08/05/07

O Cabrito do Barão, por Mangas


Fez em Março um ano que nos encontrámos em Revenga de Campos, pequena aldeia perto de Palencia, com os nossos amigos bascos. Chegamos em comitiva, seríamos dez ao todo, já passava da meia-noite, algum cansaço da viagem, fome e sede também as levávamos. Apesar da hora tardia e do breu nocturno não foi difícil encontrar os bascos: aguardavam-nos cá fora, os Prieto e sus muchachos, de volta de uma enorme fogueira que sinalizava a entrada da bodega onde nos reuniríamos. Logo fomos recebidos com aquela genuína alegria que sempre os caracteriza e mergulhamos num ambiente fenomenal de boa disposição e fiesta. As boas vindas não podiam ter sido mais acolhedoras e a noite estendeu-se generosa àquele convívio fantástico de boa comida, vinhos de adega, cânticos e amizades renovadas; não havia ali espanhóis e portugueses, falávamos todos a mesma língua, éramos todos irmãos. Algumas horas mais tarde, a comitiva partiu para descansar em casa dos nossos anfitriões.

E é aqui que a tragédia toma proporções de hilário. A gula fermentada dos calzots (raízes de pequenas cebolletas que se comem assadas e mergulhadas em salsa catalã), e das lascas de bom queijo de ovelha, dos tintos Rioja e das postas de vitela na brasa ao sal, tudo isto metido para dentro num ambiente de perfeita algazarra e números de stand-up comedy levados a cena por um local-red-neck que cantarolava modinhas castelhanas emitindo grunhidos pela traqueia esticando-lhe a pele como a um berimbau – pareciam roncos de matracas obstipadas, só visto! - tudo isto dizia eu, e mais alguma coisa, foi peso a mais para o estômago filigrana do nosso querido Barão habituado ele que estava ao requinte dos bons tascos de Dublin e à belle-cuisine de Paris. Mais tarde, o pequeno trajecto de carro entre a bodega e a casa dos Prieto em andamento Michelle Mouton, matou-lhe, em definitivo, as entranhas de sangue azul. Num ápice apercebemo-nos que o Barão passa mal! Tez pálida como leite desnatado, olhar macilento e perdido num ponto fixo, em passinhos arrastados abandonou a geada acolhedora da noite palenciana e encaminhou-se, como pôde e sob escolta, à sanita mais próxima.

Aquilo não foi um cabrito: foi um borrego nutrido e aos saltos que lhe devia ter dado umas valentes marradas no estômago para sair cá para fora. Carga ao mar! Mar morto, pois pacífico já ele tinha sido, tamanhos eram os vagalhões a martelar-lhe as tripas, nem chibatadas a zunir pelas costelas abaixo deveriam ter tamanha repercussão da figadeira ao esófago. Demorou alguns minutos a primeira descarga, durante os quais, cá fora, com a porta aberta para não perder pitada do abate, a malta espojava-se e torcia-se na galhofeira, pois que por cá a mafarricada nunca se ri do bem ou da boa aventurança – se é desgraça colectiva ou mortificação pessoal que daí não traga mal ao mundo, a risada é à desgarrada e não despega enquanto o sossego não vier pela alma escolhida em sortes. E abate de borrego é prato raro, como tal, apreciado como poucos. Mas à alma, o Barão naquela noite encheu-a de sustento, e foi o que o salvou!, pois que de corpo estava ele podre até às entranhas como um febrão tropical, nem o paludismo ameaça assim – por bem menos li que barbeiros faziam sangrias de alguidar.

A segunda vaga foi ainda mais implacável! Enquanto os Prieto escaldavam chá de tília, as descargas eram cada vez mais violentas, mas o cabrão do alien não havia meio de sair todo cá para fora. Aguenta-te Barão! E ele aguentava-se como podia, estoicamente, o facies cadavérico em estilo «afasta de mim esse cálice Pai», o semblante curvado ao peso da derrocada, óculos embaciados da refrega, alguns gemidos cambaleantes eram o seu único sinal de vida – tivesse ele tempo para testamentar que, aposto eu, da mente turva não lhe teria fugido tal lembrança. Entretanto, e para que de honroso companheirismo não seja mesquinho este relato, convém dizer que o Vermeer permaneceu sempre a seu lado. Pouco podia fazer naquelas circunstâncias, é certo, mas ele ali permaneceu sem arredar pé do lado do Barão, confortando-lhe o espírito à deriva e limpando-lhe os suores como um bom cristão. Contudo, e para que a verdade dos factos perdure impoluta, devo também fazer referência ao alma negra que, provavelmente tendo-se lembrado não ter rolha por perto para servir de tampão às goelas do Barão de onde S. Gregório fazia aparições a cada trinta segundos, se propôs enraba-lo de forma a tratar o mal pela raiz. E por ali andou ele durante algum tempo, de mansinho e à socapa, como uma pega a chocar os ovos, treinando os gestos, à espera de um descuido ou cuidando de apanhar o Barão desprevenido e de gatas para lhe administrar a terapêutica fatal. Tal nunca chegou a acontecer por prudência do destino e vigilância atenta.

E o cabritanço lá amainou porque mais não havia para expurgar. A tisana dos nossos anfitriões alcançou o seu efeito calmante, e o Barão alcançou pé firme depois da tormenta: resgatado das trevas onde deixou suores e alguns quilos de intestino, restou-lhe ordenar aos joelhos quase vergados pelo esforço que subissem as escadas e o atirassem para o enlevo dos lençóis. Deixamo-lo entregue ao merecido repouso já a aurora rasgava pelos quintais de Revenga adentro. O rescaldo dessa noite memorável fez-se na cozinha, em silêncio contido, para não incomodar o Barão, pois, naquele momento, até um pau de cera apagado era mais viçoso.

Há uma semana atrás, à mesa com dois leitões e por ocasião da visita dos nossos amigos bascos a Coimbra, confessava-me o Barão quando foi recordado o incidente:
- Cum caralho, havia de me ter calhado logo a mim! Hão-de passar anos e séculos que desta nunca mais me hei-de livrar…!

Pois não, meu caro Barão, lá nisso estás tu certo. Em Outubro voltaremos a Revenga e com um pouco de sorte talvez calhe a outro, quem sabe - porque nunca é demais esperar uma cereja no topo do bolo. E até lá, que Nosso Senhor nos livre do fastio e nos guarde do cabritanço.

07/05/07

Os anos 70 no cinema americano - II: O Advento dos Psicopatas

É em 1971 que a década de 70, cinematograficamente falando, começa efectivamente. A Laranja Mecânica de Stanley Kubrick, ou o Get Carter com Michael Caine, ou ainda os Cães de Palha de Sam Peckinpah, mostram como o sonho hippie está esvaído. Agora, os temas são a violência gratuita, o psicopata consciente, a brutalidade organizada, a selvajaria dos instintos primários, a cobiça, a inveja, a desconstrução do mito do comunitarismo idílico e primitivo, em suma, a ressaca da década do amor.

A América tradicional, digerida a experiência do Verão de S. Francisco, das experiências alucinogénias de Thimothy Leary, da ritualização adâmica de Woodstock, regressa à realidade traumática do quotidiano. Hollywood busca novos heróis que confrontem a América com este retorno, como se fora necessário arrumar a casa num regresso à ordem.

Clint Eastwood afirma-se neste contexto e interpreta esta ansiedade. Como ninguém. Harry Callahan, o Dirty Harry de 1971, constrói-se com a plasticina mítica dos heróis solitários do Oeste Selvagem, mas é diferente, muito diferente, porque adaptado aos tempos pós sixties. A América ergueu-se nessa crença nos valores do individualismo que tiveram no colt a expressão de um voluntarismo épico e no Oeste selvagem o seu palco de concretização. Nunca uma prótese serviu tão bem um propósito como o colt no cinturão de um cowboy! Patton sabia isso muito bem. Neste sentido, o Smith & Wesson Magnum 44, que Eastwood popularizou, exorbita na dimensão e na carga simbólica o paradigma representado no colt dos primórdios. Tal como, aliás, o tipo de herói que Eastwood representa. Eastwood está para Wayne como a Magnum 44 está para o colt. Harry é brutal frio, parco de palavras, pragmático, sem remorsos, solitário, nem sequer tem mulher, o que faz dele uma espécie de sacerdote. Imune à hipocrisia da política, tem aversão ao discurso e à imagem públicas, dono de um humor negro e cáustico que, creio, mais tarde Schwarzenegger explorará, Harry Callahan tem o carácter que melhor se adequa às novas ameaças e aos novos criminosos. Despreza os media e o seu papel mitificador na nova sociedade americana. Na verdade, os media, e acima de todos o cinema, contribuíram para tecer uma imagem romântica do criminoso, fazendo da polícia a face negra do binómio.

Eastwood propõe-se recolocar os termos no justo lugar, daí que inicie o filme com uma homenagem aos polícias de S. Francisco mortos em serviço, na mesma medida em que não tem contemplação para com a imagem do fora-da-lei: é um psicopata que mata gratuitamente. Clarificam-se os papéis, depois das relativizações que fizeram dos gangsters heróis românticos ou dos vietcongs combatentes da liberdade. O psicopata é a nova ameaça, já não um outlaw à maneira do velho oeste, um ladrão de cavalos ou, muito melhor, um Jesse James. Nem tão pouco um John Dillinger ou Bonnie & Clyde, envoltos numa aura de mistério e romantismo, como que tendo a criminalidade atenuada pelo ambiente da Grande Depressão e por um idealismo vagamente vitimizado, imagem que o filme protagonizado por Warren Beatty e Faye Dunaway em 1967 contribui decisivamente para perpetuar. Afinal, nem Beatty nem a bela Faye têm rostos que encarnem criminosos violentos. Este tipo de gangster, mafioso e culturalmente enquadrado nos valores sicilianos da comunidade ítalo-americana, teve o seu expoente em Al Capone, contextualizado na era da Grande Depressão, e serviu de inspiração para uma série de filmes e para um tipo hollywoodesco que, desde James Cagney a Marlon Brando, teve inúmeros protagonistas de sucesso, ainda que, em 1975, Al Pacino represente caricatural e magistralmente o fim deste tipo de assaltante, no memorável filme de Sidney Lumet Um Dia de Cão onde o papel dos media é ironicamente questionado.

Este tipo de gangster acabou. A América entra na era do bandido psicopata. Harry Callahan combate-o, com uma Magnum calibre 44.

06/05/07

Sent by se7en

Contribuição do seven, do excelente o b v i o u s, a propósito de alguns posts aqui publicados:

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Os anos 70 no cinema americano - I : Morrison mata Patton

Cinematograficamente falando, a década de 70 começa em 1971, porque 1970 é o ano da estreia de Woodstock. É certo que o relativo sucesso deste filme é o melhor epitáfio ao idealismo hippie do summer of love pois, sendo um testemunho, isto é, um documentário, tem o futuro como destinatário, pelo que é já um exercício de memória. 1970 é, por outro lado, o ano de Patton protagonizado por George C. Scott. É também um documentário biográfico, ainda que se apresente no género narrativo e tenha como co-argumentista um dos protagonistas da década: Francis F. Coppola, que ganhou aqui o seu primeiro Óscar. Coppola é já um génio, mas é ainda um gérmen. Patton e Scott, 25 anos depois do fim da Guerra, comprovam o esgotamento de um tipo de personagem e de actor que, malgrado terem sobrevivido à década da contracultura, não sobreviveram ao esgotamento da contracultura. O fim do sonho hippie não implica o regresso aos valores tradicionais, Patton é o último dos generais feitos sob o código da honra cultivado em Westpoint. Doravante, sob a égide de Nixon, os generais mentirão: Oliver North e Colin Powell atestam-no.

O modelo Patton não é retomável, assim como não há retorno ao modelo americano que se revia nos Westerns de John Ford. Patton / Wayne é, desde os alvores da década de 70, o passado da América. A morte deste modelo é ainda, de um certo modo, susceptível de uma leitura freudiana, pois que o fim premeditado das figuras tutelares e paternalistas representadas em George S. Patton e John Wayne é afinal libertadora. Na verdade, a América ficou escandalizada quando ouviu Jim Morrison, ele próprio filho de um almirante da Marinha norte-americana que prestou serviço na Grande Guerra, a cantar, berrando alucinadamente, que queria matar o pai e foder a mãe.

Morrison morreu em 1971. A sua morte marca o fim do flower power, ele que nunca foi exactamente um hippie, pelo que mais correcto é afirmar-se que a sua morte foi sacrificial porque libertou a América da subordinação ao modelo paternalista, marcando assim o início da década de 70.

05/05/07

Eu Nem Sei como se Chama a Nossa Tasquinha de Fim de Golfe, por Pargo

Receio que este post seja repetitivo. A felicidade é repetitiva e este post é sobre um dia feliz. Já o aqui escrevemos muitas vezes e espero que o continuemos a escrever muitas vezes mais. Acontece que fomos ao golfe a Viseu, eu, o Zé Reis, o Grão e o O Filósofo Que Não Bebe.

Jogámos mal como sempre mas rimo-nos comó carago e o dia esteve perfeito. Estes últimos dias de chuva, então, fizeram com que a natureza rebentasse com força por todo o lado. Nesta altura do ano, o campo tem dezenas de tons verdes, todos diferentes. O sol estava forte, mas agradável. E ao fim do dia desce uma tranquilidade e um silêncio sobre os farways que nos faz sentir, a todos, verdadeiros Tigers. E é preciso saber jogar golfe para se sentir esmagado com tudo isto? Ná. Os tacos, as bolas e os sacos, compõem, ok. Mas eu gostaria de passar um dia inteiro no campo de Montebelo, com o clima perfeito como o de hoje, mesmo que não soubesse sequer pegar num taco de golfe.


Ao fim do dia, eram 7 horas mais coisa menos coisa, fomos petiscar a um sítio secreto que só nós sabemos onde fica e, esqueçam!, não dizemos a ninguém onde é ( o Cão (http://www.canildodaniel.blogspot.com/)também sabe onde fica, mas ele também não diz). A ideia era estar em Coimbra às 8.30. Ás 9 inda lá estávamos. Aquele sitio é fabuloso. Trata-se de uma tasquinha com um pequeno jardim com árvores e uma latada, com uns velhotes a jogarem à sueca e mais uma malta como nós a petiscar. O sítio é calmo e eu não sei bem o que vem a ser aquilo, se um café, se um restaurante, se uma tasca, se uma associação recreativa… Sei que nos tratam bem, sei que se está lá bem e que se comem caracóis, punhetas de bacalhau, pipis, moelas, pica-paus, ossos e boés de cervejas Abadias pr 6 euros. Não sei se aquilo é um sítio, no sentido espacial ou temporal do termo, porque sinto, sempre que lá vou, que andámos 20 anos para trás no tempo. Ao fim da tarde está-se lá bem e esqueçam, já disse que não digo a ninguém onde fica o nosso buraco 19 de fim da tarde. De qualquer modo este post também é só pa fazer pirraça ao Kzar que andou a apanhar trutas em S. Miguel e a atirar-nos à cara com o seu dia perfeito (http://ocatilinario.blogspot.com/). Também nós. Mas a sério, há dias assim e é uma pena as trutas do Kzar estarem tão longe. Mesmo depois das moelas e dos pipis e daquilo tudo ainda marchavam à ceia. Ai marchavam!

04/05/07

Fucks de Medicina!, por Mad Doctor

Hoje ouvi nas notícias os gajos de Bragança a queixarem-se da falta de médicos. Os médicos não querem ir para Trás-os-Montes, os médicos são um bem escasso, escassíssimo neste país e o que vale aos Transmontanos e a outros portugueses isolados, são os médicos espanhóis. Dizem as entidades competentes bragantinas que, a médio prazo, não haverá médicos suficientes na região senão houver um apoio à fixação da classe na região (ou se os espanhóis não os vierem salvar, uma vez mais). Eu acho que não são precisos apoios especiais nenhuns. São precisos, isso sim, é mais médicos!


Esta situação que, aliás, não é um exclusivo da terra das alheiras, mas um mal geral da nação, é absolutamente escandalosa. Não há ninguém que não saiba porque é que há falta de médicos em Portugal. É simples: não há médicos por causa das pressões das organizações corporativas dos médicos que não querem «inundar» o mercado. Se de repente os médicos se tornassem um bem abundante até podiam acabar as consultas privadas a 70 e 100 euros… Não há médicos, ainda, por causa da demissão e do laxismo dos sucessivos governos do país que tinham a obrigação de actuar, mas que deixam andar, de modo a não incomodarem os verdadeiros lobbies poderosos.


Não há falta de matéria prima em Portugal. Todos os anos ficam às portas das faculdades de medicina milhares de alunos inteligentes, dedicados, capazes e com excelentes notas. O que é que lhes falta? Nada. Apenas não partilham da filosofia de vida dos seus colegas que chegaram ao patamar do 19 em vez de se ficarem pelo 18 ou pelo 17. Há muitos alunos do secundário – e eu acho que bem – que pura e simplesmente não querem fazer da sua vida uma estopada de marranço. Querem - e quanto a mim devem - viver e não apenas e só marrar, marrar, marrar… É essa a diferença entre muitos dezoitos e dezanoves: uma questão de filosofia de vida que não de vocação nem de capacidade (nem tão pouco de capacidade de trabalho porque um aluno com média de 18 não é propriamente um langão)… Não faz sentido desperdiçar esta excelente matéria prima para depois se ir recrutar médicos a Espanha ( e não tenho nada contra eles, muito pelo contrário, são bem vindos, a questão está tão só em aproveitarmos, também, os nossos jovens).


O argumento de que não há meios económicos para fazer mais faculdades de medicina (as que existem já estão cheias) é completamente poltrão num país que fez 10 estádios de futebol que, na sua maioria, estão às moscas. O país apresta-se para fazer a Ota, o TGV e é especialista em rotundas disparatadamente caras. Só de má fé se pode justificar que não há mais médicos porque não há dinheiro para fazer mais faculdades de medicina nem para pagar a professores… Não há mais médicos porque os lobies médicos não querem e os governos se demitem das suas obrigações.


E é por isso que eu acho que Bragança é uma lição e que o abandono do interior – valham-nos nuestros hermanos – é criminoso. Mas talvez ainda haja uma solução. O Ministro do Ensino Superior, o doutor Gago, não qualificou o percurso académico do primeiro ministro, Pinto de Sousa, como «exemplar»? Ora aí está uma solução: era dar-lhes cadeiras, aos jovens aspirantes a médicos, do mesmo modo que as deram ao Ingenheiro. Poupava-se uma pipa de massa em faculdades e ainda sobrava dinheiro para fazermos mais uns estádios. Em Bragança, sei lá…

03/05/07

Kandi Barbour, The Puffies Queen, por QueijoCorso

Kandi Barbour é mais uma estrela da Golden Age Of Porn. Contracenou com os míticos John Holmes, Seka, Jamie Gillis e outros galácticos. E devido à raridade da forma dos seus seios, rapidamente alcançou notoriedade e mesmo o estrelato, que a fez figura principal de vários filmes. A Kandi como podem ver pelas duas primeiras fotos – que são mazitas, tenho cá boas mas são demasiado explicitas e isto não é um blog bardana -, tinha as mamas em forma de bolota. Foi ela a criadora de uma temática nova no porno que era, e é, as Puffy Nipples. E logo ganhou uma alcunha: “The Puffies Queen”. Além das bolotas puffy a menina distinguia-se ainda pela forma energética de actuar, somente comparável à eléctrica Traci Lords.

De seu nome Linda Jean Smith, a rica nasceu no Kansas (a Seka também era de lá, o que demonstra que o Bible Belt é terra de muita fartura), e estreou-se nas revistas de homens por onde andou vários anos, até que em 1975 faz o seu primeiro filme porno. Em 1983 e com apenas 35 filmes a rainha dos puffy nipples retira-se de cena.

Ao invés das suas colegas que sempre se refastelam por centenas de filmes, a Kandi ficou-se pelos 35 filmes, o que no mundo porno nem dá para aquecer. Lembremos que o Rocco Sifredi fez mais de 1600, Holmes mais de 2000, a Seka que cedo se retirou mais de 130, a Amber Lynn mais de 300 e a Nina Hartley mais de 500. E fica a pegunta: porque raio se ficou a Puffy Queen pelos 35?

É que, como sempre, não há bela sem senão. A nossa menina para além da maravilha dos maiores marmelos puffys da história do porno, sofria de um problemazito nas partes baixas. Não é fácil explicar a coisa, mas indo directo ao mau cheiro, havia actores que desmaiavam e juravam que havia alguma coisa morta lá em baixo. Kandi Barbour exalava um fedor imundo e cheirava mal da coisa. Destilava dali um cheiro tão demente que não havia sabão macaco ou rexona que aliviasse os obrigados ao mergulho na zona.

02/05/07

O Deus Único E O Mal, por Heresiarca


Desde os primórdios dos tempos que os homens se confrontaram com a existência do Bem e do Mal. O que levou desde logo ao nascimento mitológico dos deuses bons e de deuses maus. Tentava-se invocar um e aplacar o outro. É que tratando-se de dois opostos, era difícil à lógica humana conjecturar a coexistência do Bem e do Mal num único Deus. Como Diz E. P. Sanders no seu livro “A Verdadeira História de Jesus”: “Uma religião que defende que existe um só Deus tem dificuldade em explicar o mal. Foi o Deus bom e único que criou o mal? Porque o permite Ele?”

O Velho Testamento não tem o Inominado como nós o concebemos. O Génesis coloca a serpente a tentar Adão e Eva, mas não lhe atribui nenhuma maldade especial, nem nenhum desígnio maligno, e muito menos um papel de rival de Deus ou dotada de poderes supra-humanos. Satan aparece depois mais à frente no Livro de Job, mas aí é apenas um dos anjos do Senhor que lhe destila nas orelhas a dúvida pela fidelidade de Job. Como diz o povo, quem se lixou foi o mexilhão e Job sofre as penas mais duras de todo o velho testamento. Job safa-se à tangente, mas Deus não sai bem do episódio. Desde logo conclui-se que o Senhor também pode ser tentado. E depois, que o poderoso pode ser particularmente cruel, mesmo com os seus mais fiéis. Mas adiante, certo é que além deste dois episódios, não há mais “diabo” no Velho Testamento.

Segundo Sanders, os Judeus mudaram a sua concepção de Deus após o exílio na Babilónia. Até então, os Judeus não eram completamente monoteístas. Afirmavam a superioridade do seu Deus, mas admitiam a existência de outros deuses. O Mal vinha deles. A palavra hebraica “Satan” não designava o Deus do Mal ou uma entidade maligna superior, mas sim “o adversário” ou “o deus das outras tribos”.

Contudo e após Babilónia os Judeus professaram então o monoteísmo. Passa a haver Um Único Deus. Todos os outros são falsos. E após isto os Judeus confrontaram-se com a velha questão. Como conciliar a existência do mal com um Deus único. Mas que raio de Senhor todo-poderoso, omnipotente e omnipresente é este, que permite ou pior ainda, também cultiva o mal?

Daí que os Judeus sentiram a necessidade de dar outra dimensão ao maligno. E se bem sentiram, melhor o fizeram e foi então atribuída outra dimensão a Satan. Assim foi criado o Demónio. No Novo Testamento já Satanás aparece a tentar o JC em cada esquina. Como oposto a Deus e sem responder perante Ele.

A mudança dá-se também por influência do exílio da Babilónia. É que na Babilónia, os Judeus contactaram com o Zoroastrismo, cuja concepção base, radica na existência de dois opostos com dois senhores: o Bem e o Mal. E entre muitas outras coisas, o Judaísmo foi buscar ao Zoroastrismo o “dualismo persa” e a ideia do conflito entre Deus e as forças do Mal. Não abandonaram o conceito de Deus único, mas a maldade foi atribuída a um outro ser superior, não um Deus do Mal, mas um demónio dotado de muito. O quantum ainda hoje se discute.

Mas, por muito que se afirme o monoteísmo do Judaísmo e “pour cause” do Cristianismo, certo é que há um Senhor do Mal. O Inominado, Demónio, Satanás, Lúcifer, senhor das chamas e dos infernos. Tentador, quentinho e Poderoso, claro. Como só um Deus o pode ser.






Fontes: E. P. Sanders no seu livro “A Verdadeira História de Jesus” de E.P Sanders; A Criação de Gore Vidal, Génesis e o Livro de Job, e Borges no livro de Maria Vazquez. Na foto, uma das gravuras de William Blake.

30/04/07

Ombros & Omoplatas no país da bitaitada, por The Shadow

O blog do Provedor do jornal «Público» divulga uma carta de uma leitora que denuncia uma calinada de tamanho XXL de um entrevistador do jornal, de seu nome João Bonifácio. No suplemento Y, o entrevistador conversa com o fadista Camané. A dada altura falam de Brel e da letra de Ne Me Quitte Pas:
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien

Então não é que o moço traduziu por ‘‘Deixa-me ser (...) o ombro do teu cão...”!

Vai daí, o fadista, que não quis fazer figura de ignorante, chutou para a frente e mandou bitaite:

«CAMANÉ: “Ele queria ser o ombro do cão dela porque queria era estar ao pé dela, não queria que ela o deixasse. E nessa fase da canção existe o desespero: nem que seja uma mosca à tua volta, o ombro do teu cão, qualquer coisa, mas que eu possa estar ao pé de ti.”»

pico câncio de saramago, por Kzar


Giovanni Pico della Mirandola (1463 - 1494), um célebre sábio do Renascimento «recolheu em 900 teses todo o saber acumulado pelo Homem e propôs-se discutir a súmula na praça Romana, custeando as despesas a quem se dispusesse a enfrentá-lo.»

não é que tenha alguma coisa a ver com o assunto do pico mas se esse gajo era assim tão bom porque é que foi a fernanda câncio que descobriu a cena de escrever sempre sem maiúsculas e o saramago a de escrever sem vírgulas nem pontos nem parágrafos descobertas criações grandiosas da modernidade jovens ao máximo que eu estou pela primeiríssima vez a usar em conjunto para meu exclusivo crédito e a que a partir deste exacto momento acrescento uma invençao da minha exclusiva lavra que e tambem nao por acentos nem tis nem o catano a nao ser o ponto de interrogaçao no fim desta merda? e viva a f cancio penedo

27/04/07

Cachimbo o tanas, por Renato Magrito



pic retirado de http://www.cestlemien.over-blog.com/article-357826-6.html

25/04/07

Yes! Ele pode ir, por Yaúca


O assunto da semana devia ser a constatação do excelente e eficaz funcionamento do nosso Serviço Nacional de Saúde. O caso da doença do excelente Pantera Negra, vulgo Eusébio, é a prova disso mesmo. Eusébio teve um problema numa artéria no domingo e hoje, terça feira, já foi operado, correu tudo bem e, felizmente, já tá pronto para apoiar o Glorioso. E ainda dizem que há filas de espera? É mentira. Felizmente vivemos num país onde, na área da saúde, qualquer cidadão tem direito a um acompanhamento rápido e eficaz independentemente de ter sido um mega craque na arte do chuto no esférico ou de nunca ter passado de um mero distrital da bola.

Mas os media não gostam de temas como este. Se eu fosse Marciano e aterrasse na Terra,mais precisamente, aqui em Portugal e consultasse os jornais do dia, se ouvisse a rádio e visse a TV hoje, diria que a questão da semana, a pergunta fracturante que está a dividir 10 milhões de Portugueses é esta: após o sucesso da operação, deve o Pantera ir ver o jogo à luz entre o Glorioso e a lagartagem?

Como faço todos os dias, hoje li A Bola. E lá estava na primeira página, a notícia do dia, plena de regozijo: «Eusébio vai à Luz». Uff, ainda bem, já tou mais aliviado... Ao meio dia ouvi um senhor doutor que tinha operado o eusébio a exprimir também a sua douta posição: «do ponto de vista médico não há qualquer contra-indicação. Eusébio pode ir à Luz». Mas parece que este médico é sportinguista e o nosso presidente, que ninguém o toma por papalvo,ai isso nem pensem, fosca-se, pronunciava-se ao fim do dia: «o zébio não deve ir à Luz. Não é bom para a saúde dele e o Benfica precisa do zébio. Ele quer ir à luz, mas alguém vai ter que o segurar aqui em casa. Nem que venha eu pra cá». Embrulha! Entretanto, assumindo a superior pose de estado que coloca os interesses da Nação acima dos interesses do benfica, o presidente da federação portuguesa de futebol, defendeu que o importante «é ele estar bom para os próximos jogos da selecção com a Bélgica e a Arménia» (sic).

De modos que depois de lidos os jornais, ouvida a rádio e vista a Tv, falta que a blogosfera, o mais moderno e democrático de todos os media, se pronuncie também: afinal, o eusébio deve ou não deve ir à Luz?