17/07/08

GRATIDÃO BARATEIRA, por Cão

É preciso não confundir “silicone” com “silly season”.
O primeiro é aquilo das micropeças de computador (não sei quais) e dos implantes mamários em actrizes de certos filmes (sabeis muito bem quais, fazei favor de me não puxar pela língua).
A “silly season” pode ser livremente traduzida por “estação das baratas tontas” e, por norma, era associada ao Verão. Era. Agora é fruta de todo o ano, como o tomate de estufa espanhol e a tesúria do consumidor. (Redacção intermédia: O Verão era uma das quatro estações do ano. Eu gostava muito do Verão. No Verão, eram as férias grandes. Já está.) Agora, o Verão só se nota pelas páginas e páginas de jornais de inquéritos “à la minuta” tipo onde-vai-passar-as-férias-que-livro-vai-levar-a-sua-avó-está-melhor-do-alzheimer-ou-ainda-reconhece-o-Júlio-Isidro? Sim – o Verão é isto e é os programas matinais de TV invadindo as praças municipais à mama do tacho orçamental do Poder Local (essa “conquista” do 25 de Abril que redundou em rotundas e em taxas de disponibilidade do contador da água).
Quem já viu o resultado do implante de silicone, não pode deixar de trepidar por dentro com as maravilhas da técnica. A tumefacção respiratória das actrizes é praticamente inabalável. Mas abala, ai não que não abala.

A barata tonta é diferente. Digamo-lo “com toda a clareza”, à maneira de um Paulo Portas e de um Francisco Louçã: a barata tonta é vilegiatura que veio para ficar, como o toyota de antigamente e o sorriso-ricto-esgar da Catarina Furtado dos nossos dias.
E está tudo muito bem assim. A realidade é o que nenhum de nós pode que ela não seja. Ainda bem. O horror seria, por exemplo, uma realidade à minha maneira. Ai eu proibiria logo quatro aspectos: o Portas, o Louçã, a Furtado e a TV matinal. Depois, imporia a obrigação do fabrico em silicone de toda a barata tonta que se pusesse… à mama. Mas isto nunca será. Só tenho pena de que a vossa realidade também não venha nunca a ser real. Sempre gostaria de saber quais as vossas interdições, qual a fractura exposta do vosso mais íntimo desejo (ninguém está a falar dos tais filmes), qual o verdadeiro aspecto de você(s) na TV.
No fundo, porém, deveríamos todos estar-lhes gratos: como as coisas estão e andam, as tontas devem ser as últimas coisas de facto baratas.

Pic: Manet

13/07/08

Paula Cole, Courage, por Libidinosa


Não se deve julgar um livro pela capa. É popular e bem aceite.
Mas há covers e covers. À sombra de uma hipotética psicologia barata, gosto de perder-me nas análises às imagens (e vejo que, por aqui, os observadores têm olho clínico) que à mercê de muita imaginação e com o apoio da tecnologia, lá vão trilhando caminhos de (insatisfeita) perfeição.
Uma imagem que ponha de joelhos os nossos cinco sentidos é um verdadeiro must.
E nestas coisas, primo pela simplicidade.
Esta, por exemplo, de Paula Cole (do seu trabalho registo com satisfação a banda sonora de City of Angels), a cujo tema Courage se associa uma boca, parece-me capa para um pequeno apontamento.
Dirão: imagem básica e muito óbvia. Com um primeiro olhar, sim.
Ela “ grita” coragem. Para quê?
Os lábios voluptuosos, carregados de um intenso vermelho tanto desenham um coração, e aqui registamos uma perspectiva romântica do produto (quanta inocência), como a dada altura o olhar que vai seguindo a linha indefinida – e intencional - que separa os lábios, se perde no contorno, esbatido pelo tom pobre da pele.
Lembra-me, e a vocês também, os lábios da vagina.
Tenho, pois, para mim, que com esta capa se aproveitou a ocasião para deixar um recado aos amantes mais tímidos.
Ficaria perfeita, com língua. E sem ser a dela.

11/07/08

As Capas dos Meus Discos: Carly Simon, Possum, por Blackbird

Ainda na onda do post anterior, que acham da capa deste Possum de Carly Simon? Aparentemente é só uma mulher de joelhos em roupa interior e boca aberta ( o que já de si é estranho). Mas se olharmos melhor aquele fundo parece ganhar vida e não digo mais nada. Se esta capa fosse dos Scorpions caíam-lhes em cima com a acusação de machismo e sexismo brutais. Mas sendo a capa do disco de uma mulher, a cantora americana Carly Simon, o que é que chamamos a esta?

09/07/08

As Capas dos Meus Discos: Scorpions, Animal Magnetism, por Transformer

Eu nem sequer gosto de Heavy Metal, quanto mais dos Scorpions... Mas merecem um post no Porco, pela coerência dos seus covers. Vendo bem também não se pode dizer que sejam grandes capas. Mas lá está: são coerentes, há uma tentativa sistemática de fazer passar uma imagem de marca de durões, sexistas e machistas. Do ponto de vista gráfico, os Scorpions são das bandas que levaram mais a sério aquela coisa da mulher-objecto. Dou dois exemplos: os covers de In Trance/Virgin Killer e de Animal Magnetism, que ilustram este post.


Nos dois casos a mensagem é primária, bruta, quase infantil. Em In Trance é clara a associação entre o título, a expressão orgiástica do modelo e a guitarra. A rapariga parece masturbar-se com a viola, ou pelo menos, quando se liga a ela (atente-se na ficha da corrente) e por isso vibra, num sentido explicitamente sexual. Simples e directo.

Em Animal Magnetism as alusões não são tão claras, mas ainda assim, estamos no domínio da evidência. Percebe-se que quem tem «magnetismo animal» é o homem que vemos fotografado de costas vestindo uns clássicos e másculos jeans como deve ser. A mulher, de joelhos à altura da breguilha está em pose religiosa, como se adorasse um santo ou um senhor todo poderoso. Parece indefesa, de braços inertes e à mercê do seu senhor. O tema faz lembrar a célebre série Le Clic de Milo Manara em que um homem consegue levar qualquer mulher ao descontrolo sexual mediante o manuseamento de um misterioso aparelho que basta premir, como se fosse um comando de TV. Em ambos os casos trata-se da redução total da mulher à objetidade sexual.

Em Animal Magnetism o olhar da mulher é quase suplicante: prescruta o rosto do seu superior, parecendo esperar uma ordem de cima, que não deve tardar. O cão, símbolo da fidelidade, acentua a dominância do macho. Não olha para cima, como a mulher, mas está concentrado no eixo central do «quadro», isto é, na posição em que emerge a breguilha - o mesmo eixo da face da mulher. É tudo muito óbvio e até brutal. Por fim, um toque de ironia delicioso ou de mau gosto, consoante a perspectiva: o homem segura na mão direita uma lata de cerveja, outro símbolo da indiferença machista.

O que é curioso nesta, como noutras capas da banda, é que esta peça é da autoria da mais famosa produtora Inglesa de Design - em particular de covers - a todo-poderosa e galáctica HIPGNOSIS. A HIPGNOSIS é a mesma empresa que fez as capas míticas dos intelectuais Pink Floyd (sim, o Dark side of the Moon, o Ummagumma, o Animals, o Wish You Were Here, é tudo deles), algumas dos Genesis (como The Lamb Lies...) dos Zeppellin, do Peter gabriel, dos UFO, em suma, de praticamente todas as bandas que atingiram o estatuto de Mega Stars. Experimentem digitar Hipgnosis no Google e vão ter uma surpresa: vão ver que uma boa parte dos mais famosos covers da história são deles. Mesmo quando a mensagem é simples convém que seja eficaz. Os Scorpions que, musicalmente, nunca passaram de um certo estridentismo exibicionista próprio do Heavy Metal, pelo menos, não facilitaram nas capas. E fizeram bem...

08/07/08

Foto-Choque, por Platinado

O Expresso publicou na sua última edição uma entrevista de páginas centrais com a Ministra da Educação da República. É das tais que não li nem vou ler - não estou propriamente interessado em ouvir as explicações de sua excelência para os resultados mágicos da Matemática Contemporânea Versão 2008. Não li, mas vi. Porque esta peça jornalística não é pra ler, mas é para ver. Esta peça vale pelos bonecos, isto é , pelo excelente trabalho fotográfico do repórter Tiago Tiago Miranda. Reproduzo aqui aquela que é para mim a melhor foto da série, mas quem quiser sentir a experiência do enjoo completo pode ver tudo em A Educação do Meu Umbigo (http://educar.wordpress.com/).

A primeira coisa que me chama a atenção nesta foto é a sua incongruência. Tudo aqui é incoerente. Sem falsas ironias é uma peça digna de figurar no recente volume coordenado por Umberto Eco, a História do Feio. Nesta obra Eco percorre as diferentes manifestações do Feio a longo da História e esta peça de Tiago Miranda enquadra-se como uma luva nas secções acerca do disforme, do horrível. Advirto desde já que não pretendo fazer ironia nem dizer mal do modelo da foto: falo apenas sobre uma foto na sua qualidade de produto estético.

A primeira incongruência é a da pose. A modelo ensaia uma pose de Diva não tendo obviamente corpo nem expressividade para tal. O resultado é uma quase deformidade. Uma pessoa com aqueles altos níveis de celulite não pode ensaiar uma foto assim, de perna traçada como se fosse a Sharon Stone na célebre cena do Instinto Fatal. O choque é flagrante porque a forma da pose é um arquétipo comum, mas o conteúdo - a adiposidade do modelo - acaba por nos ferir. O efeito é artístico. Embora mais subtil, não tão radical, é uma nova versão de alguns dos jogos explorados pela fotógrafa americana Cindy Sherman com os seus modelos repugnantes e artificiais. como este, por exemplo:O reforço desta primeira incongruência advém da roupa escolhida: o vestido preto, o decote discreto e o colar, a saia pelo joelho, mais uma vez arquétipos da coqueterie sofisticada. Podemos perfeitamente imaginar que a foto sairia discreta com outra roupa menos sensual/executiva, mais de acordo com o modelo. Assim só vemos reforçados os significantes de ruptura do nível anterior. E a noção de incongruência é maior. Quanto mais olhamos esta foto mais nos sentimos nostálgicos da mulher que lá não está, como se toda esta forma tivesse sido despojada/roubada do seu verdadeiro/adequado conteúdo.

O terceiro nivel de desajustamento é produzido pelo carácter institucional da personagem. Sabemos que é uma ministra. Da educação, ainda por cima, com toda a carga moral que isso tem. Conhecemos a personagem, habitualmente sisuda, carrancuda, tensa...E mais uma vez sentimos a incongruência da pose, da descontração que contrastam com o peso institucional da personagem. O efeito é mais uma vez devastador. Perguntamo-nos como é que o fotógrafo do Expresso conseguiu captar esta imagem surrealista. Será uma foto da Maria de Lurdes real ou uma foto de um sonho (freudianamente: de um desejo) da Maria de Lurdes a sonhar com a Maria de Lurdes?

E ainda há a magnífica economia do cenário, os fundos austeros e escuros para não nos distrairmos e nos concentrarmos na expressividade (falhada) da modelo. Repare-se no batom, num tom de vermelho velho-esbatido, tentativa desesperada de dar vida a um rosto e a um sorriso amarelos. Vem reforçar, mais que qualquer outro elemento de pormenor, a impressão de superficialidade da foto. O batom e o excesso de creme que se nota na tez polida da face de vaga reminiscência gótico-depressiva. É ainda de incongruência que falo...

Resta-me uma pergunta: como ler o olhar do fotógrafo Tiago Miranda? Foi um ingénuo que captou, sem querer, a vacuidade total de uma personagem sem dimensão para o voo (estético) que ensaia? Ou pelo contrário, foi um verdadeiro fotógrafo que soube captar com o cinismo dos bons artistas a verdade que está para além da aparência? Tiago Miranda é um Goya que ridiculariza a realeza do seu tempo, uma Paula Rego divertida a fixar para a história a futilidade de Jorge Sampaio (sobre este tema ver outro texto do tapor: http://tapornumporco.blogspot.com/2006/06/paula-rego-goya-e-o-cabea-de-cenoura.html)?
Ou um simples propagandista que pretendeu glorificar a Ministra e acabou traído pela força das suas próprias fotos? Não sei.

Seja como for este Tiago Miranda é um óptimo fotógrafo. Pode ser que ele não tenha o cinismo dos grandes, que seja inocente como um fotógrafo de casamento. Mas que o seu olhar tem qualquer coisa de perturbador, tem. Talvez estejamos mesmo perante o caso de um criador que se vê ultrapassado pela criação. Quando lhe pediam para explicar a sua música o grande Carlos Paredes dizia que não sabia, que apenas sabia tocar. Talvez Miranda seja um desses brilhantes ingénuos... Ou talvez não, talvez tenha a consciência plena do que mostra.Pra já está de parabéns: o seu trabalho vai muito para lá da vulgar foto de jornal.

07/07/08

República das Bananas Futebol Clube, por Mamadou Djalou Ialá

Eu sei que há leitores do Porco, como por exemplo o JPC, que não gramam nada que um gajo ocupe o blog a falar de futebol. Eu próprio tenho algum pudor a esse respeito. Mas o post que se segue só aparentemente é sobre futebol. É mais sobre o estado lamentável a que chegou este país. Mesmo para quem não gosta de bola eu peço um bocado de paciência porque vale a pena conhecer os factos que relato para se ter uma noção de como nos transformámos numa espécie de República dos Prakistão do sul da Europa ou norte de África como se preferir. Então tenham lá pachorra:

Hoje, segunda feira, é a data da realização do sorteio do próximo campeonato de bola nacional. Mas o Boavista pode descer de divisão e o Porto sujeita-se a apanhar um castigo que ainda lhe pode custar a presença na Champions League. Só não se verificarão estas desgraças se os órgãos competentes não se pronunciarem em tempo útil sobre as acusações de que são alvo estes dois clubes. Não havendo decisões nestas matérias nem o Boavista nem o Porto nem o Jorge Nuno,o da fruta, poderão ser condenados nos processos por corrupção de que são alvo.

Portanto só uma coisa os salvaria do holocausto: o prolongamento indefinido de todas as reuniões dos vários órgãos competentes de modo a que nada se decidisse e nada se comentasse. Hoje, segunda feira, não havendo qualquer decisão tomada, tudo continuaria na mesma como a lesma. E foi assim que numa das últimas reuniões da liga presidida, pasme-se!, por Valentim Loureiro, o dos frigoríficos, que é suposto estar suspenso mas que não faz caso da suspensão, deu-se o mote. Segundo os relatos da mesma, essa reunião durou um dia inteiro e nela nem se chegou a abordar a questão das acusações de corrupção aos clubes portugueses em causa nem os danos de imagem para a Liga e para o país. Nada, no pasa nada... Rezam as crónicas que entre pausas pra café e almoço discutiram-se magnas e decisivas questões como, por exemplo,«qual o número de apanha bolas que os clubes deviam poder convocar para os jogos» e «quais os critérios para atribuir lugares de estacionamento nos estádios», questões decisivas do nosso pontapé na chincha. Parece que Valenti, o dos Frigoríficos, dirigiu esta sessão com grande sentido de humor. Mas eu aviso: Isto é a sério e não deve ser tentado por amadores sob pena de se magoarem! Como estas são questões complicadíssimas duraram o dia inteiro a ser discutidas e sobre o que interessava - que os sócios da Liga se pronunciassem cobre a CORRUPÇÃO - nada. Não houve tempo e deu-se por encerrada a sessão...

O segundo capítulo e ainda mais vergonhoso passou-se na última sexta feira. Na reunião do último conselho de justiça, sendo óbvio que a votação dos conselheiros ia ser desfavorável aos interesses do fêcêpê e do boavista-do-major, o que é que foi feito? Pois, o presidente do órgão - que ainda por cima vem sendo acusado de incompatibilidade, pelo menos moral, do exercício daquelas funções por ligação à câmara de Gondomar de Valentim - decidiu alegar incompatibilidade de um dos membros do órgão. Não a dele, a de um outro. Não se sabe porquê, o senhor não explica, só diz que, na qualidade de presidente, tem o poder de o fazer... Então tá bem. Recusada a sua pretensão pelos membros do órgão a que preside, decidiu-se pela «suspensão da reunião» pegou no livro de actas e ala que se faz tarde. Os restantes indignados membros do órgão, menos um, decidiram mesmo assim continuar a reunião e confirmaram a decisão da primeira instância, isto é, a condenação do sr Jorge Nuno, o da fruta, e do Boavista.

Mas agora alegam os mestres da arte do protelamento administrativo que esta decisão não é «juridicamente válida» (!!!) e que não havendo decisões até hoje, segunda feira data do sorteio, o Boavista deve manter-se na primeira divisão (em prejuízo de um indignado Paços de Ferreira) e que o senhor da fruta e o fêcêpê estão limpos. Cada um que deduza daqui o que quiser... Se a moda pega não há órgão que funcione neste país porque basta um presidente ter a certeza de que o órgão vai decidir contra si, suspende a reunião, leva o livro das actas e prontos, o resto é ilegal...

Mas o espectáculo não para aqui. Entretanto que faz o nosso zeloso governo sempre tão preocupado e tão interveniente e tão corajoso e tão frontal e tão determinado e tão rigoroso e tão activo e tão decidido e tão, tão, tão, mas só cos pequenos que nunca o vejo tocar nos grandes? Na pessoa do seu anafado representante para as questões do desporto nacional, Laurentino Dias, alega que «o executivo não se deve meter nestas
coisas e que os órgãos próprios devem decidir sem interferências». Mas a imagem do país lá fora, sô tôr? As cambalhotas perante a Uefa, sôtôr? O «estava castigado mas já não está», sôtôr? Não interessa nada!, repete o Laurentino.

É preciso não ter qualquer decoro para vir fazer de invisual nesta matéria. Ainda por cima depois de, o mesmíssimo sôtôr Laurentino ter vindo berrar aqui há uns tempos atrás em conferência de imprensa convocada para o efeito e tudo, por causa da acusação de doping a um jogador do Benfica, Nuno Assis, que apanhou um ano de suspensão. Tratou-se de um caso individual mas o Laurentino extremoso achou que devia indignar-se publicamente, que a imagem do país e o rigor e isso, blá, blá,blá... Mas agora, perante estes episódios de uma gravidade comparativamente estratoférica, está calado, manda pra canto, deixa andar, diz que não é nada com ele, assobia pró lado... Haja vergonha, fónix! Este Laurentino é o espelho fiel da actuação do governo que representa sempre pronto a ser forte com os fracos e fraco com fortes... Proclamando o contrário.

E ainda acham que vivemos num país a sério? E ainda acham que isto é um assunto que diz respeito apenas e só à reserva privada do couto da bola? E ainda acham que isto era possível num daqueles países muito louros que nos estão sempre a atirar pra cima para comparações esmagadoras quando lhes convém? Eu acho que isto é demasiado vergonhoso para ser remetido a um mero fait divers do universo bolístico. Isto é o retrato do país, o estado do buraco profundo em que já nos atolámos. E ainda querem que nos comparem a países civilizados como a França e a Itália que lidaram de um modo completamente diferente com os seus casos de batoteiros desportivos que punem exemplarmente em poucas semanas? Só a brincar....

03/07/08

A Arte do Cover: The Clash, London Calling, por Ted Tampinha

London Calling, o melhor disco da melhor banda Rock depois dos imortais The Rolling Stones, os igualmente imortais The Clash, não vale apenas (!) pela qualidade musical. Tá bem, eu sei que é o álbum de Brand New Cadillac, de The Guns of Brixton, de Spanish Bombs, de Train in Vain, de Death or Glory ou de Lovers Rock, entre tantos outros clássicos da banda. É que a capa do disco é uma peça de arte ao mesmo nível da música. Da autoria de Ray Lowry (design) e Pennie Smith (foto), o tema do cover é simplesmente uma foto a preto e branco do guitarrista, Paul Simonon, a destruir a guitarra num concerto da banda no Palladium de NY em 1979. Surgido nesse ano, portanto, em plena euforia Punk, a capa reflecte a energia, a força, até mesmo o carácter violento da banda, valores de referência da linguagem rock. É por isso que, ainda hoje, este é considerado um dos melhores covers da história (não acreditam pesquisem no google as listas dos indefectíveis).

Trata-se de um cover marcante também pelo contexto em que surge, logo a seguir à explosão dos Sex Pistols e do Punk, quando as super bandas da época ligadas ao rock sinfónico se afastavam perigosamente das raizes mais primitivas desta forma de expressão. The Clash eram, como se sabe, dos maiores defensores do back to basics Rockeiro e a capa procura reflectir, justamente, esse carácter avassalador que a linguagem Rock estaria a perder. Mas o que é interessante é que este cover se tenha tornado um clássico, isto é, que tenha transcendendido largamente o contexto da época para se tornar num ícone intemporal de rebeldia.

As referências ao passado, a toda uma cultura Rock são subtis, mas qualquer iniciado pode dar com elas. A mais óbvia é a própria foto do acto em si de estilhaçar a guitarra, citação em jeito de homenagem aos The Who e a Pete Townshend que acabava muitos dos concertos a dar cabo da própria guitarra. The Who são parte do filão remoto em que os próprios The Clash se integram. E depois há, ainda, a tipografia, outra citação-homenagem, desta vez à capa do álbum do King, Elvis Presley de 1956. Na forma e nas cores (rosa e verde), na própria similitude das fotos, a citação é clara. É só comparar:



A título de curiosidade final uma referência aos seguidores: a banda espanhola Siniestro Total editou em 1983 o single Sexo Chungo, cuja referência aos Clash, na altura talvez a banda mais importante no activo, fala por si:















E porque é sempre dificil falar dos covers sem as referir às músicas que lá estão dentro, ainda aqui deixo esta referência para o you tube: Brand New Cadillac de London Calling, The Clash no seu melhor: http://www.youtube.com/watch?v=Z2WXlaWv2u0

02/07/08

AMIGÓPTICOS, por Cão





Tenho alguns amigos.
São como os meus olhos.

Tenho alguns amigos que
são como os meus olhos
porque nunca os olho mas
preciso tanto deles.

30/06/08

Os Espanhóis, por Manolo

Em homenagem à vitória da melhor equipa do Euro 2008, aqui se repesca o post antigo dwdicado à alma de nuestros hermanos. Arriba España, Campeones!
Quando passo a fronteira de Vilar Formoso sinto-me sempre como aqueles mexicanos que vão esquecer as tristezas na eufórica América. Talvez as eternas obras do IP5 contribuam para esse sentimento. É incrível: os anos passam e as obras estão na mesma. Raio de país especializado em estádios de futebol…

Os espanhóis não são como os portugueses. São excessivos onde nós somos moderados. São artísticos e criativos onde nós somos burocratas. São assertivos onde somos indecisos. Sã excêntricos onde somos concêntricos, divertidos onde somos convertidos.
Nós somos o povo que tem medo de parecer mal, somos a tribo que tem vergonha até da vergonha, que tem medo do medo, que não abre o coração. Um português nunca está bem, nem numa festa: estamos sempre a pensar na nossa preciosa figura, no que os outros possam pensar de nós, como se isso importasse muito, como se nós ou os que nos julgam fôssemos o centro do mundo. Nas festas portuguesas só se bebe até um certo ponto. Os portugueses não têm imaginação e não tiram as mãos dos bolsos… Os portugueses não falam, vigiam-se uns aos outros.

Os espanhóis falam alto nos cafés e aquilo não me parece um arraial, parece-me bem, parece-me vida. Comem tarde e muito e bebem ainda mais. Dormem siestas e fecham o comércio e reúnem-se em copas e tapas antes de jantarem à meia-noite. E, acima de tudo, abrem o coração e não têm vergonha disso. Se eu fosse espanhol era outro Mangas que é o gajo mais lamechas do Porco. E o Mangas, no fundo, é um espanhol, mas tímido porque é português porque senão fosse seria o D. Quixote de La Mancha. Ou o Sancho Pança…

Os espanhóis não nos saúdam com um aperto de mão, à maneira inglesa: pegam-nos na mão com as duas deles e apertam-na, à nossa, com muita força. Não se despedem com um calmo «adeus, até à próxima», mas abraçam-nos como se não quisessem despedir-se. Aliás eles nunca se despedem, até os desconhecidos dizem sempre «hasta luego».
E quando eles nos dizem que somos mais educados que eles, que ninguém se iluda: estão a mentir. Seguro! Eu acho que eles gozam com o nosso ar macilento, cadavérico, comprometido, de mal com a vida… Em Espanha não deve haver depressões, mas se as há devem ser as mais fortes do mundo, não podem ser como as nossas, depressõezinhas de merda, porque o gato está constipado ou porque o cão tem gazes ou porque nos dá prá angústia existencial... A Espanha é grande, enorme e Portugal é pequeno, minúsculo, é uma paróquia forrada de IPês merdosos e rotundas autárquicas que já deveriam ter atirado para a choça uns quantos autarcas sem gosto nem decência.

A primeira vez que levei o meu filho a Espanha, ele tinha 6 anos. Um dia, viajávamos algures por Castilla-la- Mancha, o puto exclamou, admirado com a imensidão da paisagem:
- De Espanha vê-se o mundo todo!
É o melhor slogan que alguma vez ouvi sobre Espanha! Sobre a imensidão dos seus horizontes, mas também pode ser sobre o seu cosmopolitismo, sobre a abertura de espírito dos seus habitantes, sobre o seu enorme coração e a sua excentricidade… Como isto foi dito por um pequeno português, talvez seja um sinal de que ainda temos esperança: não nesta geração bafienta ainda marcada pelas fronteiras que nos separaram, mas noutras que aí hão-de vir, como a do meu filho de 6 anos que, felizmente, têm a oportunidade de se admirarem tão cedo com o mundo todo que se vê de Espanha.

26/06/08

A Minha selecção do euro, por Gabriel Alves Zandinga

E prontos! Com a vitória de hoje da Espanha está encontrado o segundo finalista do Euro. Indiscutível a vitória espanhola sobre a equipa mais esquizofrénica que eu já vi - a Rússia que tanto é protagonista do melhor jogo de todo o Euro, o sensacional Rússia - 3/Holanda - 1, como do miserável Rússia - 1/Espanha - 4 da fase de grupos. Nesta altura dou por mim a fazer infindáveis exercícios sobre o melhor onze do euro e, apesar de ainda faltar a final que pode decidir algumas alterações, aí vai o meu onze. Tenho como critério a representatividade das várias selecções, pelo que em caso de dúvida, opto por um jogador de uma selecção menos representada de modo a ser mais abrangente.
Note-se que este é o onze dos jogadores que melhor estiveram no Euro e não a equipa dos melhores onze jogadores. É diferente. Só um exemplo: o Cronaldo é um dos melhres jogadores do mundo, mas não está na minha selecção do Euro. Nem o Fabregas que, jogando às pinguinhas, também foi batido, embora, quanto a mim, seja um dos melhores médios do mundo. O mesmo para o Torres, outro grande avançado prejudicado pelas opções bizarras do seleccionador espanhol, etc, etc, etc. Aí vai, pois, o meu onze do euro:

Guarda redes: Casilhas (Esp)
. Há dúvidas? Ainda hesitei entre ele e o Buffon, mas o jogo que opôs a Espanha à Itália foi decicivo.Bufon teve uma fífia que só por acaso não deu golo; Casilhas defendeu o remate á queima roupa do Camoranesi e ainda foi buscar, monomentalmente, dois penalties. Considero-o memso o melhor jogador do Euro, vamos lá ver se a final o confirma, e se o Real Madrid tivesse ido mais longe na Champions, ninguém, nem memso o Cronaldo, lhe tirava o títulode Best player of the World 2008.
Além do Buffon, o velho Van der Sar também esteve bem. O Ricardo foi, quanto a mim, o pior de todos os guarda redes, seguido de perto pelo Rustu da Turquia.


Defesa direito - Sérgio Ramos (Esp).
Tal como na baliza, no posto de defesa direito há coincidência entre o melhor do mundo na posição e o melhor do Euro. O jogo decisivo foi este de hoje com a Rússia. Ramos masssacrou o flanco esquerdo russo e nunca foi batido por Zhirkov. Ora era justamente por aqui que os russos podiam desiquilibrar. Ms lá está, quem tem um defesa direito como este...


Centrais - Pepe (Potugal) e Chiellini (Itália).
Acho que deviam fazer uma dupla do outro mundo. O italiano foi o melhor stopper do euro. Rápido, elástico, alto e com bons pés. Pepe, já se sabia, é um defesa faz-tudo e se fosse preciso jogava a ponta de lança. Não estou a ver avançado capaz de os bater fisicamente.
De qualquer modo não foi um grande Euro no que toca a centrais. O russo Kidolin que não jogou com a espanha por estar castigado foi a revelação. E também gostei dos dois centrais da Roménia, um deles a caminho do Manchester.

Lateral esquerdo - Zhirkov (Russsia). Já o conhecia do CSKA de quando os gajos deram uma malha no Sportem. É muito mais que um defesa esquerdo, no CSKA a té é médio e tudo. Pode jogar atrás do ponta de lança e é visto a fazer cortes dignos de um central no meio da área. Tecnicamente é do outro mundo. Mas atenção, muita atenção ao alemão Lahm. Também é um grande jogador, foi decisivo contra a Turquia (que golo!!!) onde passou de besta a bestial num ápice e vai jogar a final. Pode ainda destronar Zirkhov e modificar esta lista. Ainda ha dúvidas.
Grosso (It)também esteve muito bem, tal como o Romeno Rat. Paulo ferreira foi o pior lateral esquerdo do Euro, um equívoco de primeira hora de Scolari perfeitamente óbvio para qualquer observador. O ferreria nem sequer é o melhor lateral esquerdo português: por mim adaptava o Miguel Veloso e ainda preferia o Caneira.

Trinco - Altintop (Turquia). A par com o Romeno Chivu que só não leva o lugar porque a Turquia foi mais longe e Altintop foi o seu melhor jogador. Tem uma visão de jogo fora de série, um futebol de regra e esquadro e alia a isso a garra turca que foi a maior qualidade da sua equipa. Se não fosse já do Bayern saía para um grande...
O espanhol Marcos Senna (carioca de gema) ainda tem, contudo, uma palvra a dizer. É uma peça fulcral no tabuleiro tático da esapnha porque dá consistência e físico a um meio campo muito tecnicista.

Medio direito - Modric (Croácia).
Apesar da sua equipa ter ficado pelo caminho, aquele a quem chamam o novo Cruijjf não engana. Ainda é um pouc intermitente nas suas intervenções, mas quando toca na bola faz coisas fantásticas. Em pouco espaço desencanta passes de morte que mais ninguém vê e com uma precisão cirúrgica. Mas tem que aparecer mais em jogo.
Schwinsteiger (Al) também esteve bem embora seja mais ala que interior direito e ainda tem uma palavra a dizer, tal como o catalão Iniesta que até aqui esteve num plano médio, mas que ainda pode arrancar uma grande jogatana na final. Qualidade ele tem-na.

Médio centro - Arshavin (Russia). Apesar do zero do jgo de hoje, ninguém lhe pode tirar o mérito de ter sido o melhor jogador do melhor jogo do Euro, com a Holanda. Nesse jogo fez a melhor exibição de todo o Euro e chegou a ser humilhante para os centrai Holandeses. Mas é um bom exemplo da esquizofrenia da sua selecção. Hoje foi completamente secado pelo tridente defensivo espanhol Sena - Marchena - Puyol. Resultado: a Rússia não jogou.
Também gostei muito de Fabregas, para mim, o melhor nesta posição, mas o homem, vá-se lá saber porquê, não joga de princípio de modos que opto pelo Russo... Ballack (Al) num estilo completamente diferente mas tremendamente eficaz também esteve muito bem e ainda tem uma palavra a dizer na final. Deco, o melhor português, também esteve muito bem, mas ficámos pelo caminho... E, claro, Pirlo (It), continua a ser deslumbrante. Com ele em campo contra a Espanha, talvez a história deste Euro não fosse a mesma.


Médio esquerdo - Sjneider (Hol).
A Holanda foi uma das melhores selecções e Sjneider o seu melhor jogador. Uma selecção sem um Holandês era branquear o melhor futebol de todo o campeonato. E Sjneider foi o motor da equipa. Tem que figurar neste meio campo, senão a médio esquerdo noutra posição qualquer, até porque é um médio que faz todos os lugares do centro do campo. Grande capacidade de remate e um ritmo de jogo altíssimo.

Avançados - Ibraimovic (Sue) e Villa (Esp).
Ok, eu sei que a Suécia ficou logo pelo caminho e que é uma equipa perfeitamente mediana. Mas que culpa tem o Ibraimovic disso? É o melhor ponta de lança do euro, marcou o melhor golo da competição, uma obra prima, e andou com a equipa às costas, apesar de lesionado. Foi número 9 e número 10, às vezes chegou a ser extremo esquerdo e ainda aparecia a concluir. Não é justo que seja penalizado pela qualidade da sua fraca equipa. Tecnicamente é o melhor ponta de lança do mundo. É um sobredotado, na Holanda chegaria ao nível do grande Van Basten.
Quanto ao Villa está muito longe do Ibraim, até do van Nistelroy (Hol) mas é o melhor marcador até ao momento e fez um bom euro. Não estou muito seguro que mantenha o lugar até porque na final estão alguns candidatos que ainda o podem destronar: Klose,um ponta de lança que joga na área como se estivesse no meio campo, como se não estivesse na zona mais super povoada do terreno. Klose ainda tem ua palavra a dizer, é um jogadro fino. E aida há Podolski que surpreendeu tudo e todos, embora não actue bem nesta posição, parte mais da esquerda.
Também gostei do romeno Mutu (foi pena o penálti defendido por Buffon), do Francês Benzema, sem dúvida o ponta de lança do futuro (se eu fosse o Abramovic ele já estava no Chelsea), do Van Nistelroy (Hol), do Russo Pavliuchenco (que, atenção, é suplente de Progbniac, lesionado!!!) e de Luca Toni (It) que teve lutar sozinho, isolado na área adversária devido ao ultramontanismo tático de Donadoni, o típico treinador italiano.


Quanto ao melhor treinador da competição, quanto a mim foi o turco Fatih Terim. Pelo futebol corajoso que apresentou e pela motivação exibida pelos seus jogadores. A Turquia jogou bem. apear de ser uma equipa inferior à Croácia e à República Checa não se limitou a defender e foi de uma coragem extrema. mesmo quando apresentou as reservas contra a Alemanha, terim apresentou uma equipa bem organizada. Além disso fi um senhor nas suas declarações, um exemplo de desportivismo e fair play. Como éque o Rui Costa não o trouxe para o Glorioso?
Gus Hiddink foi uma confirmação, depois das excelentes Australia e Coreia dos mundiais anteriores.Dos dois treinadores finalistas prefiro o metódico J. Low. O Aragonês é um marreta com sorte. Tem excelentes jogadores e é o que lhe vale, mas não se entende como é que Guti e Raul não têm lugar nos seus convcados, nem como é que Fabregas não é titular, nem o sacrifício perpétuo de Fernando Torres. Para o modelo de jogo técnico e de posse de bola que implementou, qualquer um destes entrava muito bem.
O pior técnico foi, sem dúvida, o batatoon do Euro, o francês-místico-Domenech - um fiasco completo que nem sequer soube assumir a derrota, mandando para canto na hora do regresso a casa. Quando até zidane vem reclamar a sua saída, tá tudo dito.

E pronto, depos da final, volto aqui. é provável que alguma coisa mude. Até lá temos na selecção do Porco: 3 espanhóis, 2 russos, 1 português, 1 italiano, 1 turco, 1 holandês, 1 croata e 1 sueco. Mas a Alemanha tem alguns jogadres a calha e ainda lhe falta a final, pelo que a coisa pode mudar. A ver vamos, como diz o outro...

23/06/08

O Gordo, por Roque Lobster

N´O Gordo, nome não oficial do restaurante onde costumo almoçar em semanal exercício de masoquismo gastronómico, as surpresas estão sempre a acontecer. A última foi estonteante. Normalmente pago 6.50$ por uma refeição composta de sopa, água, prato de carne ou peixe, «uma saladinha» e «um cafezinho» que é o preço que o Gordo faz aos clientes habituais como eu. Mas um dia destes em que eu esperava que o robalo acabasse de grelhar, chega a empregada ao pé de mim e mata-me com esta:
- O sr desculpe mas o patrão manda dizer que hoje é um euro mais caro. É que o peixe é fresco...
E eu fiquei sem fala sem saber o que mais admirar na distinta lata do Gordo: se o facto de não ter dado a cara para anunciar a má nova mas mandar a desgraçada da rapariga por ele (deve ser este o significado da expressão «criada para todo o serviço»); se a confissão implícita de que o peixe que ele anda a servir nos outros dias não é fresco; se a coragem de aumentar assim um euro por uma coisa que devia estar suposta, isto é, a frescura do peixe.
Seja como for não chorei o euro que gastei a mais pelo peixe fresco. Pelo menos livrei-me dele durante uns tempos. Durante cerca de um mês, o Gordo não voltou à minha mesa para perguntar, como é hábito, «se o almocinho tá mais ou menos». Acho que ele ficou com medo de que eu exigisse que ele me tirasse um euro aos «6.50$ pra cliene habitual» de cada vez que me apresenta um produto menos fresco.

22/06/08

“Maria, Apetece-me Algo” ou “O Génio”, por Trê Jóli

“Maria Kodama riu-se com as perguntas de Saramago sobre a vida dela com Borges”. Era assim que o suplemento P2 do jornal Público de hoje anunciava uma reportagem de duas páginas sobre um qualquer evento em que participaram a viúva de Jorge Luís Borges e o escritor português, que estaria ali na qualidade especial de entrevistador. O título da reportagem era: “Kodama entre o génio de Borges e as perguntas geniais de Saramago”.

A ex-senhora Borges ficou, desta forma, esmagada entre dois monstros sagrados, um aparentemente morto e outro aparentemente vivo.

E de que forma sobrou o grandioso génio de Saramago para a extasiada plateia e a deslumbrada jornalista do Público? Sobretudo com perguntas como: “Como é que Borges dizia que te queria? Explica-nos, explica-nos!”... A convidada, aparentemente, divertiu-se muito com o interesse de Saramago acerca da vida íntima do casal. E a jornalista achou que as perguntas de Saramago eram o supra-sumo da genialidade.

É óbvio que a senhora ex-Borges, além da cortesia do riso, replicou com um labirinto, à moda do defunto marido. Mas é de reter a curiosidade lúbrica do velho escritor. De facto, não deixa de ser uma dúvida inquietante: Como é que um Borges daquela envergadura pedia à esposa para lhe fazer um broche, por exemplo? Escrevia uma quadra? Improvisava uma frase enigmática a rimar com chupa-chupa? Não dizia nada e abria a braguilha, como os bebés que abrem a boca a pedir papa? Labirinto…

Ficamos, elás, sem saber como se comporta um génio literário nestas circunstâncias domésticas, porque a ex-esposa deve achar (com razão) que mais ninguém tem nada a ver com esse assunto. Mas Portugal ganhou um comunicador. Daqueles que chegam ao receptor com simplicidade e que fazem as perguntas que os simples querem ver respondidas.

21/06/08

Inxames, por E o burro sou eu?!

Estamos na época dos exames. Numa época em que os exames são encarados de uma forma administrativa e burocrática.
Primeiro aumentou-se o tempo para cada exame (não, senhora ministra, não é um problema de tempo, mas de saber — ou da sua ausência).
Depois o menino inscreve-se (ainda sem saber se vai efectivamente fazer o dito). E, por vezes, vai lá para ver como é (não há problema porque tem mais possibilidades para o fazer). Contudo, de cada vez que o menino manifesta vontade de fazer um exame, temos: três professores a fazer o exame, dois vigilantes, dois suplentes e, claro, o secretariado de exames (mais ou menos sete professores). Portanto, é só fazer as contas…
Mas, enfim, o aluno decide fazer o exame!
Depois de toda a parafernália em movimento, temos o momento sublime do aluno na sala de aula, a fazer o seu merecido exame.
Chamada, revista para ver se o aluno não leva telemóveis, ipood, máquinas de calcular marginais, apetrechos que constam do índex… e, claro, se o aluno quiser levar uma garrafita de água, tem de ser sem rótulo, pois pode lá escrever a fórmula do etanol ou os números do euro milhões!
Eis-nos, mesmo, na sala: os vigilantes fazem todo o trabalho burocrático, ensinando o aluno a preencher toda a papelada e confirmando, e reconfirmando (não vá o aluno ser disléxico, incompetente, distraído, com alguma necessidade educativa enfim…)
Nesse tempo interminável que dura o exame, os vigilantes não podem ler, falar, fazer barulho ao andar, estar no mesmo sítio, usar minissaia (que perturbador), saltos altos (ai o barulho). Devem rodopiar silenciosamente pela sala, olhar permanente e atentamente os estudantes e, ao mesmo tempo, passar despercebidos, como se não existissem.
Ah, de vez em quando podem respirar. Mas baixinho.
E, assim, temos mais um contributo valioso e inestimável para o sucesso escolar que, sem estas avisadas medidas, estaria, evidentemente, em sério risco.

Especial Euro - O Astrólogo, por Gabriel Alves Zandinga

Ainda em maré de Euro 2008, não sei se repararam na faceta mística/ocultista do cómico treinador da França monsieur Raymond Domenech, de seu nome. Pois é verdade, parece que a personagem tem uma faceta professor Bambo que desconhecíamos. Quando interrogado pela imprensa do seu país acerca das razões que o levaram a excluir um avançado como o Trezeguet da Juventus, o bom do Domenech explicou:
- Não vou levar um nativo de escorpião para o Euro numa altura destas.
Voilá! É sabido que a astrologia, uma«ciência» pagã que os Romanos tanto cultivaram resistiu muito e sobreviveu às cinzas de muitas superstições medievais. Até os príncipes renascentistas, os Sforzas, os Orsinis e os mafiosos Bórgias, aguardavam pelo parecer positivo dos seus astrólogos antes de iniciarem as suas campanhas. E os grandes navegadores, portugueses e espanhóis, também consultavam as estrelas antes de aventurarem pelos mares desconhecidos e tenebrosos. Depois, e apesar de Newton, a astrologia ficou «demodée» e tornou-se crendice do passado. Até Domenech...
Parece, pois, que o tempo não está para escorpiões, mas ainda bem para o bom do Raymond que o Van Basten e o Maradona, dois signos escorpião, segundo li, não só já não jogam como não são franceses. Se não era difícil explicar ao povo como é que os deixaria de fora...

E agora que os gauleses foram eliminados e já voltaram para casa declarou Domenech:
- Razões para termos sido eliminados? A localização do hotel. O facto de se localizar num sítio muito fechado e de ter uma arquitectura a fazer lembrar uma fortaleza contribuiram para a nossa atitude fechada em campo.
Feng Shui ou lá perto... Estamos perante um Professor Bambo, sem dúvida, mas pós-moderno, globalizado, que concilia a astrologia antiga com os ancestrais saberes orientais, renovados pela via da Globalização.

E pergunto eu: mas nós não andamos à procura de um mister? E estamos à espera de quê? Pode não saber falar português, pode nem sequer perceber muito de futebol, mas lá que ficávamos com as forças cósmicas todas do nosso lado, isso é que ninguém pode duvidar. E vendo bem, depois do Oliveirinha que semeava alho pelo balneário da selecção pra dar sorte e do Scolari e das suas rezas à nossa senhora do caravaggio, até era um progresso.

20/06/08

Porque Perdemos, Senhor? Por Mãos de Tesoura

E a resposta é simples: porque tínhamos o Paulo Ferreiro a defesa esquerdo e o Ricardo Mãos de Manteiga a guarda redes, precisamente, onde eles têm o Lehman e o Lahm. No resto até somos melhores. Mas imaginem os alemães com o ricardo e o ferreiro e nós com o lehman e o lahm... Nem pergunto quem ganharia, só digo nós e por quantos quantos?