desaparecer ao fundo da estrada]

Carolina [para a Marta]: Não achaste o Bernardo muito…

Marta: (responde afirmativamente com um aceno de cabeça) Isto é muito estranho…

CENA 2:

[No Centro Comercial, depois de almoço]

Marta: Olha, Carolina, aquele não é o João? É muito giro, não achas?

Carolina: Deixa-te de disparates, Marta, agora não é a altura ideal para esse tipo de comentários. ‘Bora falar com ele. Ele é a pessoa ideal para nos ajudar a descobrir o que anda a atormentar o Bernardo.

Marta: Pois é. João, João, aqui, somos nós…

João: Oi, olá miúdas, que surpresa. Estão porreiras?

Marta e Carolina: Nós estamos, e tu.

João: Eu estou óptimo, vim agora do treino de judo, vou almoçar com o meu pai e depois vou para as aulas de violino.

Marta: Sempre o mesmo João, muito atarefado, de um lado para o outro. Mas, será que nos podias dar um momento?

João: Porquê? Há algum problema?

Carolina: Não…

Marta (interrompendo): Há… pode ser que não, mas achamos que algo se passa com o Bernardo.

João: O Quê? O Bernardo? O que é que lhe aconteceu? Ele é um gajo bué de fixe… Digam-me, por favor, aconteceu alguma coisa?

Marta: Não sei, mas ele estava esquisito hoje ao fim da manhã. Queríamos falar contigo por causa disso.

João: Claro. Deixa-me só dar um toque ao meu pai. (Tira o telemóvel do bolso): ‘tou, pai, olha, passou-se agora aqui uma cena, não vou poder ir almoçar contigo, desculpa lá… eu sei pai… eu sei. Não te importas? De certeza? Pronto, obrigado, és um porreiro.

Carolina: O teu pai é mesmo fixe, quem me dera ter uma relação assim com o meu pai.

Marta: Estas relações constroem-se com base no diálogo e na confiança, Carolina.

João: Vá, meninas, deixem lá a psicologia agora. O que é que se passa com o Bernardo?

CENA 3:

[Na esplanada do Centro Comercial. Marta e Carolina colocam João a par da situação. João baixa a cabeça pensativo à medida que se vai inteirando da situação. De repente, avistam a professora de Biologia]

João: Olha, aquela não é a setôra de Biologia?

Marta: É.

Carolina: A setôra é bué de fixe. Fala connosco sobre todos os problemas que nos afligem. Olha, tive uma ideia, vocês não acham que é a pessoa ideal para nos ajudar a resolver o problema do Bernardo?

João e Marta: Isso, excelente ideia, Carolina. Setôra, setôra…!

Professora de Biologia: Olá, meninos, por aqui? Mas que agradável surpresa… Passa-se alguma coisa?

João: Bom…

Professora de Biologia: Vá, andem lá, já sabem que comigo podem contar sempre.

Marta: É o Bernardo, setôra…

Professora de Biologia: Pois é, então vocês também repararam que ele anda esquisito.

Carolina: Pois foi, setôra. Será que a setôra podia ver o que é que se passa?

Professora de Biologia: Vou tentar, deixem comigo.

CENA 4:

[No outro dia, à entrada da escola]

Bernardo: Olá, Marta. Olá Carolina, olá João.

Marta, Carolina e João: Olá, Bernardo. Estás muito mais alegre do que ontem. O que é que se passou.

Bernardo: Eh pá, vocês nem imaginam. Vocês são mesmo uns amigões. Tenho que vos agradecer.

Carolina: Então? Conta, não nos deixes assim… Vá lá.

Bernardo: Ontem, a professora de Biologia foi a minha casa falar comigo. Ela contou-me tudo. perguntou-me o que é que eu tinha, disse que eu andava estranho e que vocês tinham reparado.

Marta: pois foi…

Bernardo: Fui um palerma.

João: Anda lá, pá, conta

Bernardo: Vocês conhecem o Tó Jó, aquele tipo estranho do 9º H?

Todos: Sim, claro, o gajo é completamente passado.

Bernardo: Pois, ontem o gajo desafiou-me para faltar à aula de Biologia. Eu fui burro e aceitei. Depois fomos para o salão de jogos…

Carolina: Uiii… isso é cá um ambiente

Bernardo: E o Tó Jó desafiou-me a fumar um charro. Eu primeiro disse que não, mas depois…

Marta: Ah! Por isso é que tu estavas com aquele ar meio esquisito?

Bernardo: Pois foi. Mas a professora de Biologia já me explicou os malefícios da droga. E disse-me que eu tinha muita sorte em ter amigos como vocês.

João: Lá isso é verdade.

Bernardo (abraçando todos): Obrigado, meus amigos, vocês são os melhores amigos do Mundo.

João: Tens que vir para o judo comigo, para te manteres afastado desses perigos.

FIM

Foto

24/09/06

Memória de Porco, por Porco Solidário

Dobrei o cabo meridiano da vida. Duvido que viva tanto como já vivi. É altura de pensar nas memórias. Um gajo olha para trás e só vê merda. Por isso, o melhor é continuar a olhar em frente. Isto significa que esta página inaugural é já, também e ainda no primeiro parágrafo, a última página das minhas memórias. Isto traz-me uma grande responsabilidade. É importante que estas memórias, ou melhor, memória, não deixe má impressão. Não pode ser uma memória de merda. Esforçar-me-ei.
Estava aqui a desfolhar os papéis quando me veio à lembrança um confrade que anda arredio. Foi meu colega desde o primeiro do Ciclo Preparatório ao último da Faculdade. Foi um dos confrades mais entusiastas aqui do Porco. Organizava jantares, escrevia reportagens, tirava fotografias, enchia-nos o correio electrónico com mensagens inúteis, telefonava, jantava connosco, etc. Há dois anos que anda desaparecido, ninguém o vê a não ser acidentalmente. A amizade continua inalterada e fortíssima. Ele há-de aparecer. É o Galgo.
Estava aqui a ver uma «licença militar» de 1985 quando fui passar o Verão a Inglaterra. Lembro-me dessas férias. Tirei passaporte, paguei uma taxa de 1000$00 para me poder ausentar do país, levava pesetas, francos e libras e uma licença militar passada pelo DRM a dizer que eu tinha a situação regularizada e me encontrava na «Reserva Territorial». Nunca soube o que era isso. O papel, já amarelado, recordou-me as inspecções, a minha única memória da caserna. Eu fui com o Galgo às inspecções militares. Éramos da mesma idade e vizinhos. Lá fomos ao mosteiro de Santa-Clara-a-Nova. O Galgo tinha metido uma cunha. O pai dele, entenda-se. Tinha um capitão amigo, pagou umas notas, e ia seguro de que não pagaria à Pátria o que ela reclamava. Eu juro que não movi uma palha para evitar o cumprimento dessa obrigação. Não porque tivesse vontade de servir a dita, mas porque acreditava que não me queriam lá para nada. Pobre Pátria que precisa de um gajo como eu para a defender. Quando isso acontecer, quer dizer que já 'tá fodida! Lá fomos. O Galgo ia confiante, eu também. Por razões distintas, como se viu. Fizémos muitos testes. Psicotécnicos com cruzinhas e a contar cubos postos em estruturas de aparência tridimensional, um ditado porque nos esquecemos do diploma de estudos, uma consulta médica em que o doutor nos perguntou se sofríamos de alguma coisa, um raio-X, um teste à audição, mais outro à visão, etc. Foi um dia inteiro a andar daqui para ali e dali para aqui. Intenso. A certa altura, lá para o final da manhã, pedem-nos para mijar para um copinho de plástico. Era para fazer o teste às diabetes. Punham lá uma palhinha que, depois de bem humedecida, se tingia numa gama de cores que indicaria o nosso estado. Eu portei-me bem. O resto da malta mostrou uma secura repentina, intimidada pelo facto de estarmos ali uns à frente dos outros com o copo na mão e a pila de fora da braguilha a fazer shhhhhhh. Quanto mais shhhhhhhh fazíamos, mais inibidos se mostravam todos e mais se retraíam as bexigas. Todos menos eu. Aquilo foi um consolo. Posso dizer que foi o melhor serviço que prestei à Pátria. Orgulho-me disso, devo dizer. Se a Pátria dependesse da minha disponibilidade mictória, a Pátria seria uma Potência. A Pátria pedia-me mijo e eu dava, abundantemente. Não era como aqueles que por ali andavam em círculos com o copo na mão a fazer shhhhh. Vai daí, o Galgo disse-me assim:
- Ó Luís, tu não precisas de tanto, carago. Dá aí um bocado.
E estendeu-me o copo. Eu, fraternalmente, e porque gosto de partilhar, dei-lhe metade da minha colheita. Vendo isto, os circunstantes venceram a timidez e fizeram pedidos idênticos. Não multiplicámos o líquido, mas dividimo-lo por tantas porções quantas as necessárias. Ninguém ficou sem o seu quinhão. Cada um ficou com um golezito, salvo seja, pequenino mas o suficiente para embeber a palhinha da diabetes e para que se pudesse colorir conforme a densidade dos meus açúcares. Claro que, nesse dia, ninguém acusou diabetes. Fiquei satisfeito. Ficámos todos satisfeitos. Todos menos o Galgo que, apesar da cunha, seria chamado para cumprir serviço militar. Eu não, eu passei à reserva territorial.

Foto: http://www.fawley-hants.co.uk/Council/Council-News/November_2003/Imagefurniture/A-Pint-of-Beer.jpg

21/09/06

As Músicas do Porco – Brass in Pocket, The Pretenders, por Pop Eye

A New Wave rebentou nos anos 70/ início dos 80. É difícil defini-la devido à ausência de uma unidade estética. Mas se nos restringirmos humildemente à música, a onda é devedora do Punk e afasta-se quer do Rock progressivo quer do Disco Sound, consideradas as pragas da época (como podemos ser injustos e cegos quer dizer surdos).

A New Wave ultrapassou a anarquia estética e o primarismo musical dos punks que se gabavam de não saberem mais que três ou quatro notas por oposição aos virtuosos do rock sinfónico: Rick Wakeman vs Sid Vicious… É mais melódica e cuidada que o punk mas sem se aproximar, nem de perto, das pretensões das super bandas sinfónicas como os Pink Floyd, os Génesis ou Yes com as suas faixas de 20 minutos e álbuns de apenas quatro composições. A N.W. significou pois o triunfo, o eterno triunfo, da Pop Music.

Mas ao mesmo tempo manteve algo da frescura e da rebeldia dos Punks. No visual, na recuperação da simplicidade e do paradigma duas/três guitarras, bateria e voz e muita electricidade e energia. Houve grupos que nunca se renderam e nunca deixaram de ser punks, como os Sex Pistols, os Damned ou os Ramones. Mas outros houve que fizeram a transição do Punk para a New Wave, como os Stranglers ou o Ian Dury e os seus Blockheads. O Joe Jackson, os próprios The Police ou os Talking Heads, quanto a mim, nunca foram Punks. Foram sempre new waves… E depois ainda havia umas quantas bandas efémeras que lançaram um disco e morreram como pirilampos, mas que eram componentes essenciais da onda: alguém se lembra dos Knack, dos Undertones ou dos The Vapors? Pois, mas se eu falar em músicas como Turning Japanese, My perfect Cousin e My sharona há muita gente a lembrar-se.

Eu gostava muito das bandas New Wave. Depois passei a achá-las demasiado Pop. Na altura achei que faltava a estas bandas a energia do Rock que encontrava nos Led Zeppellin, nos eternos Stones ou nos jovens – à data – The Clash… Mas agora recuperei outra vez as velhas canções new wave como All this useless things de Elvis Costello … Mas sobretudo re-descobri Brass in Pocket dos Pretenders – uma música fantástica, um clássico dos anos 80. Ainda por cima recuperada por Sofia Coppolla em versão karaoke no brilhante Lost in Translation. Brass in Pocket realiza, como poucas músicas da altura, a síntese entre a energia do punk e a elegância pop da new wave. É uma música melódica, versátil e, ao mesmo tempo, delicada. E é uma sorte que tenham inventado o you tube e que Brass in Pocket se possa ouvir nas colunas do vosso computador. Ora ouçam:

20/09/06

Redacção Nacional por Amor da Pátria, por Cão

A gente ama o nosso país
O nosso país suporta-nos
O litoral refrigera a demora
A serra oblitera a hora
E isto está bem assim

Nenhum de nós vai muito a Lisboa
Nas aldeias do Norte há caçadeiras
Velhas preservativam chouriças
Padres escrevem boletins
Macacos comem amendoins

E isto está bem assim

Eu amo a nossa gente o país nosso
Sou fraco de carnes e débil de osso
Ouço aqui repito ali
Ser culto é ser possesso

Raparigas de trincadeira parreiram à sombra
Rapazes delicodoces amargam caramelos
O inverno não é frio e no estio
Os dias torram lânguidos e belos

E é assim que isto está bem

Eu por acaso tenho ainda mãe
Avós não mas esses
São mesmo p’ra perder sem dar luta
Não os ter é ser quase filho-da-puta
A gente ama os nossos avós

Também os nossos defuntos defumamos
Insensatos incensos incensamos
Magnos mognos lhes dedicamos
E é pelos mortos sonhos que vamos

É ou não é ó Sebastião da Gama
Poeta que a gente também ama?

Se isto não estiver bem assim
Vou ali a Espanha e só volto se for doidinho.

(foto de Henri Cartier-Bresson)

19/09/06

Vivam as magras, por Hardy

Agora até os espanhóis! Logo eles, que são o povo mais politicamente incorrecto que conheço… Eles que falam alto e tarde nos cafés e restaurantes, que comem de tudo o que faz mal e é proporcionalmente bom, que adoram as touradas e os touros de morte, que organizam a tomatina em Buñol numa rua onde estão comprimidas 40 mil pessoas a correrem alegremente o risco de holocausto, que se perfilam bêbedos à frente de manadas de touros em Pamplona, eles, nuestros hermanos, acabam de aderir ao fundamentalismo higienista que, pelos vistos, está condenado a vingar nesta Europa cada vez mais asséptica. Os espanhóis acabam de publicar uma lei que proíbe o desfile de manequins magricelas, parece impossível... As modelos que não tenham determinada altura e peso correspondente, pura e simplesmente, são afastadas do mercado de trabalho… Não podem trabalhar em moda.

Isto é uma discriminação laboral ilegítima de pessoas por razões estritamente físicas. Ainda por cima quando as empresas de moda e desfiles são privadas, não se entende porque raio tem o estado de meter o nariz naquilo que é risco e iniciativa privadas. Diz-se que as modelos têm a obrigação de ser exemplos de saúde para os jovens admiradores. O tanas, não têm nada. E que se forem muito magrinhas as adolescentes copiam-lhes a pinta e tornam-se anoréxicas! É de loucos… Pela mesma razão deviam expulsar das respectivas profissões, médicos gordos ou excessivamente magros, professores obesos e ministros fumadores. Porque é que só as desgraçadas das modelos é que têm que ser exemplos de (aparente) saúde?

Mas o que mais me repugna nisto tudo é a standardização implícita de um ideal de beleza subjacente à legislação. Fica definido, por decreto, que uma pessoa bela é a que cumpre requisitos mensuráveis. A legislação espanhola resolveu finalmente o maior problema da estética tradicional. Respondeu objectivamente: basta medir, basta pesar e não haverá disputas entre nós. A beleza mede-se com um metro e pesa-se numa balança. Doravante é este padrão social de beleza o único admissível com direito a deslize na passarela. Beleza = saúde.

E quem acha que a beleza tem algo de decadente, de sombrio ou de sinistro? Kate Moss nunca seria modelo nem os exemplos junkies da Calvin Klein… E as gordinhas que as há e bem boas? Também não podem desfilar? Os gordos correm risco de saúde, é sabido… Não as podemos admirar, nós que gostamos de outras belezas que não só as convencionais? Em nome do higienismo estamos a ir longe de mais. Por causa do modo como as miúdas com tendências anoxéricas interpretam as modelos magrinhas, proíbem-se as próprias. Isto não é só perigoso: é uma barbaridade. Sejam coerentes e proíbam a Bíblia: por causa das interpretações que dela fizeram morreram milhões e milhões de pessoas. Espanha caiu. Salvemos a Europa do higienismo fundamentalista. Não sei é como…

18/09/06

Somos Todos Católicos?, por Constantino

Há uns meses atrás, um jornal nacionalista dinamarquês, num exercício livre de xenofobia dissimulada e (bem) consentida pelas leis ocidentais de liberdade de expressão e imprensa, publicava uma série de caricaturas que desafiava o maior tabu religioso e cultural das centenas de milhões de crentes islâmicos espalhados por todo o Mundo: dava rosto a Maomé! Todos se recordam do escândalo e das reacções dos fanáticos muçulmanos. Todos se recordam dos excessos e das pressões inimagináveis exercidas sobre o director do jornal e sobre a diplomacia dinamarquesa que se recusou (bem) a pedir desculpa, argumentando que o poder político é separado da imprensa e que a liberdade de expressão é sagrada no Ocidente. Todos se lembram das manipulações das multidões e da guerra de informação. Na altura, nos jornais e na blogosfera houve muitos que se solidarizaram com a diplomacia dinamarquesa e, retomando Kennedy, gritaram inflamados: «Somos todos dinamarqueses!»
Agora, há uns dias atrás, o papa Bento XVI proferiu uma lição numa universidade alemã onde (bem) citou um imperador bizantino para demonstrar, a propósito da recusa deste em se converter ao Islão a pretexto da violência da Jihad, como a guerra é contrária ao sentimento religioso. O papa, não tão inflexível quanto a diplomacia dinamarquesa, até porque o seu múnus assim o determina, esclareceu e pediu desculpas por eventuais ofensas. A verdade é que, apesar disso, as reacções dos fanáticos aí estão. O primeiro-ministro turco reagiu solidarizando-se com o Islão ofendido, contrariamente ao governo dinamarquês que se demarcara de tomar uma posição sobre assunto religioso, na Somália mataram uma freira italiana, na Índia queimam efígies de Bento XVI, apedrejam igrejas e manifestam-se na praça pública. «Somos todos católicos?» - pergunto eu.

foto: http://news.bbc.co.uk/2/hi/europe/4495835.stm

17/09/06

O Que é um burro?, por James William N. Horse III

Ontem, o Sr. Necare publicou no seu blog um textozito inofensivo que intitulou «Etiquetagem». Trata-se de uma brincadeira ingénua pela qual o autor se pretende retratar, manifestando uma série de preferências e aversões. A brincadeira funciona como uma corrente, devendo o autor indicar um conjunto de amigos que continuará a série, sendo que foi ele próprio indicado por outros. Na minha adolescência eu também via os mariquinhas da minha turma com este tipo de jogos. Em princípio, estas brincadeiras são idiotas e inofensivas, em princípio, pelo menos enquanto não maculadas por afirmações despropositadas.

Apresentando as suas etiquetas, o Sr. Necare profere umas banalidades irrelevantes: que gosta da Suécia, gosta de música, cinema, literatura e não gosta de calor. Pelo meio, afirma despudoradamente que não gosta de espanhóis. Sem vergonha e sem justificação plausível, porque a não há, proclama-se xenófobo e argumenta que os espanhóis são expansivos e barulhentos e que andam sempre a lixar-nos. Depois reafirma a convicção: «Pode parecer estúpido mas é a realidade.»

Se o Sr. Necare afirmasse não gostar de pretos porque são muito qualquer-coisa, ou de judeus porque são muito não-sei-o-quê, o sr. Necare seria racista e incorreria em crítica séria e pena grave. Mas o Sr. Necare refere-se aos espanhóis e por isso se acha isento de responsabilidade, deve achar que tem piada e que xenofobia não é acusação grave quando aplicada a um povo inteiro. O Sr. Necare, como se pode ver, é burro.

Comentando esta inanidade, e sob o pseudónimo Pata Negra, eu chamei burro ao Sr. Necare. O Sr. Necare sentiu-se com o epíteto, justíssimo diga-se, e veio aqui ao Tapor verter a sua bílis. E disse:

«@Pata Negra: Se queres insultos, vamos a isso.
Sua besta do caralho, com uma merda de um nick tirado dos presuntos, julgas-te muito esperto, não é? Tiraste algum curso de psicologia por correspondência e queres aplicar os teus conhecimentos, mas é melhor ires para a tua vizinhança de parolos, pois deve ser o único sítio onde fazes um brilharete.
Deves ser descendente de espanhóis, não é cabrão? Andas vestidinho de andaluza, a dançar flamenco e a tocar castanholas. Volta lá para a merda da pocilga de onde saíste que a tua opinião não vale um bocado de merda de porco.»

Como se vê, e como já se havia suspeitado da leitura do post das etiquetas, o estilo não é recomendável, aliás tal como a sintaxe e o conteúdo.

O objectivo deste post é provar que o Sr. Necare é burro. É fácil. Não me dirijo ao Sr. Necare, ele lerá o post porque o post é público, mas ele não é o destinatário. Até porque, como burro que é, não entenderá a argumentação aqui expendida.

Comecemos por perguntar o que é um burro? Não no sentido zoológico, claro está, mas quando a expressão, como ofensa, é aplicada a um indigno representante do género humano. Neste caso, um burro é um indivíduo que, incapaz de interpretar e entender as evidências com que se depara e a partir daí produzir um discurso racional, insiste presunçosamente e com base na ignorância dogmática, em avaliar a realidade que não entende com base nas suas limitações. Isto é um burro. O Mundo visto pelos olhos de um burro é um mundo distorcido. Acho que a definição é boa.

A seguir, trata-se de reputar como completamente falsas as afirmações do sr. Necare relativamente à Espanha. O Sr. Necare não conhece a Espanha. Contrariamente ao que o Sr. Necare diz, a Espanha não está nem nunca esteve preocupada em nos lixar. É errado do ponto de vista histórico e político. É errado, seja qual for o ângulo e a óptica de análise. Revela ignorância completa e gritante. Poupo-me à demonstração, porque a evidência é do tamanho do universo e em sentido contrário.

Em segundo lugar, o Sr. Necare revela uma ignorância total acerca da importância da Espanha, da sua história e da sua cultura. De Goya ao presunto Pata Negra, de Altamira a Tapiés, de Almodovar a Cervantes, de Machado a Lorca, de Alonso ao Real Madrid, de Pau Gasol a Angel Nieto, de Penélope Cruz a Juan Miró, De Stª Teresa de Ávila a Cervantes, podia dar milhões, dezenas de milhões de exemplos em todos os sectores de actividade, do desporto à literatura, da poesia ao cinema, da pintura à política, da religião à sociedade, de figuras e factos marcantes na história da humanidade de origem espanhola. Em face desta evidência esmagadora, merecedora de admiração sincera, o senhor Necare diz que não gosta. Que são barulhentos e expansivos. Tece umas considerações generalistas, racistas, xenófobas e inaceitáveis.

Por outro lado, o senhor Necare fala dos nossos vizinhos como se fossem estranhos. Desconhece que a hispanidade é um pilar essencial, ainda que recalcado pelo discurso de muitos burros, da identidade portuguesa. Falar mal dos espanhóis é falar mal de nós.

Só um burro o não vê, como é o caso do Sr. Neacre. Tal só se explica se dermos por demonstrado que o Sr. Necare é burro. Esta é a etiqueta que melhor o serve, poisde contrário, ter-se-ia que considerar o Sr. Necare como racista e xenófobo. A burrice torna o Sr. Necare inimputável. Ofereço-lhe o direito a usar a coroa que ilustra o post. Mereceu-a!

foto: http://www.1ofakindstuff.com/Shrek-Donkey-Ears.html

15/09/06

Good Bye Gerês, por Pirotécnico

Este Verão o país ardeu alegremente e nós mal demos por isso. Graças ao governo – não porque tenha evitado os incêndios, mas porque conseguiu que as notícias da sua ocorrência não nos chegassem.

Em 2005 houve 300 mil hectares de área ardida. Este ano, 60 000. O governo apresentou os números como se de uma vitória se tratasse. Não é, longe disso. Em primeiro lugar porque, dada a devastação gigantesca do ano passado, este ano já não havia tanta área «útil» (para os interessados) para arder. A queima do ano anterior ainda rende… Logo é normal que os números baixem. E neste contexto 60 mil hectares é uma brutalidade. Principalmente se uma parte dessa área ardida tiver sido, como foi, o Gerês, o maior tesouro ecológico do país. Como é que alguém pode vir dizer que este ano correu muito bem, quando ardeu precisamente aquilo que nunca poderia ter ardido, a jóia da coroa, o Parque Nacional Peneda-Gerês? Eu preferia que tivessem ardido 300 mil hectares de eucaliptais a ter perdido o Gerês… O Gerês era o sítio mais bonito de Portugal. Mas o Governo acha que não e que fez uma grande figura este ano no combate aos incêndios! Valha-nos Deus…

Enquanto o país ardia, ao contrário do que se passou noutros anos, nós não soubemos de nada porque este ano a forma de passar a informação relativa aos incêndios mudou substancialmente. Nem vale a pena falar no branqueamento levado a cabo pela televisão do estado: parecia que estávamos no Ártico. Uma referência de rodapé e siga pás notícias da bola, raio de país este em que os telejornais abrem e fecham com futebol... Por outro lado, este ano, por imposição ds organismos governamentais competentes a forma de transmitir as ocorrências relativas a incêndios mudou substancialmente. Até aqui as instituições regionais ou locais faziam ao fim do dia o balanço da situação e havia informação quer local quer nacional para se saber exactamente qual a área que tinha ardido em cada dia e ao longo dos meses de Verão. Informação completa e detalhada, portanto.

Mas este ano o governo mudou esta forma transparente de informar: a lista de incêndios era publicada num site e desaparecia 10 minutos depois, em muitos casos. Conclusão: não era possível uma visão global nem detalhada da situação a não ser que houvesse um maluquinho permanentemente a retirar os dados publicados no site oficial. E assim fizeram com que não se desse pela gravidade da situação. Este verdadeiro buraco negro informativo é o sonho de qualquer pirómano que faz o seu trabalhinho discretamente sem se dar por ele. Se o Nero, o maior pirómano da história, tivesse uma equipa destas a trabalhar para ele, não tinha incendiado Roma uma só vez, mas 5 ou 10. No mínimo…

Pic de A.J. Smuskiewicz

14/09/06

E No Irão? Obviamente, Ameixa!, por Rasputin

E agora temos o Irão. Um regime radical e fanático, gordo de tantos biliões de petrodólares, que investe o que pode e quer na obtenção da bomba nuclear. Avança com as centrais, as fábricas de água pesada e as instalações de enriquecimento de urânio. A França em primeiro e a Rússia agora, refastelam-se nos petrodólares que conseguem sacar de volta. O Irão quer, o Irão vai ter. Porque a Rússia vende o kit-mãos-livres completo e porque a China veta o que for preciso alimentada pelos contratos fabulosos de super potência económica.

Agora imagine-se um Irão nuclear. O mesmo que faz politica com reféns, atentados e terrorismo, que paga biliões pelo Hezbohlá e pelo Hamas. O mesmo que defende a varredura de Israel como começo de negociações, que aspira a fazer do golfo o seu “mare nostrum” e que mantém conflitos territoriais com a Turquia, o Iraque, o Paquistão e Omã. E importa não esquecer que esta gente prega, defende e por incrível que possa parecer faz, a sujeição da realização individual ao interesse colectivo, o martírio e o sacrifício último como forma de suprema realização. O Paraíso das 72 virgens está para eles à mão de semear de uma bomba suja em Londres, Paris ou Roma.

E esta gente vai ter a bomba nuclear. E depois é impossível negá-la ao Egipto, à Turquia e à Arábia Saudita. Mais cedo ou mais tarde um de nós ou se calhar todos, vamos levar com o ameixão. Parece-me que seria prudente largar umas ameixas das boas sobre as instalações nucleares iranianas. Antes que seja tarde.

No País dos Tachos, por Manuel Cunha



12/09/06

Benfiquita, por Marcão

Pá, eu tou farto de dizer isto, mas ninguém me dá ouvidos: o mal do Benfica é a política de aquisições. De há uns anos para cá começámos a comprar gajos com nomes acabados em ito e foi o fim. Primeiro foi um Carlitos que veio do Gil Vicente. Desgraça! Depois veio outro Carlitos do Setúbal. Desgraça de novo. Agora é um tal de Miguelito. Catástofre! Não dá.

Qualquer pessoa que perceba de futebol sabe que, desde os primórdios dos tempos, nunca, apareceu um bom jogador cujo nome acabasse em ito. Os craques brasileiros como é que se chamam? Robito? Não, Robinho. Cicito? Népias, Cicinho. A selecção do mundial de Espanha tinha o Edinho, o Luisinho e o Toninho (Cerezo), o craque do Barça é o Ronaldinho, etc, etc. E a própria selecção é canarinha. Canarinha e não canarita, não é por acaso... Faz toda a diferença. Já imaginaram uma equipa a alinhar com Ronaldito, Cicito, Luisito, Tonito e Edito? Não ganhavam a ninguém, pá, quem é que lhes tinha respeito?

No Glorioso, pelo contrário, parece que estão todos a dormir e ninguém aprende estas coisas básicas da bola. Um jogador ou é Carlos ou é Carlinhos. Ou então Carlão, como o Carlos Manuel dos bons velhos tempos ou como o actual Luisão. Ou é Miguel ou Miguelão ou Miguelinho. Um gajo chamado Miguelito soa a rapazito traquinas, estilo, porta-te bem ó coisito. Dá assim uns ares de insignificância, sei lá. Mas Miguelinho soa a ratice, a manha, a astúcia. E Miguelão, é óbvio, dá a sensação de que estamos perante um gajo rijo, como deve ser, perante um fortalhuço que parte tudo quando arranca pró esférico. Estas coisas dos nomes parece que não têm importância nenhuma mas têm, pá, há gajos que são logo meia pessoa só por causa do nome. O nome faz o homem, faz o jogador e quem diz o contrário mente.

Depois dos Carlitos, amandam-nos com o Miguelito! Não há pachorra, pá, o Fernandito (Santitos) não vê um boi de bola, carago…

Foto de Elliot Erwitt

As Duas Mortes de Kashmir “O Gato” Santiago, por Mangas

O que restava de Kashmir “O Gato” Santiago, O Argumentista, o corpo morno, quase apagado, olhos cerrados e, num canto mal iluminado da sala, a ventoinha propagava o seu último suspiro. Que estranho caminho teve ele de percorrer para encontrar um momento sem vozes. A autópsia do cadáver revelou partículas de queijo e bolachas nas unhas. Vestígios de tinta azul no estômago. Presume-se que a sua alma tenha morrido tranquila. Provavelmente teria sucumbido de madrugada, vencida pelo cansaço, sobre uma resma de folhas escritas à mão, após uma longa sessão de sexo oral com a caneta de tinta permanente Monte Blanc. Mas nunca se soube ao certo. O que se veio a descobrir mais tarde foi que naquela noite derradeira tentara ainda acabar uma história na qual fosse protagonista principal, porque lhe faltava falar com autoridade sobre uma sensação genuína, daquelas que conhecesse desde o dia em que vira a luz pela primeira vez. Porém, de todas as sensações autênticas, apenas os cheiros familiares da terra sulcada pela chuva lhe provocaram alguma derivação nas palavras. E isso, deduz-se, foi antes de ter morrido a primeira vez.

As últimas palavras que O Gato Santiago argumentou foram sobre o sul. A caminho de lá. Com meio maço de cigarros no bolso, um saco com alguns livros, um pente, uma escova de dentes e o endereço dela escrita num papel amarrotado. Promete a si mesmo escrever-lhe um postal. Dir-lhe-á, em duas ou três frases, como é a rua principal de uma cidade no deserto ao entardecer onde a luz tropeça nas sombras. O sol, corpos escondidos do calor e da poeira, os cães sonolentos devorados por carraças, as putas à beira das estradas que se cruzaram no seu caminho. Sente latejar o golpe na arcada supra-ciliar. Dói-lhe quando contrai a testa ou fecha o olho desse lado. As gotas de suor que descem pelo rosto até ao peito, lavram minúsculas sensações na pele aquecida. Parece que o ar condicionado do carro se está a lixar para ele, para a situação em si e o deixou completamente exposto ao bafo do inferno. Aspira a ser algo mais do que apaixonado e inútil, como um cadáver segurando um ramo de rosas na banheira. Esquece a dor no sobrolho que começa agora a sangrar, olhos bem abertos para a tempestade que galopava no horizonte. Flores de cacto vergam-se à chuva e cheiram-lhe a ela. Bem que ainda tentou caminhar sobre as águas sem molhar os pés, mas perdeu o poder de argumentação e ficou-se pela intenção das palavras.

Foi por essa altura que o levou a segunda morte, de esguelha sobre a secretária desordenada de folhas escritas à mão, e com o crédito de ainda outras cinco.

11/09/06

A Desgraça Nacional Tem Causa e Tem Nome, por Silver Bullet

Em 1871, o Sr. Antero de Quental, ainda movido pelo desvelo esperançoso de regenerar a nação portuguesa, ilusão que uma vez esvaída contribuiria para o desânimo que faria dele um suicidário simbólico, tentava diagnosticar as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. Como muitos antes dele e muitos outros após, o Sr. Antero de Quental tinha como preocupação a ressurgência da Nação. A contemporaneidade nacional teve esta obsessão: regenerar, ressurgir, ressuscitar, recuperar, modernizar, renascer. Hoje, devemos a Vasco Pulido Valente, o maior analista da portucalidade que tem em Eduardo Lourenço o seu digno anverso, esse favor de nos recordar todos os dias uma verdade evidentíssima: Isto é irregenerável!

Tivesse o Sr. Antero de Quental atingido esta verdade claríssima e muita tragédia se tinha poupado, a começar pela sua. Mas não, o Sr. Antero considerou como causas da miséria ibérica o absolutismo, o jesuitismo, o catolicismo tridentino e mais outras observações próprias do romantismo oitocentista. Sendo as causas comuns ao espaço peninsular, tal justificava a decadência comum, daí que o plural hispânico usado pelo açoriano, sendo relevante, escondesse um equívoco. Antero buscou as causas a partir do presente, em vez de haver estudado as causas como tal. A prová-lo, o facto de, actualmente, a Espanha trilhar um progressivo e continuado rumo, o que não se verifica a Oeste de Vilar Formoso. Daí que, as causas devem ser outras.

Pois bem, caros leitores, 136 anos após a célebre conferência anteriana, cumpro o grato e histórico dever de informar que a decadência nacional tem causa e tem nome: Pedro Machado!

Pedro Machado é o novel presidente da Região de Turismo do Centro. Na edição Local Centro do «Público» de ontem, é-lhe traçado o perfil. Vale a pena recapitular: O Senhor Presidente tem 39 anos. Em miúdo agarrou nas bandeiras laranjas do PSD porque gostava da cor. A precocidade, enfeitada com a futilidade das razões, deixa antever o pior: uma carreira política! Licenciou-se em Filosofia, na Vetusta e nada, absolutamente nada do que seria minimamente exigível a um estudante de Filosofia, mesmo que da Vetusta, transparece no licenciado Machado. Não há vestígio de crítica, reflexão, especulação, cultura ou erudição. O homem é um fenómeno de vacuidade! Durante os tempos da juventude, seguiu a carreira normal: fez parte das listas para a Direcção-Geral. Perdeu, mas enrobusteceu-se na derrota. Dirigiu, a nível distrital, não concelhio note-se, várias campanhas eleitorais e, findo o curso, ei-lo revigorado no outro antro onde se geram estas espécies: as autarquias locais. Foi membro da Comissão Política Concelhia de Montemor-o-Velho, ascendendo à Comissão Distrital de Coimbra. Depois, galgará uma escadaria ascendente que, de membro da Assembleia Municipal de Montemor, passando pelo executivo autárquico onde chegará à vice-presidência, atingirá os cumes olímpicos: vogal da Comissão Política Nacional! Pelo caminho, foi ainda adjunto de um obscuro secretário de estado (a minúscula é de propósito). Este percurso deu-lhe «traquejo» e encheu-lhe o telemóvel de contactos importantes. O homem cita-os: Fernando Nogueira, o Desaparecido; Santana Lopes, o Inefável, Zita, a Convertida, e Cavaco, o austero. Acima de todos, Marques Mendes, que ocupa um lugar especial na lista telefónica do Sr. Pedro Machado.

A docência, essa, exerceu-a durante dois anos e não se mostra disponível para regressar. «Não o seduz», justifica-se. O Sr. Pedro Machado orgulha-se da sua carreira e não lhe passa pela cabeça extinguir a Região de Turismo do Centro para cuja presidência acaba de ser nomeado. Chorem comigo, caros concidadãos! Entendem agora o cinismo do grande Vasco Pulido Valente? Entendem porque razão Antero acabou por dar um tiro nos cornos?

Bebamos, meus caros, bebamos muito, porque o cheiro a pólvora faz-me dores de cabeça e este país faz-me mal à úlcera!


foto: digitalizada a partir da edição do jornal «Público» de 10.Set.2006