28/02/07

Baratas, Espanhas E Um Tapor Sempre À Mão, por Manolete


Não percebo em que raio de Espanhas anda certo pessoal. Sempre que metem o chinelo para lá de Vilar Formoso, tunga!, saltam-lhe baratas ao caminho, castelhanos marados e bairros estragados. Cheira-me que há por aqui muito amadorismo. É malta que deve ir a Espanha como se ia a Badajoz aos caramielos. Fé em deus e entrada no primeiro tasco onde o estalajadeiro não cuspa na pia de lavar pratos.

No português em geral, falta a pulsão da peregrinação, a mística da catedral e o respeito pelo solo sagrado. É gente que parte sem estudo, sem preparação, que entra ao desbarato e de olhos baixos e depois se queixa que não viu, não sabe e não comeu. Azar.

Sim, porque a malta que tropeça em baratas a propósito de comidas em Espanha, é gente que vai ver o Aqueduto a Segóvia e o castelo que inspirou o Walt Disney, mas não sabe e passa ao lado do Meson del Candido. É malta que vai para Granada e fica muito frustrada por não entrar no Alhambra, uma vez que não sabia que aquilo tem entradas controladas e que é preciso reservar. E sai de lá chateada, mas nem sabe que passou ao lado de uma das últimas maravilhas da humanidade. Quando lá entra por pura sorte, é malta que não sabe do Boabdil, da mãe, do Generalife, do Carlos V ou de Napoleão.

É gente que é incapaz de se desviar 100 km para subir a Jabugo e abancar no Sanchez Romero Carvajal. É tropa que vai ver a Catedral de Sevilla mas esquece os fantásticos Reais Alcazares logo ali ao lado e nem lhe passa pela cabeça em peregrinar no Gongora. É gente que marra com Ayamonte mas jamais abancou no Juan Macías, que denigre a Isla Cristina mas jamais entrou no Rufino e se espojou no El Tonteo. É malta que se esfalfa e berra com a aridez do cruel planalto mas passa ao lado de uma maravilha como é o Monastério La Piedra. É enfim uma vaga de turistas que vai de praia a Cádiz mas jamais lhe passou pela cabeça a pulsão do Romerijo de El Puerto De Santa Maria.

Para isso é preciso mística, ou então ter um Confrade do Tapor à mão. Nós alugamos.

PS: Se quiserem um especialista em roteiros de turismo negro, marado, pé descalço e onde a barata é petisco, também temos!

“Ich Bin Ein Berliner”, por BaíaDosPorcos

Fiquei estarrecido. Estava eu calmo e sereno a ver a boa da Justine Shappiro no Globe Treker deambulando por Berlim, quando a ignóbil se sai com aquela. Caíram-me as bolas de Berlim aos pés. Na altura que ouvi a coisa, ainda pensei que fosse mais uma dessas Urban Legends propagadas pela Net e que depois quando se vai a ver, é só efabulação. Por isso fui conferir. Tá conferido e é de partir o coco. A saber.

Todos nós conhecemos e usamos a frase: Ich Bin Ein Berliner. É um ícone do século XX, uma frase chave, num discurso memorável e que perdurou e ganhou vida muito para além das circunstâncias em que foi proferida. Recordo que ainda há pouco aqui no Porco e a propósito dos Maomés dinamarqueses se berrava: Eu Sou Dinamarquês.

Pois. Só que não há nenhum bolo de nome “Dinamarquês”. Mas há a famosa “Bola de Berlim” ou o “Berliner” para os alemães. O bolo tradicional de Berlim, de massa fofa com creme de natas. Berliner também dá para Berlinense, mas o problema é o “Ein” antes do berliner. É que aquilo que o Kennedy queria dizer e aquilo que é o sentido político da frase é o “Eu Sou Um Berlinense”. Mas para isso o Kennedy devia ter tirado o “Ein”, e dito apenas: “Ich Bin Berliner.”

O que o John F. Kennedy disse perante a multidão que enchia a Rudolph Wilde Platz logo ali ao pé do Muro de Berlim, nesse dia 26 de Junho de 1963, foi o memorável: “Eu Sou Uma Bola De Berlim”, ou em americano: “I Am A Jelly Doughnut.”

27/02/07

Madrid, Me Mata, Victoria!, por Guaraná

Taberna La Bola. Casa Fundada em 1870. Calle Bola, nº 5. Madrid. Comi aqui um excelente Cocido a la Madrileña em Puchero de Barro Individual, numa sala belíssima, com um atendimento gentil e quase perfeito. Pede-se o cocido e vem para a mesa um pote de barro a ferver de grão, enchidos e carnes de porco. Vem o lidador e escorre o pote para o nosso prato. Comemos então uma sopa soberba do caldo do cocido com enchidos, enquanto o resto do dito continua a apurar no pote. Comida a sopa, volta o maestro e faz-nos uma primeira pratada de garbanzos com um cerdo de excelência. Outras pratadas se seguem até à exaustão. Cheirava a cocido, callos e a mais um cliente satisfeito.

Restaurante Botin. Calle de Cuchilleros, 17, Madrid. Casa Fundada en 1725. El restaurante más antiguo del mundo, según el libro Guinness de los Records. Numa sala de apainelados de madeira, pinturas, dourados e patine com força, comi eu um Cordero Lechal Asado Al Horno que ainda hoje me permanece na memória. O cochinillo asado que se seguiu foi cortado com o prato como manda a praxe. Excelente. Comi que nem um abade. Cheirava a couros, madeiras velhas e a carnes tostadas.

Restaurante Sámárkanda. Estación de Atocha, Terminal Ave, Gta. de Carlos V. Madrid. Esplanada do terraço superior, sobre o terminal e o jardim tropical vaporizado. Mesa com toalhas de pano sob a copa das palmeiras. Comi aí a mais soberba e olorosa tortilla de cebolla, pimientos y Chorizo Ibérico. Seis anos antes dos criminosos ataques que provavelmente esmagaram o Sámárkanda. Daquela esplanada y tortilla, vi partir e chegar comboios e gentes. Cheirava a pimientos, verde tropical e a humidade suada.

“Até os restaurantes são terríveis. Cheiram a alho e a cebola”, “Victoria, mulher do futebolista David Beckham, referindo-se a Madrid, que o casal vai trocar pelos EUA”, in Revista Visão de 08/02/2007.

Não sei se a Victoria alguma vez comeu nos mesmos sítios que eu. Também não sei qual deve ser o cheiro correcto de um restaurante. Calvin Klein, não será certamente. Nem sei sequer, se a Victoria Beckham usa a boca para comer ou apenas para fazer sair inanidades destas. Mas sei que é feio cuspir na sopa alheia. E mais feio ainda morder na mão que nos alimenta.

Pra mim, Madrid, Hasta Al Cielo! E pra vocês, há por aí boas memórias gastronómicas, ou também vos cheira a ajo y cebolla?

26/02/07

Ossos Trocados, por Zé Manel


Vasco da Gama morreu em 24 de Dezembro de 1524. Tinha regressado à Índia, pelo caminho marítimo que ele próprio desbravara, para pôr ordem na balbúrdia que por lá reinava, a pedido expresso do rei, posto que os abusos da lusitana gente eram de tal monta que se temia que o desprestígio assumisse tal dimensão que ameaçasse a presença portuguesa. Em suma, o habitual: roubalheira, corrupção, crimes, conflitos, desrespeito pela autoridade, abusos de poder, cunhas, cobiça, inveja, e mais outras especialidades do génio lusitano. O Gama, que já havia garantido para si um bom quinhão em terras, títulos, comendas, rendas e tenças, acedeu deslocar-se à Índia pela terceira vez para pôr ordem naquela confusão. Tomou o título de Vice-Rei em Baçaim, quando lá chegou em Setembro de 1524, impôs a ordem com autoridade férrea, o que também é típico do procedimento nacional, sentiu-se mal, adoeceu gravemente e morreu na véspera de Natal, em Cochim, tendo sido aí sepultado.

Anos mais tarde, as ossadas do vice-rei foram levantadas pelo filho, em 1539, e trazidas para a Vidigueira, para um jazigo familiar. A igreja foi remodelada pelos finais do século, e os ossos foram novamente levantados, sendo depositados na capela-mor pelo neto. Foi gravada uma pedra que lhe chamava «Argonauta» e lhe recordava o feito e os títulos. Defronte, foi tumulado o bisneto, e mais outros familiares, sendo-lhe atribuída lápide idêntica, já que o herdeiro também foi vice-rei da Índia.

Por meados do século XIX, os túmulos foram profanados. Quem recolocou as lápides parece que já não sabia quem era quem e trocou-as. Em 1880, ano do tricentenário da morte de Camões, a Pátria decadente, a uma década do ultimatum inglês, decidiu mitificar e recordar os tempos áureos. Restauraram-se os Jerónimos, enrobusteceu-se o Partido Republicano, organizaram-se comissões comemorativas, desfiles, congressos e edições de luxo e puseram-se as ossadas de Camões e do Gama nos Jerónimos.

No dia 7 de Junho de 1880, os restos do Gama, sob a orientação técnica de Teixeira de Aragão, foram trasladados para o mosteiro. Houve cortejo fúnebre, cerimónias solenes, devoção religiosa, comoção popular, altas figuras do Estado assistiram ao préstito, sentinelas e guarda de honra, comboio especial, postes engalanados, tocaram-se os hinos, salvas de artilharia, foguetes e até a família real inteirinha assistiu à cerimónia. Ora, como o pobre Teixeira de Aragão desconhecia a troca dos ossos, a verdade é que quem foi alvo das honras solenes da pátria não foi o Gama autêntico, isto é o Vasco, mas o herdeiro que, embora não menos autêntico, não era o pretendido, posto que foi o bisneto que, episodicamente e por engano, por escassos anos habitou o supremo altar da devoção patriótica lusa, mesmo ali ao lado dos ossos do grande Camões. E não foi só o bisneto, parece que a urna continha as ossadas de mais familiares, descendentes do navegador.
Foi só na manhã de 9 de Maio de 1898 que os ossos do Gama autêntico foram depositados em Lisboa e a tropa fandanga regressou ao panteão de onde nunca deveria ter saído: a tumba da Vidigueira! Quer dizer que, durante todo este tempo, a família do Gama foi passear até Lisboa, hospedaram-se nos Jerónimos às custas do erário público e ninguém disse nada, ninguém reparou, ninguém comentou? ‘Tá mal, pois claro que está mal!

SANTOS, João Marinho dos e SILVA, José Manuel Azevedo e: Vasco da Gama. A Honra, o Proveito, a Fama e a Glória; Porto; Editora Ausência; 1999; 145 e ss.

24/02/07

O Círculo dos Tigres, por Santo Ireneu de Leão

Foram recentemente divulgados os resultados surpreendentes de uma equipa pluridisciplinar de cientistas chineses do Instituto das Ciências Comportamentais de Beijing, chefiados pelo etólogo da Universidade de Beijing III, o dr. Zhao Ziaming, que, conjuntamente com a direcção do Parque Zoológico de Bangalore, na Índia, durante os últimos 8 anos se ocuparam a estudar o comportamento dos tigres indianos. Foram feitos registos sistemáticos e comparativos do comportamento dos felinos em cativeiro e em ambiente selvagem, tendo-se utilizado pela primeira vez tecnologia de monitorização produzida em Silicon Valley por empresas fornecedoras da NASA, graças a um protocolo inédito de cooperação entre os representantes destes dois países e o governo federal dos EUA, ainda no tempo da administração Clinton. Este acordo foi à época muito criticado pelos adversários do antigo presidente, uma vez que previa a utilização de microprocessadores e ligações por satélite passíveis de aproveitamento militar, tecnologia que, segundo os críticos, deveria ser classificada e restrita, uma vez considerados os perigos para a segurança nacional, particularmente no que respeita às cerâmicas de alta condutividade que, entre outras aplicações, equipam as ogivas dos mísseis de última geração. Superadas as desconfianças iniciais e desfeitos os temores relativamente às intenções dos investigadores chineses, são agora divulgadas as conclusões do estudo, salientando-se desde logo a utilização pacífica da tecnologia. De facto, a mais moderna tecnologia de detecção, monitorização, processamento de dados e comunicação por satélite foi aplicada na observação do comportamento dos grandes felinos. Foram produzidas milhares de horas de gravações video, milhares de páginas de relatórios, milhares de fotografias e registos sonoros.

De entre todas as interessantes conclusões do estudo, divulgadas no último número da revista "Natural Studies of the American College of Ethiology", o dr. Ziaming destaca um pormenor que, sendo aparentemente irrelevante, despertou a atenção dos cientistas, orientando a investigação para uma conclusão surpreendente. No seu habitat natural, em liberdade, os tigres indianos, aliás como todos os grandes felinos e quase todos os mamíferos, nunca, nas suas deambulações, descrevem círculos. Contrariamente aos especimens de cativeiro que observamos constantemente em itinerários circulares na exiguidade das suas jaulas. A equipa do dr. Ziaming começou por reparar que, quando deslocados para jaulas mais vastos, os tigres persistiam no mesmo tipo de comportamento que estamos habituados a observar, descrevendo os mesmos exíguos círculos, não se tratando pois de um processo de adaptação à exiguidade física, mas sim um processo de adaptação à clausura. O enigma adensou-se quando os cientistas se aperceberam que dos 38 indivíduos monitorizados por satélite em estado selvagem, nunca nenhum, durante os cinco anos que durou o estudo, desenhou alguma vez um trajecto circular.

Em face desta constatação, procedeu-se à observação da actividade cerebral dos animais através dos dados electroencefalográficos obtidos por microchips instalados na parede craniana dos tigres. Os elementos assim obtidos foram enviados em tempo real, graças aos modernos satélites postos à disposição da equipa, para os computadores das universidades cooperantes, vencendo-se a distância através do contacto permanente por internet. Foi então que o grupo se confrontou com uma descoberta surpreendente: os tigres de cativeiro desenvolviam ciclos de actividade cerebral em conformidade com os círculos percorridos na jaula, de tal modo que, ao passarem pelo ponto de partida, uma descarga eléctrica controlada produz um efeito anamnésico, de forma a que o percurso se apresente como uma novidade. "Podemos concluir - adianta o dr. Zhao Ziaming - que o tigre enjaulado utiliza como estratégia de sobrevivência em cativeiro o apagamento da memória, o que é dizer, ministra descargas eléctricas controladas que impedem as células de conservar a memória do trajecto percorrido, permitindo que se apresente como incessantemente renovado. É o suicídio episódico como estratégia de sobrevivência. O controlo sobre a actividade cerebral impede a acumulação de memória, a formação de conhecimento e até a percepção de si próprio, sendo que, em rigor e dado o efeito anamnésico causado pela descarga autoinduzida, por cada círculo descrito é uma nova identidade, ainda que episódica, que o tigre assume. Deste modo, em cada percurso, tudo se lhe afigura novo e suportável, concluem os especialistas. A corroborar esta tese está outro dado avançado pelo Patologista Michael Cyrne, da Universidade de Colorado e coordenador da equipa biomédica, que confirmou que a produção de espermatozóides pelos machos enclausurados baixa cerca de 75% relativamente aos exemplares selvagens. Tal dado é interpretado pelo prof. Cyrne como sendo mais um elemento da estratégia de adaptação dos grandes felinos indianos, pois que o empobrecimento do material genético pela drástica diminuição do “catálogo” cromossomático disponibilizado é um autêntico «genosuicídio» para usar a expressão do cientista no relatório que publicou na já citada revista do «American College of Ethiology». É que, conclui o prof. Cyrne, tal estratégia inviabiliza mesmo a adopção de técnicas de fertilização assistida pelo que, a prazo breve, «os exemplares nascidos estarão adaptados às condições de cativeiro o que, numa espécie tão apreciadora da liberdade como parecem ser estes felinos, equivale a dizer que estarão extintos, por decisão própria e como reacção ao cativeiro que lhes é imposto.»

23/02/07

Golfutebol, por Olazabal


Anteontem o Barcelona perdeu em casa com o Liverpool por 1-2. Não interessa nada. O que importa sim, é a forma como o marcador de um dos golos, o galês Craig Bellamy, festejou o golo que marcou. Assim: como mostra o pic. Simulando um swing que faz inveja até ao nosso Mestre. é claro que podemos sempre criticar a incorrecta posição do joelho esquerdo. E o stance é demasiado aberto - aquela bola faria um fade tramado. Mas prontos, tá bem...Com esta forma notável de festejar um golo, Bellamy fez uma alusão irónica a um shot que deu há duas semanas atrás e que ficou famoso nas ilhas britâncias: precisamente na cabeça ou no costado de um colega de equipa com quem se terá chateado num bar algarvio.
Interrogado acerca da qualidade do swing de Bellamy,o treinador da equipa, o espanhol Rafa Benitez, comentou que nem sequer viu. Parece que estava já a pensar nas substituições que teria que fazer na segunda parte. Não perdeu, assim, apenas um golo do Liverpool em Nou Camp, facto sempre raro só por si; perdeu, sobretudo, a oportunidade de apreciar um bem razoável swing e um óptimo sentido de humor...britânico.

22/02/07

As Canções do Porco, por Mangas

Ouvi recentemente num programa de rádio que, “One” dos U2, foi eleita no Reino Unido com a melhor canção do século XX.

A coisa vale o que vale. Se lhe retirarmos a futilidade de patrocínio e a compilação subjectiva da nostalgia - como aliás se quer que ela seja -, sobra-nos um exercício de paixão pessoal tão abrangente quanto difícil de sintetizar. E é apenas disto que falo.

Recordando as memórias mais distantes da música que me abanou as orelhas e me despertou o êxtase, seja pelos ritmos, épocas ou manifestações hormonais, seja pelas letras cantadas, acordes de culto ou outros inauditos estados de embriaguês, percorro etapas da minha vida pelos anos do vinil, cassetes de crómio e noites de rádio, vídeo-clips pré-MTV e concertos de estádio cheio, festas de garagem e o antigo ETC sábado à noite, tentando escolher três músicas, três!, que por razões várias, incorporem, tão-somente, a exultação do prazer pessoal. Não me preocupo sequer em rebuscadas teses sobre composição, melodias revolucionárias ou outros conceitos de produção. Nada disso. A minha escolha, com a sua dose de risco e tremenda injustiça para tantas outras canções que deixei pelo caminho e poderiam também aqui constar, reside no gozo puro que estas três me proporcionaram cada vez que as ouvi ou ainda ouço. Pondo isto, e que me perdoem todas as outras, este é o meu top:

3º lugar – Billie Jean, 1982, de Michael Jackson. Tudo começa com uma percussão surda e depois o baixo repetido de uma Yamaha. E não passa daí. A percussão a martelar o ritmo, o baixo a acompanhar, a voz a entrar. Nada mais simples e, simultaneamente, explosivo e contagiante: o baixo, a percussão o tempo todo, e alguns efeitos pirotécnicos de uma guitarra eléctrica. Para mim, Billie Jean tem o funk mais cool de todos os tempos.

2º lugar - (I Can't Get No) Satisfaction, 1965, Rolling Stones. Diz a lenda que certa noite, Keith Richars acordou sarapantado num motel de tournée na Florida, ligou um gravador e em dois minutos meteu-lhe dentro o riff de abertura de Satisfaction que lhe batia na mioleira. Depois voltou a dormir para curtir a bebedeira. Mais tarde Jagger escreveu a letra. O resto é História. Satisfaction é um hino e mais não seria preciso acrescentar! Daquelas músicas que o cidadão comum do Azerbeijão, com a quarta classe, poderia abanar e cantarolar numa convenção galáctica de extraterrestres para se fazer entender que provinha do planeta terra.

1º lugar - I Heard It through the Grapevine, 1968, de Marvin Gaye. A voz de Marvin Gaye é dilacerante e aguenta a carga nas notas mais altas sem pestanejar, num contraponto perfeito com a sobriedade cénica do coro. As três baterias e a percussão soam a tambores de latão oco como alinhamentos de uma banda sonora inquietante; o piano eléctrico e as marimbas completam toda a complexidade da orquestração dos Funk Brothers. Isto é Motown em estado puro! Um clássico de arrepiar, poderoso e elegante, que conta uma história em rotação máxima da abertura ao final. Sem nunca perder o fôlego.

Estas são as minhas três eleitas. Quais são as vossas?

Le Cadavre Esquis e o Álbum Branco, por Fool on the Hill


Às vezes um blog funciona de um modo muito semelhante à velha técnica surrealista do «cadavre esquis». Há um post de um escriba que suscita outro post de um outro escriba e depois mais outro e no fim temos um resultado final que é uma página escrita a várias mãos. Um análogo (já que não se trata exactamente do mesmo processo) de um cadavre esquis virtual.

Agora aconteceu outra vez. A efeméride do George Harrison evocada pelo Cão fez-me pensar no meu disco preferido dos Beatles. O Harrison até assina uma música e tudo (While my guitar…). Pensei, por isso, que se impunha um post sobre o Álbum Branco e cá está ele.

Este é o meu disco preferido dos Beatles, o mais complexo, o mais sofisticado, o mais místico e o mais apocalíptico. É um disco praticamente perfeito em que cada música vale na sua singularidade mas não só – as músicas têm uma espécie de ligação entre si e o álbum possui, claramente uma unidade de conjunto. As músicas de White Album são diferentes das dos outros discos dos Beatles: ouve-se Glass Union, Dear Prudence ou Mother Nature´s Son e sabe-se que pertencem ali e que não poderiam estar em mais nenhum outro álbum deles. Nesse sentido o Álbum Branco é um disco conceptualista, como o é Sgt Peppers, por exemplo, cujas músicas também possuem uma continuidade evidente (já outras peças dos Fab Four como o seminal Revolver, como Rubber Soul ou como os primeiros discos já são outra coisa. Abbey Road parece-me uma solução intermédia).

Em 1968, ano da edição do White Álbum e passadas algumas digressões falhadas, os Beatles já tinham dado um safanão nas suas carreiras – já não eram a banda pop juvenil que punha as miúdas em histeria nas suas apresentações ao vivo; eram músicos de estúdio, compositores clássicos que trabalhavam e burilavam os seus discos durante meses e meses. Praticamente tinham deixado de tocar ao vivo. Tinham enveredado pelo misticismo budista e haviam regressado da índia onde haviam contactado com gurus Zen e com o músico Ravi Shankar que os havia de marcar fortemente (principalmente a George Harrison). Deixaram crescer os cabelos e a barba, agora pareciam hippies, e andavam metidos em experiências alucinogénias. Pelo meio iam mantendo o filão comercial com músicas como Obladi Oblada («avis rara» de White Album), para não perderem o hábito dos tops.

A história deste disco começa na capa. Segundo rezam as crónicas havia na altura um impasse entre a proposta gráfica de McCartney que pretendia um grafismo à base de recortes de jornal e a transparência total defendida por Harrison. O Designer, Richard Hamilton, propôs esta solução de consenso – o branco puro, imaculado que se havia de tornar num dos mais lendários covers da história da música Pop. Um cover anti cover. Na altura o significado desta opção foi tanto mais relevante se pensamos que estamos no período áureo do psicadelismo e da sua embriaguez colorida. Inicialmente as capas de White Álbum vinham numeradas como se fossem produtos de série industriais. O nome do grupo aparecia em relevo, sem cor, mas quando os cds destronaram o formato LP tudo isto se perdeu. Se alguém tem uma capa velhinha das primeiras edições do Álbum Branco, com os retratos no interior dos quatro Beatles guedelhudos e barbudos, é guardá-la que é coisa para valer uns cobres…

Não sei dizer entre tanta música excelente qual delas prefiro. Continuo a pensar neste disco com um todo, sei a sequência das músicas de memória, aquilo é como uma auto-estrada sem portagens com uma continuidade saliente. Não posso dizer que tenho uma faixa preferida porque acho tudo perfeito (com a excepção de Back in Ussr e de Obladi, duas concessões comerciais), umas vezes redescubro uma música, passados outros tempos reparo noutra e isto é cíclico. Ainda agora tenho o Álbum Branco no Cd do meu carro. Deve ser a milésima centésima vez…

E depois há a mitologia do álbum, o seu simbolismo satânico e apocalíptico. Charles Manson dizia que os Beatles falavam com ele através do disco. Helter Skelter, dizia Manson, seria o anúncio do apocalipse, da revolta dos negros contra os brancos; Revolution anunciaria o futuro (Revolution # 9 teria mensagens subliminares perigosas); Black Bird, confessava Manson, dava-lhe vontade de matar (mas também, a Manson, tudo lhe dava vontade de matar)… Quando o mais famoso criminoso ainda preso numa prisão americana mandou executar o massacre que ceifou a vida a Sharon Tate, os jovens assassinos da «família» Manson deixaram escrito nas paredes, a sangue, a expressão Helter Skelter (por acaso mal escrito, «skaelter»). Isto chegou para associar o disco ao satanismo. Os meios conservadores que odiavam os Beatles aproveitaram para lhes lançar anátemas e declararam o disco maldito: acusava-se os Beatles de provocarem a violência, um pouco como se faz hoje com o Wrestling ou com o Dragon Ball, também réus da violência praticada pelas crianças… Tiveram azar. Com o tempo, isto contribuiu para fazer do disco o mito que ainda é hoje. E como esquecer que, para lá deste lado negro que está realmente associado ao disco, há também um lado optimista e colorido ilustrado em Somethig como em mais nenhuma outra música? De Something disse Sinatra que a gravou um dia: «É a mais bela canção de amor que alguma vez foi escrita. E não diz uma única vez a palavra amo-te».

21/02/07

(Im)Pares – 1 - A Caminho com George e com Joaquim, por Cão


1
Hoje, durante quase todo o dia, meti-me vidas escritas adentro de dois artistas separados pelo Tempo (mas não totalmente) e reunidos agora pela Totalidade (o terem morrido): George Harrison (1943-2001) e Teixeira de Pascoaes (1877-1952). Houve por ali (algures) mais ou menos nove anos em que o músico inglês e o poeta português partilharam o ar, a água, a terra e o fogo.

2
Ambos foram férteis criadores, tendo ambos aumentado a humanidade da Humanidade. Se hoje, e aqui, os refiro, não o faço para colher, à sombra deles, qualquer réstia da luz intensa que emanaram. Não. Faço-o em preito de admiração, que não tem de ser devota para ser devotada.

3
Entretanto, a noite chegou com suas armas todas. Frio e aguaceiros afiam a pedra e o ar: viver é desembaraçarmo-nos de facas. Está bem. O Inverno é a mais perfeita catedral para celebração do casamento da crono e da meteoro logias. Gosto disso – e tenho sorte. A sorte advém-me de gostar de todo o tempo.

4
Desde menino que nenhuma temporada nem temporal algum me causam repulsão. É uma excelente coisa – uso plena consciência de tal. Tenho vivido a plena comunhão dessas três artes tão siamesas: a poesia, o tempo que faz e o outro tempo – o que tudo desfaz e refaz sem cessar. A poesia, a meteorologia e o relógio.

5
António, irmão de Joaquim, suicidou-se em Coimbra, com um tiro de pistola, a 28 de Junho de 1903. Noventa e seis anos depois, um perturbado tentou matar à facada George. A nota necrológica e a nota criminal são reais, mas não é senão profunda vitalidade o que ressuma das carreiras do antigo Beatle e do paladino do Saudosismo. Ou assim: vidas que foram vivas enquanto vidas.

6
Há uma aparente renúncia à mundialidade no português, de facto. Mas as palavras que escreveu, pela densa, constante e invencível hombridade que ressalvam, contrariam tal equívoco. Já George, obstinado criador de canções rebeldes à ditadura da chancela Lennon/McCartney, não abdicou nunca de orar ao oriente de si mesmo, para bem de nossos particulares ocidentes.

7
Vejo um dia de sol, mas no televisor. Vejo água e palmeiras: jogos entre a cor azul e a cor verde, a que o branco superior do céu algodoado confere um arbítrio e um regulamento. Rodo a cabeça para a esquerda e colido com a noite: nunca sou imune ao mortífero encanto do circo dela.

8
Teixeira de Pascoaes madrugava nela, repescando dela os espectros que depois colava pelas costas ao pergaminho. As noites de George terão sido de outro aparato, mas não decerto alheias à natureza introspectiva de todo o gajo que traz dentro alguma coisa deveras novas para dizer ao outro, a todos os outros.

9
Oh eu sei! Eu sei quão artificiais são estas simetrias. Mas “artifício” não é palavra que me repugne. É, também, fazer arte, até pela sua imemorial etimologia. E se o não é, deveria sê-lo. De que outra coisa (para que outra coisa), aliás, me sobraria viver? Ou que me resultaria do viver sem estes arte-ofícios? Bem pouca coisa, menos ainda que a regular quotidiana comezinha coisa da vida. Adiante.

10
Há a história da mulher de George Harrison passando a mulher de Eric Clapton, não obstando porém à posterior e perene amizade dos dois músicos. Há as ginofiguras de Teixeira de Pascoaes, ao mesmo tempo (o Tempo, sempre) etéreas e com mamilos. E há as histórias que me forço a ser capaz de. À sombra que me é natural e à luz para que caminho. Como todos, George e Joaquim incluídos, caminhamos todos.

Caramulo, noite de 16 de Fevereiro de 2007

20/02/07

Alentejo Blue, de Monica Ali, por Cornoalho

A coisa chama-se “Alentejo Blue” e sai da pena de uma escritora inglesa, de ascendência do Bangladesh, de seu nome Mónica Ali. A dita senhora parece que escreveu um primeiro livro muito bom e muito premiado e coiso e tal, e vai daí zás, mete a mão no Alentejo, e faz este seu segundo.

Ora, o Alentejo que está ali pela mão da Ali, não é o Alentejo. É uma coisa em forma de assim, que irrita o mais incauto e crente dos leitores. Eu já tinha visto a coisa na Fnac em edição inglesa e fiquei curioso. Agora saiu a edição portuguesa. O Expresso elogiou como “uma surpresa” e o Público, no Mil Folhas fez mais uma daquelas recensões a dizer bem, em tom de atenção à editora. E ao que parece o New York Times elegeu como um dos 100 livros do ano. E eu, burro, comprei, e li, biburro!

A boa da Mónica até parece que passou pelo Alentejo numas férias e a convite de uns amigos que ali vivem e que lhe contaram umas histórias. E parece que leu uns livros de viagens pelo Alentejo. Mais do que isto e sobre o além-tejo, não há no livro. Há sim, os estereótipos kitsch do “lavradores pitorescos” – não, não estou a inventar, está lá mesmo assim -, os latifundiários en passant que se faz tarde, e as velhas e esgotadas anedotas da malandrice alentejana. E lá está também, o gordo e seboso tasqueiro que é um porco sujo. Nenhum dos lugares comuns escapou à Mónica. Isto tudo, bem regado por uma adjectivação tal, que chega a enjoar de tão intensa e tão banal. Até as breves descrições de paisagens, não passam do eterno cartaz turístico sobre as planícies ondulantes. Adivinha-se que as não viu com olhos de ver e que sobretudo, as não sentiu!

E muito menos sentiu as gentes. Que é a coisa que mais me irrita por ali. É que o romance pretende descer ao Alentejo profundo e pretende que as personagens tenham a cor local, e há até referências a Salazar e a Cunhal, aos suicídios masculinos e ao surto de hotéis na costa, mas depois tudo isto é embrulhado em papel baratucho e sem profundidade. As personagens da Mónica, não têm qualquer espessura e debitam uns bitaites de inanidades baratas e inconsequentes. Os meandros mentais em que se movem podiam muito bem estar na cabeça de um chinês, desde que burro e imberbe.

O que a Mónica pretendia era dar-nos uma ideia de uma certa vivência alentejana, de um certo estado de espírito de abandono, fuga, irrealidade, miséria e fim do mundo. Não consegue. O que perpassa ali, além dos estereótipos e de uns insultos estapafúrdios aos portugueses em geral e aos alentejanos em particular, é uma sucessão de inglesices que não encaixam e se podiam muito bem passar na Cornualha ou no Bangla. Que, com a Mónica, também, Desh!

17/02/07

O Tapor em Berlim, por Peter Panzer (replay)


Cheguei de Berlim. Lá fui em peregrinação ao Kat Kat com o meu amigo Walter. «Um antro gay», dizia ele, mas a mim pareceu-me apenas um clube de paneleiragem. Lá dentro estava toda a gente nua ou, na melhor das hipóteses, vestida com fatos de batman sem capa, ajustadinhos ao corpo.


No hall do Kat, atende-me um porteiro metido num fato cor de rosa de Daredevil que me pede para ver os boxers. Uma vez que não falo alemão, expliquei-lhe no meu melhor inglês que só tinha "truces" daqueles meio fanados, castanhos atrás e amarelos à frente. O gajo deixou-me entrar. O Walter não teve problemas porque tem um fato especial que comprou, em segunda mão, numa loja S/M e já tinha aquilo por debaixo da roupa. Um senhor, este Walter! É o primeiro conselho que dou a quem for um dia a Berlim e procurar o inevitável Kat Kat: aluguem uma fatiota destas para ver a noite em Berlim. É outra classe, acreditem...


O antro não tem grande história. É um sítio infernal, completamente negro, com House e Techno, a noite toda, em altos berros. A frequência é a malta da love parade. Práli estão a comer-se uns aos outros. A melhor cena foi a de duas bichas que passaram a noite toda enfiados um no outro em cima de um baloiço que um terceiro empurrava. Dejá Vú!

Mas o mais bizarro foi de um sítio chamado O Trono no interior da discoteca do segundo piso. O Trono é um estrado mais elevado da discoteca, no meio da pista de dança, onde está de gatas um caramelo com uma máscara S/M enfiada na cabeçorra. O gajo está de rabo alçado e há uma dominadora drag queen que lhe vai arrancando, metodicamente, resmas de pelos do cu. Quando ela os tira, o tarado diz-lhe num tom very british: "Thank You, my lady" ao microfone e a malta curte e dança mais desenfreadamente ainda.


Enfim, é outro mundo - saímos de lá às 5 da matina, não sem que antes o Walter tivesse tido uns problemas devido às qualidades eróticas evocativas do seu fato especial de super herói. Os meus truces é que não pareceram ter grande sucesso, vá lá um gajo saber porquê...

16/02/07

O Grande Dilema das Ostras Afrodisíacas, por Minetauro

Se meterem no Google o tema “Ostras Afrodisíacas” saltam-lhes no écran centenas de receitas de ostras sexualizadas. Diga-se desde já que o afrodisíaco “googliano”, também dá para o amendoim, o açafrão, o guaraná, o gengibre, os caracóis, mexilhões, ouriços do mar, pinhões, ovos de codorniz, a alcachofra, cebola, rúcula, e até para um tal de chouriço na brasa, enfim eu sei lá, dá pra tudo, ou como dizia o outro: a mim tudo me dá tesão!

Adiante e voltemos às ostras, uma vez que estas são reconhecidamente o afrodisíaco com mais charme e fama. Vem isto a propósito de uma interessante discussão que se gerou no verão passado no restaurante “António” de Leça da Palmeira (excelente), à volta de um prato de ostras. As ostras do António estavam fresquíssimas e divinais. Acolitadas em gelo triturado foram chupadas até ao tutano. E venham mais 5! Mas lá pelo meio da chupança, surgiu a lembrança. De onde retira este bicho o carácter afrodisíaco?

Na discussão que se gerou, as hostes dividiram-se em duas partes. De um lado, os partidários de que tal carácter afrodisíaco do bivalve, apenas deriva da sua textura e configuração – e a foto não engana -, e do outro lado, a parte na qual me incluo, que defende que tal carácter deverá radicar também em características intrínsecas do bicho de cheiro ou sabor. A discussão foi acesa, mas inconclusiva, até porque entretanto chegou a açorda de linguadinhos e aí a atenção do pessoal dispersou-se.

Mas, a questão ficou-me a bailar nas beiças e tratei de ir ver alguma coisa. E após aturado estudo, verifiquei que Jurisprudência também se divide. Há quem fale do poder de sugestão e analogia, equiparando a forma da ostra ao órgão feminino, assim como se fala do afrodisíaco morango, por semelhança com o órgão masculino. Mas também há quem assegure da elevada concentração de zinco, metal que aumenta a concentração de testosterona, tanto nos homens como nas mulheres. Alegam outros, que o Zinco é essencial na produção de esperma, logo…, tunga! E há referências à riqueza das ostras em iodo e fósforo. Mais, há quem defenda que o Zinco intervém directamente na vagina da mulher, aumentando a secreção que faz de lubrificante vaginal. Como vêm o assunto foi estudado, mas a dúvida insanável permanece.

Certo, certo, é que à cautela, o Casanova mamava todos os dias cerca de 50 ostras pela manhã, e não consta que o homem fosse lá apenas pela sugestão. Até porque sugestão por sugestão bastava uma e não eram precisas 50!. E vocês como é, vão pelo Zinco ou pela Sugestão? Venham mais 50, s.f.f.!

A Metamorfose, de Franz Kafka, por Melquíades

Toda gente conhece Franz Kafka dos inacabados “O Processo “ e “O Castelo”, mas poucos leitores param e atentam no livro “A Metamorfose”. Para mim, que tenho Kafka como uma das releituras preferidas, a sua genialidade está antes de mais no pequeno e acabado, Metamorfose.

“Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na cama metamorfoseado num monstruoso insecto.” Assim começa o Metamorfose e pouca mais acção há. O livro é pequeno, mais novela que outra coisa, e traduz-se nisto: Gregor Samsa, caixeiro-viajante que se mata a trabalhar para prover à família que adora - pai e mãe, já velhotes e uma irmã novinha -, acorda naquela manhã transformado num nojento e gigantesco insecto. Não pode falar, não pode sair do quarto, não pode fugir; e não maltrata ninguém, uma vez que mantém pensamento humano. Reconhece a família e o mal que lhes está a fazer e a família reconhece o insecto de pesadelo como sendo o filho extremoso, Gregor Samsa.

Mas como é que se vive com a monstridão? Esta é a pergunta que logo de início nos salta à cabeça, perante a empatia para com a família do mostrengo. Mas a arte de Kafka leva-nos muito mais além do que isto e a pouco e pouco, passado o susto da fantástica metamorfose, já não sabemos quem é o monstro. Começam a aparecer outras monstruosidades ao longo da Metamorfose. A monstridão pode estar em qualquer lado e mesmo no meio de nós. Até o leitor pode ser o monstro. Qualquer de nós se identifica com tudo aquilo. De um lado e de outro. Ali não há preto e branco.

Já li e reli “A Metamorfose” muita vez e descubro-lhe sempre uma nova perspectiva. Em regra tenho simpatia pelo novo Samsa. A sua metamorfose é uma reacção à insanidade e ao vazio em que vivia. Foi o corpo e não a cabeça que lhe disse “Não” à continuação da labuta esgotante, transformando-se naquilo que a impossibilitava, a monstridão. Transformado o corpo no mostrengo horrendo que nos é descrito, a cabeça de Samsa continuou como até ali, amorosa, subserviente, escrava. O metamorfoseado monstro é a mais humana das criaturas. A família, aterrada e esgotada, e que nos leva de início a maior fatia de simpatia, vai evoluindo ao longo da história e vai sendo objecto de nova metamorfose.

No final, a cabeça humana do monstro físico Samsa, não aguenta o sofrimento (ou a metamorfose) que provoca na família e suicida-se da única forma que aquele corpo lhe permite. À fome. O monstro repulsivo toma a mais humana das atitudes.

15/02/07

O mistério de Atanásio Jacupissara, por Inspector Morgado

Na madrugada do passado dia 2 de Abril do corrente ano, um estranho episódio ocorreu na alameda coronel Baptista Domingues. Ao descer a dita avenida, quando regressava de uma orgia clandestina realizada no famoso lupanar da Sr.ª D. Amélia Romanova, um distinto cidadão da nossa comunidade que prefere manter o anonimato, o dr. Atanásio Jacupissara, juiz desembargador do tribunal da Relação, reparou num veículo atravessado na faixa contrária. Estacionou o seu automóvel, um moderno Audi highline A5 (sobresselente também é gente), e prontamente se dirigiu ao local do presumível acidente. Lá chegado, reparou que o veículo imobilizado, um Ford Fiesta comercial com a traseira elevada e adaptada ao transporte de pão, estava ainda com o motor a funcionar. Na superfície lateral, ostentava a designação do estabelecimento comercial: Padaria Contente, telemóvel 91 544 455.
O dr. Jacupissara desligou o motor, rodando a chave da ignição, e reparou que, mesmo em frente do automóvel estava um vulto imobilizado no alcatrão. Logo imaginou um atropelamento com fuga. O empenhado e responsável cidadão usou o seu telefone para prontamente chamar as autoridades e uma equipa de emergência médica. Entretanto, abeirou-se do corpo prostrado no meio da via pública. Reparou que se tratava de uma senhora de meia-idade, aí dos seus cinquenta anos. À frente, uma prótese da perna direita que seguramente fora projectada em consequência do embate. A história parecia simples: o padeiro atropelou esta pobre senhora que, em virtude das suas dificuldades de locomoção, atravessava a rodovia em local não autorizado, mal iluminado e muito vagarosamente. Assustado, o motorista fugiu, ou então, admitamo-lo, foi em busca de socorro, uma vez que poderia não ter telemóvel.
O dr. Jacupissara acercou-se da face da infeliz atropelada e viu então que ela não tinha braços. «Deve ser uma vítima da Talidomida», pensou o dr. Jacupissara enquanto se aprestava para a violar. Antes porém que tal sucedesse, chegou a equipa de emergência que transportou a pobre infeliz para o hospital onde viria a falecer.
A polícia abriu um inquérito que viria a ilibar o jovem condutor do veículo, um tal Atanagildo Pasagarda, posto que o volante, segundo os exames periciais do laboratório da polícia científica, ostentava as impressões digitais da vítima. Ora, o mistério é o seguinte: como é que a senhora se atropelou a si própria?

Foto: O Pensador, de Auguste Rodin; 1880

13/02/07

O Livro Que Matou Uma Cidade, por Melquíades


Há muitos anos, correndo as estantes empoeiradas da Biblioteca Municipal, tropecei no título de um livro que me encheu de curiosidade e me levou a lê-lo. Era uma obra-prima do realismo italiano, de um tal Carlo Levi e dizia que “Cristo Parou Em Eboli”. Como não consigo ler um livro sem ir a correr situar a coisa, descobri a cidade italiana de Eboli, a cerca de 100 km a sudeste de Nápoles, na Campânia e nas faldas dos Monti Picentini. Mas o livro não se passa aí. Aí parou Cristo e depois da abertura inicial, Eboli não mais aparece no livro.

O narrador, o próprio Carlo Levi, é desterrado por Mussolini para os confins da bota, para a pobreza miserável da Lucânia - junto ao tacão -, passa por Eboli e vai aterrar em Gagliano, aldeia próxima do rio Agri, para lá de Grassano e pertencente à província de Matera. Só não descobri no mapa Gagliano, que o autor deve ter inventado. O Agri, Grassano e Matera são reais e o exílio interno do Levi também.

Apesar de abrir caminho às correntes realistas italianas (vide badana), o livro é muito mais do que um manifesto realista. Num registo com muito de auto-biográfico, o médico, escritor e sobretudo pintor, Carlo Levi debruça-se sobre a vida dos que o acolhem nos confins do mundo romano. O retrato sendo cruel, não deixa de ter algo de mágico, com uma forte componente pícara e humorística. Mussolini em particular e o poder de Roma em geral, não saem bem na fotografia. Na década de 50, com a Itália pós 2ª Guerra a cavalgar ufana a riqueza da industrialização crescente, a ferida aberta por Carlo Levi não foi bem recebida, e o escritor foi ferozmente criticado por ter “dado para o estrangeiro uma imagem troglodita da Itália”.

É que pelo meio do livro, Levi mata Matera. A velha Matera, que a nova, lá continua capital de província e senhora dos seus 50 ou 60.000 habitantes. Mas na década de 30, Matera era um monte rochoso de cavernas e grutas infectas onde vivia a maioria dos seus habitantes. Levi fez um tal retrato daquilo, que a moderna Itália pós guerra entrou em estado de choque, quer pelo retrato, quer pela repercussão internacional do mesmo. O primeiro-ministro italiano da altura proclamou Matera como "la vergüenza de Italia", e o estado italiano obrigou a população a sair à força das cavernas, grutas e ruínas e fechou toda a velha cidade. A velha Matera passou então a servir de cenário a filmes apocalípticos (Pasolini filmou aí a miséria absoluta para alguns dos seus filmes) e de pano de fundo a um turismo de mau gosto. Ainda hoje, os italianos e a cidade em especial não gostam nada da alusão à coisa. Têm razão. Não saem bem na fotografia. No livro, o relato que se segue é a voz da irmã do narrador que vem de Turim visitar Levi:

“ - Não conhecia a região (…) Mas quando saí da estação, um edifício moderno e até mesmo luxuoso, e olhei em volta, foi em vão que procurei a cidade. Não existia cidade. Estava numa espécie de planalto deserto, cercado por colinas áridas e calcinadas, de terra cinzenta semeada de pedras. (…) Mas onde estava a cidade? Matera não se via.

(…) E fui finalmente à procura da cidade. Afastei-me mais um pouco da estação e cheguei a uma estrada ladeada de velhas casas dum dos lados e contornando do outro um precipício. Matera fica nesse precipício. Lá em cima não se vê quase nada por causa da excessiva inclinação da encosta que desce quase a pique. Ao debruçar-me, vi apenas terraços e carreiros que ocultavam completamente as casas. Em frente, ficava um monte árido e queimado, horrivelmente cinzento, sem marcas de ter sido cultivado, sem a animação de uma única árvore: apenas terra e pedras batidas pelo sol. Ao fundo corria uma pequena ribeira, a Gravina, um pouco de água suja por entre as pedras, fonte permanente de paludismo. O riacho e o monte tinham um ar sombrio e mau que confrangia o coração. (…) Era assim que nós na escola, imaginávamos o inferno de Dante.

Comecei a descer, em círculos, por um caminho de cabras. O estreitíssimo carreiro passava, serpenteando, por cima dos telhados das casas, se é que se lhes pode chamar assim. São grutas escavadas na argila endurecida do barranco; algumas têm uma fachada, à frente, e chegam mesmo a ser bonitas, com uns modestos ornatos tipo setecentista. Esta espécie de fachadas talhadas verticalmente na terra, tornam-se um pouco salientes em cima devido à inclinação da ravina e é nesse estreito espaço entre a fachada e o declive que passa o caminho que é, ao mesmo tempo, o tecto das habitações que ficam por baixo. Com o calor as portas estavam abertas.

Ao passar, ia olhando para o interior das grutas que não recebem ar nem luz por outra abertura. Algumas nem mesmo essa possuem: entra-se por cima, por uma escada. Dentro daqueles buracos negros, de paredes de terra, viam-se as camas, um miserável mobiliário, alguns farrapos estendidos. No chão estavam deitados os cães, as ovelhas, as cabras, os porcos. Em geral cada família só possui uma dessas grutas e têm de dormir todos juntos: homens, mulheres, crianças e animais. Vivem assim vinte mil pessoas. Crianças, então, é um número infinito. Com aquele calor, apareciam por todos os lados, no meio das moscas e da poeira, completamente nuas ou cobertas de andrajos.

(…) Vi crianças sentadas nos portais das casas, no meio da maior imundice, sob o sol ardente, com os olhos semifechados, as pálpebras vermelhas e inchadas; e as moscas pousavam-lhes nos olhos, enquanto elas continuavam imóveis, sem mesmo as sacudirem com mão. Sim, as moscas passeavam nos seus olhos e elas não as sentiam. Era o tracoma. (…) Encontrei outros garotos de rostos encarquilhados como velhos, esqueléticos e esfomeados, as cabeças cheias de crostas e piolhos. Mas a maior parte tinha umas barrigas enormes, inchadas, e as faces amarelas e apáticas da malária. As mulheres, quando me viam espreitar pelas portas, convidavam-me a entrar. E nas grutas sombrias e pestilentas encontrei garotos deitados no chão, sob uns cobertores esfarrapados a bater os dentes com febre. Outros mal conseguiam arrastar-se, reduzidos pela disenteria à pele e osso. E via alguns, com faces da cor da cera, que me pareceram sofrer de doença ainda mais grave que a malária, qualquer enfermidade tropical no género do Kala Azar, a febre negra. As mulheres, magras, com as crianças ainda de peito, subalimentadas e sujas, penduradas nos seios flácidos, saudavam-nos com uma gentileza triste e resignada. Sob aquele sol de cegar, parecia-me ter caído no meio de uma cidade devastada pela peste.”

A coisa prolonga-se, mas para pior. De fazer chorar as pedras da calçada, como manda a cartilha realista. Contudo, ali não era romance, mas realidade. Há pouco revisitei Matera, Gagliano e o velho e maltratado exemplar do Cristo Parou Em Eboli, da mesma biblioteca. Continua uma obra-prima que vale a pena saborear. Da Matera que se descobre no Google-Imagens continua-se a querer fugir. Levi tinha razão. Mas não digam isto a um italiano, que ainda hoje não gosta que lhe apontem a miséria do mezzogiorno.