Quase passou despercebida a notícia bombástica da semana passada: o Tribunal Administrativo e Fiscal de Coimbra deu razão a uma aluna que recorreu da invenção da espantosa ministra da educação que decidira repetir os exames de Química e Física do 12º ano. Conhece-se o enredo: foi criada, com esta estapafúrdia invenção ministerial, uma situação de excepção que beneficiou apenas os alunos de Física/Química e dentre estes, apenas os que haviam feito o exame na primeira fase. Houve logo vários recursos em tribunal e agora uma aluna de Coimbra viu a sua razão ser reconhecida: o Tribunal Administrativo e Fiscal de Coimbra considerou e bem quea aluna não podia ser prejudicada e ordenou que tivesse acesso a um segundo exame. Era óbvio, só para Maria Lurdes é que não… Blog da RS.T - Real Esseponto do Tinto - Coimbra - Os Três Pastorinhos também bebiam o seu copito
31/10/06
The Big Crash, por Piçágoras
Quase passou despercebida a notícia bombástica da semana passada: o Tribunal Administrativo e Fiscal de Coimbra deu razão a uma aluna que recorreu da invenção da espantosa ministra da educação que decidira repetir os exames de Química e Física do 12º ano. Conhece-se o enredo: foi criada, com esta estapafúrdia invenção ministerial, uma situação de excepção que beneficiou apenas os alunos de Física/Química e dentre estes, apenas os que haviam feito o exame na primeira fase. Houve logo vários recursos em tribunal e agora uma aluna de Coimbra viu a sua razão ser reconhecida: o Tribunal Administrativo e Fiscal de Coimbra considerou e bem quea aluna não podia ser prejudicada e ordenou que tivesse acesso a um segundo exame. Era óbvio, só para Maria Lurdes é que não… 29/10/06
Texto sem Título, por Mangas

Quando o meu pai se despediu, um dos amigos que me tinha topado desde o início, agarrou nos livros e ofereceu-mos, o meu pai perguntou como é que se diz?, eu disse, e mais tarde, enquanto descia as escadas, olhei para uma das janelas igual às outras e pensei que, apesar de tudo, todos eles deviam ser felizes porque não tendo nada, tinham muitas coisas e estavam juntos, não precisavam de arrumar as tralhas enquanto liam livros do Major Alvega e do Príncipe Valente, os putos até podiam brincar com pistolas quase verdadeiras e almoçar enlatados, e eu naquele quarto até podia ser invisível. Nessa tarde choveu até anoitecer. Uma tempestade imensa varreu as montanhas. Quando trovejou as velhas rezaram e os homens esconderam-se a coberto do perigo. As traseiras da casa onde morávamos alagaram-se até ao joelho e o colchão onde eu dormia parecia uma ilha ensopada. O meu pai teve de fazer um buraco na parede de modo a escoar a água para a horta do vizinho. As roupas misturadas com batatas na lama, caixotes empilhados, chávenas de casquinha e álbuns de fotografias arrastados pela torrente das águas. Lembro-me do choro silencioso da minha mãe, e do meu pai encostado a um canto ancorado num cigarro, o olhar fixo e carregado, sem dizer uma única palavra. Lembro-me também de ter pensado que, vistas bem as coisas, os refugiados do lar talvez não fossem tão felizes quanto isso..
27/10/06
Pequena História de Portugal, por Revisor
O Marquês de Pombal foi um déspota sanguinário – basta lembrar o cruel e insidioso processo aos Távora e as mortes horríveis que o Marquês lhes decretou. Pombal, acusou-os – num processo forjado e sem provas concludentes – de terem tentado assassinar o rei, D. José. Desse processo, habilmente controlado pelo Marquês do Reino, resultou a condenação de toda (!) a família Távora a uma morte horrível num palanque erguido na zona do Estoril para gáudio da populaça.26/10/06
Um Bocadinho Mais de Profissionalismo, s. f. f., por Amoleilinha (Defesa Latelal Dileito)
Venho pelo presente trazer a Vossas Excelências as razões da minha indignação. Ando indignado, sim senhor, como consumidor. Eu acho que tenho direitos e é como utente que reclamo veementemente contra uma situação que passo a expor. Aqui há dias, estava eu a surfar na net por uns sítios manhosos e encontrei um porreiro. Umas gajas a levar na peidola com categoria. As fotos eram boas, o grafismo era excelente, o texto era atractivo, estava muito bem escrito, tinha um menu diversificado capaz de agradar a todos os públicos, pelo menos à maioria, se descontarmos aquela malta esquisita dos chicotes, da mijadela e etc. Enfim, aquilo era uma coisa bem feita, como cá não se faz. Vai daí, estava lá no menu uma opção a dizer que tinha «close ups» de bundas. E foi aí que eu me indignei, foi o que aí vi que me impeliu a trazer até aqui o meu protesto. É que os cus estavam cheios de borbulhas e pêlos encravados! Está mal, é falta de profissionalismo e de brio profissional. Quem mete o cu na net tem que ter cuidado com a imagem. Isto está-se a abandalhar. Antigamente a gente comprava uma Gina e não encontrava lá disto. Os recursos tecnológicos eram muito menores, não havia photoshop nem tratamento digital da imagem, mas havia pó-de-arroz, havia o que se perdeu: sentido de serviço público! Dedicação! Empenho! Espírito de missão! Nem mais. As moças estavam ali para servir a malta e esforçavam-se, apresentavam-se como deve ser. Não havia cá borbulhas. Ou punham maquilhage, ou fotografavam de outro ângulo, ou não faziam grandes planos, eu sei lá! O que eu sei é que não havia borbulhas nas nalgas! Dá mau aspecto, falta de deontologia profissional. Hoje qualquer gaja pode ser puta sem esforço absolutamente nehum e depois dá nisto. E até têm estudos, pois têm, mas não têm brio profissional nem deontologia!E a questão é tanto mais grave quanto um tubinho de Clearasil custa uma ninharia! É que nem sequer há a desculpa de ser caro ou de necessitar de receita médica. É simplesmente inaceitável! Intolerável! Bastaria um dedalzinho de Clerasil nas nalgas, 24 horas antes da sessão fotográfica, e tudo ficava muito mais apresentável.A não ser que o Clerasil não resulte nas nalgas. Mas, mesmo assim, eu pergunto: porque é que não há um Clerasil-Cu? Hein? Sim, é que há Clerasil para o queixo, Clerasil para o nariz, Clerasil pomada, loção Clerasil, creme, creme nocturno, compressas, nha nha nha e não sei que mais. E Clerasil-Cu? Custa assim tanto inventar uma merda para acabar com as borbulhas nas nalgas? Ou é má vontade? Incompetência? E os meus direitos de consumidor? Por isso, por estas e por outras é que isto está como está. Muito obrigado e boa noite.25/10/06
Lágrimas Negras, por Mangas

Lágrimas Negras já me era familiar – era uma faixa do “Calle54”, esse duplo lendário que reúne alguns dos principais pesos-pesados do jazz latino por gerações, desde Chano Domínguez a Tito Puente, passando pelas congas de Jerry González ao sax tenor de Gato Berbieri, ao piano indomável de Chucho, filho de Bebo Valdéz. Calle54 é a celebração dos ritmos big band, a explosão do mambo, os arranjos swing, a alternância de um Samba Triste no piano de Eliane Elias com a euforia merengada no piano de Michel Camilo em From Within. Estão lá todos, com Trueba na sala de misturas. Só lá falta o trompete incendiado de Arturo Sandoval. Nunca percebi a razão. Dei-me sempre por feliz que a obra tivesse sido feita, deu-me sempre imenso prazer ouvi-la e partilha-la com os amigos.
Mas este Lágrimas Negras é outra música. Trueba, sempre ele, encurtou o hiato de cinquenta anos entre Bebo e Dieguito “El Cigala” e juntou-os em estúdio. A lenda e o flamenco lado-a-lado, mas de olhos nos olhos. O mestre e a voz. São nove clássicos populares, nove pérolas reinterpretadas com arranjos de Bebo Valdéz. El Cigala envolve-se e empresta-lhes a dor e a pureza da alma gitana. Nieblas de Riachuelo ou o bolero Inolvidable são peças carregadas de intimismo onde a voz de Cigala percorre a saudade e a emoção do poema com as ganas e a paixão própria de um cantor de flamenco. Não há ali competição ou desgarradas, pelo contrário, os dois complementam-se, aproximam-se, voam o mesmo destino e as canções respiram um profundo respeito mútuo e a admiração de Cigala nos poucos e discretos olés aos solos de Bebo.
No tema Lágrimas Negras, o saxofone de Paquito D’Rivera entra de mansinho. Depois revolta-se. Cala-se para o solo do piano, para as palavras de Cigala e acaba perfilado com ambos a cantar a sua versão da história. A encerrar o disco, Cigala interpreta num portunhol escorreito e sensato o clássico Eu Sei Que Vou-te Amar da dupla Vinícius/Jobim. A meio da faixa a voz rende-se e, à solitude do piano de Bebo, junta-se Caetano Veloso que recita o poema Coração Vagabundo. Escreve Fernando Trueba - no pequeno diário de produção, paellas colectivas e ensaios no estúdio que acompanha o disco -, que foi um momento final de ojos húmedos. Antes disso, Bebo terá dito: “Yo soy un viejo. Mi cuerpo ya no funciona bien. Pero mi espíritu tiene veinte años”. Olé!
24/10/06
São Bagas, Senhor!, por Rainha Santa Isabel
Entre a enorme variedade de castas vínicas usadas em Portugal, há uma que se destaca pelo seu carácter indomável: falo da casta Baga, uma coisa terrível, um pesadelo para qualquer produtor, principalmente, pela sua adstringência radical. A Baga é uma casta típica da região da Bairrada. Durante muitos anos, quando a velhice dos vinhos ainda era considerada um factor de prestígio, a Baga era bem vista. Os taninos suavizavam com o tempo e, passados uns anos, valia a pena abrir uma garrafa bairradina. Ficaram famosos e ainda hoje são verdadeiras peças de culto, os tintos do Bussaco e, digo-vos eu, com inteira justiça.23/10/06
As minhas leituras, por Jean Báljan
Há uns meses, mais ou menos, que quase não consigo ler nenhum livro até ao fim. Começo-os mas, miséria das misérias, não lhes consigo dar vazão suficiente: Não os acabo com a velocidade de outros tempos. Depois vão-se empilhando na mesinha de cabeceira. O Assis Pacheco em cima do Sepulveda, este por cima do Gao Xingjian, este por seu turno por cima do Krishnamurti por seu turno em cima do Olivier Rolin, por seu turno em cima do Abrunheiro por seu turno sobre um livrinho antigo e já amarelado sobre Ocultismo de um cavalheiro de que agora não me lembra a graça, etc., até quase esconder o candeeiro. E em cima disso tudo, uma Time (edição europeia) de há dois meses, uma Pública de há três semanas e uma National Geographic de há um ano e picos. Em contrapartida leio o Público todos os dias e revistas com fartura. Se bem que o Público também é leitura incompleta, já que passo à frente as páginas do futebol por ser alérgico ao desporto escrito e falado. Aliás, nas revistas também não leio tudo. Nos cafés leio o Diário de Coimbra, As Beiras, O Figueirense e, quando os há, o Correio da Figueira e a Voz da Figueira. Depois, farto-me de ler coisas na Internet, aderi ao vício das newsletters e recebo correio com novidades diárias, semanais ou quinzenais de coisas como o NY Times; a Maxideia; a Sapo Saúde; o What Doctors Don’t Tell You; a Foreign Policy; o boletim informativo da ONU (que tem um excelente serviço noticioso para assinantes); as Informações de Segurança do Millenium; as efemérides diárias (excelentes) do Canal História; os boletins do Ciência Hoje; os alertas do Google News sobre Portugal, Coimbra e Figueira da Foz; notícias da NASA sobre ocorrências e “inventos” no espaço; a news-letter do Health World Online; a news-letter da New Scientist; da BBC Science&Nature; a news-letter do Figueira.net; a da Human Rights Watch. E mais umas quantas de mais uns quantos temas e umas quantas geografias que ficam aqui de fora em nome do fastio. Tudo isto não substitui, obviamente, a leitura de livros, que se tornou prática eminentemente nocturna e de almofada: todas as noites um bocadinho obrigatório antes de cerrar a pestana. Já a leitura electrónica é para ir lendo ao longo do dia durante a jorna, se a jorna permitir. Além disto há os sites, os portais, o correio electrónico pessoal e os blogues, a que também vou dando uma pestanada, quando posso. Bem como as legendas dos filmes, dos documentários e das séries de ficção/estimação como os Sopranos, que de resto, tem argumentos/textos fabulosos. No elevador dou ainda uma vista de olhos ao Dicas e aos folhetos publicitários com que me enchem a caixa do correio e que às vezes trazem umas promoções catitas. Antes de jantar leio o correio postal mais sério e personalizado, quando o há. Na cagadeira gosto mais de revistas de informação geral e do Courrier Internacional. No caminho de casa para o trabalho e vice-versa, que faço a pé ou de bicicleta, não deixo ainda de ler os cartazes, os folhetos, as faixas e os mupis que me aparecem à frente. Quando me interessa, paro e leio tudo antes de reprosseguir. Também dedico uma parte dos meus dias a ler SMS’s e Messenger’s (ultimamente também leio as mensagens dos meus amigos que descobriram que o Gmail também tem um serviço de chat). Como entre outros ofícios, também sou agora editor de uma revista mensal, pelo menos uma semana por mês leio (e corrijo) todos os artigos a publicar. Além disto, quando vou às compras, leio os rótulos dos produtos. Por razão que adiante perceberão, também leio catálogos de editoras. Por mor de compor o orçamento, também leio transcrições de julgamentos. Leio ainda capas e brochuras de CD’s e DVD’s, bem como os ditados, graças e provérbios nos pacotes de açúcar. Às vezes, durante o dia, para desenjoar e como também trabalho numa livraria, pego num livro e leio um bocado. Quando aquele é de feição a agarrar-me pelos tomates, levo-o para casa e junto-o à pilha da mesinha de cabeceira para ir lendo mais devagarinho, umas linhas por noite até se me cansarem as pestanas.22/10/06
Delibes, por Urko
A passada noite lia uma entrevista a Miguel Delibes, e confessava este que “"Antaño, todo hombre nacido de mujer se consideraba portador de cosas positivas, de algo digno, algo noble, unos valores, en suma. Pero la descendencia de Caín pesaba sobre nosotros, y el hombre que era portador de reservas morales se convirtió en un ser peligroso, maligno, de difícil definición. Ahora, el hombre miente, ataca, mata, hiere, viola y su presencia lógicamente engendra desconfianza. El hecho de ser parido por mujer no lo dignifica ni quiere decir nada".Miguel Delibes é um dos melhores escritores de língua castelhana da segunda metade do século XX. Ainda hoje com 87 anos continua assistindo as tertúlias no café Continental e trata de corresponder aos seus conterrâneos que o cumprimentam durante o seu habitual passeio matinal no Campo Grande da cidade de Valladolid – berço e vida do seu quotidiano.
Don Miguel fazia esta confissão, quando se referia ao grave problema da imigração dos países africanos, que forma já parte do noticiário habitual no pais de al lado. O cenário dantesco se banaliza, é uma noticia diária, umas vezes cruel e outras vezes pior. Africanos adultos, adolescentes, crianças e grávidas, morrem o sobrevivem numa aventura para um destino aparentemente paradisíaco, vem desde as costas da Guiné, Gâmbia, Senegal ou Mauritânia, traçando uma travessia quilométrica em condições extremamente desumana, inenarráveis. Durante o percurso vão encontrando cadáveres - o mar também cobra a sua quota -, não desistem, antes a morte. Assistidos nas costas españolas uma maioria são repatriados -já são 76.000 os repatriados neste ano - outros sem identificação possível ficam em centros de acolhimento, a espera de não se sabem bem o quê, centros de portas abertas que os deixam soltos como se fossem cães vadios, – eles se crêem afortunados, pensam que assim é melhor, tal vez, uma boa oportunidade surja. No entanto, o pior só acaba de começar. À espera há policias e funcionários corruptos que prometem documentos em troca duma enorme suma de dinheiro, o simplesmente se apoderam de suas roupas, o favores sexuais em troca de nada, o são escravizados por salários inexistentes para mais tarde ser expulsos ou simplesmente denunciados. É este tipo de podridão que o nosso amigo Don Miguel, vê tristemente emergir nesta sociedade do bem-estar.
16/10/06
"Ligações Perigosas", por Le Chevalier
«Mas não deixes para trás a tua parceira, desfraldando mais largas velas,nem seja mais rápido o ritmo dela que o teu; avançai para a meta ao mesmo tempo, então, será pleno o prazer, quando, par a par, jazerem, vencidos, a mulher e o homem.»
Em todo o poema de Ovídio se detectará o espírito barroco. Os jogos de sedução, o elogio da mentira, o engano, o disfarce, a máscara, a traição, as aparências e os espelhos, os ambientes cortesãos, o culto do prazer, as intrigas palacianas, enfim, tudo o que se reencontrará no tardo-barroco às vésperas da Revolução. Nenhum filme o mostra tão bem como o "Ligações Perigosas" (1988) de Stephen Frears, baseado na novela de Choderlos de Laclos. A cena final em que Glen Close (Marquesa de Merteuil) retira a maquilhagem simboliza, como já muitos notaram, o fim do Antigo Regime. Como a morte em duelo de John Malkovic (Visconde de Valmont), às mãos do impulsivo Keanu Reeves (Chevalier Raphael Danceny) é uma metáfora da Revolução e um anúncio do espírito romântico. O fim de Malkovich, esvaído em sangue sobre a alva e álgida neve, é o fim de um tempo que será dado como vicioso e corrupto pelo puritanismo revolucionário. Mas, a morte de Malkovich implicará a morte de Michelle Pfeiffer, por desgosto de amor, incapaz de viver sem o amor pecaminoso que se impõe à sua vontade e a domina completamente. A paixão que Malkovich alimentara por Pfeiffer, e que julgara dentro do jogo calculista da perfídia barroca orientada para a intriga e para o prazer, revela-se afinal fora do controlo da vontade e da previsibilidade do cálculo. Malkovich, moribundo, confessa-se apaixonado na presença do seu jovem carrasco, Reeves, uma personagem já romântica. Desfalece logo após, no que é acompanhado pelo desfalecimento de Pfeiffer. Isto é, anuncia-se a Revolução quando Glen Close limpa o rosto, mas outra revolução se anuncia na morte simultânea dos dois amantes: o nascimento do amor romântico, decalcado já não de Ovídio mas do modelo shaekespeareano, um amor impossível e trágico. Não é o orgasmo que é simultâneo, é a morte simultânea dos amantes. Por amor.
08/10/06
Leituras – 1996, por Cão
A pedido de várias famílias e de outros tantos polemistas do nosso chiqueiro, aqui vai uma súmula “pró-goto” das leituras que me aconteceram em 1996.Depois, dei-me ao delíquio impressionista de um dos mais formosos prosadores da língua portuguesa: Wenceslau de Moraes (“Traços do Extremo Oriente”). Segui com Carlos Fuentes. A páginas tantas, estava de volta dos “Contos de Nick Adams” (muito bem escritos) de Hemingway. E Janeiro não acabou sem Borges (“Os Conjurados”) e um livro do meu amigo Joaquim Jorge Carvalho, “Zarco à Vela”.
Não li Morris West.
05/10/06
Batiti, por Tatonas
O Batiti é um sem-abrigo aqui do meu bairro. Cheira mal, está todo esfarrapado, é doente mental, trata toda a gente por doutor, tem um cordel a servir de cinto, dorme debaixo de uns cartões, recusa ir para um lar, passa os dias a mendigar migalhas e a peregrinar de um lado para o outro. Bebe cerveja e come o que lhe dão. O Batiti acha que eu sou médico e cada vez que me vê chama-me doutor, mostra-me a perna toda esfolada e diz que lhe dói ali e pergunta-me se eu não lhe passo uma receita. Eu digo que não sou médico e o gajo não acredita. É doido. Hoje encontrei o Batiti à porta do centro comercial aqui do bairro. Uma coisa moderna. O Batiti chamou-me:- Ó doutor, ó doutor, chegue aqui.
Eu lá lhe dei a resposta habitual: que não era médico, não lhe passava a receita, não lhe via a perna, não lhe dava dinheiro para os copos, etc. Mas o Batiti pediu-me se eu lhe podia comprar um pão do supermercado da cave do Centro Comercial e deu-me uma moeda de 50 cêntimos. O Batiti disse-me que o vigilante do centro não o deixava entrar.
Eu acho esta merda estrondoso, inaceitável, incrível e fascista! Nazi! Por todas as razões e mais algumas especiais. O Centro Comercial Dolce Vita, em Coimbra, foi construído em cima de um espaço público, que era de TODOS, que era a Praça Heróis do Ultramar. A Comunidade viu-se privada do espaço que tinha para aí se construir um centro comercial. E agora, os senhores vigilantes, que nem sequer são autoridade pública, impedem o acesso ao centro comercial do Batiti! Isto é pior do que no tempo do sr. prof. A.de O.S. Nesse tempo, de miséria e pobreza, escondia-se a pobreza proibindo-se a mendicidade por decreto. A obsessão higienista e a propaganda impunham-nos a ilusão de uma sociedade limpa. Agora, estamos pior: não há decretos, há usurpação do espaço público e vigilantes a cumprir ordens de administrações cegas e sem rosto, proibindo um CIDADÃO de comprar pão! Vamos escondê-los? Exterminá-los? Interná-los? Enxotá-los?
Foto: http://www.bized.ac.uk/images/homeless.jpg
03/10/06
Leituras – 1995, por Cão
No dia 3 de Janeiro de 1995, iniciei um registo de leituras. Fi-lo para mais tarde poder relacionar as coisas lidas com as vividas. Ainda bem que o fiz. Só tenho pena de não ter começado a fazê-lo mais cedo.O mês de arranque foi muito bom: entre outros, Simenon (o autor de quem mais li até hoje), Eisner (BD) e o primeiro Chico Buarque (“Estorvo”). Andava sobretudo a curtir os policiais da Vampiro, então. Saltando no tempo, fez-se Março: na tarde do dia 14, acabei a leitura de “Pigmalión y Otros Relatos”, do grande M.V. Montalbán (até o Grunfo sabe que sim). Seguiram-se, salpicando aqui e ali, Mendoza, Goodis, Mosley, Böll, Vilhena. Também li merda: a série 08/15, do Kirst. Recuperei com Cucurull e, sobretudo, com o grande único maravilhoso genial Nicholas Freeling. Li Barthes, que me sobrava na estante desde a faculdade. Li vários Grimberg da História Universal (digestivos, fraquinhos, agradáveis). E então, na noite de 29 de Julho, a minha vida suspendeu-se, quiçá para sempre, com o fechar d’ “Os “Cadernos de Malte Laurids Brigge”, do colossal Rilke.
Seguiram-se Lodge, Chesterton, mais e mais Montalbán, Rendell (para descansar), London, Rulfo, Greene, Maupassant, Stoker, Pynn (fenómeno luso atraentíssimo), Helder, Highsmith, Twain, Hasek, Aymé, muita Agatha Christie e o divino Ítalo Calvino. O último livro que li esse ano foi uma antologia poética de Octavio Paz editada pelo Círculo de Leitores. Foi, realmente, terminar em paz. E em beleza, naturalmente.
E que tem o povo do Tapor a ver com isto? Tem tudo a ver: como o sacana do Grunfo Spock Grão me acicatou as vísceras, digo que, sinceramente, não consigo perder tempo com advogados do diabo. Isto não desfazendo, é claro.
Para a próxima, 1996.
Hasta la vista, baby. No problema.
27/09/06
Mais Depressa Se Apanha Um Cão Que Um Buendía, por Melquíades

O Cão é sem dúvida o Porco que mais lê. O Cão leu o Ulisses (não a bagatela do Homero, mas sim o calhamação de 842 páginas do Joyce), leu o Proust e não deu o tempo como perdido e, desconfio eu que até os 3 volumes do Homem Sem Qualidades do Musil, o homem leu. Já era assim no liceu, o Cão. Não só era o que mais lia, mas o que lia com mais qualidade. Mais avant gard. Quando aí, eu me aventurava ainda pelos juvenis Steinbeck e Hemingway, já o Cão se abalançava a um Cem Anos de Solidão e a um Retrato do Artista Quando Jovem Cão.
Um dia, ainda no Liceu, disse mal ao Cão do Cem Anos. Como diz o nosso Mister, que marra com o excesso de personagens, achei que aquilo era gente a mais logo na primeira página e um gajo via-se à nora pra memorizar tanto Buendía. Com tanto galo o disse, que nesse dia levava na mão um Morris West. Tragédia. O Cão ria e saltava. Ondé que já se viu um nabo com West na mão a marrar com o Gabo. A partir do West, já o Cão impante de gozo se espojava pelo chão, berrando contra a Sidney Sheldon (sim, sim confesso que também li), o Harold Robbins, Fast e quejanda americanice best-selleriana.
Nunca mais me livrei da sarna do Cão. E eu que tanto gostava de discutir leituras com ele, levava sempre e logo de entrada nas fuças, com o gozo da escumalhada aventurosa e adjectivante. E tanto fazia como não, tentar defender que o West inicial ainda fez a obra-prima do Advogado do Diabo, ou que o Michener ainda se excedeu no Chesapeak e que o Fast foi inultrapassável na Paixão de Sacco e Vanzetti. Népias. O Cão quando ferra, não há maneira de lhe fazer largar o osso. Ainda hoje, nos reencontros vínicos, meia volta lá vem do fundo da sala um berro pleno de auto-satisfação: Ken Follet! Jefrey Archer! Desmond Bagley! Ganda besta apocalíptica!
Mas, a vingança tarda mas não falha. E é um prato que se come frio. No caso, geladinho, mesmo. É que aqui há dias, fomos tascar com o Cão lá na serra profunda. Pró fim, e porque a conversa estava melhor que boa, lá fomos até casa do Cão. Entrámos, mais conversa, bitaites e vistas magníficas sobre a beira lá em baixo. Pelo meio vou de casa de banho e ali, logo ali no corredor de acesso, reparo em novas e esconsas rimas de livralhada. Paro, olho, corro as lombadas e ó deuses, ó supremo gozo, bem aventurados os anjos da guarda. Ali, em casa do Cão, arrumadinhos, cuidados e aprumados, ali, vejo eu três Konsalik, não um nem dois, mas três Konsalik. E mais quatro Robert Ludlum. E Steel, meu deus, eu juro que havia lá um Danielle Steel. Allende era mato. Berrei que nem um desalmado e a malta veio da sala a pensar que me tinha dado uma coisa má.
O Cão viu logo a coisa toda. Virou-se para a cara-metade e abandonou-se a um desalento profundo: “ - Eu não te disse!?, eu não te avisei que isto já devia ter ido embora, que não podia aqui ficar!?, à vista de qualquer um?, olha o que foste fazer!”
Não é fácil apanhar um Cão, mas como os coxos, com paciência também se lá chega. Com que então, Konsalik, ein Kão!?, e Steel, e Sparks e Nora Roberts e Paulo Coelho. Isto vai dar pra Cem Anos. Sem Solidão.
“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Buendía Cão haveria de recordar aquela noite remota em que a cara-metade se esqueceu de esconder o gelo.”
26/09/06
A Moral do Porco em Poucas Palavras, por Stygmata Martyr
«Prefiro perder um amigo a perder uma boa piada».E é. Um amigo que não percebe ou que não aguenta uma boa piada não interessa ao menino Jesus. Não aprecio mesmo nada aquele estilo jarrão Ming que se leva muito a sério e, meia volta, afina com uma bocarra afiada. No Porco não somos nada assim, não há cá porcelanas... Quem nos vê diz que nos odiamos uns aos outros. Não é verdade. Só que gramamos ainda ainda mais o prazer de amandar umas bocas uns aos outros. Não tem nada que agradecer. Os amigos são para isso mesmo.
foto de Nicholas Nixon
25/09/06
Filhos da Região de Turismo do Oeste: guião para um episódio de uma série juvenil, por Manoel Bacoco
[A acção começa à porta principal da Escola Básica do 2º e 3º Ciclos numa cidade da região Oeste, nos arredores de Lisboa. Personagens: Professora de Biologia, Marta, João, Bernardo e Carolina. As duas raparigas saem do portão escola. Espera-as o Bernardo]
CENA 1
Carolina (para a Marta): Olha, não é o Bernardo?
Marta: Sim, parece. O que é que está ali a fazer? Será que faltou às aulas?
[Aproximam-se do Bernardo]
Carolina e Marta: Olá, Bernardo!
Bernardo (com um ar triste, o capacete debaixo do braço, encostado à mota. Veste roupa de marca. Fala com uma voz baixa]: Olá, Carolina, olá Marta…
Carolina: Passa-se alguma coisa?
Bernardo: Não, nada...
Marta: Faltaste às aulas.
Bernardo: ….
Carolina: E logo hoje que tivemos uma aula muito fixe de Biologia. Estivemos a estudar como se deve prevenir a SIDA.
Marta: Pois foi. A professora de Biologia é muito fixe. Hoje aprendi muita coisa.
Carolina: Deixa lá isso. Ó Bernardo, desculpa lá mas estás com um ar um bocado esquisito. O que é que se passa?
Bernardo: Nada, nada. Olha, tenho que me ir embora. Xau!
[Bernardo sai de cena, de mota. A câmara filma o Bernardo a desaparecer ao fundo da estrada]
Carolina [para a Marta]: Não achaste o Bernardo muito…
Marta: (responde afirmativamente com um aceno de cabeça) Isto é muito estranho…
CENA 2:
[No Centro Comercial, depois de almoço]
Marta: Olha, Carolina, aquele não é o João? É muito giro, não achas?
Carolina: Deixa-te de disparates, Marta, agora não é a altura ideal para esse tipo de comentários. ‘Bora falar com ele. Ele é a pessoa ideal para nos ajudar a descobrir o que anda a atormentar o Bernardo.
Marta: Pois é. João, João, aqui, somos nós…
João: Oi, olá miúdas, que surpresa. Estão porreiras?
Marta e Carolina: Nós estamos, e tu.
João: Eu estou óptimo, vim agora do treino de judo, vou almoçar com o meu pai e depois vou para as aulas de violino.
Marta: Sempre o mesmo João, muito atarefado, de um lado para o outro. Mas, será que nos podias dar um momento?
João: Porquê? Há algum problema?
Carolina: Não…
Marta (interrompendo): Há… pode ser que não, mas achamos que algo se passa com o Bernardo.
João: O Quê? O Bernardo? O que é que lhe aconteceu? Ele é um gajo bué de fixe… Digam-me, por favor, aconteceu alguma coisa?
Marta: Não sei, mas ele estava esquisito hoje ao fim da manhã. Queríamos falar contigo por causa disso.
João: Claro. Deixa-me só dar um toque ao meu pai. (Tira o telemóvel do bolso): ‘tou, pai, olha, passou-se agora aqui uma cena, não vou poder ir almoçar contigo, desculpa lá… eu sei pai… eu sei. Não te importas? De certeza? Pronto, obrigado, és um porreiro.
Carolina: O teu pai é mesmo fixe, quem me dera ter uma relação assim com o meu pai.
Marta: Estas relações constroem-se com base no diálogo e na confiança, Carolina.
João: Vá, meninas, deixem lá a psicologia agora. O que é que se passa com o Bernardo?
CENA 3:
[Na esplanada do Centro Comercial. Marta e Carolina colocam João a par da situação. João baixa a cabeça pensativo à medida que se vai inteirando da situação. De repente, avistam a professora de Biologia]
João: Olha, aquela não é a setôra de Biologia?
Marta: É.
Carolina: A setôra é bué de fixe. Fala connosco sobre todos os problemas que nos afligem. Olha, tive uma ideia, vocês não acham que é a pessoa ideal para nos ajudar a resolver o problema do Bernardo?
João e Marta: Isso, excelente ideia, Carolina. Setôra, setôra…!
Professora de Biologia: Olá, meninos, por aqui? Mas que agradável surpresa… Passa-se alguma coisa?
João: Bom…
Professora de Biologia: Vá, andem lá, já sabem que comigo podem contar sempre.
Marta: É o Bernardo, setôra…
Professora de Biologia: Pois é, então vocês também repararam que ele anda esquisito.
Carolina: Pois foi, setôra. Será que a setôra podia ver o que é que se passa?
Professora de Biologia: Vou tentar, deixem comigo.
CENA 4:
[No outro dia, à entrada da escola]
Bernardo: Olá, Marta. Olá Carolina, olá João.
Marta, Carolina e João: Olá, Bernardo. Estás muito mais alegre do que ontem. O que é que se passou.
Bernardo: Eh pá, vocês nem imaginam. Vocês são mesmo uns amigões. Tenho que vos agradecer.
Carolina: Então? Conta, não nos deixes assim… Vá lá.
Bernardo: Ontem, a professora de Biologia foi a minha casa falar comigo. Ela contou-me tudo. perguntou-me o que é que eu tinha, disse que eu andava estranho e que vocês tinham reparado.
Marta: pois foi…
Bernardo: Fui um palerma.
João: Anda lá, pá, conta
Bernardo: Vocês conhecem o Tó Jó, aquele tipo estranho do 9º H?
Todos: Sim, claro, o gajo é completamente passado.
Bernardo: Pois, ontem o gajo desafiou-me para faltar à aula de Biologia. Eu fui burro e aceitei. Depois fomos para o salão de jogos…
Carolina: Uiii… isso é cá um ambiente
Bernardo: E o Tó Jó desafiou-me a fumar um charro. Eu primeiro disse que não, mas depois…
Marta: Ah! Por isso é que tu estavas com aquele ar meio esquisito?
Bernardo: Pois foi. Mas a professora de Biologia já me explicou os malefícios da droga. E disse-me que eu tinha muita sorte em ter amigos como vocês.
João: Lá isso é verdade.
Bernardo (abraçando todos): Obrigado, meus amigos, vocês são os melhores amigos do Mundo.
João: Tens que vir para o judo comigo, para te manteres afastado desses perigos.
FIM
