30/03/07

A Beleza Na Escrita, ou Como Descrever a Indizível Superioridade De Um Pãozinho Sem Sal, por Abade Severino

Roland Barthes no seu livro “Sade, Fourier, Loiola” e na parte dedicada ao Sade, levanta uma questão literária interessante. Passamos por ela “n” vezes e nunca nos apercebemos da mesma. Já repararam que é impossível descrever a Beleza? Passamos a vida a ler riquíssimas descrições do Belo e quando vamos a olhar com olhos de ver, o que se lê é adjectivação e descrição por comparação ou remição.

Como é que se descreve por exemplo, o belíssimo rosto do “pãozinho sem sal” aqui da foto ao lado, sem cair na adjectivação profunda ou na comparação remissiva: linhas simétricas? proporções matemáticas, lábios ovais, olhos verdes de traça oblíqua… Impossível. Daqui, desta pena miserável de escriba blogueiro, jamais sairá a descrição da beleza sem recorrer às trôpegas figuras de estilo habituais. Mas da pena dos grandes mestres, a Beleza também nunca saiu de forma objectiva e sem recurso à mais desvairada adjectivação.

Roland Barthes a propósito do Sade diz isso mesmo: “Sade, como qualquer pessoa, não consegue descrever a beleza; no máximo pode afirmar, por meio de referências culturais (“bem feita como Vénus”, “esbelta como Minerva”, “a frescura de Flora”). Sendo analítica, a linguagem só pode apoderar-se do corpo quando o fragmenta; o corpo total não está nos limites da linguagem, a escrita só se apodera de pedaços do corpo; para fazer ver um corpo é necessário deslocá-lo, refractá-lo na metonímia do seu vestuário, ou reduzi-lo a uma das suas partes; a descrição torna-se então visionária, volta a encontrar-se a felicidade da enunciação (talvez porque exista uma vocação feiticista da linguagem): o monge Severino encontra em Justine “uma decidida superioridade no desenho das nádegas, um calor indizível no ânus”.

29/03/07

O Sr Pinto De Sousa, Um Esfolador De Primeira!, por Mameluco

Sou fanático das notas económicas de rodapé dos jornais. Ninguém lê aquilo, mas eu leio e registo. Enciclopedismo de rodapé. Coleccionismo de leituras. E por essas notitas, que nunca dão parangonas de primeira página, fui sabendo da inépcia deste governo no controle da despesa pública. Que permanecia e permanece descontrolada. Isto é, não se limita a crescer, mas cresce como erva daninha por tudo quanto é sitio. E ninguém liga a isto. Apesar de todas as criticas que se fazem, as pessoas continuam a ter por assente que isto é inevitável e que estamos no bom caminho. Errado.

O Sr Pinto de Sousa veio há dias encher mais parangonas com a redução do défice do estado, para além até do previsto. Professoral e gongórico como sempre, o Sr Pinto de Sousa esqueceu-se de explicar duas coisitas simples:

Primeira: a redução do défice dá-se à conta da mais violenta e selvagem sangria dos portugueses e da economia portuguesa de que há memória. A subida exponencial das receitas assenta no mais brutal e descarado dos roubos em tudo o que é imposto e sobre tudo o que mexa. Temos o brutal aumento do IVA para 21%, o mais caro Imposto Sobre Produtos Petrolíferos de sempre, o mais caro Imposto sobre Imóveis de sempre, e as mais caras coimas e taxas sobre tudo e mais alguma coisa. Sintomática é a anedota do Imposto Sucessório, cujo fim foi prometido por Guterres e pelo Sr Pinto De Sousa. Ora, o Sr Pinto De Sousa de facto acabou com o Imposto Sucessório. Agora, sobre as heranças e as Doações as pessoas continuam a pagar Imposto e pagam muito mais do que antes, uma vez que pelo IMI os valores do imóveis foram actualizados, só que o Imposto chama-se "De Selo". Eis como se cumpre a promessa de acabar com um Imposto, na versão Pinto de Sousa.

Segunda: a redução do défice, como e muito bem chama à primeira página o Público de hoje, não se deve à redução da despesa. Essa continua descontrolada. É que o Sr Pinto De Sousa se é muito bom a esfolar os portugueses com o bisturi do seu poder de Impérium, já é muito mau a controlar a dieta do Porco Gordo que dá pelo nome de Estado. A legislação das obras públicas continua na mesma, pelo que o regabofe dos custos inflacionados em mais de 100% em tudo o que seja contratação do estado continua. O pacote anti-corrupção do Cravinho foi convenientemente despachado para a estranja com o seu autor. A doideira do endividamento camarário para construir a enésima rotunda, mailo mamarracho artístico em cima, segue de vento em popa. Os projectos faraónicos continuam a prosperar desde a central de moura, à Ota e ao TGV. A sangria das comissões de estudo, grupos de trabalho, autoridades de acompanhamento e quejandos que diariamente saem em jorro do diário da república é um fartote de riso e dinheiro. A relação da gula e engorda do Porco a que preside o Sr Pinto de Sousa, poderia continua aqui ad nauseam, mas não vale a pena.

O Sr Pinto De Sousa não sabe fazer dieta ao Porco e não sabe curá-lo das suas doenças. Sabe sim e bem, esfolá-lo e esquartejá-lo. E ainda ninguém lhe explicou que depois de matar o Porco e de o comer, deixa de haver Porco. Parece coisa simples, mas não é. E não há maneira de o Sr Pinto de Sousa a perceber.

28/03/07

O Regime E O Ti Armando, ou Salazar, Parte 2, por Porco&Mundo

O Ti Armando foi convocado por nota oficial para se apresentar no prédio da PIDE-DGS, ali por trás da Praça da República, pouco tempo antes do 25 de Abril. Ao Ti Armando, calmeirão e pachola, velho rendeiro de courelas alheias, jamais passou pela cabeça em desobedecer a uma convocatória da polícia. E na data e hora marcada lá se apresentou. Confirmaram-lhe o nome e levaram-no para um dos calabouços.

Aí durante um dia e uma noite inteira levou vergalhada de cavalo marinho, dada por um meia-leca de bigodito que jamais aguentaria uma talochada do Ti Armando, quanto mais criar 8 filhos à força da enxada e farpão. Da vergalhada, o Ti Armando recordava três coisas: a primeira eram as duas costelas fendidas e a lesão permanente num tendão do calcanhar que o meteram a coxear para o resto da vida; a segunda era que só lhe falavam e perguntavam por um tal de “Regime” (diz ele que gostava de lhes agradar e responder, mas não conhecia o moço…), e a terceira era que no dia seguinte o puseram na rua, dorido e manco, explicando-lhe que não era nada, que não ligasse pois que se tratou de um engano. O Armando era outro. Era o de Vilarinho e do mesmo nome. Tinham-se enganado na terreola.

Esta história é verdadeira. Foi-me contada pelo próprio quando em 1978 com 15 anos servia de aguadeiro aos dez ou doze cavadores, que o meu velho trazia de volta dos torrões da vinha. Perante mais um dito que elogiava o bom Salazar-Que-Não-Roubava e que romanceava o antigo Regime, o Ti Armando poisou o tinto e a broa com sardinha, e mostrou as costas tisnadas do sol, mas marcadas com as vergalhadas que um miserável lhe fez em nome de um Regime que ele desconhecia existir, quanto mais ser contra.

José Pinto de Sousa, por Alcibíades


José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, o homem diz chamar-se assim (digo que «ele diz» porque depois do caso da licenciatura e das alterações curriculares no seu próprio site oficial já não tenho a certeza de nada do que ele diz). Então porque é que insistimos em chamar-lhe Sócrates? Convenhamos, este homem não tem nada, rigorosamente nada a ver com o grande filósofo de Atenas. Pessoalmente acho que ele é mesmo a sua mais fiel antítese sob todos os pontos de vista, ético, filosófico, retórico e mais haverá.

Já o nome Pinto de Sousa soa-me parecido com um Pinto de Sousa mais ou menos conhecido. Como é muito maior a semelhança do homem com o nome Pinto de Sousa do que com o nome Sócrates - homonimia manifestamente absurda - eu lanço daqui uma campanha para que a partir de agora ele seja tratado pelo nome que melhor lhe assenta: José Pinto de Sousa e não Sócrates. Sócrates só houve um;José Pinto de Sousa cai-lhe que nem ginjas.

27/03/07

O Maior Português De Sempre, Parte I, por Porco&Mundo

O concurso é meio infantil e vale sobretudo como divertimento televisivo de foguetório colorido e espaventoso. A pose certa seria a dos bonecos do Contra-Informação. E penso até que antes de tudo as pessoas votaram para achincalhar a palhaçada. Mas certo certo, é que em França elegeram De Gaulle, em Inglaterra Churchill, na Alemanha, Adenauer e na Bélgica, Jacques Brel. Aqui, o Maior Português de sempre é nem mais nem menos que Oliveira Salazar. O nosso maior, no querer do povo é Salazar, um ditador infame que censurou, torturou e matou.

Até arrepia. Que raio de gente é esta que ainda hoje elogia o pulso firme do homem, o ser austero, o não ser ladrão – como se o “não ser” fosse uma qualidade sublime -, o ser de poucas falas, o ser professor, sabedor e o grande defensor do ouro aferrolhado. Abençoada cadeira que lhe limpou o sebo!

Não fosse essa heróica cadeira, que devia ser traslada para os Jerónimos, e no querer deste povo português, ainda hoje combateríamos em África pela integridade do Império, ainda hoje estaríamos barricados em Goa a derramar o sangue até ao último Lusitano e ainda hoje andaríamos no beija-mão dos caciques de um país censurado e fechado que de tudo tinha medo desde o Avante à Coca-Cola.

26/03/07

Qual Sibéria!, Socras Pra Massamá!, por Kzar


Prá Sibéria o carago! Isso queria eu ir e ninguém me paga as viagens ou dá licenças com vencimento. Aquilo da Sibéria deve ser fabuloso! Os grandes espaços, a estepe ou a taíga, as montanhas, os rios, eu sei lá, um rol infindável de maravilhas. Olha que nisso de exílios pra castigo estás desactualizado, méne.

O gajo devia era ir para viver para um T2 com 35 anos, nos arredores da Amora, trabalhar em Massamá, como porteiro, ganhar 422 € por mês, pagar de prestações ao banco 271 € mensais, ter um corsa de 1989 pra passear quando o rei faz anos e sempre a avariar, aos domingos ir lavá-lo à beira de um ribeiro mal cheiroso e aos sábados passear no Almada Fórum, em fato de treino.

Ser adepto do benfica, comer caracois com a rapaziada nos dias de festa, beber Sagres, usar Old Spice, peúgas brancas e nas férias passar as noites pelo Parque Eduardo VII, à procura de adolescentes pretos para o sodomizarem. Votar religiosamente no PS ou no PSD, ser delegado de um sindicato, fumar português suave e achar que um bom vinho é o Monte Velho.

Uma vez por ano ir para o campismo na Caparica, a mulher ser gorda, feia, peluda e saloia até mais não e sempre a gritar, os filhos uma cambada de madraços ignorantes, paneleiros e reprovados anos a fio. Gostar de telenovelas e mamar as patacoadas do Daniel Sampaio e dos psicólogos todos que infestam este mundo, coleccionar recortes de revista das estrelas saloias da televisão, ver o big brother, os morangos e a florbela.

E ainda por cima estar com uma inspecção das Finanças à perna e à beira de perder o emprego por ter sido apanhado pela Dona Ermelinda da limpeza a ver sites gay no computador do chefe.

Isso meus amigos, é que era uma vida à medida do Socras, do que ele vale e do que o governo dele reserva à generalidade dos portugueses que ainda a não padecem. Agora Sibérias... Já agora cruzeiros ao Alaska ou à Patagónia, não...?

23/03/07

Brown Sugar, por Out Of Time


Boas, más e péssimas notícias. Primeiro as boas: tá confirmado, é já no dia 25 de Junho no estádio de Alvalade, os Rolling Stones vêm a Portugal!

Agora as más: li no público que os bilhetes custam entre 70 e 99 euros! Fónix, tá tudo doido?

E as péssimas: como não quis acreditar nos preços que o Público divulgou, fui confirmar no site da digressão da banda e afinal, o que lá vem, é pior ainda: preços de 175, 185 e 195 euros!!!! E ainda dizem que o golf é caro. Fónix!

Licor, Sabão e Sapatos – novo buque do Cão

Abrir o Livro

Receio bem que o todo deste livro seja inferior à soma das suas partes. Dito isto, vamos por partes.
A parte inicial chama-se Licor, Sabão e Sapatos. É uma colecção de histórias, não mais do que isso. Alguns dos textos foram já publicados no Cronicão, em 2003. Outros viram a luz na internet e outros, ainda, em partes outras. Não são histórias da minha vida, mas histórias que a minha vida deu. É diferente, embora não seja importante. Como curiosidade, sublinho apenas que a personagem de uma das histórias se chama Camilo Ardenas. O texto nada tem a ver com o meu próximo livro, mas a figura tem: assim se chama o tipo central de um romance que ando alinhavando num universo paralelo a este(s).
A parte seguinte chama-se O Cedro e a Lua. É coisa completamente diferente no meio de tudo o que já escrevi até hoje, publicado ou não. Esse texto, sim, devo-o àquela dimensão da vida a que se chama “(auto)biografia”. Como O Cedro e a Lua tem nota prévia própria, mais aqui não adianto.
Segue-se Uma Quinta ao Fundo com Cavalos. É uma narrativa em onze momentos. Teve origem numa fotografia de 1967. Estamos a minha irmã e eu. Ela tem 23 anos. Eu tenho três. Ao fundo, onde ainda hoje é a tal quinta, já não há cavalos.
Depois, vem uma coisa talvez imperdoável. Armei-me em dramaturgo e, em coisa de duas semanas, escrevi uma peça de teatro. Chama-se O Último Dia. Espero ser perdoado por este texto, que eu tenho já perdoado também muita coisa a muita gente.
Em penúltimo lugar na estrutura deste volume, está Gente do Touro de Ouro. Tal como Cronicão e o texto final, foi publicado em 2003 em edição de autor de curta circulação. Trata-se de uma narrativa-espelho. Quero dizer: é composto de duas partes com exactos 25 parágrafos cada. Como então referi na contracapa desse livro justamente esquecido, “o primeiro parágrafo da primeira parte haverá de reflectir-se no primeiro parágrafo da segunda parte. E assim sucessivamente, até 25. O leitor experimente ver se a reflexão (essa palavra de espelho que pensa) resultou ou não”.
O texto final chama-se Noite de Homens-Cantores. Publicado em conjunto com o Cronicão e a Gente do Touro de Ouro, foi vivido e escrito no Inverno de 1998. É um texto que alia a prosa ao verso numa espécie de entrecho dramatúrgico.
Posto isto, resta tão-só o derradeiro sacrifício: a leitura propriamente dita. É minha esperança que, ao leitor, tal sacrifício resulte benigno.

Caramulo, 7 de Fevereiro de 2007

Notas: 1 - Os lançamentos do livro terão lugar, de certeza, em Pombal e Coimbra; talvez também em Leiria e Viseu. Quando tiver datas e sítios marcados, aqui vos darei conta.2- Mais informações podem ser pedidas à editora por correio electrónico (info@imagenseletras.pt) ou correio de papel (Imagens & Letras), Rua D. Carlos I, nº 2, 2405-415 LEIRIA. O senhor Fernando Mendes é a pessoa indicada.

22/03/07

Zé Socras E As Grandes Abstracções, por Inginheiro


O Socras dizia há pouco tempo numa entrevista que desistiu das Engenharias e foi para a Política porque descobriu que a sua verdadeira vocação eram As Grandes Abstracções e não as piquenas. As miudezas. Compreende-se. Como por exemplo essas minudências como estudar, exames e licenciaturas. O homem das Grandes Abstracções foi assim para o PS e o Governo. Onde apesar de tudo, conseguiu tempo para fazer uma licenciaturazita num curso nocturno especial de 7 pessoas leccionado quase só e ao que parece pelo reitor. Em Grande é assim. Feita a pequena abstracção o Grande Homem usou-a na Grande Abstracção, e sempre que se tratou de apresentar o animal, lá estava a pose e o canudo. E no site do Governo até ontem, lá estava também o "Licenciado em Engenharia". Agora já não está. Agora já só está Inginheiro.

O jornal Público de hoje, traz uma investigação profunda à dita “Licenciatura” em engenharia por parte do Socras na Universidade Independente. A Ordem dos Engenheiros não reconhece a pequena abstracção, digo a “licenciatura” do Socras, e muito menos reconhece a Grande Abstracção que é a licenciatura em engenharia da Independente.

Pelo meio, há umas fotocópias avulsas, deslavadas e rasuradas, porque os originais não podem ser vistos por problemas de logística, essa maldita e pequena abstracção!. Nas várias cópiazitas aparecem notas diferentes a três disciplinas pelo menos. Há documentos de que nem cópia, porque desapareceram por completo, desde as fichas de alunos aos pagamentos das propinas. Fala-se me caruncho essa pequena abstracção, mas há quem prefira abstrair em grande e fale da culpa da empregada de limpeza ucrâniana. KJB, claro, Grande abstracção.

Há uma disciplina essencial que reconhecidamente o Socras não fez, há um assistente de uma das cadeiras de 18 do Socras que jura não o ter visto ou examinado, embora tenho visto aparecer na pauta por artes mágicas a dita nota. Mas parece que isso são abstracções de rodapé. Depois, há um reitor e a filha, ambos do PS que se contradizem, desdizem e quando confrontados, alegam falta de logística e a abstracção documental, desaparecida, como é evidente e faz parte das Grandes Abstracções. Tá bonita a procissão. E acabou de sair do adro. Ca Grande Abstracção. Ou não.

21/03/07

O Maestro Tinha Razão! por Zé Critério


Domingo passado, quando estávamos na doideira habitual do torneio de mini-golf, à Ucal por fora, e no meio da discussão dos melhores tascos de Coimbra, o Maestro sai-se com a Sereia. Olá, temos aqui alguém a meter a cabecita de fora. É que aqui e em coisa de comer não basta “abanar a batuta”, há que explicar muito bem a sinfonia inteira.

Mas perante a barragem de perguntas, onde?, como? o quê? e a que preço? etc, tal e coiso, o Maestro não só se aguentou à bernarda, como reafirmou a cozinha da Sereia como a do melhor tempero de Coimbra. Ainda desconfiei de uma tal coisa de “meias sopas” e “mini-doses”, mas prontos, quem não sabe é como quem não vê, e desconhecendo eu a música da mulher do tritão, amochei.

Nesta semana encornei o Tritão e logo segunda, penetrei na Sereia. Passa-se uma sala de balcão quadrado de snack-bar (arrrghhh!) e abanca-se em sala pequena tipo bunker de sete mesas e 24 comensais. Aquilo é um tugúrio escondido e mal amanhado. Das três vezes que lá fui nunca encheu. Maestro, tás fodido. Ia para afiambrar, obviamente, e lá estavam as meias-sopas e as mini-doses. O empregado é daquelas pessoas de grande deferência com os doutores habituais, mas indiferente com a estranja. Boa. Isto promete. Vai haver tourada.

O pior foi quando veio a comida. Na segunda-feira, comecei com uma sopa alentejana e uns carapauzinhos fritos com arroz de couve, maila sobremesa em forma de crepe queimado. Tudo excelente. Sopa irrepreensível, carapauzinhos ilegais de frescura imaculada e fritura estaladiça e o crepe é simplesmente das melhores coisas que já comi em doçaria. Na terça, saltei para o caldo verde e umas ovas douradas em polme de ovo, com arroz malandrinho de tomate, terminando em grande, com uma tarte do caçador. Nem vale a pena elogiar mais. Simplesmente soberbo. Tudo. Pura coincidência e sorte na praça e no tempero, pensei eu. Só podia ser.

Hoje, fui à prova dos nove. E havia feijoada. Ora aqui está, vão-se espalhar. A feijoada parecendo coisa fácil, é dos pratos mais difíceis de conseguir. O feijão tem que cozer no ponto certo, obter aquela molhaca de ligação, e enrodilhar-se devidamente com a couve, o chispe e a orelheira cozida no ponto certo. Acolitar depois a coisa com enchidos que fujam ao industrial da Probar e da Isidoro não é fácil. Comecei assim por uma sopa de couve-flor com ovo – magnifica -, e fui-me à feijoada. Meus deus, há quanto tempo não ferrava o dente em morcela tão boa e em chouriço tão telúrico que até cheirava a campo. Coisas boas, de rebentar e chorar por não caber mais. E desisto da adjectivação para as azeitonas, a broa e a tarte de morangos.

Rendi-me ao encanto do peixuço. A coisa não é barata, uma mini-dose que dá para uma pessoa vai pelos 6/7 euros e com a ida a todos, facilmente se sai de lá com 13/14 euros pessoa e para a meia-dose e ida a todos com 15/16 euros por pessoa. Mas o Maestro tem razão. Aquilo ali é uma Sereia de Luxo e trata-se sem dúvida do melhor tempero e da melhor cozinha tradicional de Coimbra. Amanhã, Quinta-Feira, há Açorda de Sável. Infelizmente tou pró Porto e prá Adega do Olho. Perdão Maestro! Afinfe no Sável por mim, que no Domingo que vem pago eu a Ucal!

PS: Restaurante Sereia do Mondego, rua Dr António Henriques Seco, Coimbra, (ao fundo das escadas do José Falcão, ou ao cimo do Jardim da Sereia) telefone 239.824.342. Fecha ao Sábado ao Jantar, aos Domingos e aos Feriados. Se puderem não falhem amanhã ao Sável do Almoço.

20/03/07

O meu Disco Sound, por Travolta do Tovim


Eu sempre gostei do disco sound. Daqueles pianos transformados em sintetizadores, das guitarradas sacudidas à Shaft, dos ritmos wah-wah, das percussões tribalistas-electrónicas a marcar o ritmo numa caixa de sons. Naquele tempo e tardiamente, chegava cá um programa à televisão uma vez por semana com as novidades vindas directamente dos States – começava com a voz de feirante do DJ: “…from Miami, Florida, the capital of disco-sound…. DISCOOOOO SEVENTY SEVEN!”. Depois era um desfile de meia hora numa pista acetinada com loiras boas e sorridentes acabadas de sair de um anúncio da Pepsi, e negras amulatadas com cabeleiras Hair e lábios de broche-batôn-brilhante, calças de ganga apertadinhas no cu e bainhas à boca de sino, a dançar sob as luzes de bolas de espelho e a bombar ancas em close-up volumétrico ao som dos lendários Rasputine e Daddy Cool dos Boney M, do frenético Le Freak dos Chic, e por aí fora, de Love to Love You, Baby, da Donna Summer a Staying Alive dos Bee Gees, sempre a dar-lhe!

E depois, havia toda aquele armário de adereços que fizeram moda, hoje absolutamente caricatos e de gosto duvidoso, kitsch, démodé, obsoletos, ou o que lhes quiserem chamar, mas que atire a primeira pedra quem nunca, uma vez pelo menos, calçou um sapatão de tacão arranha-céus, ou nunca vestiu uma daquelas camisas com colarinho asa delta, os três botões de cima desapertados a mostrar a pelugem na peitaça Macho Man!

Sim, bem sei, ouvia-se o Live in Tokyo dos Deep Purple em cassetes piratas e aquilo era do outro mundo, o Sammy Hagar rasgava a guitarra como só o Jimmy Hendrix o tinha feito até então, os AC/DC regressavam melhores do que nunca no Back in Black, já com o Brian Johnson aos berros como se tivesse um ataque de apendicite, depois da overdose do Bon Scott, e os Led Zeppelin eram a melhor banda de sempre…! Mas, num sábado à noite, quando a febre dos bailes de garagem enroscava uns slows à socapa e uns copos de Macieira à descarada, o que é que se dançava no entremeio? Pois.

Para mim, foi de transição breve, contudo, o disco sound. Os oitenta rebentaram em cena com o rock futurista dos Duran Duran e dos Classic Noveaux, evoluções electrizadas que beberam na caixa de ritmos do disco-sound – subtraíram-lhe os coros, esticaram as batidas, centraram o efeito dramático na voz do vocalista. E resultou muito bem. Foi a morte anunciada do disco-sound e o prenúncio de uma safra de enorme riqueza no advento de estilos desde o Punk ou a New Wave - com a exuberante Lena Lovich à cabeça-, até à evolução disco-pop dos Pet Shop Boys, passando pelos ABC, Tears for Fears, Blondie, Ultravox, Bronski Beat, Soft Cell ou Frankie Goes to Hollywood, para citar apenas uns poucos quantos.

Mas foi no disco sound que tudo começou. Na dance-music de refrão fácil e fatos de lantejoulas, piruetas em palco e berimbaus com efeitos espaciais. Nas vozes apaneleiradas dos Village People e na dor de corno da Gloria Gaynor quando abria I Will Survive: “first I was afraid, I was petrified…” Desde o Tony Manero que engolia o spaghetti católico em casa de segunda a sexta, e depois arrasava a pista na noite de todos os sábados ao som dos Bee Gees, para se manter vivo. Passando pela catedral Studio 54 em N.Y. onde eu nunca fui, até à garagem do Esgalhão, cujo pai era peixeiro e, com a venda do peixe no Tovim do Meio, deu para comprar uma aparelhagem Sharp com colunas, subwoofer e leitor de cassetes. Aí é que eu fui sempre. E aquilo é que era curtir, Meu Deus!

Alarvidades, por Sotavento

Parece que o ministro da economia, o inefável Manel Pinho, lá atacou de novo. Agora resolveu enterrar uns milhões de todos nós numa campanha de marketing em que se decide promver o Algarve no estrangeiro com o sugestivo nome de Allgarve. Mas porque é que não mudam o nome ao país para soar melhor em Inglaterra? Bananaland era uma boa sugestão. Os gajos passavam a saber ao que vinham. E, ao menos, o termo ainda fazia algum sentido, coisa que não acontece com o espantoso neologismo Allgarve. Em termos semânticos isto quer dizer o quê, Allgarve? Que somos todos Garves? E o que será um Garve, o ministro não explica? Allgarve? Isto parece-me é alarve!

18/03/07

Será Isto Arte? por El Bosco

Só com o título já cacei duas ou três bestas apocalípticas, que vêm já por aí a baixo, de foice em punho e aferradas à goela do escriba: cá está o gajo outra vez!, cá está o gajo outra vez!

O assunto já andou por aqui e regressará certamente muitas mais vezes. A velha discussão sobre o que é arte ou não é. Uma discussão conceptualista que atravessará para sempre o porco e os tempos. A polémica já aqui reinou a propósito das “latitas de merda” do Piero Manzoni (primeira foto e vide posta anterior aqui), do roubo da massa do povo pela escuridão do “Branca de Neve” do João César Monteiro (segunda foto) e ao que me lembro do Urinol de Duchamp (terceira foto). Será isto Arte??

Nelson Goodman, no seu livro “Modos de Fazer Mundo” (Edições Asa, 1995(Esgotadíssimo), no original “Ways Of Worldmaking”-1975-1977), tem um capítulo delicioso e fundamental que aborda o assunto de forma quase definitiva.

Segundo o professor de Harvard, a pergunta “O que é arte?”, à qual e ao longo dos tempos inúmeros autores se têm dedicado a tentar responder em ensaios estéticos, esconde uma outra, com a qual se confunde muitas vezes e que é a sua pergunta corolário: “O que é boa arte?”

Goodman não responde a isto, nem vai por aí. Segundo ele a questão é errada. A resposta não reside na definição de “arte” ou de “boa arte”, onde reinará sempre o perigo e a idiotia, mas encontra-se num momento conceptual imediatamente anterior, e que Goodman traduz numa outra pergunta, essa sim fulcral: “Quando É Arte?”

E aí, Goodman responde: “Há arte quando lhe estão associados símbolos.” O que é símbolo e deixa de ser é outro capítulo extenso e denso que não importa trazer aqui. Basicamente é isto: um calhau do jardim, passa a ser arte quando o artista o leva para uma galeria e lhe atribui outra função ao retirá-lo do jardim. Atribui-lhe um significado. O calhau, como o Urinol de Duchamp ou Merda de Manzoni, deixam de ser meros objectos e passam a ser arte, quando adquirem uma simbolização, uma função de arte.

A simbolização, que pode ir e vir, colar-se ou desaparecer de um objecto, é inerente a toda a arte e não há arte sem um significado simbólico associado. Se lá chegamos ou não, se gostamos ou não e sobretudo, se estamos dispostos a pagar por aquilo ou não, essas são outras questões e conceitos.

Mesmo um colosso como A Vista de Delft de Vermeer, quadro que toda a gente reconhece como grande arte (todos não, há um irredutível gaulês aqui no Porco, que acha isso mais do que discutível), pois mesmo o Vermeer, pode deixar de ser arte ao ser-lhe retirada a simbologia. Se a Vista de Delft passar a ser usado para tapar uma janela (alteração de função e símbolo) ele deixa de funcionar com arte para funcionar como vedante.

O anterior símbolo e função de arte passaram a vedante. Deus nos livre. Já as latitas de merda do Manzoni e o urinol do Duchamp deviam deixar a galeria e passar à casa de banho e ao alegre convívio com a mãe sanitas e o pai autoclismo.


16/03/07

Menos Do Que Tudo Não Satisfaz O Homem, por Rip


“Que Deus é este, que escreve leis da paz
& se veste de tempestade?
Que Anjo condoído anseia por lágrimas,
e se abana com ais?
Que vilão rastejante prega abstinência
& se engorda
Com o melhor dos cordeiros?
Não mais seguirei,
não mais obedecerei.”

William Blake, America a Prophecy
(gravura 12(parte))
Sete Livros Iluminados

15/03/07

Uma Pequena História do Mundo de Ernst Gombrich, por Enfant Sauvage


Podia chamar-se A História do Mundo Explicada às Crianças porque no fundo é disso que se trata. Uma Pequena História do Mundo é uma síntese genial do que de mais importante se passou no planeta nos últimos milhares de anos. Do ponto de vista, claro (há sempre um ponto de vista), de um historiador de nacionalidade austríaca. Por isso são naturais algumas omissões como, por exemplo, a do fundamental papel que o povo Português teve nos Descobrimentos ou da nota de rodapé a que é reduzida a independência dos Estados Unidos... Mas uma pequena história do mundo é necessariamente omissa e sofre sempre da perspectiva do seu autor. Mas isso é que é bom – há que valorizar o que lá está e não o que lá falta.

Gombrich escreveu este livro a pensar nos seus netos, mas o mesmo tornou-se um clássico da história contemporânea, como milhões de exemplares vendidos em todo o mundo. Para um leigo, mas muito interessado em História (uma disciplina fundamental a que cada vez se liga menos) o livro é simplesmente soberbo. Porque é que os nosso historiadores não escrevem textos assim em vez de se perderem com bizantinices tecnicistas que ninguém lê? E eu que já nem me lembrava de que era possível ler um livro de História por prazer…

Gombrich fez-me sentir de novo como a criança que ouvia, encantada, as histórias que os mais antigos contavam. É um grande comunicador, escreve com uma simplicidade magistral. Depois de ler este livro fiquei a pensar que foi ontem que Napoleão invadiu o Egipto (imagine-se, o avô de Gombrich viveu naquele tempo) que os avós dos avós dele assistiram ao triunfo da guilhotina na revolução francesa e que os avós dos avós dos avós dele ouviram falar da descoberta da América praticamente em directo… Se pensarmos bem, D. Afonso Henriques não viveu assim há tanto tempo como isso, foi só há cerca de 10 gerações atrás… Gombrich mostra-nos como a história é importante, dá-nos a consciência de como estamos tão profundamente ligados ao passado e de como isso é importante para nos compreendermos agora. Este livro devia ser obrigatório para todas as crianças que, ao fim e ao cabo, somos todos nós…