26/11/06

Photobucket - Video and Image Hosting
1923 - 2006

22/11/06

Monocromia, por Black Label

Em 30 de Dezembro de 1915, foi apresentada na exposição 0,10, na galeria Nadiejda Dobitchina em S. Petersburgo, o célebre Quadrângulo de Kazimir Malevitch, exibido de modo a que se estabelecesse um confronto com os ícones tradicionais eslavos pois, nos lares ortodoxos, era nos cantos das salas que se colocavam essas representações sagradas, exactamente o local proeminente em que foi pendurado o Quadrado Negro sobre Fundo Branco .
Com esta obra, a arte contemporânea encontra-se a um passo daquilo que poderíamos designar como derradeirismo estético, o que equivaleria, considerando o tempo longo, ao fim da História da Arte enquanto processo. Isto é, com Malevich abre-se a possibilidade do nihilismo apocalíptico sob a forma de um monocromatismo negro. Eliminando o fundo branco, bem como qualquer outro vestígio que confira significado à pintura, obteremos um vazio absoluto que equivalerá ao fim da pintura enquanto género artístico, senão mesmo à consumação da arte. Atingir-se-ia «o fim, o último estrato de prospecção, o nível zero: a última imagem, precisamente», levando a abstracção ao «limiar da absoluta monocromia.» Este passo foi dado por Alexander Rodtchenko em 1921, anunciando a morte da pintura ao apresentar três telas monocromáticas com as cores primárias. O fim será depois concretizado de forma absoluta pelo minimalista Ad Reinhardt (1913–1967), com o seu terminal Abstract Painting sem título, a partir do qual só a repetição é consentida. Uma superfície quadrada toda preenchida por um negro monocromático constitui uma concretização desnecessária de Malevich. Desnecessária apenas no sentido em que o russo a evitou porque seguramente estava certo do que Reinhardt afirmava: «Muito simplesmente faço o último quadro que alguém pode fazer». Depois disto, Reinhardt limitou-se a pintar monocromias negras e a numerá-las. A da imagem que ilustra este texto é a do Museu Guggenheim de Nova Iorque. Há outras, exactamente iguais, noutros museus de referência. Por exemplo, no Minneapolis Institute of Arts, no Museum of Modern Art de Nova Iorque, no Smithsonian Art Institute em Wahington D.C., na Tate de Londres, no Walker Art Center no Minnesota ou no Whitney Museum of American Art em Nova Iorque. Isto para falar só das monocromias negras em telas quadradas, pois que Reinhardt também pintou monocromias negras rectangulares e telas negras quadradas com ligeiras gradações do negro quase imperceptíveis.

Imagem e referências aos museus

Citações de Johannes
MEINHARDT A Crise da Pintura Abstracta nos anos 1960; in «Pintura: Abstracção depois da Abstracção»; s / l (Porto); Público / Fundação de Serralves; 2005.

Post dedicado ao visitante seven, do obvious, cujo post o caminho da abstracção #2 me sugeriu este.

21/11/06

Anais do Porco. Por Manel, o Empalador

Olhem o que eu fui buscar ao baú, umas disquetes que aqui tinha:

«Coimbra, adega do Galgo, 27 de Fevereiro de 1999


«(....) até que um dia o Senhor, desagradado com o rumo empirista e subjectivista do seu rebanho, irado com o episódio do Barca Velha, [alusão à degustação de um Barca Velha prova cega e que foi desqualificado pela generalidade dos confrades] tomou a decisão de enviar um anjo com a missão de apontar o caminho da Verdade e do rigor científico. Foi então, qual novo Moisés, que o abençoado anjo do Senhor ofertou aos bárbaros os instrumentos com os quais eles inauguraram uma nova era das suas vidas. Mas advertiu-os: acabai de vez com as apreciações tipo pica, escorrega bem, bate bem, etc. De ora em diante, exijo-vos o rigor no discurso e a objectividade na análise.»
A História ensina que estes momentos de ruptura têm que superar as naturais reacções conservadoras. Sabe-se como as massas ignaras são adversas à novidade, apegadas à tradição e reagem negativamente à introdução de elementos que perturbem a harmonia pacata do seu quotidiano. E, por isso, também então se fizeram sentir vozes espantadas e ignorantes que, em face dos aparelhos, indagaram "Qu'é isto !?", enquanto coçavam o cocuruto com o indicador esquerdo e com as costas da mão direita limpavam a baba que lhes pingava da beiça embasbacada.
Mas a provar que esse momento não foi um dado isolado, e que reflecte um salto civilizacional qualitativo, temos que, mais ao menos pela mesma altura, como que anunciando a grande novidade revolucionária, os membros da sociedade satânica acolheram uma outra novidade: nada menos que o famoso cardiovelocímetro. Este aparelho é assim uma espécie de conta-quilómetros só que, segundo o nosso Mister especialista em bola científica (isto é, treinador sem bigode) em vez de estar ligado à roda, está ligado ao coração e capta o ritmo da frequência cardíaca, enviando depois, através de um emissor electrónico fixado no pulso, elementos sobre o esforço dispendido pelo utilizador. Assim se desmascara, reportando-nos à aplicação exclusivamente desportiva do instrumento, o sub-rendimento dos praticantes, forçando-os à exaustão. Porém, a importância desta geringonçça consente outro tipo de utilizações. Sirva de exemplo a aplicação do cardiovelocímetro no domínio das relações interpessoais. Pela consulta dos dados obtidos pelo aparelhómetro torna-se possível detectar o subesforço de uma das partes, advertindo-a mais ou menos nos seguintes termos:
- Desculpa lá, mas não deste o litro. O cardiovelocímetro não engana! Vais ter que amochar outra vez!»

Esclarecidos então acerca da importância histórica do repasto, passemos à apreciação do dito.
No referente aos sólidos, nada a opor. O chouriço caseiro cumpriu e o queijito não envergonhou. De 1 a 5, as entradas merecem nota positiva. Os torresmos estavam óptimos, temperados à portuguesa, apenas com vinho, segundo o anfitrião, e fritos na própria gordura. O arroz de míscaros apresentou-se em duas versões, a saber: com carne e sem carne. Nenhuma das versões envergonhou e qualquer delas bate a versão do Cantinho dos Reis, uma sub-espécie que constitui uma terceira categoria: arroz com carne, colorau, pimentão, massa de tomate e alguns míscaros.
As duas variedades foram provadas e aprovadas, muito teriam ganho se algumas alimárias retardatárias entendessem o significado de 8 horas. De facto, se é às oito, não é às 8 e meia e, por maioria de razão, muito menos às nove menos um quarto! Não é preciso ter um rolex para entender isto! Ou alguém tá a precisar de slides?
O arroz perdeu, e é em memória do que perdeu que agora se estipula o princípio de iniciar os jantares futuros à exacta hora marcada. Quem chegar atrasado traz pão com fiambre!
Passando aos líquidos, deve comentar-se a já proverbial sovinice do vice-mestre que trouxe um miserável Porca de Murça do ano, porque não havia mais barato.
Quanto ao Grão-mestre, et son partenère, porventura ainda ofendido com a estrondosa indiferença com que apreciámos o Barca Velha, decidiu dar uma de educador das massas! Como quem diz (e escreve, reportando-me à assinalável importância e elevado sentido de humor da sua crónica dactilografada) que o mal não deve ser do vinho (ainda que o José Salvador sublinhe a precipitação motivada pelo «efeito Expo 98»), por isso deve ser das bestas com sentidos empedernidos. Ora, aplicando agora os básicos príncipios da economia, trocar de bestas sairia caro e moroso, portanto, educam-se! Foi assim que ambos vieram munidos de uma garrafitas adquiridas no Pingo Doce, em saldo, e que eram vinhos de casta única. Um Trincadeira e um?????, numas garrafitas de 0,50. Julgavam, através deste método ensinar os rudimentos da enologia, o b-a-bá da matéria. Ora bem, caros grandes timoneiros, as bestas a educar entendem por conveniente dizer duas coisas:
1º: Esses vinhos de casta única não valem uma merda!
2º: Se acaso persistirem nessa tendência para apresentar vinhos em garrafitas de 0,50, daremos validade à hipótese que propõe que o volume da garrafa é directamente proporcional ao tamanho do membro viril! Não repitam pois a ousadia se não querem acrescentar ao nome o epíteto O Meio-litro!
Assunto encerrado! Não queremos ser educados! Estamos felizes enquanto bestas! Mais, orgulhamo-nos de ser bestas e só aceitamos uma metodologia educativa para deixar de ser bestas: mais Barca Velha! Até parece que nunca ouviram falar no método pela descoberta, em que a besta é que determina o ritmo do processo ensino-aprendizagem. Nós não queremos ficar traumatizados!»
Já lá vão uns anos. Exceptuando o eclipse do Galgo e a banalização do cardiovelocímetro que na altura era uma novidade, está tudo na mesma: à marrada e à morteirada!

16/11/06

Muito acerca de nada, por Mangas

Encontrei os meus cães a lamber o sangue de um pavão que saltou a cerca para o lado de cá. Fitaram-me, quietos, à espera de uma carga de porrada, mas deixei-os entregues ao que restava daquele campo de batalha de onde sobravam ossos, carne rosada e penas coloridas.

Cenários idênticos podem acontecer após o anúncio da classificação dos tintos numa prova cega, ou no rescaldo da cirurgia plástica a um porco.

Depois disso apontei-lhes o caminho para casa, mas os cabrões ainda não regressaram.

15/11/06

Exercício nº 1, por Poirot

A empregada entrou na sala e verificou que estava lá um morto estendido no chão. Deu o gritinho tradicional e chamou logo a Polícia. A Polícia chegou a tempo de verificar que o morto continuava na sala, mas encontrou lá dentro mais dois homens: um Gordo e um Magro.
O Detective Columbo resolveu logo o mistério:
- Já sei quem matou a vítima. Foi o Magro.
Pergunta-se: como descobriu o Detective Columbo que o assassino foi o Magro?
(veja resposta na caixa de Groinks deste post)

09/11/06

Rosebud, por Fernão Lopes

Aaron Delwell Penglast é um multimilionário norte-americano da Pensilvânia, considerado pela revista Forbes entre os 15 mais ricos do Mundo, que acaba de constituir uma fundação com um propósito exclusivo, bizarro e muito curioso. O senhor Penglast, de 63 anos, dotou a sua Fundação com largas dezenas de milhões de dólares, contratando especialistas das mais variadas áreas, que vão da arquivística à informática, ou da robótica à psicologia, com a intenção de reconstituirem a sua vida desde a mais tenra infância até à actualidade, bem como de procederem ao registo de todos os factos da sua vida futura, mesmo os mais ínfimos e irrelevantes. O objectivo é produzir um guião diário da vida do multimilionário e reconstituir a sua vida em espaço virtual 3D de modo a que, após a sua morte, se cumpra a disposição testamentária já redigida e mantida em segredo mas que, no entanto, dispõe que um colectivo formado por um vasto número de sábios e especialistas nas mais diversas áreas seleccione um casal que esteja disposto e aceite livremente que o seu ffilho viva a vida de acordo com a reconstituição virtual, e devidamente documentada, da vida de Aaron Penglast. Isto é, diariamente, os arquivos digitais ora produzidos deverão ser consultados e a jovem réplica deverá viver a sua vida de acordo com o guião. Isto é, ler os mesmos livros, ver os mesmos filmes, visitar os mesmos locais, estudar as mesmas matérias, tomar as mesmas decisões, tanto quanto for possível, tudo igual à vida de Penglast. A Fundação manterá um curador e um colégio de acompanhamento que deverá não só manter a vigilância sobre o quotidiano do contemplado como decidir sobre os factos dificilmente replicáveis ou até impossíveis de repetir. Deverá o colectivo de curadores reunir e recomendar, em caso de impossibilidade de se observar o quotidiano original, a alternativa mais próxima e exequível. Discreto, o sr. Penglast aceitou apenas dizer que este processo foi o que mais próximo se assemelhou com a conquista da imortalidade. «Não creio na clonagem», acrescentou.

Foto: http://universe-review.ca/F10-multicell.htm#evolution

07/11/06

Alá Akbah!, por Wickie o Viking

Saddam Hussein foi condenado à morte por enforcamento. Não é que a morte de um tal facínora me suscite qualquer espécie de compaixão. Ele foi justamente acusado de uma série de crimes monstruosos e declarado culpado. Até aqui tudo bem. Mas não concordo que se responda aos seus crimes com a perpetuação de um crime de estado que é, no fundo, a pena capital.


Já nem quero focar a discussão na legitimidade da pena de morte. Sublinho apenas a superioridade da Europa relativamente aos EUA neste particular. Mas basta pensarmos que os Americanos – sim, são eles os juízes deste processo Saddam – estão a criar mais um mártir da «causa muçulmana» quando o ex-ditador iraquiano estava reduzido a uma figura risível. Vivo Saddam era uma personagem de pechisbeque, até para os alucinados de turbante que não simpatizavam com ele. Morto, «assassinado às garras do Grande Satã» vai transformar-se num mito, vai ser elevado à categoria de Super-Herói do Islão. Bush persiste, tenaz, na asneira e perde mais uma oportunidade para demarcar a civilização da barbárie. Do fundo de uma gruta, algures no Afeganistão, Bin Laden agradece...


P.S. Ao que consta os governos europeus já se demarcaram desta infeliz decisão. Há um estado europeu, o seu presidente da república e o seu primeiro-ministro, que persistem, porém, em manterem-se calados, em escudarem-se em cínicos «Suas Excelências não têm nada a declarar» (a não ser que os obriguemos, claro). Falo do nosso Portugal, pois claro. «Não hostilizarás o Poderoso», assim reza o primeiro mandamento da Bíblia Hipócrita de Zé Aníbal Sócrates Cavaco, neste como noutros casos.

05/11/06

Hermanizaram-se!

Photobucket - Video and Image Hosting
O Júlio Isidro foi ao Gato Fedorento! Melhor, ao Diz Que É Uma Espécie de Magazine! Até o título é um flop! É a morte dos Gatos? Engravatados, com palmas enlatadas, com público contratado, com momento musical, com trocadilhos idiotas. O Júlio Isidro! Por amor de Deus! O Herman, apesar de tudo, aguentou mais tempo. Tirando o dito boneco do Paulo Bento, ao cabo de dois programas, não vi nada de jeito.

foto:
http://designersalliance.co.uk/wp-content/uploads/2006/05/shit.jpeg

02/11/06

Que Vai Ser Deste Homem?, por Hiena Fedorenta

O último sketch do Gato Fedorento a imitar o único treinador de futebol do mundo que usa o penteado de risco ao meio e fala português ao soluços com a musicalidade do castelhano é, apenas e sinceramente, a melhor imitação de alguém que alguma vez me foi dada a ver. Antes de continuarem a ler o resto do post vão ao You Tube, digitem Paulo Bento e vejam o Ricardo Araújo Pereira no seu melhor boneco de sempre. Vale a pena. Vão lá que eu espero.

Já viram? Genial! Mas uma imitação destas coloca imediatamente a seguinte questão: e agora Paulo Bento? Eu acho que o homem tem a carreira arruinada. A partir de agora, ninguém que tenha visto o sketch o conseguirá levar a sério. Como é que ele conseguirá agora falar aos jogadores do Sporting no balneário sem que estes se desmanchem a rir? Imaginem que o Sporting perde ao intervalo com o Desportivo das Aves em casa e é preciso um discurso que acicate os jogadores. Vai ter que falar o treinador adjunto, carago, porque os jogadores lembram-se do Gato Fedorento quando vêem o treinador. Pode ser o fim da carreira do Paulo e é chato. Há quem diga que na segunda-feira a seguir ao sketch os jogadores compareceram todos ao treino de risco ao meio. Foi mau…

Ontem ouvi o Bento na rádio a falar e dei por mim a rir ás gargalhadas – o boneco já se sobrepôs ao homem, o Paulo Bento real parece uma anedota séria a tentar a imitar o Paulo Bento cómico. E até pensei se o Bento não fará agora um esforço sobre-humano para evitar dos tiques que o Gato tão cruelmente lhe apanhou, como abrir muito os olhos e esticar muito o pescoço para a frente... Eu fazia, fónix… Será que ele nunca mais vai poder dizer «tranquilidade» na vida? E outras palavras acabadas em ade? Ainda poderá pronunciar «imunidade», «maturidade», «regularidade» ou «qualidade» sem ficar com a estranha sensação de que era o que milhões de pessoas que o ouvem estavam à espera que ele dissesse? Ou quando estas palavras lhe surgirem ele vai engoli-las e substitui-las por outras para evitar que a malta se desmanche a rir?


Eu sei que o pessoal do Gato é benfiquista. Mas não havia necessidade de fazer um tamanho assassinato de carácter ao líder inimigo. Acho que agora nem a mulher do Paulo deve conseguir estar com ele sem cair da cama abaixo às gargalhadas. É traumatizante, fosca-se. E o Sporting tem um azar do caraças: já não lhe chegava o mítico Sousa Cintra que dizia «Spórtem» e mandava garrafas pela janela do carro em plena auto-estrada. Só lhe faltava o Paulo. Assim não dá. Não há tranquilidá…

31/10/06

The Big Crash, por Piçágoras

Quase passou despercebida a notícia bombástica da semana passada: o Tribunal Administrativo e Fiscal de Coimbra deu razão a uma aluna que recorreu da invenção da espantosa ministra da educação que decidira repetir os exames de Química e Física do 12º ano. Conhece-se o enredo: foi criada, com esta estapafúrdia invenção ministerial, uma situação de excepção que beneficiou apenas os alunos de Física/Química e dentre estes, apenas os que haviam feito o exame na primeira fase. Houve logo vários recursos em tribunal e agora uma aluna de Coimbra viu a sua razão ser reconhecida: o Tribunal Administrativo e Fiscal de Coimbra considerou e bem quea aluna não podia ser prejudicada e ordenou que tivesse acesso a um segundo exame. Era óbvio, só para Maria Lurdes é que não…

A reacção de Lurdes Rodrigues a esta decisão do tribunal é fantástica e ninguém parece ter-se apercebido da gravidade das suas afirmações. A senhora diz que respeita a decisão do tribunal e cumpri-la-á, ordenando, portanto, um exame especial para a aluna em causa. Como? Terei lido bem?

Em primeiro lugar creio que não passaria pela cabeça nem ao diabo que a senhora não cumprisse a decisão do tribunal. Era o que faltava. Mas cumprindo-a e reconhecendo-lhe razão, a ministra reconhece assim o erro da sua decisão original: a da repetição dos exames. Isto já é grave e devia merecer consequências políticas. Como estamos em Portugal, seria de esperar pelo menos a demissão de um porteiro do Ministério da educação. Mas não. Parece que «no pasa nada»…

Mas o pior é que a dona Maria de Lurdes ficou-se pelas meias tintas. Não, ela não se deveria limitar a mandar fazer um exame apenas para a aluna em causa. Devia, isso sim, como Ministra da Educação que é suposto ser, MANDAR REPETIR TODOS OS EXAMES DE TODOS OS ALUNOS EM IGUALDADE DE CIRCUNSTÂNCIAS COM A ALUNA QUE GANHOU O RECURSO. Mais: com todos os alunos – não só os de química – que ficaram prejudicados em relação aos seus colegas que usufruíram de um regime escandaloso de excepção. De outro modo o que Maria de Lurdes está a admitir é que a justiça só vale para quem tem dinheiro para mandar meter recursos. E os milhares de alunos que, infelizmente, não têm possibilidades monetárias para fazer idênticos recursos? Esses ficam na mesma, discriminados e tratados como cidadãos de segunda só porque não têm meios económicos para meter recursos. E a ministra esquece quem é, esquece que é ministra e que é da educação e deixa-os assim, como se nada fosse com ela, como se não tivesse qualquer obrigação, ética, cívica, meramente profissional, que seja, para com eles… É triste!

É claro que se isto se passasse num país a sério e não nesta África ocidental onde vivemos, a indignação das pessoas far-se-ia sentir. Mas o pessoal quer é bola, floribela e morangos. Batatas! E os políticos do governo que estão sempre a atirar-nos à cara com a superioridade das sociedades nórdicas perdem aqui uma boa oportunidade para lhes seguirem o exemplo. Já que o enfadonho e apático povo português não se indigna como deveria e não pede em uníssono a demissão desta ministra, porque razão não se porta Sua Excelência como uma sua congénere Sueca ou Finlandesa e segue o único caminho que, em coerência lhe restaria num país culto e civilizado, que é como quem diz, o caminho do olho da rua?

29/10/06

Texto sem Título, por Mangas

Recordo-me agora de como tudo aconteceu: o meu pai meteu-me no autocarro e levou-me com ele a visitar uns amigos de infância, refugiados como nós, que se instalaram num lar abandonado, por empréstimo. Entrámos num corredor estreito encimado por janelas de vidro baço através das quais o sol diluía a penumbra. No quarto onde viviam as duas famílias dos amigos do meu pai havia malas abertas, caixotes empilhados, tábuas de madeira, cobertores a servir de colchão e outros de palha alinhados pela parede. Todos os cantos estavam ocupados. O meu pai sentou-se num banco improvisado e trocou recordações com os amigos. Eu sentei-me no chão e troquei bolachas Maria pelo fascínio da contemplação silenciosa daquele caos habitado. Os filhos comiam carne enlatada e bebiam leite Nido por malgas de barro sem ligarem nenhuma a que eu estivesse por perto. Uma mulher entrou, acenou ao meu pai e trouxe-lhe café a fumegar. Passou-me a mão pela cabeça, mas na realidade não creio que me tivesse tocado sequer, que me tivesse sentido ou dado pela minha presença entre os volumes encaixotados que lhe sobreviveram à fuga. Num dos caixotes que serviam de mesinha de cabeceira estavam alguns livros do Major Alvega e do Príncipe Valente o que atraiu fixou a minha atenção - as capas eram a preto e branco; tudo o resto que sobrava da realidade estranha e desordenada à minha volta era um mosaico colorido, um retalho amarrotado de objectos e pessoas. O Major Alvega voava no seu Spitfire sobre as nuvens de um céu manchado pela cera de uma vela. O do Príncipe Valente estava encoberto e eu só conseguia distinguir-lhe a espada. Os miúdos acabaram a ração de combate e foram brincar com pistolas de cartão, enquanto eu fiquei sentado a tentar folhear a primeira página do Major com o olhar. Existiam outras famílias nos outros quartos. Os homens foram chegando e cumprimentaram-se com abraços. Alguns riam, outros lamentavam. Por ordem de chegada. Era assim: se os últimos lamentavam, os que lhes chegavam a seguir, não sorriam, e vice-versa. Todos eles tinham em comum sentarem-se muito direitos, mas com pesar, posturas erectas, mas com esforço. Parecia-me a mim. O café da mulher não chegou para todos e eles recusaram por cortesia...

Quando o meu pai se despediu, um dos amigos que me tinha topado desde o início, agarrou nos livros e ofereceu-mos, o meu pai perguntou como é que se diz?, eu disse, e mais tarde, enquanto descia as escadas, olhei para uma das janelas igual às outras e pensei que, apesar de tudo, todos eles deviam ser felizes porque não tendo nada, tinham muitas coisas e estavam juntos, não precisavam de arrumar as tralhas enquanto liam livros do Major Alvega e do Príncipe Valente, os putos até podiam brincar com pistolas quase verdadeiras e almoçar enlatados, e eu naquele quarto até podia ser invisível. Nessa tarde choveu até anoitecer. Uma tempestade imensa varreu as montanhas. Quando trovejou as velhas rezaram e os homens esconderam-se a coberto do perigo. As traseiras da casa onde morávamos alagaram-se até ao joelho e o colchão onde eu dormia parecia uma ilha ensopada. O meu pai teve de fazer um buraco na parede de modo a escoar a água para a horta do vizinho. As roupas misturadas com batatas na lama, caixotes empilhados, chávenas de casquinha e álbuns de fotografias arrastados pela torrente das águas. Lembro-me do choro silencioso da minha mãe, e do meu pai encostado a um canto ancorado num cigarro, o olhar fixo e carregado, sem dizer uma única palavra. Lembro-me também de ter pensado que, vistas bem as coisas, os refugiados do lar talvez não fossem tão felizes quanto isso..

27/10/06

Pequena História de Portugal, por Revisor

O Marquês de Pombal foi um déspota sanguinário – basta lembrar o cruel e insidioso processo aos Távora e as mortes horríveis que o Marquês lhes decretou. Pombal, acusou-os – num processo forjado e sem provas concludentes – de terem tentado assassinar o rei, D. José. Desse processo, habilmente controlado pelo Marquês do Reino, resultou a condenação de toda (!) a família Távora a uma morte horrível num palanque erguido na zona do Estoril para gáudio da populaça.

A família condenada foi obrigada a assistir ao horrendo fim dos seus entes queridos. Os mais afortunados começaram por ser enforcados ou decapitados. Mas como as torturas deviam obedecer a um critério de variedade para entreter o povo, outros não tiveram tanta sorte. Os mais desgraçados foram queimados vivos, outros ainda foram degolados ou esmagados pelas marretas dos carrascos. Nem os apelos de piedade de gente distinta do reino, como a própria princesa Dona Maria, futura rainha Maria Pia, demoveram Pombal do seu desígnio tenebroso. E nem vale a pena falar da horrenda perseguição aos Jesuítas.

Hoje querem que recordemos este homem como um modernizador, como um ser culto e avançado que fez o país andar para a frente. É de doidos! Pombal merecia ser lembrado como um dos maiores facínoras da nossa história, estou-me nas tintas se fez a reforma da educação e da indústria e se reconstruiu Lisboa. Ao pé da sua crueldade isso são pormenores irrelevantes. Repuga-me ver os putos a aprenderem na escola a admirar um indivíduo destes. Espanta-me o branqueamento que lhe fazem os professores de história (pelo menos alguns). Salazar também recuperou a economia e nem por isso as suas estátuas lhe sobreviveram. O Marquês devia ser lembrado, isso sim, pela sua inusitada crueldade. Jamis deveria ter estátuas e avenidas com o seu nome na capital do país. E já estava na hora do ridículo rei D. José ser apeado do cavalo. Parecemos os Mongóis a venerarem o Gengis Kahn, caramba, que espécie de povo somos nós?

Staline também reconstruiu a Rússia e não me consta que haja nenhuma estátua do facínora na Praça Vermelha, nem nenhuma Avenida Josef Staline em Moscovo. E os chilenos estão agora a ajustar contas com o pilantra do Pinochet, tal como os argentinos já fizeram com os seus generais. Os espanhóis também fizeram justiça ao seu ditador e removerem a presença de Franco do seu quotidiano. Só nós continuamos a conviver impavidamente com esta vergonha quando, como os outros, já tivemos mais que tempo para rever a nossa história. A estátua do marquês devia ser dinamitada e em seu lugar erguer-se uma estátua à rainha D. Maria Pia que afastou Pombal e, pela primeira vez na Europa, decretou a abolição da pena de morte, isso sim um exemplo de civilização que a nossa história oficial remete para o estatuto de nota de rodapé! E aquela enorme avenida que tem o nome do marquês devia passar a chamar-se Avenida dos Távoras. Era o mínimo, se a memória dos homens não fosse uma triste anedota.

26/10/06

Um Bocadinho Mais de Profissionalismo, s. f. f., por Amoleilinha (Defesa Latelal Dileito)

Venho pelo presente trazer a Vossas Excelências as razões da minha indignação. Ando indignado, sim senhor, como consumidor. Eu acho que tenho direitos e é como utente que reclamo veementemente contra uma situação que passo a expor. Aqui há dias, estava eu a surfar na net por uns sítios manhosos e encontrei um porreiro. Umas gajas a levar na peidola com categoria. As fotos eram boas, o grafismo era excelente, o texto era atractivo, estava muito bem escrito, tinha um menu diversificado capaz de agradar a todos os públicos, pelo menos à maioria, se descontarmos aquela malta esquisita dos chicotes, da mijadela e etc. Enfim, aquilo era uma coisa bem feita, como cá não se faz. Vai daí, estava lá no menu uma opção a dizer que tinha «close ups» de bundas. E foi aí que eu me indignei, foi o que aí vi que me impeliu a trazer até aqui o meu protesto. É que os cus estavam cheios de borbulhas e pêlos encravados! Está mal, é falta de profissionalismo e de brio profissional. Quem mete o cu na net tem que ter cuidado com a imagem. Isto está-se a abandalhar. Antigamente a gente comprava uma Gina e não encontrava lá disto. Os recursos tecnológicos eram muito menores, não havia photoshop nem tratamento digital da imagem, mas havia pó-de-arroz, havia o que se perdeu: sentido de serviço público! Dedicação! Empenho! Espírito de missão! Nem mais. As moças estavam ali para servir a malta e esforçavam-se, apresentavam-se como deve ser. Não havia cá borbulhas. Ou punham maquilhage, ou fotografavam de outro ângulo, ou não faziam grandes planos, eu sei lá! O que eu sei é que não havia borbulhas nas nalgas! Dá mau aspecto, falta de deontologia profissional. Hoje qualquer gaja pode ser puta sem esforço absolutamente nehum e depois dá nisto. E até têm estudos, pois têm, mas não têm brio profissional nem deontologia!E a questão é tanto mais grave quanto um tubinho de Clearasil custa uma ninharia! É que nem sequer há a desculpa de ser caro ou de necessitar de receita médica. É simplesmente inaceitável! Intolerável! Bastaria um dedalzinho de Clerasil nas nalgas, 24 horas antes da sessão fotográfica, e tudo ficava muito mais apresentável.A não ser que o Clerasil não resulte nas nalgas. Mas, mesmo assim, eu pergunto: porque é que não há um Clerasil-Cu? Hein? Sim, é que há Clerasil para o queixo, Clerasil para o nariz, Clerasil pomada, loção Clerasil, creme, creme nocturno, compressas, nha nha nha e não sei que mais. E Clerasil-Cu? Custa assim tanto inventar uma merda para acabar com as borbulhas nas nalgas? Ou é má vontade? Incompetência? E os meus direitos de consumidor? Por isso, por estas e por outras é que isto está como está. Muito obrigado e boa noite.

25/10/06

Lágrimas Negras, por Mangas

Photobucket - Video and Image Hosting
Foi um mero acaso que me fez tropeçar neste cd. Peça única em fundo de saco, fotos de Bebo y Cigala en un ensayo, a chancela sempre de qualidade da Calle54 Records, Fernando Trueba produtor - razões mais do que suficientes para que eu o resgatasse do exílio.

Lágrimas Negras já me era familiar – era uma faixa do “Calle54”, esse duplo lendário que reúne alguns dos principais pesos-pesados do jazz latino por gerações, desde Chano Domínguez a Tito Puente, passando pelas congas de Jerry González ao sax tenor de Gato Berbieri, ao piano indomável de Chucho, filho de Bebo Valdéz. Calle54 é a celebração dos ritmos big band, a explosão do mambo, os arranjos swing, a alternância de um Samba Triste no piano de Eliane Elias com a euforia merengada no piano de Michel Camilo em From Within. Estão lá todos, com Trueba na sala de misturas. Só lá falta o trompete incendiado de Arturo Sandoval. Nunca percebi a razão. Dei-me sempre por feliz que a obra tivesse sido feita, deu-me sempre imenso prazer ouvi-la e partilha-la com os amigos.

Mas este Lágrimas Negras é outra música. Trueba, sempre ele, encurtou o hiato de cinquenta anos entre Bebo e Dieguito “El Cigala” e juntou-os em estúdio. A lenda e o flamenco lado-a-lado, mas de olhos nos olhos. O mestre e a voz. São nove clássicos populares, nove pérolas reinterpretadas com arranjos de Bebo Valdéz. El Cigala envolve-se e empresta-lhes a dor e a pureza da alma gitana. Nieblas de Riachuelo ou o bolero Inolvidable são peças carregadas de intimismo onde a voz de Cigala percorre a saudade e a emoção do poema com as ganas e a paixão própria de um cantor de flamenco. Não há ali competição ou desgarradas, pelo contrário, os dois complementam-se, aproximam-se, voam o mesmo destino e as canções respiram um profundo respeito mútuo e a admiração de Cigala nos poucos e discretos olés aos solos de Bebo.

No tema Lágrimas Negras, o saxofone de Paquito D’Rivera entra de mansinho. Depois revolta-se. Cala-se para o solo do piano, para as palavras de Cigala e acaba perfilado com ambos a cantar a sua versão da história. A encerrar o disco, Cigala interpreta num portunhol escorreito e sensato o clássico Eu Sei Que Vou-te Amar da dupla Vinícius/Jobim. A meio da faixa a voz rende-se e, à solitude do piano de Bebo, junta-se Caetano Veloso que recita o poema Coração Vagabundo. Escreve Fernando Trueba - no pequeno diário de produção, paellas colectivas e ensaios no estúdio que acompanha o disco -, que foi um momento final de ojos húmedos. Antes disso, Bebo terá dito: “Yo soy un viejo. Mi cuerpo ya no funciona bien. Pero mi espíritu tiene veinte años”. Olé!

24/10/06

São Bagas, Senhor!, por Rainha Santa Isabel

Entre a enorme variedade de castas vínicas usadas em Portugal, há uma que se destaca pelo seu carácter indomável: falo da casta Baga, uma coisa terrível, um pesadelo para qualquer produtor, principalmente, pela sua adstringência radical. A Baga é uma casta típica da região da Bairrada. Durante muitos anos, quando a velhice dos vinhos ainda era considerada um factor de prestígio, a Baga era bem vista. Os taninos suavizavam com o tempo e, passados uns anos, valia a pena abrir uma garrafa bairradina. Ficaram famosos e ainda hoje são verdadeiras peças de culto, os tintos do Bussaco e, digo-vos eu, com inteira justiça.

Mas os vinhos não são uma excepção entre as coisas da vida. Vivemos numa sociedade apressada, que não tem tempo para deixar o vinho envelhecer serenamente. Instalou-se o culto do novo, nos vinhos como nas restantes coisas da vida. Na era da produção em série, não dá lucro produzir vinhos para envelhecerem. Agora os vinhos bebem-se novos, com um ou dois anos, feitos de castas macias, quentes, aveludadas, como os Shiraz ou os alentejanos Aragonês… Em matéria de vinhos, a pedofilia não é criminosa, muito pelo contrário.

Foi por isso que a casta Baga caiu nas ruas da amargura. Sem tempo para envelhecer as várias tentativas de produzir Bagas novos ficaram condenadas ao fracasso. Provei alguns mono varietais da casta, feitos na Bairrada, e só vos digo que aquilo era imbebível. Felizmente tiveram o bom senso de os retirar do mercado. Os produtores nunca conseguiram resolver o problema: ou se deixava envelhecer o Baga ou mais valia desistir de produzir vinhos novos com esta casta. Não fui o único a tirar esta conclusão. Os produtores Bairradinos também assim pensaram e, nos últimos anos, o Baga praticamente desapareceu da circulação. Declarada maldita, associal e indomável, a casta praticamente foi banida. Toda a Bairrada se rendeu. Toda? Não. Num pontozinho do reino, um produtor resistiu e continuou a produzir mono-varietais de casta Baga. E ainda bem que o fez.

Falo do produtor Luís Pato e, principalmente, do seu Baga 2005. Trata-se de uma ousadia e de um acto de resistência notáveis nos dias que correm. O Baga 2005 consegue o feito extraordinário – vá-se lá saber por que artes, mas eu não sou enólogo – de socializar, de domar a casta. Ainda por cima o preço, para o consumidor, é de uns incríveis 5 euros. O vinho mantém a agressividade e a adstringência típica dos Baga, mas controlada, equilibrada pelo corpo pujante. É uma óptima escolha que, imagino, se deve bater magnificamente com um prato forte. O Inverno está aí e este Baga 2005 apetece.

Com este excelente Baga 2005, resolve-se, enfim, a quadratura do círculo da Bairrada vinícola: o Baga mostra-se domável e sem precisar dos tradicionais anos de estágio. O de 2005, mais novito, uma criança, portanto, é o melhor, o de 2003 revela um estado ainda incipiente. Não sei se o produtor de uma tal maravilha, não deveria merecer o título de domador. A mim, parece-me que sim. Sempre gostei daqueles indivíduos que enfrentam leões armados com uma simples cadeira e com um chicote