30/05/07

O post da greve geral, por grevista


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Rock Never Dies, por Pop Line

Entendamo-nos: se a música deles fosse meramente um produto standard-americano, tipo rock FM ou Radio Friendly, eu passava em frente. Há milhares de grupos em todo o mundo que fazem música-pastilha-elástica com a chancela Made in USA ou simplesmente Inspired by USA. Basta ligar a rádio, aqui ou na China, e lá está a música americana. Até fede. É o McMundo em todo o seu esplendor.


Os Blood Hound Gang fazem música americana? Sim, sem dúvida. Já ouvi até quem os acusasse de serem excessivamente americanos. E são. Mas é justamente por esse excesso de América que os acho interessantes. A música deles é tão, mas tão americana que acaba por se tornar étnica. É tão étnica como a música da Cesária Évora, do Nusrath Fateh Ali Khan ou do Ravi Shankar do velhos tempos.


Nem tudo na América é standardização. É certo que identificamos frequentemente identifica-se a cultura americana com os seus denominadores globais. Há quem fale mesmo na Globalização como a imposição de um localismo à escala mundial, referindo-se à exportação maciça dos modelos americanos. Há até quem fale no Império Americano. Mas, por outro lado, também há um lado genuíno na cultura americana que inclui a Pop Art, o Grunge, o Ry Cooder, o Sam Shepard, o Johny Cash, o Hip Hop ou o Howard Kanowitz ou os motéis de beira de estrada…


Os Blood Hound Gang apanham como antenas tudo o que faz parte da afirmação americana das últimas décadas: o punk, a electrónica, o heavy metal, o hip hop, tá lá tudo. Junte-se a isto a imagem tipicamente americana de hooligans apalhaçados e as letras maradas e aí os temos. Jimmy Pop, o vocalista, é, hoje, um verdadeiro ícone dos Estados Unidos.


Curiosamente, a primeira vez que ouvi uma música deles foi num documentário, salvo erro do Michael Moore (outro americano!). A música, que é hoje o maior clássico do repertório da banda, chamava-se: Fire Water Burn A letra, forte, muito forte, para mais naquele contexto de guerra, reza assim:

The roof, the roof, the roof is on fire
The roof, the roof, the roof is on fire
The roof, the roof, the roof is on fire
We don,t need no water let the motherfucker burn,
Burn motherfucker burn!


Moore recolhera entrevistas a soldados americanos em luta no Iraque que confessavam que a bordo dos tanques ou simplesmente nos headphones pessoais, a música mais ouvida era esta. Parece que os Marines curtem mesmo Blood Hound Gang, mas os xiitas da jihad é que não devem gramá-los mesmo nada!

28/05/07

A Clientela, por Jovem Analista de Clientes


O prometido é devido e, como tal, eis aqui uma amostra parcelar mas significativa (condicionada pelo facto do sitemeter só mostrar as últimas cem visitas) do que querem e ao que vêm os visitantes do tapornumporco.
Sem qualquer edição, tal como vieram ao mundo num motor de busca, quase sempre o google, eis aqui os termos de pesquisa que trazem ao tapor dezenas de clientes.
O facto de aqui terem chegado com aquelas expressões mostra para já o carácter eclético do blog, mas é sem dúvida um exercício curioso que deverá ser repetido regularmente.
A análise sócio-psicológica fica para os gróinks, mas desde já se oferece um brinde a quem souber o que é um “sequente”.

Best of:

Por que, geralmente, os motéis ficam fora da cidade?
Tinky Winky
karen jardel nua
Sofia aparício nua
Carla andrino nua
fotos de fafa de belem "nua"
fafa de belem nua
sonia nua
SONIA ARAUJO NUA
fotos de crianças alemãs na praia
Piroca
Entrevista sociológica
mijadelas+putas+sexo
"a origem da tragedia" de nietzche resumo por capítulos
por detras da porta verde
videos de sequentes
lenda sobre navegações de longo percurso contadas pela igreja
putas na estrada
as coisas que ajudam o homem
baliza ginasta
portugal sushi sashimi parasitas

E ainda:

Tabaco de enrolar; caren jardel; john stagliano; Little Oral Annie; vertigo alfred; apocalipse now final diferente; os bebedores caravaggio; Matilde Sousa Franco; cabanas de Viriato; diferença perfume e aromas; imperdoável; ANÁLISE DE A ARTE DE AMAR OVÍDIO; considerações sobre a dignidade na obra de miguel delibes; Ana Anes fotos; imagens de ma formaçoes a nascença; nelson goodman; paula rego - os mexilhões; Kasimir Malevitch- Quadrado Negro; duda guennes; Tendencias progressivas libertadora.

PEFs, por Cão

O problema é essa avantesma, esse falso jovem, essa instituição, essa estátua viva: o Professor de Educação Física!

27/05/07

Imperdoável e o Western - Epílogo: O Duelo Final, por Mangas

Clint Eastwood, com uma simplicidade de processos absolutamente ímpar que assenta numa total ausência de enfeites técnicos, em diálogos inteligentes e silêncios reveladores, e na natural maturação de cada personagem, mantém-se fiel à história que quer contar. No trajecto não lhe escapa um duelo final, momento culminante do género do qual citarei três modelos clássicos dos quais foge deliberadamente - o ritual suspenso em intermináveis segundos no confronto um para um de Aconteceu no Oeste (Leone, 1969) – o auge da tensão entre a harmónica de Charles Bronson contra o grande plano do azul gélido no olhar de Henry Fonda; a sexualidade de Duelo ao Sol (King Vidor, 1964) com Gregory Peck e Jennifer Jones (Pearl Chaves foi o animal fêmea mais fatalmente lascivo e sexual de todas as história de cow-boys!) - encobertos pelos rochedos a céu aberto, proferindo promessas de amor e, ao mesmo tempo, descarregando chumbo na carne que os devorou, os amantes acabam nos braços da morte um do outro; a tensão e pólvora no duelo de Gunfight at Ok Corral (John Sturges, 1957) - os irmãos Earp e o tuberculoso Doc Hollyday ao nível câmara enterrada no pó contra os Clanton em alinhamento de fogo.

Em Imperdoável, o único duelo de registo não o chega a ser porque um ajuste de contas não espera costas cobertas chegada a hora, tal como o que não tem perdão também não se compadece com atenuantes: numa noite de silêncio e trovões, o corpo de Ned jaz em pé entre duas tochas que iluminam o Diabo que dança à chuva, pais e filhos escondidos nas miseráveis barracas, putas recolhidas às janelas da tempestade, a metamorfose de Munny recebe o Dançarino na alma e uma garrafa de uísque na garganta, pela qual o primeiro expressa, inquestionavelmente ao que vem: I've killed women and children. I've killed just about everything that walked or crawled at one time or another, and I'm here to kill you, Little Bill, for what you did to Ned. Dentro do saloon, a carabina em punho nunca vacilou, nunca duvidou, deu-lhes apenas tempo para acariciar as coronhas e, de consciência formada, executou o serviço à queima-roupa que tantas outras vezes tinha aprendido no passado.

Final alucinatório, explosivo, crepuscular! Um misto de Táxi Driver (Scorcese, 1976), em punishment executado sem misericórdia, e Shane (George Stevens, 1953), a partida depois de reposta a ordem natural das coisas, o voltar de costas em abandono completo. Não aparece um miúdo a correr que grita " Shane! Shane! Come back!". Debaixo do aguaceiro, surgem apenas as putas silenciosas, o biógrafo Beauchamp e dois adjuntos do xerife incapazes de disparar contra o fantasma que regressa a casa.

As últimas palavras de Little Bill foram: I don't deserve this. To die like this. I was building a house.

Nos créditos finais do filme, Clint Eastwood dedicou-o aos mentores: To Sergio and Don.

25/05/07

O Comment Mortal, por Killing Joke

Há palavras que nos marcam para sempre. Palavras que, graças a Deus, dissemos e que mudaram completamente a nossa vida. Palavras que, uma vez ditas, fizeram de nós pessoas muito diferentes das pessoas que seríamos se nunca as tivéssemos dito. Bem ditas!

E há palavras que nunca devíamos ter dito. Há pessoas que já nem conhecemos pelo nome – quando as vemos do outro lado da rua, logo comentamos: «olha, não vai ali o gajo que disse aquilo assim e assim?». Há milhões de palavras que dissemos e que daríamos tudo para nunca ter dito. Malditas!


Entre esta última espécie de indivíduos que se arrependerão amargamente até ao fim dos seus dias por terem dito determinadas asneiras, há um que nos é particularmente caro, aqui no Porco. Trata-se do Mangas. O Mangas reconhece hoje como foi precipitado quando, exactamente às 10 horas e 35 minutos daquela noite fatídica de 16 de Novembro de 2005, veio aqui ao Porco e escreveu… bem…

Sinceramente não me diz nada a Scarlett. Não mexe comigo. Muito pueril, jovem, imaculada e sem sal.
Mas eu, a esse nível de actrizes, também não sou grande referência pós-moderna porque quem me dá tesão mesmo são gajas bólides como a Rita Hayworth, corpos-demoníacos como a Lana Turner, mamas-brochistas como a Kim Novack, sardas-lolitas como a Brigitte Bardot, cus-alçapões como a Kim Novack, miolos-geniais como a Marilyn. Mulheres destas, sim.»

24/05/07

O (Mal) Passado, por Joãozinho MMVII O Relativo

1."A nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, despreza a autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Os nossos filhos hoje são uns verdadeiros tiranos. Não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem aos pais e são simplesmente maus."

2."Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque esta juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível."

3."O nosso mundo atingiu o seu ponto crítico. Os filhos já não ouvem os pais. O fim do mundo não pode estar muito longe."

4."Esta juventude está estragada até o fundo do coração. Os jovens são maus e preguiçosos. Eles nunca serão como a juventude de antigamente... A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura. "

- A primeira citação é de Sócrates (470-399 AC)
- A segunda é de Hesíodo (720 AC)
- A terceira é de um sacerdote do ano 2000 AC
- A quarta estava escrita num vaso de argila descoberto nas ruínas da Babilónia e tem mais de 4000 anos.

A história, mais concretamente o estudo (científico) da história, é um formidável repositório de sabedoria com aplicações muito práticas na nossa vida quotidiana. Entre muitas outras coisas, permite-nos encarar e perceber a vida e as dinâmicas da contemporaneidade com outro olhar, normalmente menos pessimista e negativo. Permite, em suma, colocar as coisas em perspectiva e relativizar um pouco os acontecimentos e o presente. As citações que abrem este poste e que dizem respeito sobretudo aos milenares conflitos de gerações, são apenas um exemplo disso mesmo.
Lembrei-me disto a propósito do discurso recorrente do “antigamente é que era bom” e é que havia respeito, valores, solidariedade e outras coisas magníficas de que o passado invariavelmente está cheio. Tal como o inferno de boas intenções. Hoje em dia está muito em voga em Portugal este discurso, penso eu que fruto da (relativa) crise conjuntural do país, que deu azo, por exemplo, a muitos considerarem que a ditadura salazarista era uma coisa fantástica e gloriosa.
A história é uma das minhas paixões, foi à história que me dediquei na faculdade e é à história que recorro sempre que posso. Ajuda a perceber muitas coisas do presente. E incomoda-me sobremaneira esta tónica fadista no idílico “antigamente”. É uma das idiossincracias da natureza humana, a nostalgia, mas no caso português é um exagero elevado ao ridículo. Regra geral os povos e os indivíduos têm a memória curta e selectiva (os psicólogos explicam que é uma espécie de mecanismo de protecção), mas no caso português abusamos desse traço. Até inventámos uma palavra, a saudade, para carregar no traço da nostalgia e adoramos masoquisticamente sofrer de saudades. Tanto é assim que por vezes dá a impressão que Portugal não tem presente nem futuro, só tem passado. E que esse passado é sempre radioso, ou, no mínimo, muito melhor.
O facto, cientifico e objectivo, é que não foi, nem de longe nem de perto. Apesar dos problemas actuais, não foi e, mais do que isso, nunca foi tão bom (refiro-me ao nosso país, mas poderia estender o raciocínio a todo o chamado hemisfério ocidental), mas é extraordinário como as pessoas abraçam estas convicções absurdas sem reflectir uns minutos no assunto.
Diz-se por exemplo que hoje toda a gente é muito individualista, só pensa na sua vidinha e que antigamente eram todos muito mais solidários e comunais. Não concordo. Nas aldeias e vilas tudo se passa mais ou menos como antes, a malta é toda muito solidária, sim senhor, mas hoje como ontem, até ao limite dos interesses individuais de cada um ou de cada núcleo familiar. Não é por acaso que os projectos sócio-políticos comunais ou colectivistas deram todos com os burros na água. É uma característica da natureza humana, o individualismo, e não é novo.
De resto, sempre existiram excluídos e pobres. E nas cidades também se passa hoje o mesmo de sempre, nem mais nem menos. Hoje como ontem há gente só e abandonada à sua sorte, hoje como ontem há gente que só pensa na sua vidinha e nem vai em conversas e gestos solidários com os mais necessitados. Aliás, tenho para mim que nunca se viram tanto como hoje em dia campanhas e associações de cidadãos mobilizados por causas solidárias, de Timor aos sem-abrigo, são inúmeros os actos de solidariedade, nas cidades e fora delas.
O passado dos povos e das nações (as dinâmicas individuais são diferentes e admito que muita gente terá tido infâncias mais felizes e despreocupadas) nunca foi um sítio idílico e mesmo as comunidades primitivas tinham as suas angústias, guerras e disfunções. O “bom selvagem” só era bom na cabecinha cândida do Rousseau, que nunca viveu certamente entre selvagens. Um neandertal que partisse uma perna, por exemplo, estava feito em bife. O mesmo para um camponês medieval que engripasse ou fosse arrebanhado para as batalhas privadas do seu senhor feudal, onde regra geral era chacinado à catanada.
Os exemplos são tantos que seria fastidioso enumerá-los. A realidade é que, por muitas razões que tenhamos para nos queixarmos do presente, acho simplesmente imbecil traçar comparações com um passado alegadamente melhor. Filhos da puta, políticos corruptos e medíocres, guerras, fomes e doenças, miséria, dívidas e falências, prepotências, barbaridades e crimes, são factores transversais à história da humanidade. O facto é que cada época tem os seus problemas, mas, pelo menos no Ocidente das democracias liberais, nunca a vida foi tão fácil e doce, essa é que é essa.

Imperdoável e o Western - II: A Aprendizagem e a Metamorfose, por Mangas


Imperdoável não tem espaço para cavalheirismos, nem para cortesias e o glamour escapa-se-lhe na violência das armas e nas dores do medo. Dos westerns-spaghetti, perdeu os ângulos de câmara em perspectiva widescreen de Sérgio Leone e as bandas sonoras lancinantes de Morricone, em favor da construção dos personagens; a convencional contagem de cadáveres e a violência despida de rendilhados, no limiar da brutalidade, mantiveram-se como imagens de marca inconfundíveis. E toda a estrutura interna do filme, todos os diálogos e sequências, planos, vão descobrindo a profunda e silenciosa incoerência dos homens e dos rapazes que com eles aprendem o ofício, em última análise, vão revelando o fim de todos os heróis e o futuro negado pelo passado desses mesmos homens.

The Kid padece de uma cegueira patológica a mais de cem pés de distância e de uma cegueira interior para a realidade que o espera. Esconde a primeira para não dar parte fraca, consegue até certo ponto camuflar essa incapacidade com a arrogância e destemor suicidário de um pistoleiro batido, fanfarrão estereotipado como deve aparentar, mas na realidade o mais perto que esteve de matar um homem foi quando partiu a perna a um mexicano com uma pá, treme como varas verdes quando tem de executar o ás da navalha e chora como uma criança ao recordar a cena. Posteriormente, Kid arregala os olhos para a sua segunda cegueira depois do serviço terminado e põe-se a milhas dali para fora, you go on, keep it. I'm never gonna use it again. I won't kill nobody no more. I ain't like you, diz ele a Munny referindo-se à carabina de Ned.

Little Bill, o xerife que valeu o Óscar a Gene Hackman, sendo genuinamente um facínora do pior que a galeria de vilões dos westerns nos deu, impõe uma lei, a sua, à força do chicote e do colt45, mantém a cidade limpa de concorrentes e vai tentando encontrar vocação para carpinteiro na casa (leia-se: Big Whisky) que (des)constrói. Personagem fulcral em toda a história quer na herança violenta que carrega, quer na desmontagem da mitologia heróica de English Bob, um soberbo Richard Harris que encarna o pavão-dandy de saque rápido, tão suave e pomposo quanto mortífero, letal reminiscência do imperialismo britânico que advoga a Monarquia para que presidentes não sejam abatidos a tiro, a propósito da notícia do disparo sobre o presidente James A. Garfield. Estamos no ano de 1981 e lê-se a Cheyenne Gazette numa carruagem do Northwest Railroad. A fama de English Bob precede-o à chegada. Ficará o seu biógrafo a saber pouco depois, do lado de fora da jaula onde o English descansa a cara feita em papas pelas biqueiras das botas de Little Bill, a verdadeira história do abate de Two Gun Corcoran, mas não da forma como o passado heróico do pistoleiro manteve vivo no imaginário colectivo. Veja-se com atenção o ridículo desse momento lendário narrado por Little Bob como testemunha ocular que nos remete para «when the legend becomes fact, print the legend», ou o legado Fordiano desmistificado pela mão de Clint Eastwood no mais puro e duro dos westerns.

E é pelo medo que a personagem de Munny adquire uma extraordinária complexidade e contradição – o mais temido dos assassinos tem pesadelos e sente medo dos fantasmas de todos os homens, mulheres, e crianças que matou, medo do Anjo da Morte com olhos de serpente, medo de morrer e, sobretudo, medo que os seus filhos fiquem algum dia a saber quem ele foi e o que fez no passado, por isso, no delírio da febre e do corpo amassado pela porrada, faz apenas um pedido: Oh Ned, I'm scared, I'm dying. Don't tell nobody, don't tell my kids, none of the things I done, hear me? Na sequência final do filme, o álcool do qual tinha sido curado pela mulher falecida, reencontra a sua verdadeira natureza e a transformação de Munny é completa; não foram uns tragos para ganhar coragem, pois se começamos por ver nele, aparentemente, um tipo misterioso e fechado em crise de identidade, na continuidade da acção, sente-se que na realidade não tem nada a esconder desde que seja ele próprio, um assassino frio e implacável que não vacila no momento de matar - metafórica ironia por oposição que evoca o personagem Dude “Borachon” de Dean Martin em Rio Bravo (Hawks, 1959), caído em desgraça pelo álcool, transformou-se num cobarde sem dignidade e será pela cura ressacada que irá conseguir de novo encarar os inimigos olhos nos olhos. Também lá estão o jovem pistoleiro sequioso de fama, o aleijado voluntarioso, a fêmea fatal e o Duke com a estrela ao peito a limpar a cidade dos vilões por uma justa causa. Imperdoável não se sustenta de causas e a justiça nunca foi para ali chamada.

23/05/07

ÓDIO: O VÉU QUE COBRE O AMOR, por Ming_a

Dizem que amor e ódio são opostos, que se atraem.
Se pedirmos a um tolo apaixonado para definir estas formas de expressão, temos respostas básicas, com recurso, aos opostos da natureza (frio e calor); da física (protões e neutrões); dos valores (bem e mal). A palavra amor (do latim amor) assume muitos sinónimos, entre os quais: atracção, paixão, conquista, satisfação, desejo. Na generalidade, o conceito amor retrata um vínculo emocional, com alguém ou algo que seja capaz de receber este comportamento, e alimente as necessidades sensoriais e físicas.
Podemos pintar o amor com as mais diversas cores: amor físico, amor platónico, amor materno, amor à vida, amor a Deus. Para além da intensidade, que vai dum gostar muito… a um amo-te muito, o amor assume sem hesitações o contorno que desejarmos. Dentro da mochila do amor encolhemos tudo o que lá está dentro, para que aquele seja supremo e inquestionável.
Mas quando falamos do odium, apontamos logo um sentimento de repulsa, de aversão, de antipatia contra uma pessoa ou algo. Uma expressão, ainda que censurável, é dotada de uma força tremenda, às vezes vinda do Além.
Ao contrário do Amor, o ódio não passa o dia a perguntar: “Odeias-me? Muito? Sê sincero!”
Com o amor às costas, precisamos de afirmação e confirmação constante, dos sentimentos. Somos uns inseguros tão estúpidos, que mete dó. Já quem odeia, odeia e pronto. Basta um olhar, para percebermos que alguém nos odeia. Não há cá sedução, nem obstáculos de timidez, nem raminhos de rosas vermelhas, com cartõezinhos, com palavrinhas acabadas em inhos… No ódio, basta uma palavra, dita uma única vez, e conhecemos a profundidade do sentimento daquela pessoa por nós: Odeio-te.
Até trememos… Ninguém treme com um amo-te, não nos dias de hoje. O ódio dispensa preliminares. É sagaz e objectivo. Não precisa de ser correspondido. Não precisa de empatia para se evidenciar. Acredito que só vivendo um grande ódio, viveremos um grande amor. A intensidade com que odiamos, define o quanto seremos capazes de amar.
Chagal, nos seus quadros, não contempla o amor sem o ódio. Amor e ódio, muito mais que simples opostos, andam de costas voltadas, marcando o mesmo passo, embalados pelo desejo de um frente-a-frente. A ansiedade do amor conforta-se com a segurança do ódio. A determinação do ódio brilha com a espontaneidade do amor.
Um não existe sem o outro.
Tapor, esta é para ti: “ és tão repugnante… que não resisto.”

22/05/07

Cuidado... Eles andam aí!, por Pepe Le Pew

Para quem julgava que o governo neo-fascista de Portugal já tinha atingido um absoluto grau zero completamente inultrapassável, desengane-se. O recente caso do professor Charrua ultrapassa largamente tudo o que seria imaginável. Conhece-se o enredo: Charrua é um professor de Inglês destacado há 18 anos na DREN (Direcção Regional da Educação do Norte). Terá feito um «comentário jocoso» sobre a licenciatura do sr. Pinto de Sousa nas instalações do seu local de trabalho. Entretanto um bufo, denuncia-o à directora da referida DREN. E que faz a senhora? Manda chamar o bufo e explica-lhe que o seu comportamento é inadmissível numa sociedade democrática? Propõe-lhe a frequência de uma acção de formação sobre ética, direitos constitucionais, tolerância ou liberdade de expressão? Népias! Concerteza, agradece ao bufo pelo serviço prestado à nação, abre um processo disciplinar ao professor Charrua e, sem sequer concluir o dito, imediatamente, sem o ouvir, suspende o destacamento ao prof e manda-o regressar à escola de origem.


Justificação para esta abencerragem? «O primeiro-ministro é o primeiro ministro de Portugal» (sic) Que quererá isto dizer? Nós sabemos que sim e lamentamos… Se se concluir do processo que o professor Charrua é inocente, não há problema: «receberá uma indemnização» (sic). E paga por quem? Descontada do vencimento da sra directora da dren? Não, claro, paga com o dinheiro dos nossos impostos. Santa im(p)unidade…


Este caso é triste, deprimente, verdadeiramente chocante. Infelizmente não creio que esteja aqui em causa apenas uma bizarria de uma directora sem perfil para ocupar o cargo que ocupa. Infelizmente isto é mais do mesmo. Esta atitude não destoa da atitude geral deste ministério da educação, onde são figuras de proa personagens insólitas como um tal Pedreira e um Valter Lemos. O episódio não é a excepção; é a regra, é mais um capítulo da aplicação da filosofia autocrática e autista deste governo. Não é por acaso que uma coisa destas nunca se passou, desde o 25 de Abril de 74 até hoje, e que se dá precisamente agora. Isto tem a inconfundível marca do PS-Pinto de Sousa. É o selo Coelhone: «Quem se mete com o PS, leva» (sic), não sei se estão recordados…


Não tenho memórias dos tempos anteriores ao 25 de Abril. Mas explicaram-me, era ainda criança, que a maior conquista de Abril foi a liberdade de expressão. Acredito que sim. Não concebo como se pode viver numa sociedade pidesca, onde um bufo está à espreita na esquina do lado, para nos denunciar. A ministra da educação, entretanto, já se recusou a ir ao Parlamento esclarecer este gravíssimo atentado. A senhora não se pronuncia quando, em rigor, já deveria ter demitido a sua subordinada do Norte. Mas não. Tá calada e quem cala consente… Pinto de Sousa, calado está.


O outro ministro, aquele que, também ele, mandou uma piadola acerca da licenciatura de Pinto de Sousa, esse não foi incomodado. Marcelo Rebelo de Sousa que disse e escreveu «já se percebeu que a licenciatura do primeiro-ministro é da farinha do amparo» continua a leccionar, ao que sei, numa universidade pública portuguesa. Não é incomodado e bem. Mas lixa-se o charrua! Ora bolas… Como dizem os ingleses it stinks! É mau de mais. E assim, caso ainda fosse preciso demonstração, o PS redifine-se politicamente como um partido neo-fascista que atenta seriamente contra a liberdade de expressão, contra um dos valores mais sagrados da democracia. Pior que isso: revela não ter qualquer sentido de humor, mostra-se pacóvio e provinciano.


De um certo ponto de vista, este retrocesso é ainda bem pior, posto que não é apenas um retrocesso político: é um retrocesso civilizacional. Coloca a sociedade portuguesa mais próxima daqueles países da malta das cabeças embrulhadas em turbantes que vêem para a rua berrar e queimar embaixadas por causa das caricaturas dinamarquesas do Maomé. Eu não gostaria de viver num país daqueles. Mas parece que eles já estão entre nós. Já não sei onde estou... Se no Portugal de 2007, descontraído e bem humorado, apesar de tudo, se no país beato e fascistóide de 1973; se na Europa Ocidental , livre e democrática, se na Arábia Saudita ou no Irão.. E se eu fosse do Gato Fedorento passava a ter cuidado com o que dizia. Ou do tapornumporco, sei lá…

Imagem -Bansky

21/05/07

Imperdoável e o Western - I: Os Arquétipos, por Mangas


Tudo começa com uma prostituta que foi retalhada à navalha porque achou graça ao tamanho minúsculo da ferramenta do cow-boy que se preparava para a montar. A prostituta chama-se Dalila e, como figura secundária, nem a aproximação ao nome remete a qualquer invocação bíblica de traição ou honra; será a vingança, e por ela, que tombarão alguns homens e outros tantos mitos. Alguns fortes, outros fracos, mas todos sobreviventes ao mais clássico género do cinema enquanto o conhecemos, desde que, John Ford em 1939 com Stagecoach, lhe conferiu a maturidade absoluta – o western.

À distância, ocorre-me de imediato o percurso entre Dodge City (Michael Curtiz, 1939) e Imperdoável (1992), que se mede pelo simbolismo da retórica a propósito da construção dos caminhos de ferro, quando o Coronel Dodge resume: “America´s progress – iron horses and iron men! The West stands for, honesty, courage and morality!” Em meio século, a honestidade morreu por um punhado de dólares, a coragem salvou-se no Álamo e a moralidade sobreviveu ao homem que matou Liberty Vallance. Imperdoável é também a história de um ajuste de contas que aconteceu no Oeste.

Do mais inesquecível que nos recordamos dos velhos westerns, resume-se ao eterno confronto entre o que é justo contra o injusto, do bem contra o mal. Sempre quis acreditar que foi o western que inventou o cinema; o film noir cristalizou-se nos modelos propostos e acrescentou-lhe o dramático efeito da solidão desencantada no efeito pistoleiro/private-eye, e algo mais – o expressionismo da cor, ou a ausência dela!, e a ambivalência sexual; para mim, tudo o resto são sub-géneros que se emanciparam, abordagens de estilo cujo fôlego e maturação descendem da mesma linhagem.

Clint Eastwood foi um actor que, no tempo certo, percebeu uma incontornável vocação para autor. Parece que, depois de adquirir os direitos sobre o argumento original de Imperdoável, guardou-o numa gaveta durante dez anos à espera de envelhecer porque o William Munny que tinha dentro da cabeça não poderia ter 33 anos. O paradoxo que cria em Imperdoável é a subversão dos mitos anunciados pela revisitação dos mesmos, e pela construção uma base narrativa linearmente contrária à estrutura clássica do western tradicional – herói contra vilões. Um admirável jogo de duplicidades em que nem tudo é o que parece e, através do qual, Eastwood percorre do primeiro ao último todos os arquétipos do velho Oeste: a personagem do pistoleiro sem escrúpulos, o caçador de prémios e a lenda, o novato em busca de fama, o xerife, o ajuste de contas, a vingança, as putas, o saloon e, a cidade - Big Whisky -, que não é de casas caiadas de branco com pequenos pátios frondosos entre elas, nem possui uma igreja de cânticos dominicais; tem barracas esconsas e escanzeladas com lama e bosta de cavalo a separá-las. E é nesta terra bruta onde a única índia é a companheira do único negro que, um assassino retirado e convertido em criador de porcos parte para matar, por dinheiro, confronta os fantasmas do passado no processo, e acaba a vingar a morte do amigo antes de regressar ao lar. Parece um simples resumo de argumento, mas não é. É bem mais complexo do que isso. Filmado em estilo austero e quase monocromático, Unforgiven dá-nos a percepção do dirty-realism que quase sempre escapou à grandiloquência de um Ford, ou à tal “evidência” de um Hawks, de que Jacques Rivette escrevia nos Cahiers du Cinema. (O gesto mais nobre de todo o filme vem do parceiro do cow-boy que afiou a navalha no rosto da prostituta ao oferecer-lhe o seu melhor cavalo para a compensar de alguma forma; ainda assim, é corrida à pedrada e nem a intenção o livra de, mais tarde, ser abatido com uma bala no estômago, como entendia o acordo entre a parte contratante e os caçadores de prémios - do u think they came out from Texas to fuck us?).

E Eis Que Desabrocham!, os Jacarandás!!, por Araucária


Ei-los de novo, potentes, explosivos e exóticos: os Jacarandás. Neste ano, o Jacarandá da esquina nascente da Escola Superior de Educação, na Solum, atrasou-se e o primeiro a despontar a floração foi o Jacarandá da Académica. Brioooosaaa!.


Quer o da Escola, quer o da frente do Pavilhão da Académica já estão em plena floração. Como sempre, a dúzia de venerandos Jacarandás da Rua Leonardo de Almeida Azevedo ainda estão a deixar cair a folhagem. Há que aguardar mais uns dias para o desabrochanço destes. Não percam depois o Jacarandá do Trianon, hoje a mais bela copa da cidade. E lamentemos de novo que com a construção do Fórum não tenham sabido salvar o maior e mais bonito Jacarandá de Coimbra, que era o da Mondorel no sitio onde hoje é a estrada de acesso ao centro comercial.


Enquanto se espera pelo “azul estonteante” da republicana subida, aqui ficam os Jacarandás pela voz de quem sabe: Pablo Neruda no seu Canto Geral abre o poema Vegetação com “O Jacarandá soltava espuma, feita de resplendores transmarinos, (…)”, e Manuel Vazquez Montalban no As Termas mostra-nos um Pepe Carvalho rendido: “Um microclima, diz repetidamente para si Carvalho, quando quer explicar o milagre dos Jacarandás,(…). Rafael Alberti no poema Vaivém, fala da “neve azul do Jacarandá”


Coimbra está cheia deles. Abram esses olhos com olhos de ver e levantem a cabeçorra, que há desabrochanços mais bonitos nas copas do que nos passeios!

20/05/07

Delibes em Tierra de Campos, por Mau

Há uns dias escrevia o Mangas de Revenga e sus muchachos, despertando alguns doces arrepios. O post foi leve e esquecido com o Barão mas sabemos que foi de boa vontade. E o Barão bem se lembra, que o espectáculo, não ficou só nesses simples estertores. E não digo mais, por que em Revenga rolou muita coisa e se continuarmos a discussão ainda perco o pio.

Agora, vamos ao o que interessa. Miguel Delibes poeta de prosa quotidiana, escreve e muito de Tierra de Campos. Para o Télurico ler de Tierra de Campos, é sonhar com Revenga, com aromas e memórias de um tempo de rebeldia imberbe e de descobertas. È por estas coisas que a leitura dos relatos de Delibes, lhe são tão entranháveis. Nos relatos de Delibes, há uma personagem que é quase uma constante da sua obra. O caçador é uma das figuras mais carismáticas, eloquentes e românticas da paisagem castelhana.

Delibes descreve fielmente, essa antagónica dualidade do caçador, de carácter tão hermético como efervescente, um carácter crescido nas mãos dum território severo e extenuante como é Tierra de Campos.

Miguel Delibes, enorme escritor, também foi caçador e sem duvida o escritor que mais nos aproxima a essência do caçador de Tierra de Campos, uma forma própria de viver e amar o campo.

Em 2005, última publicação de este relato – Diário de un Cazador – com mais de 50 anos de história, Miguel Delibes nos deleita com um texto alegórico a este espírito télurico e cinegético:

El 5 de Marzo de 1955 nació en Barcelona este libro. Vázquez-Zamora me llevó el ejemplar número uno a Barajas y mi primer viaje a América lo hice inevitablemente ojeándolo, lo que equivale a decir que llegué a Buenos Aires y a Santiago de Chile con El cazador recién nacido y, tras unos meses, ya de regreso a Madrid, embarazado del Emigrante.

A Vergés, que era un hombre de negocios muy literario, fue ésta la novela que más le gustó de las publicadas por mí hasta la fecha: «!qué buen Nadal (Premio Nadal) hubiera hecho este libro!», solía decirme. Y es el caso que, pese a anticipar en el titulo de que iba el asunto, El Cazador gustó y tuvo un movimiento extraordinario que no ha cesado cincuenta años después, edición tras edición.

También hubo movimiento humano. La inolvidable cuadrilla del 55, a la que dedico este libro, se acabó, como suelen terminar los negocios de los hombres, por defunción. Mi padre dejó de «subir gallardamente sus ochenta años ladera arriba» y falleció unos meses después de nacer Lorenzo. También Vicente Presa, mi querido compañero en el crucero Canarias, dejó de existir años más tarde, mientras mi hermano José Ramón, que «solía llevar de postre un tocinillo de cielo» fue más longevo: nos dijo adiós el año pasado, en primavera.

Contra el tiempo nada pueden los hombres, aunque si algunos libros. Y confío que este, cuyo nacimiento comento ahora, sea uno de ellos.

Por que me chamam-me Cão, por Cão

Quando eu era pequenino, quase tão pequenino quanto as carraças que já então, penduradas de meus lóbulos, me faziam parecer com o Johnny Depp em pirata, as vizinhas chamavam-me muito assim

– anda cá meu menino

Vai daí, eu ia. Elas davam-me biscoitos, mas só se eu os apanhasse debaixo da mesa de camilha que elas todas tinham, devia ser sempre a mesma, mudada de andar para andar.
Lá debaixo, depois era assim: os biscoitos tinham pêlos, eram cortados de alto a baixo e escorriam.

Eu lambia.

Modos que me chamam Cão por causa disso.

Ou então é por causa das dívidas.

De qualquer maneira, deixei crescer o pêlo e nunca mais mapareci ao Johnny Depp.
Seu voltar a ter um cão chamo-lhe isso, Depp.

18/05/07

Os Cães, por Zézinho

Os animais são nossos amigos. Os porcos são muito mas os cães são bastante. Os animais servem para muitas coisas e alguns são muitos engraçados. Mas há animais que não têm graça nenhuma. Como as aranhas e as cobras. As tartarugas são muito giras porque andam muito devagarinho e parece que estão sempre a rir. Eu gosto muito de tartarugas. Mas gosto mais de cães. Há cães que são mais giros do que outros. Há cães grandes, há cães peludos, há cães carecas, há cães pequenos e há cães muito pequenos, há cães assim e há cães assado. E há cães mais ou menos e cães assim, assim. Os cães são animais muito inteligentes e fazem muitas habilidades. Na selva não há cães. Os cães vivem nas cidades e nas casotas deles, comem ração e às vezes carne crua. Há cães que roem ossos e há cães que roem tudo. Há cães que não roem nada porque já estão velhinhos e não têm dentes coitadinhos. Os cães cheiram tudo e fazem xixi nos postes. Os cães encontram pessoas enterradas na neve e dão-lhes aguardente. E agora uma poesia:

O cão é bicho amigo,
Brinca com o neto e brinca com a avó,
Brinca comigo e brinca contigo,
Quem tem cão nunca está só.

Pronto.
Fim.