30/04/09

Luc Orient - O Fascínio dos Extra-Terrestres, por E-Tó Tó

Durante anos procurei por feiras da ladra diversas os velhos álbuns de um herói de ficção científica chamado Luc Orient. Agora, graças à Fnac, tudo se tornou mais simples. Encomendei e passado um mês tinha os quatro primeiros volumes de Luc Orient nas minhas mãos reunidos num só álbum que estou a devorar lentamente. Importado directamente da editora francesa...

Luc Orient foi uma criação de um dos maiores representantes da BD Franco-Belga, de seu nome Michel Greg. A versatilidade foi sempre a sua imagem de marca. Greg foi autor de séries infantis como Zig e Puce, humoríticas como Achille Tallon, colaborador de Hermann em séries de aventuras como Bernard Prince e Comanche (dois clássicos absolutos!) e de Vance em Bruno Brasil . A ele se deve também a autoria do argumento de algumas histórias de Spirou. Ou seja, uma boa parte do que de bom se fez na banda desenhada franco-belga passou pelas suas mãos. De 1965 a 1974 foi editor-chefe da revista Tintim. No diagnóstico que, no início, fez da «revista dos jovens dos 7 aos 77 anos», Greg constatou um problema: é que se em Tintim não faltavam géneros tradicionais como o Western, o policial ou a série humorística, já o mesmo não se podia dizer da Ficção Científica, praticamente ausente de Tintim.

Ora, acontece que a segunda metade dos anos 60 estava a ser marcada pelo tema. Havia uma verdadeira onda, quase psicanalítica, à volta da ficção científica, visível no cinema, na BD ( esta é uma das épocas áureas dos heróis Marvel e Dc Comics ou das Amazing Tales norte-americanas), até na música (o rock e a pop tornavam-se gradualmente psicadélicos e progressivos). Em suma, era preciso dar espaço em Tintim à Ficção Científica. As novas gerações de leitores assim o exigia. Luc Orient foi a resposta encontrada por Greg.

Greg escreve, assim, em 1967, a primeira aventura de Luc Orient, Les Dragons de Feu, em parceria com o desenhador Eddy Paape que com ele havia trabalhado nos anos cinquenta. A série mistura o suspense com o mistério e a ficção científica. Do meu ponto de vista tem evidentes pontos de contacto com Ric Hochet, outra excelente série. Orient, o cientista Kala e a diva Lora são colocados na pista de extra-terrestres retidos na terra, após aterragens falhadas nos seus discos voadores. Toda a trama é um jogo de confiança/desconfiança. Os E-tês serão boa gente? Podemos confiar neles? E nos outros personagens que gravitam nesta história? Quem são os bons e os maus? A série mantém o suspense, funcinando em regime inconclusivo - trata-se de uma daquelas séries que dantes me irritavam solenemente porque os episódios nunca tinham fim, acabavam sempre com um irritante «continua». Agora, em formato 4 álbuns num só, esse problema está melhor resolvido.
Luc Orient é uma boa proposta de leitura. A ficção científica não veio só da América e esta série é, precisamente, uma das mais representativas da produção europeia. Vale a pena retomar a banda desenhada.

29/04/09

Viva o Magalhães II, por Viva a Téquenologia

Estive para fazer aqui um manifesto contra o massacre dos inocentes no Egipto, mas entretanto tropecei nesta pérola e achei que ficava aqui melhor. Não perguntem porquê que não vale a pena:

26/04/09

Santo Condestável!, por Beato Salú

E o nosso Condestável lá foi promovido a Santo... Confesso que não percebo muito bem. Vamos lá ver se eu consigo explicar o meu ponto de vista sem ferir susceptibilidades. D. Nuno Álvares Pereira é uma personagem histórica da minha simpatia. Admiro-lhe a coragem e reconheço-lhe o papel decisivo que teve na revolução de 1383-85.Não me parece completamente absurdo que se atribua a Santidade a um militar. Afinal, o próprio S. Paulo foi um soldado, embora, mais tarde, se tenha arrependido. Mas os especialistas em História reconhecem que a vitória de Aljubarrota só foi possível à revelia de todos os códigos de cavalaria aceites na altura. Pelo que li, os Castelhanos foram surpreendidos com as armadilhas e os truques inesperados do exército comandado por D. Nuno. Um pouco, parece-me, como um exército que ganhasse uma batalha nos dias de hoje à custa da violação das Convenções de Genebra.
D. Nuno Álvares Pereira pode ter sido um génio militar, mas a julgar pelo seu comportamento em Aljubarrota, estará longe de ter sido um santo. Como é que o Vaticano decidiu canonizá-lo? Ouvi dizer que terá curado um olho a uma velhota, mas mesmo assim parece-me um bocado exagerado...

23/04/09

It´s Not a Sony!, por Sónia

Anteontem assisti ao monólogo do primeiro ministro na entrevista da RTP. Melhor; assisti a parte, não consegui ver tudo. Tive oportunidade de ouvir o homem a falar da crise, do desemprego, da justiça, do investimento, do presidente, mas a minha televisão devia estar avariada. Não se ouvia nada do que ele dizia!
Mas na testa dele, em letras garrafais, piscava como um letreiro néon, a palavra Freeport. Parecia que aquelas irritantes notas de rodapé que agora passam no fundo das televisões quando estão a dar os telejornais lhe tinham passado para a testa. O homem falava do emprego e só se via Freeport a brilhar-lhe na testa; do investimento e lia-se Freeport; perorava sobre a crise e o Freeport cintilava cada vez mais agressivo, cada vez mais urgente. Este homem apanhou um vírus comunicativo: não pode falar de nada que não se lhe acenda a palavra Freeport na testa.

Depois, finalmente, falou sobre o Freeport mas não disse Freeport disse «fripó» e eu pensava que o letreiro fuorescente a dizer Freeport se apagasse. Ouvi-o falar em «campanha negra»; vi-o «malhar» (termo querido ao ideólogo S.S. do seu partido) com a jornalista porque esta lhe colocou questões que ele não queria que lhe fossem colocadas. Comparou-se a Jesus Cristo com uma cruz às costas e tudo (Haja Deus!) mas acrescentou que não tinha o hábito de se vitimizar. Cristo, esse clamou contra o Pai que o abandonara...
Eu pensei que depois dele falar em «fripó» o letreiro a dizer Freeport saía-lhe da testa. Até nem era complicado. Mas não. Quando a entrevista estava quase a chegar ao fim deu-lhe uma sulipampa e até a cara do homem se sumiu da televisão. No écran tinha ficado apenas, a acender e a apagar em letras garrafais, uma enorme, berrante e imensa palavra Freeport. Devia ter comprado uma Sony, bem me avisaram para não comprar esta marca de televisão...

16/04/09

Coisas que passei hoje, por Cão

Passei rente a uma creche. Escutei as crianças no recreio: chilreavam como passaritos de bibe. Cada passarito individualizava o Universo.
Vi uns olhos azuis: também universalizavam a individualidade.
Vi o João Paulo G. Está precocemente encanecido. A realidade preocupa-o. Falou-me dos salários escandalosos dos administradores da GALP, dos interesses privados das roubalheiras públicas, das fábricas que fecham o País por todo o lado, de ir para a Suíça no sábado.
Vi uma casa torrada a frio pelo granizo que caía.
Passei por três mulheres ricas e três como os Reis Magos.
Ouvi o lamento fúnebre por um orizicultor afamado do número de amásias que teve, susteve e manteve anos a fio.
Li o nome “Isabel” num poema de jornal, não recordo qual.
Fui diagonal a negro por causa da roupa entre esquinas cinzentas.
Também pensei naquilo dos salários da GALP e no 25 de Abril e no granizo que enregelava as mãos caídas.
Assisti a um incêndio sem bombeiros – mas era só o meu coração sem dinheiro, de modo que não liguei.
Estive numa casa-de-pasto a ouvir falar do Sporting e do Chelsea e dos administradores milionários da GALP e da broncopneumonia de um homem de 51 anos já com netos.
Passei os olhos por uma crónica escrita em Newcastle há 130 anos.
Recebi um telefonema de alguém que, como eu, se enganou neste número.
Estive quase a chorar, mas aguentei-me porque o Liverpool defendeu a sua honra, haja ainda honra, nem que seja de calções.
Ao fim da tarde, a creche tinha fechado, o crepúsculo doía devagar nas últimas montras, as formigas recolhiam às tocas suburbanas, na casa-de-pasto serviam bacalhau, houve referências ominosas ao Porto-Manchester, mas quanto à GALP mais nada, Isabel.

14/04/09

Post Para Quem Não Tem Pachorra Para Ler Apesar de reconhecer Que é Sempre Bom Saber Alguma Coisa sobre o Diabo dos Livros, por Alexandria

Herman Melville - Moby Dick - Um alucinado conduz alguns curiosos numa caça a uma baleia armada em esquisita. No final morrem todos menos um que fica para contar a história.

William Faulkner - Na Minha Morte - A mãe vai a enterrar numa carroça e ao longo do enterro o resto da família pensa na morte da bezerra.

Ernest Hemingway - O Velho e o Mar - Um velhote via pescar e quase se lixa com tubarões tamanho-família.

Camilo José Cela - Vagabundo Ao Serviço de Espanha - o narrador vai a pé por espanha a fora, bebe uns copos e morfa umas buchas. Pelo meio marra com alguns estalajadeiros e com Madrid.

Joseph Conrad - O Coração das Trevas - Um europeu sobe um rio africano ao encontro de um conterrâneo para descobrir que o rapazola estiolou e mata pretos comó catano e à catana.

Machado de Assis - Dom Casmurro - Um teimoso que teima em que a mulher lhe mete os palitos quando a mulher é uma santa. De casmurrice em casmurrice o livro vai para mais de 200 páginas e não saímos daquilo.

Turgueniev - Pais e Filhos. Há dois jovenzarros que vão para o campo das estepes com um deles armado em niilista. No pasa nada e há frio comó catano.

JM Le Clezio - Diego e Frida - Diego pinta e encorna a Frida. AS Frida pinta e encorna o Diego. Pelo meio o Diego quer pintar Lenines e o Capitalista do Rockefeller não deixa e saca da marreta.

James Joyce - Ulysses- um gajo sai de casa cedo depois de comer rins e de cagar no pátio, demora-se fora o dia todo, a mulher põe-lhe os cornos e ele dá-lhe um beijo no cu, no fim é ela a falar sozinha.

Anónimos - A Biblia- Um dia uma gaja roubou uma maçã para dar a um gajo e o dono do pomar zangou-se e armou um bazé que ainda não acabou.

Maomé - O Alcorão - Um bardana crivado de dividas saca uma viúva ricalhaça que encorna com uma data de jeitosas. Para se justificar diz que foi ao meio do deserto e uma voz amandou-lhe com uma pedra preta na carola. A partir da calhauzada, a voz passa a dar-lhe uns conselhos sobre corte de mãos, pontaria com calhaus, moda feminina, e corte de cabeças, com a ressalva de que quem cortar cabeças aos gajos que ele apontava iria papar 72 virgens como ele andava a fazer, embora no caso deles só depois de morrerem. Estranhamente a coisa pegou.

... E prontos, aqui ficam resumidinhas muitas horas de leitura. Já viram o tempo que se ganha? Sempre se fica com uma noção de algumas obras primas fundamentais da literatura mundial. Um destes dias resumo mais umas bibliotecas. E escusam de agradecer...

13/04/09

Futebol - ao Vivo ou na TV?, por Papoila Vermelha

O futebol é melhor visto ao vivo ou na televisão? Até ao passado fim de semana eu era um defensor convicto de que o futebol é muito melhor visto na televisão. A bola televisiva teria francas vantagens relativamente à bola ao vivo. Na TV temos repetições, ao passo que ao vivo a jogada passou e já era... E é sempre bom ver e rever aquela finta fabulosa do Reyes ou aquele corte genial do David Luís - se podemos desfrutar duas vezes para que nos havemos de contentar só com uma?
Nalgumas das minhas experiências de futebol ao vivo, cheguei a irritar-me profundamente por não saber quem é que tinha marcado o golo. Mas acima de tudo a TV mostra-nos à evidência os erros do árbitros e fundamenta, assim, a nossa indignação. Se formos honestos, só a ver na TV é que podemos, sem problemas de consciência, chamar «ladrão» e «gatuno» ao árbitro. Ao vivo um gajo nunca tem a certeza e os berros não nos saem tão convictos.

Além do mais o futebol visto na TV é muuuuito mais barato!!! e, geralmente, vê-se com os amigos enquanto se emborcam umas cervejas e uns tremoços. E em casa não temos que aturar grunhos que vão para os estádios mandar bitaites ignorantes (se bem que temos que levar com os inenarráveis comentadores televisivos, geralmente, tão ignorantes como os grunhos de estádio). Sinteticamente era mais ou menos isto que eu pensava. Até ao sábado passado eu era um acérrimo defensor do futebol televisivo.

Mas no último sábado fui ver um jogo ao vivo. Resolvi ir ver o Benfica - Académica, eu mais três Benfiquistas e três tripeiros-academistas. Como não gosto especialmente de ver futebol ao vivo, considerei esta minha incursão no grandioso Estádio da Luz como uma espécie de missão sociológica. Pensei em analisar in loco as vantagens e desvantagens do futebol ao vivo e em fazer este post para dar conta das minhas conclusões.

E que conclusões... Bom, tenho de confessar que a parte em que se tem de pagar a exorbitante quantia de 20 euros por bilhete para ver um jogo, teoricamente, de média qualidade me deixou disposto a desancar nos adeptos do futebol ao vivo. No entanto, a beleza cénica do Estádio da Luz, as Cheerleaders (deviam ser mais, praí umas 300 ou 500), as camisolas vermelho-glorioso do Benfica e o hino do Luís Piçarra devolveram-me alguma fé nas maravilhas do futebol ao vivo. O lugar que nos calhou nas bancadas também não foi mau. Mas quando o jogo começou lá me vieram à cabeça os argumentos todos contra o futebol ao vivo, principalmente porque, estando eu atrás de uma baliza, iria ver muito pouco do que se passaria na outra. No entanto, quando a Académica marcou o primeiro e único golo da partida, as coisas precipitaram-se.

No momento do golo, o Alfredo que é um adepto tripeiro-academista, foi a primeira pessoa no estádio a gritar gooolo0000 exactamente como se estivesse na sala de estar lá de casa a ver o jogo rodeado de gente civilizada. A seguir o Duarte - que envergava um temerário cachecol da AAC e tudo! - gritou também e só depois é que a claque da Académica, a Mancha Negra, gritou também. O Alfredo foi mesmo muto rápido - eu tive tempo de ver o golo, ouvir o Alfredo, virar-me para trás, vê-lo de braços abertos aos saltos, e só depois é que gritou o Duarte e só depois a Mancha. Na imensidão do Estádio da Luz, composto com cerca de 30 mil benfiquistas, jamais esquecerei os grito lancinantes do Alfredo e do Duarte... Bem nem eu nem os benfiquistas mais próximos que imediatamente os insultaram com os habituais impropérios. E de entre todos grunhos que nos rodeavam, houve um que se destacou especialmente: era um gajo careca que devia pesar para ai uns 150 quilos, sem exagero, um misto de halterofilista, rinoceronte e de augusto santos silva que mandou logo o Alfredo para a «***** da tua mãe» e o Duarte para o «****** que ta ****//-». O energúmeno estava acompanhado da mulher e o filho estava mais acima. Não era uma claque, mas uma família que tinha ido à bola. É bom ver o regresso das famílias aos estádios. É sinal de que a segurança melhorou.

O que é certo é que os meus amigos academistas acalmaram a partir daí. Mas o Benfica não atava nem desatava. E a pouco e pouco o Alfredo e o Duarte foram ganhando confiança e não se coibiram, aqui e ali, de mandarem a sua piadita. Eu estava tão concentrado no jogo e tão irrritado com os erros do árbitro que nem liguei. Até que ainda a cerca de 20 minutos do fim do jogo, o Alfredo sussurrou-me ao ouvido:
- Zé, pá, temos que ir embora daqui, lá para cima, ou para outro lado, eu depois explico... Vamos embora.

Fiquei um bocado espantado, mas quando olhei para o lado, vi o energúmeno do halterofilista completamente passado, a espumar de raiva, a dizer ao Alfredo que lhe partia o focinho e lhe deixava os dentes todos cá fora, «meu f***** da p**** cabrão do c****, vai gozar prá tua terra». Pensando bem ele era mais parecido com 10 halterofilistas que com um só... O homem quase que se levantava e de vez em quando virava-se também para o Duarte que estava muito acabrunhado e insultava-o também. Compreendi que a situação era grave e o Alfredo insistia que tínhamos de ir embora dali enquanto o Duarte olhava para o steward mais próximo e calculava que antes deste chegar ao pé de nós, já tinha apanhado pelo menos duas bolachadas a parecer bem.

Mas vá lá que a coisa acalmou. Desesperado de ter gasto, provavelmente, metade do salário a levar a família à bola, o 10 haterofilistas assobiou para chamar o filho e comunicou à mulher que se iam embora. O Alfredo e o Duarte respiraram fundo e só então me confessaram que o hooligan tinha cuspido no Duarte. Aroma benfiquista! O Duarte comentou que «é lixado vir ao futebol, pagar 20 mocas e ficar ali em sentido sem sequer poder gritar golo». E o Alfredo ainda fazia cálculos de como é que haviam de sair dali sem encontrar o energúmeno. O Duarte abotoou melhor o casaco para que o cachecol da Académica não desse tanto nas vistas e quando o jogo acabou lá saímos, felizmente, sem mais chatices.

No fim fiquei a pensar: futebol ao vivo ou na televisão? E agora já não tenho dúvidas: ao vivo é muito melhor. Mesmo tendo perdido o Glorioso, a sensação de ver o Alfredo e o Duarte em sentido no Estádio da Luz, justificou tudo: a pálida exibição do Benfica, as burrices do Quique, a imobilidade do Nuno Gomes, o Mantorras a manquejar, até os 20 euros... Eu pagava de novo para ir ver o Benfica perder outra vez com a Académica. Tinha é que ir acompanhado dos meus amigos tripeiro-academistas. Alfredo, Duarte, quando é que é mesmo o próximo jogo da Académica na Luz? Será melhor reservarmos já os bilhetes para a próxima época? Com um bocado de sorte ainda apanhamos outra vez o 10 halterofilistas na cadeira do lado...

07/04/09

Meridiano de Sangue de Cormac McCarthy ou Dá-lhes Falâncio!, por Jerónimo


C.M. consegue criar neste livro um universo demencial e cinematográfico. Começa-se a ler Meridiano de Sangue e a sensação é de rendição. Por isso não posso dizer que não gostei da escrita de Cormac McCarthy, pelo contrário. Mas, fónix, vou na página 224 de Meridiano de Sangue e ainda não aconteceu mais nada que não seja um grupo de pistoleiros americanos que se vão embrenhando pelo deserto do México, enquanto chacinam navajos pelo caminho!

Lê-se e relê-se e aquilo parece que não anda: as agruras do deserto os navajos e bang, bang, bang... Os gringos cavalgam e re-cavalgam pelo deserto adentro e vêm ossadas e crânios espalhados nos socalcos, montanhas inóspitas e asperezas das sierras onde correm lúgubres fios de água. Entretanto aparecem os navajos aos guinchos e levam chumbo. A malta descansa e segue a jornada, enfrentando de novo os planaltos ventosos do deserto, as extensões mórbidas de zimbro e alvoreceres acinzentados. Entretanto, eis que passam, de novo, os navajos e, claro, levam mais chumbo. Eu resumia este livro em duas ou três frases:Um grupo de cowboys fez-se ao deserto, cruzou-se com os navajos e deu-lhes mocada, continuou deserto adentro viu mais navajos e deu-lhes ainda mais mocada. Pelo meio, para variar, aparecem umas aldeias de mexicanos que, obviamente, também são varridas a chumbo grosso.

E pronto, cá fica a síntese. Escusam de me agradecer por vos ter poupado o tempo que iam perder para desistirem do livro 224 páginas depois. Ou então sou eu que sou arraçado de navajo, é o mais certo…

31/03/09

MARROCOS, A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA E O AURÉLIO DAS TINTAS, por Heresiarca



Hoje no Público vinha um artigo meio escandalizado, porque o Reino de Marrocos expulsou três religiosas católicas que foram apanhadas em plena acto de penetração missionária. Perorava depois o artigo sobre a falta de liberdade religiosa em Marrocos.

Ora, eu acho isto muito bem. Proibição e expulsão dos missionários. Todos. São leis benditas que nós devíamos copiar do excelso reino das areias. Os camelos somos nós e não eles. Essas leis são sábias e impedem o proselitismo acéfalo desse exército de marteladores bíblicos, cuja especialidade é tocar campainhas às 10 da matina de domingo e às 11 da madrugada de sábado, acordando do sono bendito o devoto ao Senhor.

Quantos de vocês em vez de açular o rottweiler ao casal de velhos Jeovás, não gostariam de uma leizinha destas, que vos permitisse manter o corpanzil no remanso do leito conjugal e pegar no telemóvel a chamar a GNR: “ - ó Sargento é vir depressa com a brigada que anda aqui uma dessas feras à solta!, rápido senão eles fogem! Tragam as redes e os açaimes”.

Quantos de vocês não prefeririam de ter uma patrulha da PSP a controlar as hordas em parelha de Elders Mórmones da Igreja dos Santos dos Últimos Dias que vos destroem o sossego do disfrute da fruta da amásia, ainda por cima noite e madrugada adentro.

Isto é violência religiosa grave e devia ser controlada. E há casos mais graves ainda. Extremos. Há tempos em plena festa religiosa cristã cá do burgo a milf da Cremilde lá fez as suas caçoiladas de carne assada, que logo na primeira saída do forno regalaram o crente do marido, o Aurélio das Tintas.

No Sábado de festa, o incauto do Aurélio não estava em casa. E perguntam vocês: quem é que apareceu com toda a violência, à bruta e à falsa fé à porta da boazinha e inocente alma de Deus da Cremilde e a desviá-la do bom caminho? Bem perguntado. E eu respondo: nada mais, nada menos, que uma brigada de dois latagões de fatiota engravatada enviados pelo demo que dá pelo nome de Igreja Mórmon Dos Santos dos Últimos Dias. Os latagões, loiraços de olho azul e português americanado, enlevaram a milf Cremilde, que tratou de lhes beber a palavra desencaminhadora e os foi assentar na cozinha. Pior. Lembrou-se em agradecimento ao Senhor pelo envio de tão belos exemplares, de lhes dizer que não se fizessem rogados no caçoilame em exposição.

E como esta gente bebe do bom samaritano e dessas patranhas da oferenda e do lava-pés, dos ungidos e do vinde a mim os esfomeados, e do corpo de Cristo, etc coiso e tal, limpou a primeira caçoila e avançou para a segunda. A boa da Cremilde que encheu um olho com os loiraços, viu logo que lhe ia sobrar algo para o outro, e ainda titubeou, mas não teve coragem de cortar a palavra ao senhor.

É bem de ver que quando o bom do Aurélio das tintas chegou para o almoço de festa, carne assada viste-la, que já ia a caminho do Utah. E o puro do Aurélio não gostou e a Cremilde também não, já que o Aurélio das Tintas lhe afinfou um bom par de bolachadas, que lhe fez dum lado um olho azul e do outro um alto na testa, uma vez que foi bater com cabeça nos caçoilos vazios. E digam lá vocês se não há aqui uma espécie de justiça divina.

É evidente que hoje em dia o que se berra e aparece na estatística é violência doméstica e aqui del-rey que o marido afinfou na mulher. Tá mal. Isto é um caso claro de violência religiosa. Violência religiosa derivada apenas e tão só do facto deste manso país permitir que essa gente ande por aí a cirandar, a moer o juízo ao pessoal com as penas do inferno deles. Já não basta o nosso quando um temente a Deus chega a casa e se dá com as caçoilas vazias!

No fim de semana seguinte os Elders – himselfs – voltaram à casa da Cremilde. Acontece que o Aurélio das Tintas estava à coca. E aí houve de facto violência doméstica. Grave e com latas de tinta à mistura. Porque a religião é uma coisa colorida.

Mas repito, faz-nos falta uma leizita que evitasse este proselitismo desenfreado que por aí anda. Dormíamos mais e melhor e o Aurélio podia abrandar a vigilância.

30/03/09

A Tragédia do Mar de Aral, por Sumo Sacerdote da Igreja da Geografia


O post anterior que vem relembrar a doideira da Guerra Fria, fez-me lembrar um dos maiores desastres naturais da nossa época. Falo obviamente do Mar de Aral, que pura e simplesmente deixou de o ser. Era o Mar de Aral, hoje é um ridículo charco infecto de que toda a gente foge e do qual ninguém sabe o que fazer.

O Mar de Aral fica na conjugação de fronteiras do Casaquistão e do Uzbequistão da mítica Samarkanda, a cidade das cúpulas azuis. Estes dois países nascidos dos escombros da União Soviética dividem entre si o Aral, ou pelo menos o que resta dele.

O Aral era o maior lago de água salgada do mundo e o quarto maior lago em geral e daí o chamar-se de Mar. Era alimentado por dois rios gigantes que descem das montanhas do Hindu Kush no Afeganistão, o Amudarya e o Syrdaria. Alimentado continuamente por estes dois gigantes líquidos, o Aral contava em 1960 com 68.000 km2. Para terem uma ideia do colosso, basta comparar com o tamanho de Portugal que conta com 92.000 km2, incluindo Açores e Madeira.

A partir de 1960, a idiotia dos planos de irrigação mastodônticos da ex-União Soviética, levou a que aqueles iluminados barragassem os dois rios e fizessem zonas imensas de regadio para algodão de exportação. Cresceu o algodão, diminuiu o Aral. Hoje o Aral tem menos de 15.000km2 e continua a diminuir. Para terem termo de comparação basta ver que o nosso Distrito de Beja tem 10.225 km2.

As dezenas de aldeias piscatórias e portos de mar do Aral viram-no a fugir das suas margens a uma velocidade estonteante, sem que ninguém pusesse cobro à doideira. Para tentarem manter os barcos na água, as gentes do Aral foram escavando os canais de acesso à água que se vêm na foto anexa, mas esta fugia a uma velocidade tal, que não havia máquinas ou braços que acompanhassem a fuga. Há portos e cidades que em pouco mais de 25 anos viram o mar recuar mais de 100 km!

Para maior desgraceira, a diminuição da área de água salgada fez aumentar exponencialmente a concentração de sal, o que matou toda a fauna piscícola e vegetal do Aral. Tudo o que era peixusso e crustáceo do Aral ficou extinto. Pior ainda, no auge da guerra fria, o exército soviético fez do Aral local de testes e depósito de armas químicas e biológicas. Com a secagem do leito, toda essa estrumeira ficou a céu aberto, o que aliado aos fortes ventos leva à formação nuvens tóxicas, que devastam e matam o pouco que resta da vida à volta do Aral. Patético.

Em 2015 prevê-se que seque o pouco que resta do Aral. Um mar riquíssimo em peixe, incluindo o Esturjão do Aral, de caviar único, foi simplesmente morto. A peixaria abundante que alimentava uma frota pesqueira de arrasto e inclusivamente uma florescente indústria conserveira, está hoje a ver passar camelos. Além da extinção da pesca e da indústria conserveira, foram à vida 24 espécies de peixe, (incluindo o Esturjão do Aral) 70 espécies de mamíferos (incluindo antílopes e javalis) e 73 espécies de passarada (incluindo patos e perus). É muita comida junta, gourmet ainda por cima, a troco de umas toneladas de algodão. Malditos.

Ópera Bufa, por Pavaroti

O Público noticiou ontem que o primeiro ministro ingenheiro foi à ópera e levou uma vaia monumental da assistência quando entrou na sala com meia hora de atraso. Já se sabe que os cabrões dos comunistas e sindicalistas que infestam este país aproveitam logo para chatear. Ainda por cima agora já não é só nas inaugurações públicas e nas manifes, os seus habitats naturais, que eles atacam. Parece que também passaram a frequentar a ópera, mas também já lá dizia o outro que a ópera é para os operários.

O gabinete de sua excelência prontificou-se a justificar que o ingenheiro se atrasou apenas dez minutos porque teve uma agenda muito dura, coitadinho, e que os restantes vinte devem-se ao facto de ter ficado à espera do seu homólogo cabo-verdiano, portanto, o verdadeiro responsável pela demora. É de muito mau gosto e de uma grosseria inconcebível justificar o atraso com o erro da visita ( e fica a dúvida de que seria esta a justificação se o atraso fosse, digamos, de um ministro angolano...) E mais uma vez, o homem recusa admitir um erro, ele nunca erra, ele tem sempre carradas de razão, os outros é que o recebem com insidiosas «campanhas negras» (ainda por cima esta...).

Acho que o ingenheiro não percebeu, ainda não percebeu, o verdadeiro motivo da vaia. Então eu explico-lhe: zézito,o que se passa é que está toda a gente farta ti, FARTA pcebes,já ninguém te pode ver pela frente, desaparece, vaza, xôôô! Não é o atraso de meia hora, não é a tua ausência que incomoda as pessoas - é mesmo, pelo contrário, a tua presença em carne e osso e lata que é coisa que não te falta, que os incomoda. Não te atrases só meia hora - atrasa-te para sempre, fica longe. Fui claro? Percebeste, agora, porque é levaste aquela vaia?

27/03/09

Oh No, Not Again!, por F111

Nos anos 80 a Guerra fria estava no auge. Foi uma chatice quando a extinta URSS resolveu instalar os famosos mísseis SS 20 nos países comunistas fronteiriços aos países da Nato! Na RDA, na Polónia, na Ucrânia e nos Estados Bálticos, os soviéticos montaram um verdadeiro arsenal de capacidade nuclear que, em caso de conflito atingiria as principais capitais da Europa ocidental (Lisboa incluída). Além disso a capacidade militar convencional também foi reforçada nos países de Leste principalmente com a colocação de divisões blindadas soviéticas nestes países.

A esta política agressiva do Pacto de Varsóvia respondeu a Nato (ou o Tio Sam, depende do ponto de vista) com medidas agressivas do mesmo tipo. Assim, em 1981 a Nato instalou mísseis Cruise no território Europeu e acrescentou-lhes os Pershing II, de capacidade nuclear. Tudo material Made in Usa. Para os Americanos não era mal visto. Em caso de guerra seria a Europa o cenário de um conflito nuclear e eles ficariam mais ou menos protegidos do outro lado do Atântico.

Quem viveu esta época lembra-se do clima de prenúncio apocalíptico. Foi um período tenso. Recordo-me dos filmes dos anos 80, por exemplo de The Day After, que simulava o dia a seguir a um ataque nuclear vivido em Londres; recordo-me dos Frankie Goes to Hollywood e do seu seminal Two Tribes (com o fantástico vídeo que mostrava o Brejnev numa luta de golpes baixos num rinque de boxe com o Reagan Aqui: http://www.youtube.com/watch?v=yWLHK2h8EBQ).;
lembro-me da fantástica letra de The Russians de Sting (aqui: http://www.youtube.com/watch?v=pezAKWVgOvU)
dos crachats Nuclear Não Obrigada! (ou No Nukes!), das brigadas de pacifistas a lutarem contra a polícia para evitarem a instalação dos Pershing na Alemanha;
dos meteóricos Sigue Sigue Sputnick, punks pós apocalípticos (Aqui, o clássico Love Míssil F11 - http://www.youtube.com/watch?v=pk30a0qsVIk)

e dos Plasmatics, espécie de no futur musical(aqui http://www.youtube.com/watch?v=3_0r9OysZt)...

Vivia-se um terrível clima de tensão mundial, como não se via desde a crise dos mísseis de Cuba, 20 anos antes. Na altura cheguei a desenvolver um pesadelo que nunca mais vim a ter - é verdade, sonhava que a bomba tinha rebentado... A coisa não parecia nada ficção. Pelo contrário parecia estar bem perto de nós. E a verdade é que estava.

Felizmente tudo acabou bem. Gorbachchev subiu ao poder em 1985 e levou a cabo a Perestroyka que haveria de abrir a Rússia e os regimes de leste e desanuviar o mundo. O projecto Guerra das Estrelas da administração Reagan também ajudou, claro. Inicialmente considerado mirabolante, a verdade é que teve um efeito dissuassor real.
Entre as várias medidas tendentes ao desanuviamento, Gorby anunciou a retirada dos mísseis nucleares e dos blindados soviéticos, tendo como contrapartida idêntica retirada da parte da Nato. A Europa respirou fundo. Estávamos livres da incómoda situação de um frente a frente nuclear no palco europeu.

A história haveria de declarar – e Reagan também! – que o Ocidente vencera a Guerra Fria sem disparar um único míssil nuclear. O Pacto de Varsóvia dissolveu-se em 1990. Os filmes apocalípticos perderam o seu impacto, os Sigue Sigue Sputnick reformaram-se e a Wendy Williams, ex-estrela porno e vocalista dos Plasmatics, desapareceu para sempre deixando-nos os seus vídeos no you tube para matar saudades. O Sting, esse fez uns álbuns porreiros e virou-se para as causas ecológicas como as dos índios do Amazonas; os manifestantes anti-nuckes foram fazer moinhos eólicos para a serra dos candeeiros e eu, bem, eu deixei de sonhar com cogumelos nucleares e passei a sonhar com a Kim Basinger que era muito melhor que a Guerra Fria. Tudo bem quando acaba bem. Mas acaba mesmo?
O problema é que a Kim Basinger envelheceu e eu também, mas a loucura dos homens, essa é eterna e parece que a guerra-fria está de volta de novo. (CONTINUA)

24/03/09

Grandes Clássicos, por Rafael Ângelo

Claude Lorrain, (1600-1682), foi um dos mais conhecidos pintores franceses do período barroco. É considerado um dos maiores paisagistas do barroco francês e um dos pioneiros do género numa altura em que a pintura de paisagens dá os seus primeiros passos na história da arte ocidental.

Ora há uns tempos, a Sport TV lembrou-se dele e levou a cabo uma campanha baseada nas suas paisagens. A ideia era promover os jogos entre os chamados «grandes» clubes portugueses como autênticos «Clássicos». As paisagens de ambiente rupestre e clássico de Lourrain foram escolhidas para transmitirem ao público-alvo esse ambiente de classicismo. Para associar o futebol e os jogos grandes a este ambiente, os autores da campanha resolveram acrescentar uns jogadores à paisagem, como se vê no pic.Do ponto de vista estritamente publicitário o anúncio até resulta.

Mas do ponto de vista estritamente estético, a campanha é uma contradição nos termos. Lourrain pontuou as suas paisagens com figuras humanas. Mas minimizou-as claramente de modo a que o principal fosse a paisagem. Numa altura em que a pintura de paisagens era quase uma heresia, a introdução de figuras humanas alusivas de motivos bíblicos ou mitológicos foi um recurso usado por Lourrain para não chocar demasiado as consciências. Mas o que lhe interessava era a paisagem e, por isso, as personagens humanas aparecem numa escala ínfima de modo a não desviarem a atenção daquilo que verdadeiramente lhe importava.

Assim, de um ponto de vista estético, quando esta campanha da Sport TV vem acrescentar os jogadores de futebol à paisagem, parece que nos está a dizer que o importante é a paisagem. Na pintura de Lourrain, as figuras humanas só lá estão para disfarçar e, deste ponto de vista, é assim que passams a considerar as figuras dos futebolistas. É como se o anúncio nos dissesse:não liguem ao jogo, o que importa é a paisagem. O que também não deixa de ter a sua piada... Para a porcaria de jogos que vamos vendo na Sport TV...

20/03/09

O Retábulo de Genebra - o quadro de Wittz, o livro de Sérgio Luís Carvalho e o post de Fritz Lopes, por Miguel Leonardo

Na segunda feira, 19 de Março de 2007, ouvi falar pela primeira vez em Konrad Witz. Precisamente aqui no Tapornumporco num post do Fritz Lopes. Nele o escriba do Tapor refere-se ao quadro de Konrad Wittz, A Pesca Milagrosa, uma obra marcante na história da pintura ocidental. O quadro faz referência à parábola bíblica da pesca na qual o apóstolo e pescador Simão Pedro, quando viu o Senhor «vestiu a túnica, pois estava nu e lançou-se à água».

O quadro do pintor suíço tem dois aspectos particularmente interessantes: um, Simão aparece duas vezes, uma dentro do barco e outra já vestido na água. Esta foi a solução encontrada pelo pintor para retratar os tempos diferentes em que decorre a acção. Uma espécie de banda desenhada mas numa só tira, sem haver tiras sequenciais.

O segundo aspecto – este marcante – é que em vez de retratar a acção no lago Tíberíades, o verdadeiro palco bíblico, Konrad Wittz rompe com todos os cânons dominantes à data e situa a acção no lago Léman, ao largo do qual se situa a sua cidade da altura, Genebra. Os próprios apóstolos pintados terão sido inspirados nos pescadores de carne e osso que labutam no Léman. A Pesca Milagrosa é uma peça histórica pois é considerada a primeira pintura de paisagem da arte ocidental, no caso a paisagem local de Genebra. E muito hesitou Konrad Wittz antes de se decidir por essa opção, consciente que estava do alcance revolucionário do seu gesto.

Em Fevereiro de 2009, cerca de dois anos depois de ter conhecido Konrad Wittz por obra do Tapornumporco, vim a saber que um escritor português de quem nunca antes ouvira falar, de seu nome Sérgio Luís Carvalho, publicara um romance intitulado O Retábulo de Genebra (Campo de Letras) acerca do famoso quadro. Procurei informação sobre este escritor e as referências eram elogiosas. Sérgio Carvalho tem uma obra já reconhecida onde se contam títulos como Os Peregrinos Sem Fé, Os Rios da Babilónia, El Rei Pastor e As Horas de Monsaraz e ganhou alguns prémios literários nacionais e internacionais. Percebi que estava perante um cultor do chamado romance histórico - rótulo perigoso que tanto abarca notáveis como Fernando Campos como uma trupe de curiosos, cujos nomes nem fixo, dedicados à exploração da veia mística e sobrenaturalista. Pelo currículo do autor depreendia-se que estávamos perante alguém de sólida formação histórica, mas sabemos como a análise curricular é frequentemente falaciosa… De qualquer modo havia as críticas da blogosfera que eram manifestamente elogiosas e o quadro de Wittz ficara-me a bailar na memória…

Procurei o livro durante uns tempos até que, ainda em Fevereiro de 2009, dei por ele em cima de uma mesa na Fnac. Comprei-o e mal o comecei a ler percebi que estava perante um escritor a sério. O Retábulo de Genebra fala da vida de Konrad Wittz e do seu aprendiz, o jovem mendigo Gex, talvez a personagem mais interessante de toda a narrativa. Konrad Witz nasceu em Rottweill em 1400 e morreu em 1445. Foi discípulo e amigo do grande mestre flamengo Jan Van Eyck. O período histórico da vida de Wittz foi conturbado: a guerra dos 100 anos, o processo e execução de Joana D`Arc, a peste, a sagração em Basileia do anti-papa Félix V (Amadeu VIII de Sabóia). Por cá reinava El Rei D. João I. É este o mundo do livro.

Sérgio Carvalho conta-nos ainda a fantástica história que está por detrás da criação do Retábulo de Wittz e de como ele é o legado final do seu autor. A Pesca Milagrosa é uma das partes laterais de um grande retábulo que fora encomendado a Wittz por François de Metz, bispo de Genebra, para a catedral de S. Pedro, em Basileia. No auge das lutas entre protestantes e católicos, em 1535, um grupo de iconoclastas radicais destrói parte do retábulo de Genebra mas A Pesca Milagrosa salva-se misteriosamente. O legado de Wittz sobreviveu ao fanatismo e pôde assim chegar ao Tapornumporco em Março de 2007 pela pena de Fritz Lopes.

Já em Março de 2009, espicaçado pela leitura do livro de Sérgio Carvalho, voltei a reler o post de Fritz Lopes sobre A Pesca Milagrosa. Qual não foi o meu espanto quando verifiquei que o post tem um único comment lá deixado numa sexta feira, 5 de Dezembro de 2008, mais ou menos um ano depois da publicação do post no Tapor. Autor do comment? Sérgio Luís Carvalho, o próprio. O comment? Este, dirigido ao Fritz Lopes:
«Interessante o seu artigo. E conhece Konrad Witz, o que é sinal de cultura.
Acabo de escrever um romance sobre esse quadro. Chama-se "O retábulo de Genebra". Tem razão, o quadro não é uma grande "espingarda". Mas tem uma história fascinante.
E parabéns pelo seu site.» (http://tapornumporco.blogspot.com/2007/03/um-pintor-suo-e-um-enigma-portugus-por.html)

É notável como A Pesca Milagrosa, pintada em 1444, ainda continua viva em 2009. Tanto tempo depois de ter sido pintada em condições extremas pelo seu criador e depois de ter sobrevivido aos fundamentalistas cristãos, católicos e protestantes, vive agora no incrível mundo da blogosfera onde tudo é possível.