17/02/07

O Tapor em Berlim, por Peter Panzer (replay)


Cheguei de Berlim. Lá fui em peregrinação ao Kat Kat com o meu amigo Walter. «Um antro gay», dizia ele, mas a mim pareceu-me apenas um clube de paneleiragem. Lá dentro estava toda a gente nua ou, na melhor das hipóteses, vestida com fatos de batman sem capa, ajustadinhos ao corpo.


No hall do Kat, atende-me um porteiro metido num fato cor de rosa de Daredevil que me pede para ver os boxers. Uma vez que não falo alemão, expliquei-lhe no meu melhor inglês que só tinha "truces" daqueles meio fanados, castanhos atrás e amarelos à frente. O gajo deixou-me entrar. O Walter não teve problemas porque tem um fato especial que comprou, em segunda mão, numa loja S/M e já tinha aquilo por debaixo da roupa. Um senhor, este Walter! É o primeiro conselho que dou a quem for um dia a Berlim e procurar o inevitável Kat Kat: aluguem uma fatiota destas para ver a noite em Berlim. É outra classe, acreditem...


O antro não tem grande história. É um sítio infernal, completamente negro, com House e Techno, a noite toda, em altos berros. A frequência é a malta da love parade. Práli estão a comer-se uns aos outros. A melhor cena foi a de duas bichas que passaram a noite toda enfiados um no outro em cima de um baloiço que um terceiro empurrava. Dejá Vú!

Mas o mais bizarro foi de um sítio chamado O Trono no interior da discoteca do segundo piso. O Trono é um estrado mais elevado da discoteca, no meio da pista de dança, onde está de gatas um caramelo com uma máscara S/M enfiada na cabeçorra. O gajo está de rabo alçado e há uma dominadora drag queen que lhe vai arrancando, metodicamente, resmas de pelos do cu. Quando ela os tira, o tarado diz-lhe num tom very british: "Thank You, my lady" ao microfone e a malta curte e dança mais desenfreadamente ainda.


Enfim, é outro mundo - saímos de lá às 5 da matina, não sem que antes o Walter tivesse tido uns problemas devido às qualidades eróticas evocativas do seu fato especial de super herói. Os meus truces é que não pareceram ter grande sucesso, vá lá um gajo saber porquê...

16/02/07

O Grande Dilema das Ostras Afrodisíacas, por Minetauro

Se meterem no Google o tema “Ostras Afrodisíacas” saltam-lhes no écran centenas de receitas de ostras sexualizadas. Diga-se desde já que o afrodisíaco “googliano”, também dá para o amendoim, o açafrão, o guaraná, o gengibre, os caracóis, mexilhões, ouriços do mar, pinhões, ovos de codorniz, a alcachofra, cebola, rúcula, e até para um tal de chouriço na brasa, enfim eu sei lá, dá pra tudo, ou como dizia o outro: a mim tudo me dá tesão!

Adiante e voltemos às ostras, uma vez que estas são reconhecidamente o afrodisíaco com mais charme e fama. Vem isto a propósito de uma interessante discussão que se gerou no verão passado no restaurante “António” de Leça da Palmeira (excelente), à volta de um prato de ostras. As ostras do António estavam fresquíssimas e divinais. Acolitadas em gelo triturado foram chupadas até ao tutano. E venham mais 5! Mas lá pelo meio da chupança, surgiu a lembrança. De onde retira este bicho o carácter afrodisíaco?

Na discussão que se gerou, as hostes dividiram-se em duas partes. De um lado, os partidários de que tal carácter afrodisíaco do bivalve, apenas deriva da sua textura e configuração – e a foto não engana -, e do outro lado, a parte na qual me incluo, que defende que tal carácter deverá radicar também em características intrínsecas do bicho de cheiro ou sabor. A discussão foi acesa, mas inconclusiva, até porque entretanto chegou a açorda de linguadinhos e aí a atenção do pessoal dispersou-se.

Mas, a questão ficou-me a bailar nas beiças e tratei de ir ver alguma coisa. E após aturado estudo, verifiquei que Jurisprudência também se divide. Há quem fale do poder de sugestão e analogia, equiparando a forma da ostra ao órgão feminino, assim como se fala do afrodisíaco morango, por semelhança com o órgão masculino. Mas também há quem assegure da elevada concentração de zinco, metal que aumenta a concentração de testosterona, tanto nos homens como nas mulheres. Alegam outros, que o Zinco é essencial na produção de esperma, logo…, tunga! E há referências à riqueza das ostras em iodo e fósforo. Mais, há quem defenda que o Zinco intervém directamente na vagina da mulher, aumentando a secreção que faz de lubrificante vaginal. Como vêm o assunto foi estudado, mas a dúvida insanável permanece.

Certo, certo, é que à cautela, o Casanova mamava todos os dias cerca de 50 ostras pela manhã, e não consta que o homem fosse lá apenas pela sugestão. Até porque sugestão por sugestão bastava uma e não eram precisas 50!. E vocês como é, vão pelo Zinco ou pela Sugestão? Venham mais 50, s.f.f.!

A Metamorfose, de Franz Kafka, por Melquíades

Toda gente conhece Franz Kafka dos inacabados “O Processo “ e “O Castelo”, mas poucos leitores param e atentam no livro “A Metamorfose”. Para mim, que tenho Kafka como uma das releituras preferidas, a sua genialidade está antes de mais no pequeno e acabado, Metamorfose.

“Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na cama metamorfoseado num monstruoso insecto.” Assim começa o Metamorfose e pouca mais acção há. O livro é pequeno, mais novela que outra coisa, e traduz-se nisto: Gregor Samsa, caixeiro-viajante que se mata a trabalhar para prover à família que adora - pai e mãe, já velhotes e uma irmã novinha -, acorda naquela manhã transformado num nojento e gigantesco insecto. Não pode falar, não pode sair do quarto, não pode fugir; e não maltrata ninguém, uma vez que mantém pensamento humano. Reconhece a família e o mal que lhes está a fazer e a família reconhece o insecto de pesadelo como sendo o filho extremoso, Gregor Samsa.

Mas como é que se vive com a monstridão? Esta é a pergunta que logo de início nos salta à cabeça, perante a empatia para com a família do mostrengo. Mas a arte de Kafka leva-nos muito mais além do que isto e a pouco e pouco, passado o susto da fantástica metamorfose, já não sabemos quem é o monstro. Começam a aparecer outras monstruosidades ao longo da Metamorfose. A monstridão pode estar em qualquer lado e mesmo no meio de nós. Até o leitor pode ser o monstro. Qualquer de nós se identifica com tudo aquilo. De um lado e de outro. Ali não há preto e branco.

Já li e reli “A Metamorfose” muita vez e descubro-lhe sempre uma nova perspectiva. Em regra tenho simpatia pelo novo Samsa. A sua metamorfose é uma reacção à insanidade e ao vazio em que vivia. Foi o corpo e não a cabeça que lhe disse “Não” à continuação da labuta esgotante, transformando-se naquilo que a impossibilitava, a monstridão. Transformado o corpo no mostrengo horrendo que nos é descrito, a cabeça de Samsa continuou como até ali, amorosa, subserviente, escrava. O metamorfoseado monstro é a mais humana das criaturas. A família, aterrada e esgotada, e que nos leva de início a maior fatia de simpatia, vai evoluindo ao longo da história e vai sendo objecto de nova metamorfose.

No final, a cabeça humana do monstro físico Samsa, não aguenta o sofrimento (ou a metamorfose) que provoca na família e suicida-se da única forma que aquele corpo lhe permite. À fome. O monstro repulsivo toma a mais humana das atitudes.

15/02/07

O mistério de Atanásio Jacupissara, por Inspector Morgado

Na madrugada do passado dia 2 de Abril do corrente ano, um estranho episódio ocorreu na alameda coronel Baptista Domingues. Ao descer a dita avenida, quando regressava de uma orgia clandestina realizada no famoso lupanar da Sr.ª D. Amélia Romanova, um distinto cidadão da nossa comunidade que prefere manter o anonimato, o dr. Atanásio Jacupissara, juiz desembargador do tribunal da Relação, reparou num veículo atravessado na faixa contrária. Estacionou o seu automóvel, um moderno Audi highline A5 (sobresselente também é gente), e prontamente se dirigiu ao local do presumível acidente. Lá chegado, reparou que o veículo imobilizado, um Ford Fiesta comercial com a traseira elevada e adaptada ao transporte de pão, estava ainda com o motor a funcionar. Na superfície lateral, ostentava a designação do estabelecimento comercial: Padaria Contente, telemóvel 91 544 455.
O dr. Jacupissara desligou o motor, rodando a chave da ignição, e reparou que, mesmo em frente do automóvel estava um vulto imobilizado no alcatrão. Logo imaginou um atropelamento com fuga. O empenhado e responsável cidadão usou o seu telefone para prontamente chamar as autoridades e uma equipa de emergência médica. Entretanto, abeirou-se do corpo prostrado no meio da via pública. Reparou que se tratava de uma senhora de meia-idade, aí dos seus cinquenta anos. À frente, uma prótese da perna direita que seguramente fora projectada em consequência do embate. A história parecia simples: o padeiro atropelou esta pobre senhora que, em virtude das suas dificuldades de locomoção, atravessava a rodovia em local não autorizado, mal iluminado e muito vagarosamente. Assustado, o motorista fugiu, ou então, admitamo-lo, foi em busca de socorro, uma vez que poderia não ter telemóvel.
O dr. Jacupissara acercou-se da face da infeliz atropelada e viu então que ela não tinha braços. «Deve ser uma vítima da Talidomida», pensou o dr. Jacupissara enquanto se aprestava para a violar. Antes porém que tal sucedesse, chegou a equipa de emergência que transportou a pobre infeliz para o hospital onde viria a falecer.
A polícia abriu um inquérito que viria a ilibar o jovem condutor do veículo, um tal Atanagildo Pasagarda, posto que o volante, segundo os exames periciais do laboratório da polícia científica, ostentava as impressões digitais da vítima. Ora, o mistério é o seguinte: como é que a senhora se atropelou a si própria?

Foto: O Pensador, de Auguste Rodin; 1880

13/02/07

O Livro Que Matou Uma Cidade, por Melquíades


Há muitos anos, correndo as estantes empoeiradas da Biblioteca Municipal, tropecei no título de um livro que me encheu de curiosidade e me levou a lê-lo. Era uma obra-prima do realismo italiano, de um tal Carlo Levi e dizia que “Cristo Parou Em Eboli”. Como não consigo ler um livro sem ir a correr situar a coisa, descobri a cidade italiana de Eboli, a cerca de 100 km a sudeste de Nápoles, na Campânia e nas faldas dos Monti Picentini. Mas o livro não se passa aí. Aí parou Cristo e depois da abertura inicial, Eboli não mais aparece no livro.

O narrador, o próprio Carlo Levi, é desterrado por Mussolini para os confins da bota, para a pobreza miserável da Lucânia - junto ao tacão -, passa por Eboli e vai aterrar em Gagliano, aldeia próxima do rio Agri, para lá de Grassano e pertencente à província de Matera. Só não descobri no mapa Gagliano, que o autor deve ter inventado. O Agri, Grassano e Matera são reais e o exílio interno do Levi também.

Apesar de abrir caminho às correntes realistas italianas (vide badana), o livro é muito mais do que um manifesto realista. Num registo com muito de auto-biográfico, o médico, escritor e sobretudo pintor, Carlo Levi debruça-se sobre a vida dos que o acolhem nos confins do mundo romano. O retrato sendo cruel, não deixa de ter algo de mágico, com uma forte componente pícara e humorística. Mussolini em particular e o poder de Roma em geral, não saem bem na fotografia. Na década de 50, com a Itália pós 2ª Guerra a cavalgar ufana a riqueza da industrialização crescente, a ferida aberta por Carlo Levi não foi bem recebida, e o escritor foi ferozmente criticado por ter “dado para o estrangeiro uma imagem troglodita da Itália”.

É que pelo meio do livro, Levi mata Matera. A velha Matera, que a nova, lá continua capital de província e senhora dos seus 50 ou 60.000 habitantes. Mas na década de 30, Matera era um monte rochoso de cavernas e grutas infectas onde vivia a maioria dos seus habitantes. Levi fez um tal retrato daquilo, que a moderna Itália pós guerra entrou em estado de choque, quer pelo retrato, quer pela repercussão internacional do mesmo. O primeiro-ministro italiano da altura proclamou Matera como "la vergüenza de Italia", e o estado italiano obrigou a população a sair à força das cavernas, grutas e ruínas e fechou toda a velha cidade. A velha Matera passou então a servir de cenário a filmes apocalípticos (Pasolini filmou aí a miséria absoluta para alguns dos seus filmes) e de pano de fundo a um turismo de mau gosto. Ainda hoje, os italianos e a cidade em especial não gostam nada da alusão à coisa. Têm razão. Não saem bem na fotografia. No livro, o relato que se segue é a voz da irmã do narrador que vem de Turim visitar Levi:

“ - Não conhecia a região (…) Mas quando saí da estação, um edifício moderno e até mesmo luxuoso, e olhei em volta, foi em vão que procurei a cidade. Não existia cidade. Estava numa espécie de planalto deserto, cercado por colinas áridas e calcinadas, de terra cinzenta semeada de pedras. (…) Mas onde estava a cidade? Matera não se via.

(…) E fui finalmente à procura da cidade. Afastei-me mais um pouco da estação e cheguei a uma estrada ladeada de velhas casas dum dos lados e contornando do outro um precipício. Matera fica nesse precipício. Lá em cima não se vê quase nada por causa da excessiva inclinação da encosta que desce quase a pique. Ao debruçar-me, vi apenas terraços e carreiros que ocultavam completamente as casas. Em frente, ficava um monte árido e queimado, horrivelmente cinzento, sem marcas de ter sido cultivado, sem a animação de uma única árvore: apenas terra e pedras batidas pelo sol. Ao fundo corria uma pequena ribeira, a Gravina, um pouco de água suja por entre as pedras, fonte permanente de paludismo. O riacho e o monte tinham um ar sombrio e mau que confrangia o coração. (…) Era assim que nós na escola, imaginávamos o inferno de Dante.

Comecei a descer, em círculos, por um caminho de cabras. O estreitíssimo carreiro passava, serpenteando, por cima dos telhados das casas, se é que se lhes pode chamar assim. São grutas escavadas na argila endurecida do barranco; algumas têm uma fachada, à frente, e chegam mesmo a ser bonitas, com uns modestos ornatos tipo setecentista. Esta espécie de fachadas talhadas verticalmente na terra, tornam-se um pouco salientes em cima devido à inclinação da ravina e é nesse estreito espaço entre a fachada e o declive que passa o caminho que é, ao mesmo tempo, o tecto das habitações que ficam por baixo. Com o calor as portas estavam abertas.

Ao passar, ia olhando para o interior das grutas que não recebem ar nem luz por outra abertura. Algumas nem mesmo essa possuem: entra-se por cima, por uma escada. Dentro daqueles buracos negros, de paredes de terra, viam-se as camas, um miserável mobiliário, alguns farrapos estendidos. No chão estavam deitados os cães, as ovelhas, as cabras, os porcos. Em geral cada família só possui uma dessas grutas e têm de dormir todos juntos: homens, mulheres, crianças e animais. Vivem assim vinte mil pessoas. Crianças, então, é um número infinito. Com aquele calor, apareciam por todos os lados, no meio das moscas e da poeira, completamente nuas ou cobertas de andrajos.

(…) Vi crianças sentadas nos portais das casas, no meio da maior imundice, sob o sol ardente, com os olhos semifechados, as pálpebras vermelhas e inchadas; e as moscas pousavam-lhes nos olhos, enquanto elas continuavam imóveis, sem mesmo as sacudirem com mão. Sim, as moscas passeavam nos seus olhos e elas não as sentiam. Era o tracoma. (…) Encontrei outros garotos de rostos encarquilhados como velhos, esqueléticos e esfomeados, as cabeças cheias de crostas e piolhos. Mas a maior parte tinha umas barrigas enormes, inchadas, e as faces amarelas e apáticas da malária. As mulheres, quando me viam espreitar pelas portas, convidavam-me a entrar. E nas grutas sombrias e pestilentas encontrei garotos deitados no chão, sob uns cobertores esfarrapados a bater os dentes com febre. Outros mal conseguiam arrastar-se, reduzidos pela disenteria à pele e osso. E via alguns, com faces da cor da cera, que me pareceram sofrer de doença ainda mais grave que a malária, qualquer enfermidade tropical no género do Kala Azar, a febre negra. As mulheres, magras, com as crianças ainda de peito, subalimentadas e sujas, penduradas nos seios flácidos, saudavam-nos com uma gentileza triste e resignada. Sob aquele sol de cegar, parecia-me ter caído no meio de uma cidade devastada pela peste.”

A coisa prolonga-se, mas para pior. De fazer chorar as pedras da calçada, como manda a cartilha realista. Contudo, ali não era romance, mas realidade. Há pouco revisitei Matera, Gagliano e o velho e maltratado exemplar do Cristo Parou Em Eboli, da mesma biblioteca. Continua uma obra-prima que vale a pena saborear. Da Matera que se descobre no Google-Imagens continua-se a querer fugir. Levi tinha razão. Mas não digam isto a um italiano, que ainda hoje não gosta que lhe apontem a miséria do mezzogiorno.

12/02/07

Uma Prova Cega De Tomba-Gigantes, por Vampiro da Uva



- Pintas, 2004, Douro, nota 18 do João Paulo Martins, 65,00€ na Dom Vinho, apresentado pelo Barão…, 2º Lugar!!!,
- Mouchão, Tonel nº 3-4, 2001, Alentejo, nota 18 do João Paulo Martins, 68,00€ na Dom Vinho, apresentado pelo Mágico…, 7º Lugar!!!,
- Abandonado, Alves de Sousa, 2004, Douro, nota 18,5 da revista de vinhos, 51,00€ na Dom Vinho, apresentado pelo Derviche…, 5º Lugar!!!,
- C.V. Curriculum Vitae, 2004, Douro, nota 18 do João Paulo Martins, 60,00€ na Dom Vinho, apresentado pelo Nemo…, 3º Lugar!!!,

Eis quatro Colossos do vinho português da actualidade, tudo topos de gama das respectivas casas, uma coisa a rondar a média de 60,00€ de preço por botelha e a ascender aos 289,00€ no conjunto. Ora, destes quatro portentos fora de série, nenhum alcançou o Primeiro Lugar da 48ª Prova Cega da Real Satânica do Tinto, realizada à volta duns Peixinhos do Rio, Ruivacos e Enguias Fritas, maila Lampreia em Arroz carolino de cabidela da dita e acolitada de grelos. Pois, como se dizia, nenhum deles ascendeu ao Olimpo! É obra!

Ao primeiro lugar do Podium e ao Prémio Maligno, ascendeu um tal de Bragança de Carvalho, Moimenta da Beira de Carvalho ou coisa que o valha, de seu nome Viseu de Carvalho, Grande Escolha, 2003, um Douro com 15% de puro álcool, nota 17 do João Paulo Martins e 15,00€ de preço na Dom Vinho (sem dúvida a grande vencedora da Prova), pois, repita-se, foi este David que ousou e tombou os Golias presentes. Uma pedrada em cheio nas fuças e ei-los que caíram com estrondo, sem pompa e com agravamento de circunstâncias. Parabéns ao apresentante Xiita! Porque o vinho também é assim!

11/02/07

A Neve e a Conspiração, por Mangas

Existem gémeos separados à nascença, como existem filmes que nos trazem à memória outros filmes pelas semelhanças invocadas. Comigo aconteceu estar a ver Snow Falling on Cedars (1999), e a recordar-me de Bad Day at Black Rock (1955). Ambos contam histórias de como agir honradamente. Parece simples, mas não é. Porque as sequelas de Pearl Harbor alcançam da mesma forma o deserto do sudoeste americano ou a comunidade de uma pequena ilha a norte de Seatlle - a guerra mais terrível é aquela que não cala o som dos bombardeamentos nos corações dos homens. Se John Macreedy (Spencer Tracy) o soubesse, teria sempre ido para o deserto cumprir a tarefa que o empurrou até lá; Hector David (Lee Marvin nos melhores anos de cão raivoso), Coley Trimble (Erneste Borgnine) e a seita do costume sempre o souberam, mas precisavam de ser ensinados a silenciar as armas, por dentro, no território das feridas silenciadas. A punição fez parte do processo.

Um homem com preconceitos em relação a outro homem é como uma criança ameaçada pelo ódio – percorre acelerado, em passos cegos e de punhos crispados, a distância mais curta da intolerância. Há quem lhe chame vingança também, mas John Macreedy, o velho amputado de um braço, já tinha a sua conta da ira dos homens, e uma missão a cumprir. Ishmael Chambers (Ethan Hawk) teve um pai, mesmo depois do pai ter morrido. A figura paterna, pela dimensão de honra e justiça, assumiu no Jornal a voz da liberdade - há quem lhes chame dignidade e rectidão também, ou no caso, heranças de peso para o jovem Ishmael, o Rejeitado, o amputado de um braço no desembarque da Normandia, que já tinha à sua conta que contar sobre amores desprezado e os Ahabs deste mundo.

São estes dois homens, estes dois outsiders, que movidos pela determinação do dever e da paixão, irão resgatar a memória de dois japoneses condenados pela cor da pele e à revelia do direito. Um velho implacável, fiel cão de guarda de alguns valores irrevogáveis, e um jovem derrotado, envelhecido pela memória de um amor esmagado pelo preconceito racial em tempo de guerra que nunca conseguiu esquecer. Veja-se com atenção a brilhante sequência em flash-back que culmina no agonizante e mais profundo sentimento de rejeição de Ishmael «fucking jap bitch!».

Um dia. Um mau dia em Black Rock. Vinte e quatro horas que mudarão para sempre a vida naquela cidade. Linear. Como o amanhecer e o anoitecer num palco a céu aberto. O medo, esse assassino de conluio com a culpa, jamais adormeceu. Em A Neve Caindo Sobre os Cedros, parece quase sempre que o passado é manhã e que o presente é noite envolta em neblina. A trama complexa das estações. Os jovens, os adultos e os velhos. Os flash-backs constantes são como bússolas em territórios emocionais: indicam-nos a direcção, contudo nunca nos revelam o destino final. Cada personagem é um contributo para a percepção do todo. Simbólica e grandiosa a presença de Max von Sydow na interpretação do advogado de defesa Nels Gudmundsson. O seu discurso final faz o resumo condensado de todo o filme, de toda a vida no que ela se entende, para todos os homens presentes, ausentes ou à beira da última viagem, como ele próprio. E os cedros outrora verdes, vergados à neve glaciar. E os áridos contornos escarpados do deserto sob um sol abrasador e conspirativo. E o refúgio no bosque, o encontro com Hatsue (Youki Kudoh) no mais seguro e reconfortante isolamento, o musgo e as sombras das grandes árvores contempladas, fugas in Laudate Dominum, de Mozart. E um homem só, numa cidade só e hostil, amarga e perdida no esquecimento do inferno ao meio-dia, protegendo um terrível segredo, como se assim, pelo silêncio das vozes, apagassem das consciências a culpa.

O tributo final então não será para Komoko redimido; nem para Miyamoto cuja maior conquista foi ter sido devolvido em liberdade aos braços da mulher. Pelo contrário. A última rendição no filme de John Sturges surge sob a forma de um pedido quando na plataforma do comboio, o médico diz a Macreedy que Black Rock era moribunda como cidade, mas que espera que ela sobreviva agora, ao qual o outro responde, de forma seca, que algumas cidades não regressam mais… Então, o médico pergunta-lhe se lhes pode deixar a Purple Heart que era destinada a Kokomo. “It might help the town come back”, acrescenta. Macreedy entrega-lhe a medalha e parte no comboio. Em Neve Caindo Sobre os Cedros, Scott Hicks propõe uma solução mais óbvia, mas ao mesmo tempo, portadora em si de uma enorme herança clássica, pois o grande cinema, mesmo quando se repete, nunca é igual: quando o juiz manda libertar Miyamoto em face de novas e relevantes provas, a assembleia nipónica, primeiro o pai, depois todos os outros, viram costas ao juiz, encaram o andar cimeiro do tribunal e em uníssono fazem uma vénia silenciosa a Ishmael em sinal de agradecimento – da mesma forma como em Na Sombra e no Silêncio (1962) de Robert Mulligan e inspirado no romance homónimo de Harper Lee -, apenas com a inversão de sentidos quando o advogado Atticus Finch (enorme Gregory Peck!), abandona o tribunal na mais profunda desolação após ter perdido o caso em favor do preconceito racial do Deep South. E é naquele imenso vazio de cadeiras abandonadas que a assembleia negra, no andar cimeiro do tribunal, fica e permanece de pé à sua passagem em sinal de respeito e reconhecimento. Nunca um breve silêncio exprimiu tão imenso grito de revolta nos tribunais dos homens.

A Conspiração do Silêncio e A Neve Caindo Sobre os Cedros tocam-se pelos opostos. O clássico duro e a ode poética. O linchamento da integridade e a condenação arbitrária. A paranóia e o racismo. As fronteiras do ódio e pacificação da memória. Tal como, o sol e a neve, percorrem as mesmas geografias das consciências e da alma.

10/02/07

Glorioso 62 = Cabriz Reserva 2003, por Caius Detritus

Ah pois é! Esta é a equipa do Glorioso de 62. O segundo a contar da esquerda, ao lado do zé augusto é o zébio. O Américo teimou que não, que esta não era a equipa de 62 e que o segundo ao lado do augusto não era o zébio. Como se vê, é! Em consequência, no jantar de hoje à noite ondevamos papar uma ganda lampreia, o Américo, vai botar em cima da mesa, uma garrafa de Cabriz Reserva. Não é que a oferta seja grande coisa, mas enfim, a cavalo dado...

08/02/07

John Rambo e a Nova América de Reagan, por Arnaldo Menarca

Durante a guerra do Vietnam, Ronald Reagan deixara já a discreta e pouco sucedida carreira de actor e era governador da Califórnia, tendo reprimido os movimentos contestatários na Universidade estadual com o envio de forças policiais, durante esses míticos e agitados anos do flower power. Como governador, foi um dos alvos preferidos da ironia crítica do movimento hippie. Ouçam a gravação de Woodstock e lá ouvirão a canção Drug Store Truck Drivin' Man dedicada a Ronald Ray-gunsss por Jeffrey Shurtleff e Joan Baez. O parceiro de Baez refere-se ao governador com um trocadilho que remete para o passado de Reagan nos westerns de segunda categoria e lembra a atitude repressiva em face dos tumultos estudantis.

Durante a década de 60, a par da contestação pacifista contra a guerra do Vietnam, a América vai perdendo a inocência e as novas gerações não se identificam mais com o paradigma de herói até então veiculado por Hollywood. Entre o modelo viril e primordial representado preferencialmente em John Wayne, e replicado em muitos outros epígonos e sucedâneos como Robert Mitchum ou Kirk Douglas e que se esfumará escandalosamente com a homossexualidade de Rock Hudson, ainda que venha a encontrar posteriormente em Harrison Ford uma das últimas edições válidas e em Clark Gable um compromisso com o outro tipo de herói. Este segundo modelo, o do galã irresistível, delicado e insinuante, encontrará em Gregory Peck uma versão menos exuberante do que Gable e em Jimmy Stewart ou Henry Fonda variantes mais subtis em que a insinuação sexual se dissimula sob a capa poderosa da hombridade. Warren Beatty, Paul Newman ou Robert Redford são, na minha opinião, reedições, com óbvias especificidades, daquilo a que chamaria o modelo Stewart / Fonda, e no qual incluo ainda George Clooney, para citar apenas um modelo mais recente.

Além destes, encontro ainda necessidade de referir outros dois tipos de herói masculino em Hollywood, além de outros de menor relevância: o dos ícones sexuais, que inclui Marlon Brando e James Dean à cabeça, e que chega à actualidade representado, por exemplo, em Brad Pitt ou Leonardo DiCaprio, sendo interessante verificar a evolução do modelo de beleza masculino; e, o mais interessante de todos, o dos feios magnéticos que tem em Bogart o seu expoente, mas que se prolonga em Jack Nicholson, passando por Anthony Quinn. Ao longo da década de 60, o modelo de heroicidade masculina propagado por Hollywood, em todas estas modalidades e noutras mais, entra num período de crise e rejeição generalizadas. A juventude, em suma, já não quer saber de John Wayne. Isto, claro está, apesar das excepções e persistências que, malgrado todas as classificações e tipologias que estabeleci e que não devem ser lidas para além deste contexto expositivo, sobreviveram mais à custa do carisma pessoal e apesar dos tempos adversos. A verdade é que, na década de 70, busca-se outro conceito de herói e assomam novos ídolos que confirmarão uma tentativa de readaptação da produção cinematográfica aos novos tempos. Lembro-me, muito particularmente, de Steve McQueen, em Bullitt, ainda dos finais de 60, por exemplo, ou o “Dirty” Harry Callahan de Clint Eastwood, o Al Pacino de Serpico ou Um Dia de Cão, ou ainda, e especialmente, o Robert De Niro do Taxi Driver. A América parece satisfeita com os seus novos ídolos. Mas não está. Esvaído o summer of love, confrontada com o escândalo Watergate e a renúncia de Nixon, concretizada a retirada do Vietnam, a verdade é que a América tem ainda que analisar as feridas. Michael Cimino, primeiro, com O Caçador, de 1978, e depois Francis Ford Coppola com Apocalypse Now, no ano seguinte, abordam da melhor maneira possível a temática do Vietnam. Mas falta um herói. A América faz a sua análise no celulóide, mas falta um herói. Marlon Brando e o seu Kurtz, apesar de genial, já não se adequa ao papel de herói da América. Muito menos Robert de Niro, que nunca foi para isso talhado.

A América quer um herói diferente e novo. E ele aparece. Num primeiro screen de um filme de 1982, com um ar melancólico, traumatizado, desengonçado, solitário, envolto pela paisagem da América profunda: John J. Rambo, Sylvester Stallone, um antigo veterano do Vietnam, que vai pela estrada, solitário como todos os heróis americanos, em busca de um amigo. Lembro-me de ver o filme na altura e de, precipitadamente, com os complexos naturais da idade, o haver rejeitado liminarmente. Há poucas semanas adquiri-o na versão DVD, por menos de 5 euros na FNAC, e só então, ao revê-lo, me apercebi da sua importância fundamental. É um dos grandes filmes do cinema americano, sem dúvida.

O amigo que Rambo procura morreu de cancro vítima da utilização de napalm. Os soldados americanos surgem como vítimas isoladas após o regresso, vítimas do esquecimento e da rejeição pacifista. Rambo anda sozinho, ninguém diria que é um herói de guerra. O chefe da polícia local toma-o por vagabundo e expulsa-o, conduzindo-o aos limites da sua jurisdição. Rambo não se revela, permanece conformado, com um olhar doente e adormecido, como um animal escorraçado, papel que evidentemente assume, ainda que se adivinhe a força contida e as agruras passadas. Quando o xerife o larga na estrada, Rambo tem um assomo de consciência e dignidade, inverte a direcção e regressa à localidade de onde o expulsaram. Em nome da memória e do sacrifício dos veteranos de guerra, supõe-se. Rambo, que é agora a América em busca de uma pacificação com os seus traumas, desafia a ordem e recusa ser um marginal. É uma declaração de guerra, uma luta pela inserção, pelo reconhecimento e pela dignidade, um esforço de se conformar com a memória da guerra. É afinal o que a América necessita, analisar o seu passado recente, reencontrar-se após os horrores da guerra, da hipocrisia da administração Nixon ou dos lirismos do flower power.

John Rambo é preso e mal tratado. É espancado e reage violentamente, pois vêm-lhe à memória as torturas sofridas no Vietnam. Inicia-se a guerra de um herói solitário contra a América inteira. A América entusiasma-se. O público aderiu ao filme e ao herói. First Blood foi um enorme sucesso comercial que daria origem a uma sequela cujos méritos já são mais duvidosos. Rambo refugia-se na floresta como um animal acossado, esconde-se numa velha mina abandonada, nas entranhas da terra, confronta-se com os ratos, é dado como morto, luta desesperadamente pela sobrevivência e pela evasão. Renascido das profundezas da terra, o que é dizer da mais funda das raízes originais, despojado de toda a condição e livre de todas as amarras, reergue-se solitário, refeito da dor e do sofrimento, e logra achar uma saída para a floresta onde fora perseguido por cães e policiais feitos caçadores.
Retorna à cidade e semeia o caos, numa orgia de destruição, chamas e explosões. Mas não de morte. Ninguém morre na destruição que Rambo provoca. A fúria do herói, mais do que vingativa, é cívica, é uma luta pela dignidade que a América procura. Fechado na sede da polícia local, acede apenas a falar com o seu superior, o coronel Samuel Trautman representado por Richard Crenna. Aí, Sylvester Stallone revela todas as suas insuficiências como actor. Num monólogo choroso, arrastado, melodramático, medíocre, Rambo verbaliza em face do seu paternal superior, que presentifica a memória dos fundadores da América, todos os horrores vividos no Vietnam. Do ponto de vista da representação a figura de Stallone é risível. Mas aquilo é a América a fazer uma auto-análise. Não no confessionário, nem no sofá do doutor Freud mas no celulóide já previamente preparado por Cimino e Coppola. Stallone chora, com aquele corpo musculado e animalesco e, quando se ergue, reparo como Stallone inventou um novo modelo de herói. O corpo musculado mostra como, entre o modelo duro e viril de Wayne, e o de galã delicado de James Stewart, evitando a tendência dos anos de 70, Stallone recupera e reinventa um outro modelo que até então só fora explorado por Johnny Weissmuller no seu inesquecível Tarzan. Rambo parte desse modelo de Weissmuller, que o seu espaço é também a selva e o seu talento é também o músculo, e oferece à América o herói que ela buscava.
Quando Rambo desce a escadaria da esquadra policial, algemado e acompanhado pelo coronel Trautman, as luzes dos carros policiais tingem-lhe a face, a câmara aproxima-se a imagem pára. O filme acabou, o olhar de Rambo tem agora dignidade e Ronald Reagan é o presidente da América.

É muito interessante como a América se redescobre neste regresso a Reagan que apela ao paradigma Wayne. Reagan apresenta-se como um velho actor de Hollywood, do tempo dos westerns saudosos, aparece vestido à cowboy, com uma linguagem simples e um discurso patriótico. A América renasceu e recuperou da depressão da administração Nixon e do trauma da guerra. Enquanto isso, na era dos Reaganomics e da prosperidade económica, do triunfo dos valores básicos e da ofensiva final contra o império soviético que dá sinais de cansaço ameaçando cair aos pés de Reagan, como se fora um filme de Rocky, filão que Stallone explora para além do filão Rambo. A América aplaude, finalmente, pois reencontrou um herói. Virá depois Arnold Schwarzenegger, o homem dos músculos de aço que, a partir do modelo Stallone, levará as suas personagens aos limites da brutalidade e da exuberância musculada, encontrando aí o caminho que o levará à governação da Califórnia, o ponto exacto onde, com Reagan, comecei este longo texto.

O Tomografia das Emoções, a Truta Salmonada e o Abutre da Abissínia, pelo Próprio


O Tomografia das Emoções é um blog dado às psicologias, às depressões e à discussão de uma certa visão dark da vida, que não anda muito longe dos gótikos escurecidos. A coisa até é catita e dá algum gosto passar por lá. Está linkado aqui ao lado nas Pocilgas de Luxo. Já lá vi bons post e outros que nem tanto, como em todos os blogs. E aquilo tem coments livres e anónimos, que é a base de qualquer blog que se preze. Até aqui tudo bem.

Há dias passei por lá, gostei do Post e da questão levantada e deixei coment. Obviamente mordaz e satírico, mas que também levava à questão de fundo e à discussão da mesma. O post é “A face e a voz são a forma, que é, de longe, mais importante para a sociedade do que o conteúdo” e levantava a questão de qual o ginásio a usar (masculino ou feminino) pela narradora, que se definia como “uma coisa entre os sexos”. O coment que deixei e que agora procuro recordar dizia qualquer coisa como isto: “não percebo a questão. Se tem genitália masculina, obviamente vai para o dos homens. Já o baptista-bastos dizia que cu não tem sexo e por maioria de razão mamas também não e os homens não são esquisitos.” Havia mais umas coisas mas já não me recordo.

Ora este coment foi censurado. Cortado. Expulso. O que é caricato num post que visa discutir e questionar a não aceitação da diferença. Aqui fica a justificação do Truta Salmonada no Tomografia e a resposta que lá deixei:
Coment Censor Da Truta Salmonada:

“pois é Abutre da Abissínia, por mais que o sentido de humor surja como forma de lidar com o que nos é menos familiar, estranho e distante, devendo ser valorizado e por vezes ser devidamente reconhecido como elevado exercício de um intelecto elaborado, aqui, neste trecho roubado a L (por ela vivido na primeira pessoa), a minha deferência por quem vive uma situação deste género não me liberta a capacidade e a ligeireza de aceitar o teu eloquente e divertido comentário...por isso tomei a liberdade de o retirar”

Coment de Resposta do Abutre da Abissínia:

“em blogs que fazem censura eu não venho.
em burros, que para lá do humor, não conseguem ver a inteligência que subjaz ao coment, não vale a pena perder tempo.
e é pena, até porque é matéria que merecia discussão com humor e inteligência, que aqui pelos vistos não abunda.
abunda sim o lápis azul, a censura e o fascismo mental de quem quer pode e manda e corta tudo o que lhe desalinhe o cabelo. aqui admite-se o bate palmas e não a diferença. a diferença corta-se. num blog destes é para rir. eu pelo-me por um bom cómico. vão ter muito que censurar. é melhor cortar de vez o meu servidor. sempre poupam trabalho.
e como aqui não se pode discutir a coisa segue para o Tapornumporco. aí pelo menos respira-se! cof. cof!

Ass: Abutre da Abissínia”

Assim e como não dá no facho Tomografia, meto aqui a coisa no Porco, sujo, malcheiroso, nefando, mas livre, Sempre!

07/02/07

O Prazer De Ler, por Sapocke

As Listas de Leituras que o Cão aqui publicou há tempos, causaram polémica. No Tapor e lá fora, nos arredores. E o mais engraçado é que foi uma polémica esquisita. Não se discutiu a leitura em si, os autores, os livros, as escolhas, etc, mas sim se seria possível que o Cão, ou sequer alguém, lesse tanto!

Mais do que uma vez, pessoas houve, que me vieram com o desdém sobranceiro do “Ganda galga, aquele Cão”, “como se tivesse lido aquilo tudo”, “nem fazia outra coisa”. Fico e fiquei piurso. Pior ainda, do que quando me chegam a casa e me perguntam para são tantos livros. Em regra procuro ser simpático e digo que é para embrulhar as castanhas. Valha-me deus!. Só de quem não lê e não faz a menor ideia do enorme prazer que se pode ter a ler.

As pessoas não estranham que o filho possa passar horas diárias alienado em frente ao Gameboy, Playstation ou mesmo a dar cabo dos olhos com o minúsculo écran dum telemóvel. Se a miúda fica acordada até às 2.00 horas da manhã a ver novelas, tudo bem, mas se ficar a ler um livro de luz acesa na cama, levam a pimpolha ao médico e insistem que a desgraçada dará cabo dos olhos antes dos 18 anos. De igual modo, a fêmea que passa horas infindas no shópping, no lifting, peeling, brushing e demais noveling, recebe o assentimento geral. Tal como o nabo que fica horas seguidas na rua a passear o canídeo, na beira da água a dar banho à minhoca, ou na esplanada a coçar a tomateira. É tudo coisas que as pessoas não estranham e compreendem. Porquê? Porque percebem o prazer daí retirado. Não lhes é estranha a tara aí cultivada.

Já um gajo com um livro é uma coisa esquisita. Ler é hoje uma actividade marada, proscrita. Daí a estranheza que provoca. Experimentem sacar de um livro numa bicha de banco ou de repartição, na espera de um tribunal e vejam os olhares abismados, surpresos, confusos e condenatórios. Um livro? Mas que raio faz aquela peça com livro na mão. E está a lê-lo!, ele há cada tarado! Na espera de um banco, uma madura maquilhada sussurrava com estranheza prá amiga: “Deve ser padre, está a ler um livro pequenino!”. Fiz das tripas coração e aguentei. Logo no outro dia, nas Finanças, lá marrava um seboso: “…e depois vêm práqui estes ler livros!”. Ora foda-se, houve tourada!

Experimentem uma vez que seja - não sendo vossas excelências estudantes ou adolescentes, automaticamente desculpados pelos estudos -, ir pela rua com um livro na mão. As pessoas olham, reparam, e julgam. Questionam. Aquilo não computa. Não percebem o prazer. A tara. É fora do comum, quase fora do tempo.

É evidente que ninguém morre por não ler. Há felicidades e impérios inteiros que se construíram sem que se lesse uma página. E não há um livro ou os livros fundamentais, imprescindíveis, ou nos quais se possa basear a iluminação, a certeza ou o conhecimento. Agora, que há o prazer de ler livros, há. Eu espojo-me nele como gente grande. Com fome e sofreguidão. A minha lista de leituras nem a divulgo, pois sei que daria a muita gente, uma coisa má. Mas acreditem em mim, o Cão leu mesmo aquilo tudo. Com gosto e um enorme prazer. Compulsivo, Obsessivo, Tarado claro, como só um Prazer o pode ser!

04/02/07

Black Cat and Other Stories, por White Rabbit

Li num jornal e, por uns momentos, senti-me na América profunda, moralista e bronca: alguns encarregados de educação de uma escola de Coimbra estão em pé de guerra porque a obra de estudo escolhida pelos professores de Inglês, de entre uma lista fornecida pelo próprio Ministério da Educação, é Black Cat do genial Edgar Allan Poe. Os vigilantes Encarregados de Educação alegam que o livro é demasiado violento para ser lido por crianças de 12, 13, 14 ou 15 anos.

O argumento da violência é completamente disparatado e não pode ser tomado a sério. Comparado com os produtos mediáticos consumidos pelas indefesas criancinhas – como o Wrestling, certas séries de animação, jogos de PC ou mesmo sites da net – os contos de Poe são histórias de fadas. Em que mundo vivem os pais destas crianças?

Além disso, esse mesmo argumento da violência levaria, em coerência, estes pais extremosos a impedirem os seus filhos de lerem ou sequer de conhecerem a Bíblia antes dos 18 anos. A Bíblia é uma das obras literárias mais violentas que conheço – o sacrifício de Cristo e dos outros apóstolos, as matanças de Herodes, as chacinas do Deus do Velho Testamento, etc, etc, etc, são incrivelmente violentas e estes pais parece não terem dado por nada. E não é só a violência – a Bíblia aborda todo um manancial de vícios e perversões humanas. Devia, portanto, na lógica obscurantista desta gente, vir com bolinha no cimo da capa e ser interdita a menores de 18 anos.

Também achei incrível a reacção da Editora do livro de Poe que deu crédito a este absurdo e prontificou-se a substituir Black Cat por outra obra da lista do programa de forma gratuita. Vá lá que os professores de Inglês daquela escola conservaram a lucidez e, muito bem, não cederam.

Caso ainda fosse necessário, este é mais um exemplo de quão perniciosa pode ser a pressão dos pais junto das escolas. Nos Estados Unidos, onde isto foi levado a um grau extremo, o ensino da Teoria da Evolução das Espécies foi, pura e simplesmente banido, nalguns estados obscurantistas. No dia em que as matérias a leccionar forem escolhidas não pela sua relevância científica-pedagógica, mas por estes Comités de Protecção da Decência e da Moral Pública, teremos dado o último passo para fazer da escola um centro de produção de cidadãos politicamente correctos. Então, em vez de Edgar Allan Poe, talvez as nossas crianças aprendam a História da Floribela. Ao menos não é violenta e é animada por brilhantes intenções morais.

02/02/07

Porco, O Rei Dos Animais, por Sanchez Romero Carvajal


Basta ser proibido, para o bicho ser simpático. De facto, não é só pelo gosto, que o Porco tem o estatuto que tem. É que o Porco além do mais, é proibido pela Religião. Pela nossa, pela deles e pela dos outros. O Velho Testamento esquece o Diabo e encarniça-se contra o Porco, vá-se lá saber porquê. A justificação do animal de casco fendido, não ruminante, não convence. Como é que pode haver um Deus e ele ser contra uns bons cascos fendidos de coentrada? Mistérios da fé! Mas só eles e os outros é que levam a sério a proibição bíblico-porcina. Nós não. Nós, entre Deus e o Porco, preferimos o Porco, sabe melhor. E grelha-se.

Woody Allen, um dos outros, simpatiza com o Porco, e nunca se coibiu de o defender, dizendo que o sexo é Porco, pelo menos quando é bem feito. E mesmo quando elas dizem: “Oh, que ganda Porco!”, o que elas querem dizer é “Não pares Porco, que estás a ir bem!”. Sim porque um Porco pode ser uma besta aporcalhada, mas nunca engana ninguém. Maria Schneider quando gritava “Ganda Porco” pró Marlon Brando, tinha absoluta razão, mas sabia ao que ia, à manteiga de Porco e nunca ao engano.

Um Porco nunca se engana e raramente tem dúvidas. Não é por caso que o animal usado para farejar e fuçar as Trufas é o Porco. Qual Cão, qual faro, cheiradeira gourmet é coisa de Porco. Os Romanos, gourmets por excelência elegiam a vulva de Porco como petisco supremo. Os nuestros hermanos ao invés não são esquisitos com o bicho, e dele dizem que lhe comem tudo menos o Groink. Nós, aqui no Tapor, nem o Groink nos escapa.

Orwell sabia da importância do Porco e é claro meteu-o a reger a Criação. Qual Rei Leão, qual carapuça, The Pig Rules. Ou é por acaso que o Porco é a reserva moral da Nação? Na hora dos aflitos é a morcela e a salgadeira que valem ao povão. Na crise, mata-se o Porco e na abastança também. E se há festança, há matança, e mesmo o bandalho do Capador nunca deixa de dizer: Se queres ver como és, abre um Porco e olha-o por dentro! Verdade porcina e cientifica.

Ser Porco é ser muito. Quase tudo. O dito tapornumporco, não é por isso ofensivo. É tapor em nós. É um dito carinhoso, ternurento. Humilde. Prontos filha, vem cá, tapornumporco. Vá não te aleijes, vai com cuidado. Isso. Coiso. Porco!

01/02/07

As Laranjeiras da Avenida, por Automotora


Na semana passada morreu Ryszard Kapuscinski, por muitos considerado o melhor reporter do século XX, referência moral e profissional de mais do que uma geração de jornalistas. Entre as suas obras de referência está “Ébano”, um comovente testemunho da vida do homem comum numa Africa em convulsão. Bom, e sendo assim, tive de ser eu a fazer um post sobre as laranjeiras da avenida.
Sim, claro, existem laranjeiras ao longo da Avenida Fernão de Magalhães, cada uma em seu canteiro, carregadinhas nesta altura do ano com as chamadas laranjas de inverno, também chamadas pré-primaveris ou saturninas. Descobri este triste e perturbador espectáculo na passada semana. Não é que as árvores tivessem sido ali plantadas na noite anterior. Eu próprio já devo ter esbarrado nelas centenas de vezes, concerteza que sim, uma vez que trabalhei na avenida durante anos. Simplesmente, acontece que nunca reparei nelas e nunca reparei nelas porque nunca supus que pudesse ter motivos para reparar em laranjeiras numa avenida, como é fácil de entender. É que não estamos a falar de um boulevard, um passeio público, muito menos de um parque, mas sim de uma avenida cheia de tráfego rápido e barulhento, sem qualquer préstimo de lazer ou fim de semana, e quem em tempos foi mesmo classificada, para nosso orgulho, como a via mais poluída do País. Ora, a laranjeira não tem o panache urbano-depressivo do jacarandá, essa árvore gótica tão cantada pelo nosso Grão, O Homem que Via Passar os Jacarandás, e que se presta a enfeitar os passeios (o jacarandá, não o grão) e até a servir de amortecedor de acidentes de trânsito (não, não, o jacarandá). A laranjeira é antes uma discreta árvore pop rural, uma peça humilde de design utilitário, que está para a avenida, como um separador central de betão com postes de iluminação de trinta metros de altura está para o pomar das nossas avós. Os seus frutos são pequenos objectos redondos que se espremem, e não é suposto que numa avenida existam objectos que se espremam. Em havendo aí do que se esprema, que pelo menos da espremação saia um líquido negro viscoso, não uma aguadilha alaranjada, cor de carro do noddy quando vai de piquenique com a ursinha teresa. E que dizer das lagartas das laranjeiras, que têm de vir à cidade, quais marias papoilas, cumprir a sua função, nada habituadas concerteza à convivência com as bactérias e insectos mutantes de toda a espécie que por aqui pululam? Tive então forçosamente de concluir que aquela é uma avenida ridicula, que hesita entre correr a comer laranjas junto a um regato, e ficar ali a escoar as camionetas de carreira para Vila Nova de Poiares.
Estava eu nisto, olhando estupefacto e constrangido para uma das laranjeiras, num turbilhão de emoções, quando me apareceu o seguinte dilema que mais me atrasou o destino: de que natureza é o acto de apanhar laranjas numa avenida? E se deitar agora a mão a uma laranja, será que não quebrarei o equilíbrio cósmico e que toda a avenida não começará a girar em espiral, sumindo-se num ralo, com toda a gente a fazer esgares de horror como no quadro do Munch?
É preciso que se saiba também que nessa mesma tarde tinha estado a olhar para o tecto da sala de atendimento da nossa câmara municipal, tentando descobrir se aquilo era ou não uma pintura em tromp d’oeil. Foi um dia inesquecível.