17/09/08

Alguém Quer Ir?, por Marado

Vi a publicidade na TV e chamou-me a atenção. Depois o P. foi ver o filme e disse que era magnífico, imperdível, etc. Anteontem encontrei o J. a cantarolar uma música do Dino Meira e desconfiei:
- Foste ver Aquele Querido Mês de Agosto, pá?
Ele disse que sim e esteve cinco minutos a gabar o filme.
Entretanto o R. que ouviu a conversa também se juntou e confessou-se extasiado. O J. é um apreciador crítico da Cindy Sherman e um leitor atento da obra de Giorgio Agamben. O R. fala muito alto, transpira dos sovacos e aprecia mais o Tony Carreira.
Pensei que um filme que agrada a gente tão diferente deve ser mesmo muito bom. Ou muito mau, não sei bem...

Ontem perguntei ao Mangas se queria ir ver o filme, mas ele disse que já tinha visto uma parte no You Tube (ah bom...) e, claro, foi dormir a sesta. Ainda não fui ver Aquele Querido Mês de Agosto, o segundo filme de Miguel Gomes, filmado em Coja e em Arganil com o recurso a intérpretes locais. O argumento tem como pano de fundo o universo rural do interior de Portugal, a banda sonora é 100% pimba e inclui os ícones Dino Meira e Marante. Lanço aqui o repto: quem é que quer ir ver o filme comigo ao Dolce Vita? Amanhã não, claro, que dá o Benfica na televisão...

O fabulosod Dino Meira em http://www.youtube.com/watch?v=vC06ftidij4

14/09/08

Isto é um Assalto! por Cão

Veja-se o caso dos assaltos às estações de abastecimento de combustíveis. Acontecer, acontecem: mas que é que isso interessa? Ao menos que, quando e se se noticiasse um assalto a umas bombas, que, em “caixa”, se dissesse também quanto é que tal gasolineira tem andado a roubar ao automobilista.

09/09/08

Youth Without Youth - a Segunda Juventude de Coppola, ou o regresso do Mestre, por Mangas

Tapornumporco - De onde lhe surgiu a ideia para fazer Youth Without Youth?

Copola - Foi Wendy Doniger antiga colega de Liceu e que hoje é uma iminente professora de Estudos Asiáticos na Universidade de Chicago que me chamou a atenção para o livro de Mircea Eliade. Li-o e achei que com um baixo orçamento podia transformar o livro num filme interessante sem que, pela primeira vez, dependesse de alguém que não do meu talento.

T - Visualmente, o filme é poderoso. Dá a sensação que emerge de um limbo onde as cores traduzem, mais do que ambiências, sensações e estados de alma. A intemporalidade das imagens, a composição da fotografia que, em alguns planos, é de uma beleza glorificada. A noite em Malta que foi sempre filmada a azul porque era o tempo da maldição; as velas acesas nos Cafés, as ruas de Bucareste em tons pastel, tonalidades de época em plena Grande Guerra. Pode dizer-se que este é o seu projecto mais surrealista?

C - Mas repare, de que outra forma poderia eu filmar tempo, linguagem, consciência? Enquanto objectos do meu interesse, quer pessoal, quer de realizador, tentei que não se reduzissem perante o tema que lhes dava forma e estrutura: uma história de amor. Essa articulação, e o lugar físico onde ela acontecia na Europa, foram as minhas primeiras preocupações, o meu ponto de partida. O resto foi afinação do estilo e trazer de volta o meu sentido experimental. O rejuvenescimento de Dominic e o envelhecimento de Verónica como linhas paralelas, mas em sentidos opostos - a ideia é tão simples como complicada de filmar quando se quer fazer algo que não pareça banal. E eu sou um tipo que não fazia nada há dez anos. Percebe? Outro exemplo: dar visibilidade a várias metempsicoses requer algum trabalho e planificação. Pura e simplesmente, eu não podia filmar a transmigração da mesma alma de um corpo para o outro com dois takes numa sala de montagem como Roger Corman teria feito nos anos sessenta.

T - A morte da dupla identidade de Dominic. O espelho estilhaçado foi um recurso simples.

C - Keep it simple. Nem sempre podemos fazer ópera. Dominic teve duas oportunidades: uma perdeu-a, a outra decidiu abdicar dela para a salvar. E não existem maldições, apenas amaldiçoados.

T - Até as pequenas falhas parecem quebras, minúsculas roturas nesse exercício de estilo…

C - Quais falhas? A que se refere concretamente?

T - Bem, a cena do guarda-chuva a arder à chuva depois de ser atingido por um raio, convirá que é mais metafórica do que original…

C - Então, onde lhe parece aí ter havido a rotura de estilo?

T - É que logo a seguir, a sequência completa-se com as partículas fumegantes a descer no ar, que, a mim pessoalmente, me fez lembrar o fundo baço com gotículas do absinto e glóbulos vermelhos do seu Dracula.

C - Talvez. O mesmo processo, mas com resultados diferentes.

T - Exacto! O que se vê é a antecipação. E esta está escondida. Esta linguagem cinematográfica também subsiste sem palavras.

C - Penso que nas últimas décadas o cinema evoluiu muito mais sustentado por progressos tecnológicos do que por palavras acrescentados ao vocabulário. Já foi tudo inventado. Griffith, Chaplin, Eiseinstein foram os pioneiros e fizeram-no sem som. O que há agora é variações sobre o mesmo tema. No North by Northwest do Hitchcock, a cena de mais profunda dor e sentimento traído não é do Cary Grant, o homem que ama, quando descobre que a Eve Saint Marie o mandou para a morte. Essa cena é aquela em que o James Mason, o homem que possui, porque tem posse sobre a Eve Saint Marie, descobre ter sido traído por ela quando descarregou sobre o Cary Grant uma pistola com pólvora seca. De comum ambas as cenas deste triângulo fatal têm o facto de ter sido a mesma mulher a trair os dois homens – traiu o que amava, por não ter alternativa, e traiu o outro, o que odiava e por quem era possuída, para proteger a vida do que amava. E tudo isto é feito com poucas palavras, muitos planos de câmara em diferentes ângulos e a mão genial do realizador. Repare com atenção na face crispada do James Mason. Em toda aquela raiva contida a morder o punho quando descobre que foi traído.

Silêncio.

T - Não pude deixar de reparar na homenagem explicita que fez ao Maltese Falcon do John Huston quando Veronica perguntou a Dominic quais eram os animais de Malta.

C - Para mim é o melhor filme de detectives de sempre.

T - É também muito interessante que tenha usado a palavra, a linguagem, como personagem intrínseca do filme.

C - Sim, acredito cada vez mais que nos dias de hoje só nos restam as palavras para comunicar a verdade das coisas como as entendemos, dos sentimentos como os vivemos. Ícones, imagens, logótipos, linguagens multimédia, são recursos imediatos, atalhos que servem o propósito. Só as palavras mantêm na sua essência a verdade. A filosofia do filme também passa por esse caminho – na simplicidade rigorosa do que não pode ser alterável. E o fascínio vem daí: quanto mais mergulhamos nesse universo, mais nos apercebemos da complexidade e, ao mesmo tempo, da clareza das palavras, da honestidade dos símbolos. No Japão, dois traços na vertical unidos em cima numa só linha e separados para lados opostos em baixo, cortados a meio por uma linha ligeiramente ondulada na perpendicular, significa perfeição, excelência, estado supremo de apuro. Isso digo-lhe eu que sou americano. Se perguntasse a um cultivador de arroz de Hokkaido, ele dar-lhe-ia uma explicação que demorava meia hora. Foi assim há milhares de anos e ainda é. E são apenas três linhas.

T - Foi por isso que filmou o primeiro beijo de Dominic a Veronica no banco de trás de um táxi, perdido algures numa movimentada rua de uma cidade indiana? Em recurso dessa genuína honestidade…

C - Talvez. (risos)

T - Porque se ri?

C - Bem, é que o primeiro beijo também pode ser uma verdade simples que nem todo o tempo irá alterar. Eu dei o meu primeiro beijo a Wendy Doniger quando tinha 15 anos.

T - Nunca se sentiu na pele de Preston Tucker, como um artista capaz de realizar verdadeiras obras de arte e, ainda assim, ser incompreendido e não conseguir com elas a projecção merecida o retorno financeiro? Estou-me a lembrar do ambicioso desastre que foi One from the Heart, de Rumble Fish e do próprio Tucker - A Man and His Dream.

C - Houve uma altura em que me preocupava com aquilo que as pessoas diziam e escreviam sobre os meus filmes, mas se fizesse a minha carreira dependente das críticas nunca teria tido tomates para seguir o meu caminho. Preston Tucker era um visionário que foi engolido pelos três grandes tubarões da indústria automóvel americana à época, a Ford, a Chrysler e a General Motors. Na realidade tinha imenso talento, mas nunca teve poder. Quando pensei realizar Tucker, achei que poderia fazer uma declaração artística do homem contra o sistema. A cruel ironia é que o filme podia servir para contar a minha história, o meu percurso até ali. One From The Heart levou-me à falência. Tudo que fiz a seguir no cinema, bem como os meus vinhos e os meus hotéis, serviram para pagar essa dívida colossal. Hoje posso dizer que estou imune à política de cifrões dos grandes estúdios. Posso filmar apenas o que me agrada e da forma que bem entender sem que um executivo engravatado me faça sentir empregado de alguém.

T - Para quando Megalopolis?

C - Não sei. Talvez nunca. Há mais de duas décadas que tenho o projecto na cabeça e no papel, avanços e recuos. É um épico imenso. Demasiado, talvez, começo a acreditar.

T - Queria dizer-lhe, para acabar, que o primeiro plano de Patton, com o George C. Scott a discursar às tropas com a bandeira ao fundo, é das melhores sequências de abertura que já vi no cinema. E foi você que escreveu aquilo.

C - Obrigado.

T - Eu é que lhe agradeço.

03/09/08

Hardcore, por Manguelas

O primeiro ministro, pinto de sousa e a inefável ministra da educação, m.l.rodrigues, decidiram sinalizar o «arranque do novo ano lectivo» com mais uma acção de propaganda numa qualquer escola perto de si. Não sei bem qual era a ideia, mais um show of qualquer a respeito da brilhante política educativa do governo. O problema daquelas duas personagens é que nem todos os jornalistas estão lá para lhes fazerem as perguntas que suas eminências querem ouvir. E depois é uma chatice quando os telejornais passam as perguntas incómodas dos jornalistas em vez de reproduzirem, simplesmente, a propaganda desejada. Às vezes acontece...

Aconteceu agora que lembraram-se alguns jornalistas e bem, digo eu, de perguntar a suas sumidades o que tinham a declarar sobre os 40 oo0 docentes que não conseguiram colocação para este ano. E as respostas, irritadas, mal dispostas, coléricas, nervosas, desrespeitosas, são indignas de qualquer governante com um mínimo de decoro.

Milu rodrigues limitou-se a um nervoso «tenha paciência» acompanhado por mais uns ruídos irritados e exclamativos e virou imediatamente as costas à jornalista. Como se aquilo não fosse uma pergunta legítima, como se o país não quisesse ouvir a sua explicação para o facto, como se os 40 000 desempregados, ao menos esses, não merecessem mais que um virar de costas. Repugnante e indigno de um político com um mínimo de decoro...

Quanto ao primeiro, pinto de sousa, o homem resolveu falar. Mas mais valia estar calado. Com a habitual pose de quem não está para ser contrariado, afirmou que «o tempo da facilidade acabou» (sic). Que «o governo não vai contratar mais professores sem precisar deles». Passo por cima da afirmação segundo a qual o país não precisa de mais profes. Eu acho que precisa. Mas a questão não é essa. A questão é que estas declarações são inadmíssiveis!

Ainda que a tese de pinto de sousa seja correcta, mesmo supondo que o mercado de trabalho já não absorve aqueles 40 000 excedentários que engrossam agora as filas do desemprego, ainda assim, nada justifica a total insensibilidade com que o primeiro ministro se lhes referiu. Qualquer desempregado deveria merecer, em primeirísssimo lugar, a total solidariedade de qualquer governante, que digo?, de qualquer pessoa minimamente responsável. Sejam professores, arquitectos, pedreiros, carpinteiros, barbeiros ou pasteleiros, quaisquer pessoas na situação dramática do desemprego, merecem, antes de tudo, o respeito e a solidariedade dos seus concidadãos. Referir-se a desempregados dizendo-lhes que só no tempo da facilidade é que podiam ser integrados é mais que faltar-lhes ao respeito. É tratá-los como calaceiros, como mandriões, como langões, é fazer deles os responsáveis e não as vítimas do problema. Não ouvi uma única palavra de compreensão, nada mais que um seco e arrogante «o tempo da facilidade acabaou» (sic)

Acho estas declarações inadmíssiveis ainda por cima vindas de um indivíduo que tirou («tirar» neste caso é uma palavra apropriada) o curso, como se sabe, usufruindo, ele sim, de facilidades absolutamente inacreditáveis. Quem passou uma vida a estudar para tirar um curso a sério pasma! Um indivíduo que tem no seu curriculum os miseráveis projectos da câmara da Covilhã devia era estar caladinho quando pronuncia a palavra «facilidade». Eu já não esperava nada deste senhor. Nada... Mas ele consegue sempre surpreender-me e descer até níveis que eu não julgava possíveis num primeiro ministro, seja ele quem for, de esquerda ou de direita de um país pobre ou de um país rico.

Pode ser que esses 40 000 manguelas, na sua maioria jovens licenciados em cujas formações o estado investiu dinheiro à toa, sejam só uma pequena parte de muitos outros que, espero, lhe dêem a lição que ele merece nas próximas eleições. E que, de uma vez por todas, ele volte para o anonimato da trupe dos aparelhos partidários de onde ele veio e de onde nunca devia ter saído.

P.S. O pic que ilustra o post é a célebre foto de Dorothea Lange, Migrant Mother, que se tornou num dos ícones mais ilustrativos do drama do desemprego. Duvido que o primeiro ministro e a sua ministra da educação conheçam esta foto. Se a conhecem, a julgar pelas suas reacções, não compreendem minimamente o seu significado. Fica por isso o olhar digno daquela «migrant mother» para os olhar de frente na hipótese improvável de um dia virem ao Porco.

02/09/08

Os Tigres, por Nabo Leão

Em 1808 a corte portuguesa fugiu para o Brasil. Foi a primeira vez que um soberano do Velho Continente se deslocou em carne e osso aos seus territórios ultramarinos. D. João VI, o soberano português, até havia de gostar dos trópicos e, rezam as crónicas, já nem queria sair do Rio de Janeiro depois de lá morar durante uns anos. Compreende-se.

A fuga da corte portuguesa foi uma vergonha nacional, até porque as tropas invasoras napoleónicas que chegaram a Lisboa em 1808, comandadas por Junot, vinham num estado lastimoso e, com o apoio dos Ingleses, podíamos perfeitamente tê-las rechaçado. É espantoso como uma nação que se habituou a combater desde a sua fundação para manter a sua soberania tenha decidido fugir daquela maneira para o outro lado do Atlântico. Mas foi o que foi. A vergonha foi notória. Conta-se que a rainha D. Maria I, mãe de D. João, terá mesmo dito ao cocheiro para que não fosse tão depressa para que não se pensasse que fugiam dos franceses.

Medroso ou cobarde, o certo é que D. João VI foi dos poucos monarcas que conseguiu sobreviver à revolução francesa e a Napoleão. Não acabou decapitado, nem exilado nem preso como os seus semelhantes europeus e governou enquanto monarca do Império de Portugal do Brasil, do Algarve e das Áfricas até ao fim dos seus dias. Pouco antes de morrer no seu exílio em Santa Helena, Bonaparte escreveu mesmo nas suas Memórias, referindo-se a D. João: «Foi o único que me enganou». Ora toma!

A viagem da corte haveria de marcar a história do Brasil e de Portugal. Os Portugueses foram encontrar uma cidade com graves problemas de higiene. No seu livro 1808, Publicações D. Quixote, 2007, o investigador brasileiro Laurentino Gomes conta uma história impressionante a este respeito. E acrescenta uma explicação para o atraso no saneamento no Rio de Janeiro. Trata-se ao mesmo tempo de um testemunho incómodo sobre os níveis de degradação e de humilhação a que o racismo pode conduzir. E isto não se passou assim à tanto tempo... Ora leiam, reproduzo com a devida vénia da página 135 do livro, cuja leitura aconselho vivamente:

«A urina e as fezes dos moradores (do Rio) recolhidas durante a nite eram transportadas de manhã para serem despejadas no mar por escravos que carregavam grandes tonéis de esgoto às costas. Durante o percurso, parte do conteúdo desses tonéis, repleto de amónia e ureia, caía sobre a pele e, com o passar do tempo, deixava listras branca nas suas costas negras. Por isso, estes escravos eram conhecidos como tigres. (...) O sociólogo Gilberto Freyre diz que a facilidade de dispor de «tigres» e o seu baixo custo retardou a criação de redes de saneamento nas cidades e no litoral brasileiro».

01/09/08

www.raspadinha.lete, por Cão

(Crónica nº 65 da série Rosário Breve, in O Ribatejo - www.oribatejo.pt, edição de 22 de Agosto de 2008)
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Não sei quem terá sido o caluniador que me bufou aos remotos “masters” da internet, mas é que todo o santo dia recebo na minha caixa de correio electrónico uma carrada de propostas farmacêuticas para aumento volumétrico do meu, digamos, “coiso”. E não só. A farmacologia da www. teima, ainda, em convencer-me a enveredar pelo azul: ou seja, pelo viagra, como se “isto”, afinal, já não fosse uma irrecuperável miniatura.
Está certo que devo ao Fisco, de momento, coisa de cento e picos euros. Mas também não era caso para isto. É verdade que na Lete do Central tenho um “cão” de quatro ginjas, dois bolos de bacalhau, meia grade de minis e um bilhete de raspadinha. Mas não era coisa que me fizessem.
Antes das novas tecnologias, a vida era muito mais fácil e muito mais gira e muito mais bonita. Era. Antigamente, a história só tinha duas hipóteses: ou era antes de Cristo ou depois dEle. Agora é tudo durante: durante www., que não sei o que quer dizer porque é letra que não aprendi em nenhuma cópia-caligrafia da minha primavera marcelista particular.
Sou um semi-órfão já madurote de 44 anos. Ainda não, portanto, me assaltaram nem o des-hastear da bandeira nem o falso azul do céu químico. Nã-senhor. Tenho feito o meu papel, geralmente nesta página até. Informo-me, oriento-me, frequento bares de gente desquitada, vou a apresentações de livros e a inaugurações de pintura, não me rio alto, quase nunca, sempre que algum presidente de câmara fala ou escreve: tudo na linha, cá comigo. Portanto, não merecia tanto entulho. Como diria talvez Hergé, faço o meu tintim. Não merecia era isto do correio electrónico, nem mereço nova oportunidade alguma para coisa, ou “coiso”, nenhum(a).
Que comigo, raspar por raspar, ou raspadinha por raspadinha, só se for na Lete da Central.

28/08/08

Devo ser eu que não vejo um boi de espanhol, por Infante Santo

José Enrique Ruiz-Domènec é o autor do livro que ando a ler, Isabel La Católica, O El Yugo del Poder, Ediciones Península, Barcelona, 2006. A biografia do autor ,indicada no livro, informa-me que se trata de um professor catedrático de História Medieval na Universidade autónoma de Barcelona, membro da Real Academia de Buenas Letras de Barcelona, conferencista em numerosas universidades da Europa e da América, para além de uma notável obra publicada na sua área. Até estou a gostar do livro, mas expliquem-me lá como é que é possível esta afirmação que leio na página 20 e que reproduzo ipsis verbis no original castelhano sem mais comentários:

«Estas tres mujeres portuguesas le inculcaran la fascinacion por Enrique el Navegante, hermano del abuelo materno, el primer rey que controló la ruta del oro de Guinea y que tuvo noticias de hombres asilvestrados.»

E, já agora, na página 21:

«El abuelo castellano Enrique III era tan gran hombre como el tío abuelo português Enrique el Navegante. Ambos fueron buenos reyes porque antes que nada fueron hombres de cultura literaria.»

27/08/08

Galinhos, Rio Grande do Norte, Brasil, por Potiguar



A primeira foto foi tirada ao longe para se perceber um pouco das dimensões daquele sítio. A segunda retrata a euforia de quem se descobre a nadar no meio de um postal turísitco, subitamente tornado real.Em que outro país é que é possível alugarmos um barco por um dia inteiro a preço mais que razoável e passar horas a descobrir sítios como esse que aí vai nas fotos?



É esmagador e, acreditem, as fotos mostram pouco: falta a amplitude, faltam os cheiros, falta o calor, a imensidão do espaço, as dentadas do sol, falta a luz, a humidade, a tepidez da água, falta o sal no corpo, falta a sombra das nuvens que vão e vêm, faltam os sons e os silêncios... Falta quase tudo e, no entanto, aposto que estas fotos fazem inveja. A mim fazem e estive lá...

26/08/08

Tesourinhos Deprimentes das Minhas Férias, por Turista Fedorento

...E no entanto nem tudo no Brasil é fantástico... Há muita coisa que é mesmo deplorável. Por exemplo o Jurandy do Sax. Aposto que ninguém ouviu falar do Jurandy, mas o que é certo é que o homem é um caso sério de popularidade em João Pessoa, capital da Paraíba, referenciado até nos mais insuspeitos guias do Brasil, mesmo no American Express.
E quem é o Jurandy do sax, perguntam vocês? Ninguém, não é ninguém. É um gajo assim pó anafado que teve um dia uma ideia que resultou e com a qual ganha a vida. O Jurandy, ou alguém por ele, lembrou-se um dia de ir tocar o bolero de Ravel pra a praia fluvial do Jacaré, mesmo na foz do rio Paraíba, em João Pessoa, enquanto as pessoas apreciam o excelente pôr do sol que se pode ver dali. E vai daí, de há muitos anos para cá, aos fins da tarde, o Jurandy sobe para cima de um barquito a remos conduzido por um mulato e vai de tocar o bolero de ravel em versão saxofone. É bizarro não é? Um gajo gordo, de cabelo comprido e túnica branca, em pé em cima de um barquito a saxofonar o bolero, enquanto resmas de turistas reformados do Rio Grande do Sul e de S. Paulo bebem caipirinhas falsificadas ao pôr do sol? Ainda por cima aquilo é um vergonhoso play back a sair de colunas pornográficas com o volume insuportavelmente no máximo. Note-se que não falamos de arte mas de um ritual diário e repetitivo levado a cabo por um gajo que macaqueia a mesma música ano após ano, pôr do sol após pôr do sol, infatigavelmente. É bizarro sim, mas resultou. A praia do Jacaré está sempre cheia de reformados ao lusco fusco.

Bem, eu também estive lá numa terça ao fim da tarde na praia do Jacaré e fartei-me de rir. Aquilo é meio surrealista, tem um encanto kitch, meio bizarro... E o homem é um personagem. O problema agora é que desde que vi o Jurandy ao vivo nunca mais preguei olho. Ele aparece-me nos piores pesadelos. O jurandy é o freddy krueger dos trópicos, o papão dos fins de tarde, a piranha do rio Paraiba, o dengue das minhas férias... o Jurandy é feio, veste mal,toca horrivelmente e ainda por cima em play back, o jurandy é o carrasco do bolero de ravel. Aquele homem não faz mais que estragar o excelente pôr do sol que se avista dali. Deviam proibi-lo de poluir o ambiente. Se eu mandasse no Brasil mandava-o implodir como se fosse o prédio Coutinho lá deles. Mas não mando e é pena.

Para quem for um dia a João Pessoa deixo aqui um conselho: se vos falarem no Jurandy (e falam, de certeza que, vá-se lá saber porquê, o homem é uma atracção turística) digam que não querem, muito obrigado. E fiquem a saber que ele toca o bolero todas as terças, quintas e fins de semana ao pôr do sol. Pensam que podem lá ir, sem riscos, às segundas, quartas e sextas? Desenganem-se. Eles pensarem em tudo: nesses dias toca o Arnaud do Sax...

21/08/08

É Natal!, por Potiguar


Só para meter um bocado de nojo aqui ficam duas fotos de uma das viagens mais fantásticas que alguma vez realizei: o passeio de buggie (em brasileiro «bugue») de Natal, no Rio Grande do Norte, Brasil, até Maracajaú por entre dunas de 100 metros, lagoas móveis e permanentes, rios e desertos de areia e praias de sonho. Foram só 60 kilómetros, mas a cada segundo tive a consciência clara de estar a ver, a sentir e a viver momentos de absoluta excepção na minha vida. E no dia dessas fotos que aí estão em baixo, só andámos 60 kilómetros... Porém, de Natal a Fortaleza, capital do Ceará, sõa cerca de 1000 kilómetros por sítios assim (por estrada são 500 e picos), num total de 4 dias de viagem. Até Jericoacoara, um pouco mais acima são 7 dias de viagem.

Não imagino o que será uma semana a viver num bugue a voar por entre sítios tão fantásticos. Há um gajo que sabe o que é isso: o Miguel Sousa Tavares. N´O Sul, o seu livro-relato de viagens ele descreve, precisamente, esta rota de bugue Natal-Fortaleza, vão lá ler. Se ganhasse tanto como ele, partia já no mês de Setembro e só parava em Jeri. Ou não parava mais, sei lá...

20/08/08

A Cigarra e a Formiga, por Soneca

Um gajo vai de férias para o exterior, chega aqui à santa terrinha donde não tem notícias faz duas semanas, abre o Porco e o que é que vê? Que o último post foi postado (pelo Mangas, saravá!) faz uma eternidade. Malandros. Langões. E é que nem de propósito. Recém chegado, percebo que o país se entreteve durante o tempo em que estive ausente com as polémicas declarações de um atleta portuga, Marco Fortes de seu nome, que terá justificado a sua fraca performance nos Jogos da China, com a sua inaptidão para trabalhar de manhã. Disse o bom do Marco que, com a mudança de fusos horários, a competição calhava-lhe a uma hora matinal em que lhe apetecia era estar na caminha. Foi sincero, eu de manhã, também gosto é de cama, tou com ele.

Por isso não percebi muito bem, o escândalo nacional que se levantou com as declarações do nosso Marco que já terá sido recambiado para a pátria e tudo como castigo pela sua ingenuidade. Ou melhor, percebo, o pessoal queria medalhas e, não as havendo, malhou-se no pobre do Marco que se pôs com os costados mesmo a jeito. Eu volto a dizer: simpatizo com o Marco que foi prós Jogos imbuído do mais puro espírito Cobertin ( «O que importa è competir» de preferência depois do almoço).

O Marco é a cigarra desta história e a formiga é a Vanessa Fernandes. A Vanessa mostrou ser a melhor atleta portuguesa nos Jogos, até ao momento, mas, do meu ponto de vista, as suas declarações acerca dos seus colegas olímpicos foram dignas de uma medalha de lata. Ela criticou os outros atletas que foram para a China com a filosofia Cobertin do Marco, demarcou-se da manada ao afirmar que aquilo era para pessoas com espírito de sacríficio - como ela - e não para a maltosa diletante que foi para Pequim passar umas férias. Até pode ter razão, mas não está em posição de declarar uma coisa destas, ainda por cima depois de ter ganho uma medalha. É horripilante que em plena euforia com a sua medalha de prata, ela se venha distinguir dos colegas publicamente, apontando-se, ainda que indirectamente, como exemplo por contraste com os bardinas dos Marcos. A Vanessa portou-se como a formiga da história que deixou morrer a pobre da cigarra à fome quando tinha a dispensa cheia de comidinha. Para não fazer o triste papel da formiga, bastava-lhe estar caladinha. Mas não foi capaz e tratou logo de empurrar o caixão dos colegas mais para baixo. Mortos? Vocês estão é mal enterrados.

Pode não haver comparação entre o atleta(?) Marco e a atleta Vanessa. Mas, mesmo sem os conhecer, simpatizo muito mais com o Marco. Para destoar do estranho coro dos ofendidos da pátria eu nomeio o Marco, Herói Nacional do Tapornumporco e de um dos seus desportos favoritos: a siesta. É ou não é, Mangas?

12/08/08

elBulli, o Quim dos Ossos e a Terminação do Anjo, por Mangas

Recentemente a revista inglesa Restaurant elegeu os 50 melhores restaurantes de todo o mundo. A votação é à escala global com o mundo dividido em 22 regiões podendo cada um dos 651 jurados – chefs, críticos de gastronomia, jornalistas, gestores de restauração - votar em dois restaurantes da mesma região, num total de cinco escolhas. Estamos pois perante a nata da cozinha vanguardista, dos pratos mirabolantes e tendências desde a nitrocaipirinha, até à gastronomia molecular ou de fusão, passando pelas espumas, gelatinas e gelificações instantâneas com azoto líquido. Basicamente: o estado-da-arte gastronómico pelas mãos de verdadeiros artistas e criadores da alambazança. O espanhol El Bulli, cujo maestro de orquestra é o catalão Ferran Adrià, repetiu a vitória do ano passado e de 2002, fortalecendo ainda mais o estatuto de catedral primus inter pares. Nuestros hermanos meteram seis restaurantes na lista. Os franceses foram os mais votados, com doze restaurantes no total, logo atrás os EUA com oito, e os ingleses com sete, tendo o Fat Duck, situado num antigo pub de Londres, ficado em segundo lugar. O basco Arzak (10º), por exemplo, foi o primeiro três estrelas espanhol e o nova-iorquino Per Se (9º) serve o sal à parte, numa bandeja de prata, a fazer lembrar cocaína-sirvam-se; o francês Bras (6º), serve o famoso coulant de chocolat, um biscoito recheado de chocolate fundido que passou à história da gastronomia, criado e patenteado pelo chef Michel Bras. E por aí fora…

Eu gosto de tascas. Daquele cheiro avinagrado a peixes de rio em escabeche, iscas de cebolada e vinho cor de amora em copos pequenos de vidro grosso ainda a pingar depois de esvaziados. Gosto de pão de côdea pardacenta e pratos de dobrada onde a molhar. De moelas consumadas há três dias pelo menos, pois só assim o molho estaciona espesso e confiável. De rins afogados naquele puré castanho que se separa do azeite onde foram salteados de assalto. O meu amigo Quim dos Ossos tem uma tasca. Quando é Verão passo por lá, e sento-me, e ele vem sentar-se ao meu lado, e é sempre sombra, mesmo sendo Agosto.

O Daniel Abrunheiro não é Chef de cozinha, mas escreve como se confeccionasse iguarias raras com as palavras, sentidos de paladares e ritmos temperados como especialidades marinadas de entristecimentos e euforias – daquelas que um condenado deve levar da última ceia para a forca e esquecer que o mundo acaba amanhã. O seu último livro, Terminação do Anjo, é uma refeição completa. Podia-lhe acontecer como ao Alain Fournier depois de editar O Grande Meaulnes: desaparecer para sempre. Quer dizer, o legado de um imenso talento ficava cá. Nada mais lhe seria necessário escrever, criar, alinhar entre parágrafos ou biografar. Só que o Daniel não se ia assim como assim, de malas feitas e viagem antecipada. Era bem capaz de lançar ancora às asas de Camilo Ardenas e flutuar para onde nunca mais fosse visto. Mais tarde dir-se-ia que um livro os engolira aos dois.

«Chegou a cervejaria-marisqueira ao quarto para a uma e ofereceu-se aquele que só não era o seu maior prazer literário por ser, de facto e deveras, o único. A leitura, em verso livre, da ementa.
A primeira estrofe abria caldos, açordas e cremes. Um fio de ervas aromáticas doía uma dor fina través essas águas que ressumavam a higiene visceral do pescado. A ideia de moles moluscos partilhando a piscina quente da malga com fibra de peixes caldeirados tornava-se-lhe todo um cerrado monoideísmo de que só lograva largar-se a muito custo.
A segunda estância do cardápio alinhava uma tábua constitucional cujos artigos teriam nadado muito e muito antes de o poeta da ementa e de o cozinheiro seu declamador os terem fixado para sempre em substantivos de uma suculência inelutável: tamboril, robalo, linguado, cherne, dourada, salmão, salmonete, rodovalho, congro, safio, choco.
Já a este ponto da decifração da carta se tornara impossível a António Tomás pôr sopremo ao fervilhar das papilas gustativas, esse campo de morangos para sempre a que ele, desencabrestado de todo, propunha já a terceira canção. Posto que a apoteose marinha não era solipsista, o poemenu descambava em carnificina: um rosbife túmido e mal passado como um beijo, uma região de vaca afrancesada o suficiente para que lhe chamassem chateaubriand, as costeletinhas de borrego escovado por uma caspa de limoeiro, o honestíssimo e jucundo lombo assado, o bife à Casa que era prego por cravar o cristão céu-da-boca e o agnóstico palato ao lenho da eternidade, o bife tártaro em hordas corredoras de estepes e a sempre moranga costeleta de novilho que, pelo cravo do vacum, muito ajudava a exilar a rosa porcum do poemário de cervejarias forradas por dentro a azulejo fresco como coração de viúva nova.
António Tomás abençoou, comendo durante, os bons préstimo de Jesus Duque e seus candelabros de prata e sua margem de lucro e seus candelabros de lucro e seu lucro que em prata davam tão boa margem de cervejaria-marisqueira. Os cubos de pão torrado bebiam sozinhos o creme de frutos-do-mar, permitindo-lhe para sempre a introspecção rápida do espumante gelado e a consequente extracção do cérebro pelo nariz como na técnica balsâmica dos faraós.
Finíssimas fatias de presunto, bêbedas da poesia pura do puro sumo de melão, lavavam a boca entre as atrocidades dentais, das que menor não foi a ingestão, sem guarnições tolas de acréscimo, de um linguado de longitudinal fractura exposta à manteiga e à salsa, sentido o humílimo parentesco desta com o trevo-mijão.
A toalha, branca de neve, dispunha anões solícitos e sete: a tacinha de estanho com o detergente digital ungido de limão químico; o recebedouro de caroços cuspidos sem banda sonora; o cinzeiro terminal para o cubano filosófico; o pratito quase proletário de manteigas de alho e queijitos de cabra em série; o guardanapo de linho pesado como um dote de arca ou um cinzeiro de grés; a chapa perfurada com o número da mesa; e a mão esquerda de António Tomás, que, sufocada até à gangrena pelo anel matrimonial, ourejava em vão o prol de um amor extinto.»

em, Terminação do Anjo, de Daniel Abrunheiro.


foto: Wing of Death, de EUHAU

31/07/08

Os Marcianos São Danados Pá Brincadeira, por Dr. Nlle

Crónicas Marcianas do mais célebre escritor norte americano de ficção científica, Ray Bradbury, é uma obra indispensavel. O livro tem uma unidade de conjunto mas também pode ser lido no formato crónica, uma vez que cada pequeno conto tem uma coesão própria e acabada. No seu todo Bradbury relata/sonha com a futura colonização do planeta Marte nas suas várias etapas, desde a chegada dos primeiros foguetões terrestres até às hordas de colonos que fundam as novas cidades. Mas Marte esconde muitas surpresas e mistérios...

Entre as várias questões que o livro levanta, há uma que já tinha visto desenvolvida em leituras anteriores - nomeadamente em Carl Sagan e nos grandes teóricos comunicacionais de Palo Alto, como Paul Watzlawick. Imaginem que vamos para um planeta cujos habitantes não têm qualquer ponto comum aparente connosco. Podemos comunicar com animais, até certo ponto - toda a gente percebe quando um cão está com um ar ameaçador ou amigável. Os seus códigos expressivos são-nos mais ou menos familiares e existe até uma disciplina chamada Zoosemiótica que procura, precisamente, estudar os signos usados pelos animais na comunicação. Mas... E os Etês? Quer dizer, se eles não forem, como são commumente imaginados, seres humanos mais baixotes com grandes cabeçorras nem homenzinhos verdes do H.G. Wells nem aquele personagem kiducho do Spielberg? Mesmo com os alienígenas completamente ameaçadores ainda há um esboço de comunicação connosco, quanto mais não seja percebemos as suas intenções agressivas, como se passa com a saga Alien. E não esqueçamos o bizarro Tim Burton com os seus cáusticos etês a gozarem e a chacinarem os inocentes terrestres...

Mas imaginemos que vamos dar a um planeta onde nos deparamos com a alteridade radical que não sabemos sequer interpretar como amigável ou ameaçadora... Imaginemos que os etês são inverosímeis luzes ou balões... Como podemos comunicar com um balão? Ou com uma luz? Como podemos comunicar com balões de fogo, os marcianos de Bradbury? Percebo que foi aqui que Watzlawick e Sagan se devem ter inspirado: os balões ígneos de Marte deram que falar e não foi só junto dos cultores da ficção científica. E vocês? Como comunicariam com balões ígneos? A caixa dos comments está à vossa disposição. O tema promete...

30/07/08

Porizemplo, por Cão


O senhor Presidente da República pode promulgar quantos acordos ortográficos quiser. Cavaco Silva nunca ligou muito a estas coisas, aliás. Quando ainda primeiro-ministro, não sabia quantos cantos tinha (e tem) a epopeia de Camões. Saberá, hoje, quantos?
Eu não alinho nesta ortografia premiadora da ignorância. Comigo, muitos milhares de portugueses não vão abrasileirar-se por razão alguma. Falar e escrever correctamente são vinculativos da vera nacionalidade. E não, eu não disse “nacionalismo”. Disse “nacionalidade” – é diferente.
A riqueza de uma língua (qualquer língua) está na sua diversidade natural, não na sua artificiosa “unidade” artificial. Sei muito bem que o evoluir de um idioma está sujeito ao mesmo princípio físico do menor esforço. Mas não é por isso que a rapaziada da Costa do Marfim se lembra de ir a França ensinar os franceses a escrever… francês. Nem ao-zamericanos, lerdos como são, passa pela corneta chegarem ao pé de Sua Majestade britânica e tentar convencê-la a escrever, como eles escrevem, “center” em vez do inglês “centre”. Pois não é assim? É.
Atente-se, a título de fundamentado exemplo fonético, nos fenómenos de acrescentamento e nos de supressão de sons na oralidade: prótese, epêntese, paragoge; e aférese, síncope, haplologia e apócope. “Depois” pode ser, na fala, “ódespois”. E “estou” é muitas vezes “tou”. Mas atenção: isto é na oralidade. À norma escrita cumpre a vigilância regulamentar destes atropelos, afinal naturais pelo menor esforço, à ortoépia. Sim, à ortoépia.
Senhores: em português de Portugal, a humidade do adjectivo “húmido” está toda no “h”. Não está no Brasil? Paciência. Eles que escrevam “úmido”.
A Escola primacial (para não dizer “primária” nem “básica”) deveria voltar a ensinar a ler e a escrever (ou seja, a pensar). Já chega de “pedagogias” da irresponsabilidade, de “estratégias” pró-ignorância e de procrastinações da treta: é ver o desnível ortográfico e sintáctico dos estudantes universitários nacionais de hoje em dia.
E, senhor Presidente, “Os Lusíadas” é coisa para 10 cantos. (Escreve-se “dez”, não “dés”. Até porque “dés” é a primeira sílaba de “déspota”, porizemplo.)

Crónica nº 62 da série Rosário Breve, n'O Ribatejo (www.oribatejo.pt) de 25 de Julho de 2008

28/07/08

El Hereje de Miguel Delibes, por Matías Sangrador

Miguel Delibes, nasceu em Valladalid em 1920 e não sei mas espero que ainda não tenha falecido. É um grande escritor, justamente reconhecido e premiado em Espanha e praticamente desconhecido entre nós. Da sua vasta obra, o único livro traduzido é El Hereje de 1999. É pena que seja o único, pior para nós.
Foi o nosso basco quem me falou de El Hereje e quem fez o favor de mo emprestar há cerca de 15 dias. Acabei de o ler na última sexta feira no castelhano original. Acho que é um grande livro e apesar de perder um ou outro vocábulo por falta de prática em ler na língua de nuestros hermanos, a experiência linguística acaba por compensar porque há sempre sentidos que se perdem nas traduções. Por isso, embora, El Hereje, seja o único livro de Delibes traduzido em português, mesmo assim, eu aconselho a leitura no original espanhol.

El Hereje conta-nos a história de Cipriano Salcedo e da sua família na época conturbada que se seguiu à proclamação da Reforma em 1517. Como se sabe a espanha do imperador Carlos V foi dos países que mais fortemente reagiu à expansão do Lueteranismo, tendo avivado a força do santo ofício e a perseguição aos herejes. Salcedo foi uma das suas muitas vítimas, tendo sido queimado no auto de fé de Valladolid a 21 de Maio de 1559.
Delibes coloca-nos dentro da cabeça do protagonista e faz-nos viver o horror da sua experiência. O tema é difícil e, à primeira vista, parece um projecto literariamente impossível, escrever um capítulo inteiro sobre o Auto de Fé (o último capítulo do livro) sem resvalar para o mau gosto ou para a porno-lamechice ao estilo do cineasta Mel Gibson. No entanto, Delibes arrisca. É um grande escritor que desafia um tema tabu, percorre sensivelmente a fronteira do escabroso e do mau gosto sem a mínima concessão. Entre outras - muitas - razões que não cabem no espaço apertado de um post foi também por isso que adorei o livro. Oxalá o D. Mau se continue a lembrar dos amigos quando encontrar lá pelas Espanhas mais coisas com o nível deste Miguel Delibes...