14/12/06

A Solução, por Nikki

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Breve comentário às Hipóteses em estudo

Hipótese A

Caracteriza-se pela configuração de um L constituído por dois corpos que albergam diferentes funções; um de uso mais reservado, basicamente ocupado pelo escritório e pelos corpos e outro de uso mais ‘público’ – o da cozinha, das salas e do alpendre. A fechar o L uma fileira de arvores de frutos ajuda a compor uma espécie de pátio voltado a Sul e no qual o destaque vai para a piscina ecológica, espelho de água que permitirá vislumbrar a casa de diferentes maneiras e pontos de vista.

Como aspectos a salientar nesta proposta, a economia das circulações – reduzidas a um mínimo com um desenho cruciforme alongado – e a correcta relação que se estabelece com o terreno, com a paisagem e com os pontos cardeais. (…) Como seria de prever numa solução tipo casa-pátio, que não é verdadeiramente, mas que também não deixa totalmente de o ser, trata-se de uma proposta menos virada para a paisagem circundante; uma solução, portanto, mais fechada sobre si própria, mais concentrada sobre os elementos que a compõem e sobre as suas relações funcionais.

Hipótese B
Distingue-se claramente da anterior pela definição da casa em um só volume, embora subdivido em três corpos justapostos: o dos quartos, voltado a Nascente, o do escritório, salas e cozinha, voltado a Poente. Entre os dois, o corpo das circulações, desenhado sob a forma dum pátio interior sobre o comprido, poderá receber luz zenital e de Sul, luz essa que irradia para os corpos contíguos, principalmente para o das salas-cozinha. Nesta solução o acesso ao piso inferior faz-se pela parte central do volume havendo uma tendência para que a cave fique quase totalmente enterrada. O corpo dos quartos ficará parcialmente cravado, permitindo que a transição entre corpos se faça sempre de nível e assegurando uma ligação também de nível entre o corpo das salas e o jardim.

Novamente a piscina ecologia, com o seu magnífico espelho a reflectir a casa a nascente e as colinas a Poente, atrai os olhares e direcciona a vivência doméstica.

Como pontos-chave desta proposta, por um lado, a forte articulação entre os espaços interiores, interligados através dum corredor-pátio para onde dão todas as divisões. Por outro lado, a relação da casa com a paisagem (ao fundo), enfatizada pelo enorme e ininterrupto envidraçado que atravessa todas as zonas de uso menos reservado. (…)

Hipótese Alternativa

Paralelamente a uma solução mais lógica, de compromisso, como seria a da hipótese A – e a uma solução conceptualmente mais radical, de cariz quase funcionalista – como seria a da hipótese B – perfila-se uma terceira via, de maior complexidade formal. A esta última, surgida in the last minute, por virtualmente exceder o que é solicitado, designou-se como hipótese alternativa. Na verdade, e apesar da sua aparente originalidade, não passa de ser uma variante da hipótese A. Desde logo, recupera a ideia dos dois corpos e a respectiva disposição ortogonal em planta. Porém, nesta nova versão, abdica-se da comodidade de circulação de nível, presente nas soluções anteriores, inusitando-se a sobre elevação do corpo dos quartos que se assume volume independente. Apesar do corpo da cozinha-salas manter-se como em A a discordância altimétrica dos volumes dá parece dar à casa um novo fôlego: a casa é a casa é agora menos compacta, menos previsível também.

Como resultado da elevação do corpo dos quartos foi então possível recriar de modo bem mais elegante o hall de entrada que ganha um duplo pé direito e adquire ambiguidade na sua relação com os espaços interiores e exteriores. Este soltar de corpos antes fundidos, como em acontecia em B, ou linearmente combinados, como em A, permite ainda tratar de modo mais individualizado as superfícies do novo volume: ora se deixam rasgar em longas aberturas, ora se fecham, ora se convertem em panos envidraçados revestidos por ripados que controlam a relação com a luz e com a envolvente. Note-se como a posição elevada inaugura uma diferente relação dos quartos e respectiva zona de circulação com a linha do horizonte. Por fim, o efeito de quase prestidigitação deste corpo paralelipipédico, pairando no ar sobre esbeltas colunas permite introduzir, por baixo, um amplo espaço coberto; um espaço de usos multifuncional: parqueamento, área de jogos (ping-pong, dardos, cartas, etc) zona de repouso, zona de convívio-barbecue, mirante sobre o jardim e sobre o vale, sauna envidraçada, voltada para o pôr-do-sol,...

Esta solução, ao contrário das anteriores, preocupa-se, antes de tudo, em libertar o chão, tornando o próprio terreno, logo pela manhã, quando o sol varre todo o comprimento do lote, no primeiro protagonista da casa e do seu dia a dia.

A partir daqui, a piscina, a zona relvada por detrás das árvores, as montanhas, o vale, o sol nascente e o sol poente, e céu e as estrelas, sempre visíveis, sempre próximos, tornam-se, de forma indelével, parte intrínseca do quotidiano de quem habita.

Paisagem, Terreno, Escritor, Casa e Cosmos num todo indivisível.

As funções que na solução anterior aparecem enterradas poderão continuar a existir, e na mesma projecção horizontal do corpo dos quartos, muito embora a garagem, na acepção de parqueamento, poderia ser substituída, com algumas adaptações, pela área coberta exterior.

13/12/06

A Encomenda

A/C de Nikki, o Arquitecto:

Meu caro, gostaria que me desenhasses uma casa com base no esqueleto que vou tentar descrever-te. Deverá ter 4 quartos, uma cozinha com bastante luz solar, uma sala ampla com lareira e um pequeno desnível entre o “estar” e o “jantar”; um escritório e uma biblioteca; uma cave/garagem onde também possa ter uma garrafeira sempre vazia porque a felicidade dos vinhos é poder bebê-los.

O quarto principal deverá ter anexada uma cabine de sauna, bem vês, gosto de sauna, faço sauna o ano inteiro no ginásio e pago-a a 4 duros a sessão – quando chegar a casa, de rastos, depois de “another day in paradise”, quero transpirar como porco escaldado antes de adormecer no enlevo dos lençóis de linho. Com sauna e linho quem é que precisa de pérolas, concordas...?

A minha sala deverá ter uma parede de outra cor que não o branco. Uma cor forte, intensa, salmão fumado parece-me uma boa solução. Outra característica fundamental da sala será nela afirmar-se uma lareira. Uma lareira grande, imponente, aberta, onde se alcance o fogo e as brasas com o olhar – informo-te já que não confio em fogo que não vejo!

Uma cozinha prática e funcional com rentabilização e aproveitamento de cada canto. Uma ilha a meio com um local de encaixe cimeiro onde pretendo pendurar facas, facalhões e cutelos para cortar delicado sushi à lâmina e cabrito à cacetada.

Um pequeno escritório de trabalho. Este espaço deve servir os propósitos da informática, pastas, arquivos, impostos, reclamações e outros assuntos kafkanianos aos quais temos de regressar de tempos a tempos. Gostava que este escritório tivesse uma parede de tijolo, (cada bloco unido por cimento branco ou o que quer que seja que une os tijolos e contraste com a cor terra que lhes dá o carisma), posto lá de forma quase grosseira, como o resultado de um labor manual e imperfeito, mas sólido e sustentado como o argumento de um policial negro. Entendes-me?

A Biblioteca – questão fundamental. Gosto de bibliotecas, sempre gostei de bibliotecas. Daquelas bibliotecas onde William de Baskerville mergulhou o fascínio do conhecimento e pelo meio resolveu os crimes em O Nome da Rosa; daquelas bibliotecas onde somos possuídos pelo encantamento alienado de poder consultar, ler ou apenas contemplar tantos livros. A minha biblioteca não precisa de ter dimensões desmesuradas, porque o meu conhecimento dos livros também não o é. Mas tenho alguns quantos. E alguns quantos filmes. E cds. E recortes, e textos soltos, e artigos sobre receitas, charutos ou a cultura do chá que fui de forma tão apaixonada quando desordenada guardando ao longo dos anos. E é nessa biblioteca que quero arrumar as palavras e preservar a memória das imagens. Em prateleiras e estantes voltadas para uma secretária em madeira e uma bela poltrona de couro onde irei escrever barbaridades e estrebuchar delírios para o Tapor. Algures, uma garrafa de cognac Napoleon ao lado de uns puros cubanos onde o Grunfo irá pendurar as beiçolas como um pitbull ao cheiro da alcatra. Uma biblioteca tão pessoal quanto plural. Ocorreu-me que a biblioteca poderia ser o núcleo central da minha casa. A célula onde todos os caminhos vão dar. Como a Roma. De que forma e com que disposição geométrica? Não faço a mínima ideia, mas se te agradou, podes voltar a chamar-me Senador!

Um braseiro para assar carne e beber tintos. Com forno a lenha para cozer pão, assar leitões e chanfana. Uma grande mesa de madeira ao centro para celebrar muitas Últimas Ceias depois do golfe, ou as partidas de nuestros hermanos bascos para Bilbau. O espírito de Revenga sem portas nem sub-solo.

Pátios, varandas ou afins. São elementos fundamentais. Quero varandas em todo o perímetro da casa. A casa pode ser percorrida por esse lado exterior, à sombra dos pequenos telhados, em toda a sua dimensão. Haverá pequenas mesas de madeira com cadeiras de encosto nesse resguardo a céu aberto. Como nas casas do deep south americano, Mississipi, Louisana e nos arrabaldes de New Orleans, onde a Harper Lee se sentava ao luar com o pai e aprendeu a escutar os sons das cigarras e a as histórias dos homens contadas por Aticus Finch, e a escrever, muitos anos mais tarde, o Não Matem a Cotovia.

Uma piscina deve ser prevista, centrada com o verde da relva que quero plantar, a oeste dos pessegueiros e cerejeiras que quero fazer crescer ao fundo do terreno. O jacarandá, a magnólia e outras sombras com raiz, ficarão em lugar a destinar e perto de água abundante.

Gosto de matérias que provêm da terra - madeiras, pedra tosca, tijolos, barro. Gosto de cores com o mesmo genótipo – castanhos claros, mel, laranjas, Agosto em final de tarde, tonalidades quentes, mas também azul marinho, verdes ciprestes. Gosto de linhas direitas, da austeridade japonesa, de arrumações compartimentadas e simples, de geometria recta e desprovida de ornamentos, de portões, das colunas do Parthenon e de candeeiros estilo postes de iluminação iguais àqueles para os quais mijava o Vasco Santana no Pátio das Cantigas. Gosto das formas simplistas e térreas dos motéis americanos, das suas linhas carregadas de horizontalidade. Detesto candelabros, cristais, brilhos ofuscantes, estilos rebuscados e com muitas curvas, cornucópias como as das gravatas italianas, classicismo rococó, pormenores acentuados. Sou um gajo informal de hábitos e simples de trajes – gosto de andar descalço dentro de casa sem correr o risco de apanhar uma pneumonia ou fungos nos pés.

A terminar, e se é possível acrescentar algo mais à minha modesta capacidade para visualizar a minha casa, deixo-te a mais simples e memorável descrição de uma casa-lar que já ouvi. É do filme O Gladiador. Na fria e distante Germânia, após a batalha, Marcus, o Imperador pede a Maximus, o General, que lhe fale da sua casa. Uma felicidade pacífica e serena irradia de Maximus à medida que as palavras lhe saem da boca.

Diz Maximus:
«A minha casa situa-se nas Colinas acima de Trujillo. É um lugar muito simples, feito de pedra cor-de-rosa que aquece ao sol. Jardins que cheiram a ervas aromáticas durante o dia e a jasmim à noite. Para lá do portão existe um enorme pomar. Figos, maçãs, peras. O solo, Marcus, negro... negro como o cabelo da minha mulher. Videiras no terreno a sul, oliveiras a norte. Cavalos selvagens perto da casa costumam brincar com o meu filho. Ele quer ser um deles.»
Fico à espera da tua resposta e inspiração, aquele abraço,

Mangas.

11/12/06

Wim Mertens, por Xeko

O lançamento do seu novo projecto “Partes extra partes”, gravado com a Flemish Radio Orchestra, com Dante Anzolini, era um bom prenúncio. Decidi-me, então, por ir ao TAGV, em Coimbra, onde Wim Mertens encantou uma sala repleta, expectante e atenta.
Era minha vontade, de início, assistir a dois concertos - um a solo, com piano e voz, e o outro, com a participação de Gudrun Vercamp, no violino -, na expectativa de ouvir "Struggle for pleasure", "Close cover" ou "The belly of an architect", assim como material inédito como "In and for itself" ou "With all its might", em dois registos diferentes.
Fiquei apenas por Coimbra, para uma experiência notável, pelo destaque que deu ao violino, tocado por uma Gudrun Vercamp inspiradíssima, que encantou.
A voz aguda de Wim Mertens continua a anunciar-se, quase etérea, ainda que de forma repetitiva, sem desvirtuar a dimensão rítmica. Mostra-se em simbiose perfeita com o piano, tal como se pode verificar em “Maximizing the audience” ou “Strategie de la rupture”
É certo que, perante 25 anos de carreira e a edição de 50 discos, é difícil esperar algo de novo, de diferente.
Mas este “refazer” da música, que o distingue no panorama minimalista actual, apoiado agora pelo violino, deu-lhe uma intensidade diferente, outra melancolia. O poder da voz - tal como é conhecido -, ainda subsiste, assim como a sua singularidade.
Além de sublinhar a paixão por ela, na sua expressão pura, mostrou-se disponível para outras sonoridades, sem abdicar do piano, que tão bem o distingue, desde “For amusement only”.
Perdida a oportunidade de 2005, de conhecer “Un respiro”, em Famalicão, não iria perder esta ocasião de o sentir, agora ao vivo, com “Partes extra partes”.
Foi o que fiz, tal como ele, só por diversão…

09/12/06

Ando a digitalizar as estampas de um livro tão velhinho que se estraga com o virar das páginas:


Victor Duruy: História de Roma. Desde a sua origem até á invasão dos barbaros; Lisboa; Escriptorio da Empreza Editora de Publicações Ilustradas; 1891; 4 volumes. Tradução de Manuel Pinheiro Chagas.

Tamanho grande aqui.

04/12/06


António Maia: Handicap 13; Lisboa; Estar Editora Ldª;1998

26/11/06

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1923 - 2006

22/11/06

Monocromia, por Black Label

Em 30 de Dezembro de 1915, foi apresentada na exposição 0,10, na galeria Nadiejda Dobitchina em S. Petersburgo, o célebre Quadrângulo de Kazimir Malevitch, exibido de modo a que se estabelecesse um confronto com os ícones tradicionais eslavos pois, nos lares ortodoxos, era nos cantos das salas que se colocavam essas representações sagradas, exactamente o local proeminente em que foi pendurado o Quadrado Negro sobre Fundo Branco .
Com esta obra, a arte contemporânea encontra-se a um passo daquilo que poderíamos designar como derradeirismo estético, o que equivaleria, considerando o tempo longo, ao fim da História da Arte enquanto processo. Isto é, com Malevich abre-se a possibilidade do nihilismo apocalíptico sob a forma de um monocromatismo negro. Eliminando o fundo branco, bem como qualquer outro vestígio que confira significado à pintura, obteremos um vazio absoluto que equivalerá ao fim da pintura enquanto género artístico, senão mesmo à consumação da arte. Atingir-se-ia «o fim, o último estrato de prospecção, o nível zero: a última imagem, precisamente», levando a abstracção ao «limiar da absoluta monocromia.» Este passo foi dado por Alexander Rodtchenko em 1921, anunciando a morte da pintura ao apresentar três telas monocromáticas com as cores primárias. O fim será depois concretizado de forma absoluta pelo minimalista Ad Reinhardt (1913–1967), com o seu terminal Abstract Painting sem título, a partir do qual só a repetição é consentida. Uma superfície quadrada toda preenchida por um negro monocromático constitui uma concretização desnecessária de Malevich. Desnecessária apenas no sentido em que o russo a evitou porque seguramente estava certo do que Reinhardt afirmava: «Muito simplesmente faço o último quadro que alguém pode fazer». Depois disto, Reinhardt limitou-se a pintar monocromias negras e a numerá-las. A da imagem que ilustra este texto é a do Museu Guggenheim de Nova Iorque. Há outras, exactamente iguais, noutros museus de referência. Por exemplo, no Minneapolis Institute of Arts, no Museum of Modern Art de Nova Iorque, no Smithsonian Art Institute em Wahington D.C., na Tate de Londres, no Walker Art Center no Minnesota ou no Whitney Museum of American Art em Nova Iorque. Isto para falar só das monocromias negras em telas quadradas, pois que Reinhardt também pintou monocromias negras rectangulares e telas negras quadradas com ligeiras gradações do negro quase imperceptíveis.

Imagem e referências aos museus

Citações de Johannes
MEINHARDT A Crise da Pintura Abstracta nos anos 1960; in «Pintura: Abstracção depois da Abstracção»; s / l (Porto); Público / Fundação de Serralves; 2005.

Post dedicado ao visitante seven, do obvious, cujo post o caminho da abstracção #2 me sugeriu este.

21/11/06

Anais do Porco. Por Manel, o Empalador

Olhem o que eu fui buscar ao baú, umas disquetes que aqui tinha:

«Coimbra, adega do Galgo, 27 de Fevereiro de 1999


«(....) até que um dia o Senhor, desagradado com o rumo empirista e subjectivista do seu rebanho, irado com o episódio do Barca Velha, [alusão à degustação de um Barca Velha prova cega e que foi desqualificado pela generalidade dos confrades] tomou a decisão de enviar um anjo com a missão de apontar o caminho da Verdade e do rigor científico. Foi então, qual novo Moisés, que o abençoado anjo do Senhor ofertou aos bárbaros os instrumentos com os quais eles inauguraram uma nova era das suas vidas. Mas advertiu-os: acabai de vez com as apreciações tipo pica, escorrega bem, bate bem, etc. De ora em diante, exijo-vos o rigor no discurso e a objectividade na análise.»
A História ensina que estes momentos de ruptura têm que superar as naturais reacções conservadoras. Sabe-se como as massas ignaras são adversas à novidade, apegadas à tradição e reagem negativamente à introdução de elementos que perturbem a harmonia pacata do seu quotidiano. E, por isso, também então se fizeram sentir vozes espantadas e ignorantes que, em face dos aparelhos, indagaram "Qu'é isto !?", enquanto coçavam o cocuruto com o indicador esquerdo e com as costas da mão direita limpavam a baba que lhes pingava da beiça embasbacada.
Mas a provar que esse momento não foi um dado isolado, e que reflecte um salto civilizacional qualitativo, temos que, mais ao menos pela mesma altura, como que anunciando a grande novidade revolucionária, os membros da sociedade satânica acolheram uma outra novidade: nada menos que o famoso cardiovelocímetro. Este aparelho é assim uma espécie de conta-quilómetros só que, segundo o nosso Mister especialista em bola científica (isto é, treinador sem bigode) em vez de estar ligado à roda, está ligado ao coração e capta o ritmo da frequência cardíaca, enviando depois, através de um emissor electrónico fixado no pulso, elementos sobre o esforço dispendido pelo utilizador. Assim se desmascara, reportando-nos à aplicação exclusivamente desportiva do instrumento, o sub-rendimento dos praticantes, forçando-os à exaustão. Porém, a importância desta geringonçça consente outro tipo de utilizações. Sirva de exemplo a aplicação do cardiovelocímetro no domínio das relações interpessoais. Pela consulta dos dados obtidos pelo aparelhómetro torna-se possível detectar o subesforço de uma das partes, advertindo-a mais ou menos nos seguintes termos:
- Desculpa lá, mas não deste o litro. O cardiovelocímetro não engana! Vais ter que amochar outra vez!»

Esclarecidos então acerca da importância histórica do repasto, passemos à apreciação do dito.
No referente aos sólidos, nada a opor. O chouriço caseiro cumpriu e o queijito não envergonhou. De 1 a 5, as entradas merecem nota positiva. Os torresmos estavam óptimos, temperados à portuguesa, apenas com vinho, segundo o anfitrião, e fritos na própria gordura. O arroz de míscaros apresentou-se em duas versões, a saber: com carne e sem carne. Nenhuma das versões envergonhou e qualquer delas bate a versão do Cantinho dos Reis, uma sub-espécie que constitui uma terceira categoria: arroz com carne, colorau, pimentão, massa de tomate e alguns míscaros.
As duas variedades foram provadas e aprovadas, muito teriam ganho se algumas alimárias retardatárias entendessem o significado de 8 horas. De facto, se é às oito, não é às 8 e meia e, por maioria de razão, muito menos às nove menos um quarto! Não é preciso ter um rolex para entender isto! Ou alguém tá a precisar de slides?
O arroz perdeu, e é em memória do que perdeu que agora se estipula o princípio de iniciar os jantares futuros à exacta hora marcada. Quem chegar atrasado traz pão com fiambre!
Passando aos líquidos, deve comentar-se a já proverbial sovinice do vice-mestre que trouxe um miserável Porca de Murça do ano, porque não havia mais barato.
Quanto ao Grão-mestre, et son partenère, porventura ainda ofendido com a estrondosa indiferença com que apreciámos o Barca Velha, decidiu dar uma de educador das massas! Como quem diz (e escreve, reportando-me à assinalável importância e elevado sentido de humor da sua crónica dactilografada) que o mal não deve ser do vinho (ainda que o José Salvador sublinhe a precipitação motivada pelo «efeito Expo 98»), por isso deve ser das bestas com sentidos empedernidos. Ora, aplicando agora os básicos príncipios da economia, trocar de bestas sairia caro e moroso, portanto, educam-se! Foi assim que ambos vieram munidos de uma garrafitas adquiridas no Pingo Doce, em saldo, e que eram vinhos de casta única. Um Trincadeira e um?????, numas garrafitas de 0,50. Julgavam, através deste método ensinar os rudimentos da enologia, o b-a-bá da matéria. Ora bem, caros grandes timoneiros, as bestas a educar entendem por conveniente dizer duas coisas:
1º: Esses vinhos de casta única não valem uma merda!
2º: Se acaso persistirem nessa tendência para apresentar vinhos em garrafitas de 0,50, daremos validade à hipótese que propõe que o volume da garrafa é directamente proporcional ao tamanho do membro viril! Não repitam pois a ousadia se não querem acrescentar ao nome o epíteto O Meio-litro!
Assunto encerrado! Não queremos ser educados! Estamos felizes enquanto bestas! Mais, orgulhamo-nos de ser bestas e só aceitamos uma metodologia educativa para deixar de ser bestas: mais Barca Velha! Até parece que nunca ouviram falar no método pela descoberta, em que a besta é que determina o ritmo do processo ensino-aprendizagem. Nós não queremos ficar traumatizados!»
Já lá vão uns anos. Exceptuando o eclipse do Galgo e a banalização do cardiovelocímetro que na altura era uma novidade, está tudo na mesma: à marrada e à morteirada!

16/11/06

Muito acerca de nada, por Mangas

Encontrei os meus cães a lamber o sangue de um pavão que saltou a cerca para o lado de cá. Fitaram-me, quietos, à espera de uma carga de porrada, mas deixei-os entregues ao que restava daquele campo de batalha de onde sobravam ossos, carne rosada e penas coloridas.

Cenários idênticos podem acontecer após o anúncio da classificação dos tintos numa prova cega, ou no rescaldo da cirurgia plástica a um porco.

Depois disso apontei-lhes o caminho para casa, mas os cabrões ainda não regressaram.

15/11/06

Exercício nº 1, por Poirot

A empregada entrou na sala e verificou que estava lá um morto estendido no chão. Deu o gritinho tradicional e chamou logo a Polícia. A Polícia chegou a tempo de verificar que o morto continuava na sala, mas encontrou lá dentro mais dois homens: um Gordo e um Magro.
O Detective Columbo resolveu logo o mistério:
- Já sei quem matou a vítima. Foi o Magro.
Pergunta-se: como descobriu o Detective Columbo que o assassino foi o Magro?
(veja resposta na caixa de Groinks deste post)

09/11/06

Rosebud, por Fernão Lopes

Aaron Delwell Penglast é um multimilionário norte-americano da Pensilvânia, considerado pela revista Forbes entre os 15 mais ricos do Mundo, que acaba de constituir uma fundação com um propósito exclusivo, bizarro e muito curioso. O senhor Penglast, de 63 anos, dotou a sua Fundação com largas dezenas de milhões de dólares, contratando especialistas das mais variadas áreas, que vão da arquivística à informática, ou da robótica à psicologia, com a intenção de reconstituirem a sua vida desde a mais tenra infância até à actualidade, bem como de procederem ao registo de todos os factos da sua vida futura, mesmo os mais ínfimos e irrelevantes. O objectivo é produzir um guião diário da vida do multimilionário e reconstituir a sua vida em espaço virtual 3D de modo a que, após a sua morte, se cumpra a disposição testamentária já redigida e mantida em segredo mas que, no entanto, dispõe que um colectivo formado por um vasto número de sábios e especialistas nas mais diversas áreas seleccione um casal que esteja disposto e aceite livremente que o seu ffilho viva a vida de acordo com a reconstituição virtual, e devidamente documentada, da vida de Aaron Penglast. Isto é, diariamente, os arquivos digitais ora produzidos deverão ser consultados e a jovem réplica deverá viver a sua vida de acordo com o guião. Isto é, ler os mesmos livros, ver os mesmos filmes, visitar os mesmos locais, estudar as mesmas matérias, tomar as mesmas decisões, tanto quanto for possível, tudo igual à vida de Penglast. A Fundação manterá um curador e um colégio de acompanhamento que deverá não só manter a vigilância sobre o quotidiano do contemplado como decidir sobre os factos dificilmente replicáveis ou até impossíveis de repetir. Deverá o colectivo de curadores reunir e recomendar, em caso de impossibilidade de se observar o quotidiano original, a alternativa mais próxima e exequível. Discreto, o sr. Penglast aceitou apenas dizer que este processo foi o que mais próximo se assemelhou com a conquista da imortalidade. «Não creio na clonagem», acrescentou.

Foto: http://universe-review.ca/F10-multicell.htm#evolution

07/11/06

Alá Akbah!, por Wickie o Viking

Saddam Hussein foi condenado à morte por enforcamento. Não é que a morte de um tal facínora me suscite qualquer espécie de compaixão. Ele foi justamente acusado de uma série de crimes monstruosos e declarado culpado. Até aqui tudo bem. Mas não concordo que se responda aos seus crimes com a perpetuação de um crime de estado que é, no fundo, a pena capital.


Já nem quero focar a discussão na legitimidade da pena de morte. Sublinho apenas a superioridade da Europa relativamente aos EUA neste particular. Mas basta pensarmos que os Americanos – sim, são eles os juízes deste processo Saddam – estão a criar mais um mártir da «causa muçulmana» quando o ex-ditador iraquiano estava reduzido a uma figura risível. Vivo Saddam era uma personagem de pechisbeque, até para os alucinados de turbante que não simpatizavam com ele. Morto, «assassinado às garras do Grande Satã» vai transformar-se num mito, vai ser elevado à categoria de Super-Herói do Islão. Bush persiste, tenaz, na asneira e perde mais uma oportunidade para demarcar a civilização da barbárie. Do fundo de uma gruta, algures no Afeganistão, Bin Laden agradece...


P.S. Ao que consta os governos europeus já se demarcaram desta infeliz decisão. Há um estado europeu, o seu presidente da república e o seu primeiro-ministro, que persistem, porém, em manterem-se calados, em escudarem-se em cínicos «Suas Excelências não têm nada a declarar» (a não ser que os obriguemos, claro). Falo do nosso Portugal, pois claro. «Não hostilizarás o Poderoso», assim reza o primeiro mandamento da Bíblia Hipócrita de Zé Aníbal Sócrates Cavaco, neste como noutros casos.

05/11/06

Hermanizaram-se!

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O Júlio Isidro foi ao Gato Fedorento! Melhor, ao Diz Que É Uma Espécie de Magazine! Até o título é um flop! É a morte dos Gatos? Engravatados, com palmas enlatadas, com público contratado, com momento musical, com trocadilhos idiotas. O Júlio Isidro! Por amor de Deus! O Herman, apesar de tudo, aguentou mais tempo. Tirando o dito boneco do Paulo Bento, ao cabo de dois programas, não vi nada de jeito.

foto:
http://designersalliance.co.uk/wp-content/uploads/2006/05/shit.jpeg

02/11/06

Que Vai Ser Deste Homem?, por Hiena Fedorenta

O último sketch do Gato Fedorento a imitar o único treinador de futebol do mundo que usa o penteado de risco ao meio e fala português ao soluços com a musicalidade do castelhano é, apenas e sinceramente, a melhor imitação de alguém que alguma vez me foi dada a ver. Antes de continuarem a ler o resto do post vão ao You Tube, digitem Paulo Bento e vejam o Ricardo Araújo Pereira no seu melhor boneco de sempre. Vale a pena. Vão lá que eu espero.

Já viram? Genial! Mas uma imitação destas coloca imediatamente a seguinte questão: e agora Paulo Bento? Eu acho que o homem tem a carreira arruinada. A partir de agora, ninguém que tenha visto o sketch o conseguirá levar a sério. Como é que ele conseguirá agora falar aos jogadores do Sporting no balneário sem que estes se desmanchem a rir? Imaginem que o Sporting perde ao intervalo com o Desportivo das Aves em casa e é preciso um discurso que acicate os jogadores. Vai ter que falar o treinador adjunto, carago, porque os jogadores lembram-se do Gato Fedorento quando vêem o treinador. Pode ser o fim da carreira do Paulo e é chato. Há quem diga que na segunda-feira a seguir ao sketch os jogadores compareceram todos ao treino de risco ao meio. Foi mau…

Ontem ouvi o Bento na rádio a falar e dei por mim a rir ás gargalhadas – o boneco já se sobrepôs ao homem, o Paulo Bento real parece uma anedota séria a tentar a imitar o Paulo Bento cómico. E até pensei se o Bento não fará agora um esforço sobre-humano para evitar dos tiques que o Gato tão cruelmente lhe apanhou, como abrir muito os olhos e esticar muito o pescoço para a frente... Eu fazia, fónix… Será que ele nunca mais vai poder dizer «tranquilidade» na vida? E outras palavras acabadas em ade? Ainda poderá pronunciar «imunidade», «maturidade», «regularidade» ou «qualidade» sem ficar com a estranha sensação de que era o que milhões de pessoas que o ouvem estavam à espera que ele dissesse? Ou quando estas palavras lhe surgirem ele vai engoli-las e substitui-las por outras para evitar que a malta se desmanche a rir?


Eu sei que o pessoal do Gato é benfiquista. Mas não havia necessidade de fazer um tamanho assassinato de carácter ao líder inimigo. Acho que agora nem a mulher do Paulo deve conseguir estar com ele sem cair da cama abaixo às gargalhadas. É traumatizante, fosca-se. E o Sporting tem um azar do caraças: já não lhe chegava o mítico Sousa Cintra que dizia «Spórtem» e mandava garrafas pela janela do carro em plena auto-estrada. Só lhe faltava o Paulo. Assim não dá. Não há tranquilidá…