31/08/09

Carolina Patrocínio Precisa Que Lhe Tirem O Caroço!, por DervicheRodopiante



A menina aqui do lado chama-se Carolina Patrocínio e é a mandatária do Partido Socialista para a Juventude, seja lá o que isso for. Mas seja o que seja, a menina não é má. Parece-se até e muito com uma cereja. Com caroço.

Vem isto a propósito de um vídeo de (vide google ou you tube) de promoção da menina politica em que esta confessa candidamente que não consegue comer cerejas sem que a empregada em primeiro lhe tire os caroços. Tem horror à fruta com caroço e só gosta de uvas sem grainhas. Para as melancias tem duas empregadas. Até porque prefere fazer batota a perder. E na rentrée do PS na Praia de Santa Cruz até leu um papelinho onde alguém lhe escreveu coisas como “retoma” e “fim da recessão técnica”. Eis a nova e boa geração Xuxa.

Pois a menina do socialite, apresentadora inane de tv e que desfila em fio dental pelas passerelles, também é politica e como tal gosta de dar emprego ao povo, nem que seja a tirar-lhe os caroços. E eu penso que o povo até gostaria de lhe tirar o caroço. Porque o povo é malandreco.

Ora esta ideia da nossa menina é genial por três ordens de razões. Em primeiro por causa da Fruta. Portugal tem fruta como catano e toda a fruta tem caroço. Em segundo lugar por causa do “Fim da Recessão Técnica”. Portugal tem desempregados a dar com um pau e precisa de lhes dar emprego. Atenção que não é dar trabalho, trabalho há muito por aí. Falamos de um emprego. E uma coisa levezinha como tirar caroços à fruta, que é coisa que se faz bem e ainda melhor se for feita com vínculo à função pública e demais mordomias de lugar de estado e estalo. Dirão vocês que isto é insano e não há dinheiro. Ora aí é que vocês estão enganados e erram em grande. E entra aqui a terceira ordem de razões. A “Retoma”. É que Portugal está podre de dinheiro a ponto de não saber o que lhe fazer razão pela qual desatou a a fazer TêGêVês e aeroportos e terceiras autoestradas Lisboa-Porto etc coiso e tal. E existe alguma forma mais rápida de injectar dinheiro na economia e no povo do que contratar descaroçadores de fruta? E ó se a malta gosta do caroço. E o povo tem direito ao caroço!

A menina Carolina ao poder! Vamos-lhe tirar o caroço!

14/08/09

Dos Contos do Deserto - IV, para o Cão, por Mangas

Vou pela auto-estrada 75 para Oeste. Ultrapasso um Chevrolet prateado, modelo de 80. Ponho-me a pensar no que andei por aí a fazer nos anos oitenta. Pelo retrovisor vejo o grelha do Chevy com alguma ferrugem dos lados. Também não tem matrícula. Vi carros em Chicago com matrículas personalizadas com a palavra Godfather. Há uma grande fila à minha frente. Sirenes da polícia na beira da estrada. Pelo retrovisor, chegam-me dois homens com fardas azuis e estrelas no peito que brilham com o sol. Dão indicações aos condutores para prosseguirem. Com cuidado. Calculo que deve haver uma razão qualquer para o fazerem. Vejo muita coisa por este retrovisor. Enfio uma cassete no auto-rádio. Engole-a sem protestar. Onde é que eu estava nos oitenta? Havia músicas dos Táxi nos corre­dores do Liceu, um polícia a dançar na rua enquanto dirigia o trânsito num anúncio da Lois, bailes de sábado à noite até às tantas, cartas que o meu pai me escrevia de Jerusalém e do deserto do Negueve. Esta cassete tem músicas de Ban e Sétima Legião. Tem sons de acordeão e uma canção com palavras de saudade. As músicas desta cassete não passam na MTV e eu pouco me importo. Dou comigo a pensar na razão por que me esqueço dos nomes de alguns actores, de alguns filmes que me deram algum gozo. (Tenho de virar à esquerda, na direcção daquela placa INDIANA LEFT). Antes de prosseguir, ajeito pela última vez o retrovisor para ter o maior ângulo de visão possível. Chego à conclusão de que talvez me esqueça do que tem pouco interesse lembrar-me, porque ainda sei quem foram o Marlon Brando, o António Silva e o Vasco Santana.
Grand Rapids, Michigan, Setembro/93

in, O Vale dos Deuses

10/08/09

O Outro Mick, por Dandelion


Eu continuarei a ir ver os Rolling Stones às Ruínas de Alvalade mesmo quando eles tiverem 80 anos (e já nem falta assim tanto). Mas sei que corro atrás do mito. O que eu gostava mesmo era de me meter numa máquina do tempo e vê-los nas digressões dos anos 70 com o Mick Taylor.

Taylor entrou para os Stones em 1969 e saiu em 1974. Foi um músico genial, o mais brilhante que já passou nos Stones! Foi anunciado como substituto de Brian Jones, encontrado morto na sua piscina particular. Tratou-se de uma indicação directa do guitarrista de blues John Mayall que havia tocado com ele. Taylor era, à data, um menino prodígio, um super talento precoce, e confirmou esses atributos com os Rolling.

Não era um performer nem um músico de Rock n Roll como Keith Richards e Ron Wood. Era muito mais que isso: desenhava arabescos na guitarra, interagia com a loucura de Jagger, tinha improvisos que mais parecem de free jazz... Há quem diga que ele saiu dos Stones porque o heroína-man do Keith tinha ciúmes do seu brilhantismo. De facto nas performances que podemos ver no precioso you tube, como nos discos em que o Mick Taylor entra, Richards passa, claramente, a segundo guitarrista. Keith passa a gerir o som duro, os riffs da banda, mas o papel de solista e de guitarrista principal é ocupado por Taylor.. . Richards era, desde a saída de Brian Jones, o front man do grupo, juntamente com Mick Jagger. Mas, de repente, aparece este puto talentoso e ultrapassa-o pela porta grande. Os vídeos do you tube são engraçados porque os solos são do Taylor mas os gajos estão a filmar o Keith... Ou seja, as imagens não espelham a realidade da música. Compreende-se que Keith não tenha gostado de ver o seu trono ocupado. Segundo os próximos terá começado a fazer cenas e a sabotar o trabalho de Taylor. Fala-se em explosões de Keith, por exemplo nas sessões de gravação de Goat`s Head Soup nas quais terá berrado em plena gravação «Fuck you! You play too much loud».

Mick taylor apresentou dois motivos para sair dos Stones:
Primeiro - o facto de não lhe ser reconhecida a co-autoria de duas músicas de Its Only r n r (The time waits for no one e till the next goodbye).
Segundo: achar que a banda se tinha desleixado (atrasos às sessões de gravação, problemas com drogas, Jagger no jet set, putas, etc).

Mas, tal como ele explicou, depois, diplomaticamente, no fundo nunca se sentiu um Stone e nunca pensou que acabaria a vida nos Stones. Aquilo não era um casamento e mesmo estes não duram sempre…Pode ser. Mas lá que os gajos nunca mais foram o mesmo, isso é verdade. E sendo geniais, foram-no um pouco (um muito) menos sem o outro Mick.

Deixo só uma nota final para que se apercebam da importância dele nos Stones: o gajo esteve com a banda de 69 a 74. Foram os melhores anos dos Stones, ao vivo e em estúdio. Vejam só a sequência de álbuns que ele grava com os Rolling: 69 - Let it Bleed - OBRA PRIMA; Sticky Fingers (70) - OBRA PRIMA; Exile on Main Street (71 ou 72)- OBRA PRIMA. São só os três primeiros álbuns de Mick Taylor nos Rolling Stones! Se lhes acrescentarmos Beggars Banquet (68), imediatamente anterior a Let it Bleed, temos aqui o melhor período e os melhores discos da história dos Stones, que digo eu, da história do rock!

Street Fighting Man,1973, Frankfurth, gandas Micks:

06/08/09

Dar uns Toques, por Homem Mosca


Reunião do Aparelho destinada à preparação das próximas eleições. O Aparelho está preocupado com a queda eleitoral do Partido e há que fazer qualquer coisa, traçar diagnósticos, decidir e aplicar estratégias. Ambiente crispado, os camaradas estão aterrorizados com a iminência de ficarem no desemprego. Mas as reuniões do Aparelho são sempre muito à frente e o nível do discurso político-filosófico-ideológico é de alto calibre. A sofisticação conceptual é avançadíssima. Imaginemos, não deve ser muito diferente disto:

- Pá, isto tá a correr mal, só temos uma saída: caçar votos à esquerda. Pra isso temos que arranjar umas caras novas para irem nas nossas listas. Dar uma imagem de renovação , os intelectuais, os jovens e as gajas boas tão connosco e isso...Ou captamos umas figuras à nossa esquerda ou tamos fodidos.
- Tens toda a razão, camarada. É por isso mesmo que já apresentámos algumas listas com umas caras larocas mais ou menos ligadas à esquerda.
- Pois é, em Ventosa de Baixo já temos a Inês Madeireira, é bem visto.
- E em Alcarraques caçámos o Anástácio Cipriano, um gajo vestido de preto e de barba por fazer, ficam sempre bem e dão votos.
- Mas em Alguidares, temos um problema pá. Quem é que caçamos em Alguidares?
- Podia ser a Júlia Amélia, pá, a gaja tá mal vista no partido dela, lixávamos esses comunas de merda e ainda somávamos uns votitos. E é boa, fica bem na foto e tudo.
- Tá bem visto, pá, vamo contactá-la. Ouve lá, ó Silva, quem é o nosso homem em Alguidares, para tratar do assunto?
- O nosso caçador em Alguidares é o Tó Saraiva, o filho do Saraiva... O gajo conhece a tipa, pode-lhe dar um toque...
- Então ele que dê o toque e fica o assunto de Alguidares resolvido.
- Mas ó Zé, ele tem que ter carta branca pra prometer um tacho à gaja se ela aceitar, sabes como é, isto não vai lá com lentilhas...
- Tudo bem, pá, diz-lhe pá avançar que tem carta branca da minha parte. Mas, ouve lá, se a coisa der pó torto e a gaja abrir a boca não tenho nada a ver com isso, ele que se amanhe, hã... Se der merda o Tó que se aguente sózinho, eu nunca disse nada, é iniciativa dele...
- Ok, ok, vou ligar pó gajo e ele faz o contacto já amanhã.
- Porreiro pá!

P.S. Qualquer semelhança entre este diálogo e a realidade é mera coincidência. Ás vezes dão-me estes flashs, é tudo...

04/08/09

Tattoo You - Restos Que Valiam Milhões, por Cáolho

Não é o meu disco preferido dos Stones (nem por sombras), mas tem uma história curiosa que vale a pena contar. Falo de Tattoo You, álbum de 1981 dos Rolling Stones.

Há pessoas que têm um talento raro para fazer óptima comida com os restos dos almoços e dos jantares que se encontram lá por casa. Chris Kimsey, produtor de Tattoo You, parece ser uma delas. É que o disco é uma selecção de gravações rejeitadas, outtakes e melodias esquecidas de álbuns anteriores. Comida requentada, portanto...

Em 1981 os Stones estavam numa fase mais ou menos delicada, enfrentando dúvidas e uma barragem de críticas que os acusava de viverem dos louros colhidos no inicio dos anos 70. A banda precisava de um bom álbum, ainda por cima depois do relativo fracasso de Emotional Rescue de 1980 (quanto a mim um excelente álbum injustiçado pelos saudosistas). Foi uma época de algum impasse criativo, segundo a crítica...
Kimsey salvou a situação quando propôs à banda a gravação de um novo álbum com material completamente esquecido. Mas Chris viu ouro nesse material requentado e não se enganou.

A faixa de abertura do disco é, nem mais nem menos, Sart me Up, uma das músicas que mais milhões rendeu e um standard absoluto dos Stones. A canção data das sessões de gravação de Some Girls (78). Foi gravada no mesmo dia em que os Stones gravaram Miss You, começou por ser uma faixa Rock e foi refeita em versão reggae. Resultado: toda a banda e, especialmente, Keith Richards, odiou a música que ficou na prateleira durante 3 anos até ser redescoberta por Kimsey e re-trabalhada pelos Stones com o sucesso que se conhece.

Slave, outra excelente música, que contou com a presença de Sonny Rollins no sax, foi recuperada das sessões de Black and Blue de 76, tal como Worried about You. Hang Fire e Black Limousine vêm do tempo de Some Girls (78), Little T and A de Emotional Rescue (80) e Waiting on a Friend e Tops dos tempos remotos de Goat`s head Soup (74).

Conhecendo-se a qualidade de algumas destas músicas não se percebe como é que ficaram de fora dos álbuns citados. Goat`s Head Soup, pese embora a presença de clássicos como Angie e, sobretudo, Star Star, é, a meu ver, um dos álbuns mais fracos da banda. Como é que não aproveitaram uma canção tão fantástica como Waiting on a Friend? Slave com o seu balanço jazzistico faz lembrar Can´t You Hear me Knoking do imortal Sticky Fingers (70). Não coube em Black and Blue?

Seja como for, admito que esta coisa de escolher faixas para um disco deve ser como fazer equipas de futebol: há os treinadores de bancada, como eu, que acham que o jogador A deve jogar a titular, mas a questão é que que quando nos perguntam «quem é que tiravas para entrar esse?» ninguém se entende... Chris Kimsey declarou depois que o problema estava na organização da banda: o homem passou longas temporadas literalmente à procura de gravações, já que ninguém sabia onde se encontravam as tapes. Nada era catalogado, o material estava disperso nos mais variados sítios. Incrível, tratando-se da fábrica de fazer dinheiro que eram e são os Rolling Stones! E depois, há faixas que não resultam numa altura, mas que acertam em cheio dez ou vinte anos mais tarde. Uma questão de Kairós ou de oportunidade. Voltando à analogia gastronómica, Keith Richards, di-lo-há como ninguém:

«A maneira como estas faixas amadureceram é exactamente como o vinho - limitas-te a guardá-lo numa cave por uns tempos, e, alguns anos mais tarde, quando sai para fora, vem um pouco melhor».

02/08/09

Stephen King’s The Stand , por Supernova



Agora que 2012 está a chegar e em que ano após ano somos assombrados com novas estirpes cada vez mais mortais do vírus da gripe, The Stand renasce e surge como uma obra quase profética que nos envolve num mundo pós-apocalíptico, numa clássica luta entre o Bem e o Mal tão comum no génio de Stephen king.

This is the way the world ends
This is the way the world ends
This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.
T.S. Eliot

E eis que aos primeiros segundos nos é dada a apresentação da mini série de quatro episódios com aproximadamente uma hora e meia cada (The Plague, The Dreams, The Betrayal e The Stand), através dos últimos versos de “The Hollow Men” de T.S. Eliot, poema que viaja pelo reino dos mortos.

The Plague
Tudo corre bem, afinal, há crianças a brincar numa Reserva do Governo americano bem guardada por uma cerca electrificada. Tudo normal! É nessa reserva/ laboratório que um vírus da gripe está a ser manipulado. Sob a observação de um corvo (Randall Flagg), o vírus escapa e enquanto um guarda das instalações foge com a sua família vemos um laboratório cheio de corpos que nos são mostrados ao som de (Don't Fear) The Reaper dos Blue Oyster Cult, nesta passagem, e enquanto o apocalipse ganha forma, vê-se uma televisão preocupada com concursos tão úteis para a felicidade do mundo! Estava lançado o mote.Em “The Plague”, aquele que para mim é o episódio da série mais bem conseguido – o episódio que agarra, assistimos ao avanço do vírus e ao circo militar, somos levados pela Califórnia, Texas e Arizona. New York e Maine, a casa de King (outros estados e cidades serão atravessados ao longo da série). São introduzidas algumas das personagens de maior relevo na história. Randall Flagg (o Mal), a velha Mother Abigail, que é a personificação do Bem e que reúne as tropas em sonhos, Nick Andros (surdo-mudo), Stu Redman (um habitante de shit hole, Texas USA) e Larry Underwood (um cantor). Este episódio termina a fazer lembrar o filme de John Carpenter “In the Mouth of Madness” cabendo a Stu Redman a visão de John Trent no filme de 1994.

The Dreams traz-nos o resultado da propagação do vírus e começa com uma imagem forte, ao mostrar uma filha (Fran) a ultimar a mortalha que envolve o pai. É visível neste episódio o vazio e a solidão que abraçou a Terra, por todo lado há cadáveres a apodrecer.
Surgem novas personagens, com destaque a Nadine, que haverá de ser a esposa de Randall, e Tom Cullen, um mentally retarded analfabeto que luta para dar um toque de normalidade à sua cidade e que acaba por se cruzar com Nick Andros dando início a uma amizade difícil mas que acaba por vencer as barreiras à comunicação. Neste episódio a construção das personagens ganha força e começa a viagem das mesmas para Hemingford Home (a casa da mãe Abigail). Os sonhos começam a dar cada vez mais pistas e muitos deles tornam-se em pesadelos. É o episódio do recrutamento por parte de Randall que começa a organizar os nomes da sua ofensiva, escolhendo como quartel-general a cidade do pecado!
Surge nesta segunda hora e meia da série o primeiro frente a frente do Bem e do Mal.

The Betrayal marca a mudança de Hemingford Home para Boulder, a Zona Livre. Estabelecem-se novas relações e solidifica-se a união de Flagg e Nadine, ela que irá servir a traição numa refeição em que o prato principal será palavras confeccionadas com veneno e acompanhadas com uma sobremesa sexual. Esta cena é concretizada através de uma boa harmonia entre representação, realização e música (na minha opinião a melhor cena a nível cinematográfico do episódio). Neste episódio é criado, pelos sobreviventes e ao som de The Star-Spangled Banner, um comité que surge como o centro de decisões de um novo Governo. Esse comité será responsável pelo o envio de três espiões a oeste na tentativa de observar as movimentações de Flagg. Assume grande importância para o desenrolar da série a ida e volta de Mother Abigail de um retiro do qual traz as suas ultimas directivas e das quais resulta a viagem de quatro salvadores rumo á destruição do Mal. Uma nota neste episódio para o tributo de Stephen King a Hitchcock. King gosta sempre de fazer uma aparição nas suas adaptações ao cinema/TV e neste episódio é agradável ver a sua representação.

Em The Stand a viagem do quarteto continua enquanto o casamento de Randall e Nadine é consumado no meio de gritos de desespero. Começa aqui a ganhar forma o fim do círculo do Mal e tudo parece fugir ao controlo de Randall. É o episódio do arrependimento máximo e do último sacrifício enquanto Randall desespera para matar os três espiões que foram mandados para observar as suas acções.
Com argumento de Stephen king e realização de Mick Garris (Sleepwalkers, Tales from the Crypt, The Shining TV mini-series, Masters of Horror) The Stand é uma adaptação para televisão do livro homónimo de King. Conta com boas representações, outras nem tanto, com caracterizações muito bem realizadas e tem no seu elenco nomes como Gary Sinise (Snake Eyes), Molly Ringwald, Jamey Sheridan, Ruby Dee, Miguel Ferrer (Twin peaks), Corin Nemec, Adam Storke, Rob Lowe (Brothers & Sisters), Laura San Giacomo e Ossie Davis. O elenco é ainda abrilhantado com as participações de Ed Harris (Pollock), Kathy Bates (Misery), Kareem Abdul-Jabbar (Game of Death) e Sam Raimi (realizador de The Evil Dead).

É uma série a não perder sobretudo para quem é fã das adaptações de King, estes sentirão a falta de uma personagem como Molly Anderson ou Mrs. Carmody, e para quem gosta de filmes que metam à prova a condição humana. Tem efeitos especiais que deixam algo a desejar mas é agradável ver uma produção com puppets em vez do cada vez mais habitual recurso ao CGI. The Stand leva-nos a viajar por um mundo em ruína enquanto aproveitamos a paisagem americana através da fotografia da série.

30/07/09

O melhor desporto do Mundo, por Triger Woods




Aqui há uns anos, o Mau, vindo lá das Espanhas, pôs-nos a jogar golf. A malta olhou para o gajo desconfiada. Aqui neste fim de Mundo, andávamos mais habituados à malha e à bola no adro da igreja, no recreio da escola e no meio da rua. Essa merda do golf era coisa de ingleses velhos, ricos e barrigudos. Quando, pela primeira vez pegámos num taco, segurávamos como se fosse uma enxada, denunciando na rudeza do gesto séculos e séculos de apego à terra. O Mau, persistente, lá nos foi ensinando, com a paciência com que os enciclopedistas franceses do século XVIII tentavam ilustrar estes rudes campónios e com a abnegação com que S. Francisco Xavier evangelizava os gentios do Oriente. Ensinou-nos a pegar no taco, a posicionar os pés, a rodar a anca, o swing, o ombro, o punho, o back-swing, o cotovelo, o polegar, puta que pariu! Mas o Mau não desistia:
- Non pongas forza, coño, swinga soft, pasa los brazos....
E a malta lá foi, recalcando os modos da enxada e iniciando-se nos segredos do swing. A pouco e pouco, estes brutos foram-se civilizando. O Mau ensinou-nos a etiqueta, que não devíamos mandar o parceiro pó caralho, que não se chama filha da puta à bola, que não se grita golo, não se diz ao adversário para nos chupar nos colhões quando lhe ganhamos um buraco, etc. Fomo-nos civilizando. Agora, não é que sejamos uns sires britânicos, mas já estamos mais parecidos com aqueles Bijagós das missões a posar prà fotografia com a carapinha domesticada de risco ao meio, fato e gravata e olhar espantado. Estamos mais perto da civilização. E este desporto - o golf - já não é coisa de barrigudos ingleses. É o melhor desporto do Mundo. Não há árbitros, não há desculpas, evolui-se sempre, pode-se jogar com qualquer pessoa que o objectivo nunca é humilhar o parceiro. Uma vez que se entra no espírito do jogo, a coisa entranha-se. Tem qualquer coisa de opiácio, não se consegue abandonar e quanto melhor se joga em pior conta nos temos, a mais nos exigimos, mais tempo a ele dedicamos e entramos numa espiral ascensional da qual não se pode sair. Há gajos que sofrem dores horríveis com hérnias discais e, apesar de todas as contraindicações, não só não abandonam o golf como inventam argumentos espantosos para se convencerem que o swing faz bem à hérnia!
Hoje tive o meu momento de glória. Fui bater umas bolas para o range. Depois, fui dar uma volta ao pitch & put. A coisa corria bem. O campo tem 9 buracos e eu comecei do buraco 3. Chegado ao 8, já levava 2 abaixo do par. No buraco 8, à beira de um muro alto que separa o campo da estrada, eu ensaio o swing e disparo a bola. Atrás de mim, no buraco 4, dois ingleses hospedados no hotel empenhavam-se em confirmar aquela ideia antiga de que isto é um desporto de velhos barrigudos. A minha bola sobe, sobe bem, sobe muito bem. Não me espanto muito, pois sentira o swing solto e largara bem os braços. Aquele barulho quando o taco bate na bola confirmava que havia sido um bom shot. O tempo estava calmo, sem vento, e a bola desce bem. Desce mesmo muito bem. A direcção é perfeita. Eu levanto o pescoço. Começo a sentir um formigueiro no cimo da alma. A bola bate no green levemente, como uma folha seca apoiada pela brisa outonal. O formigueiro da alma alastra ao estômago e a bola rebola devagarinho. Aproxima-se do buraco e o formigueiro desce do estômago até aos colhões. Quando eu tenho formigueiro nos colhões é sinal de que alguma coisa de grandioso está para acontecer. Há gajos que lhes dói o dedo grande do pé quando está para chover. Eu é formigueiro nos colhões. A bola encontra uma linha perfeita na direcção do buraco e desliza como uma top model na passarelle. Aí vai ela. Devagarinho, rola, rola e...... ploc! Ploc? Hole-in-one! Eu lanço o taco ao chão, e meto-me de joelhos na relva com os dois punhos cerrados em movimentos oscilatórios para cima e para baixo e a berrar «golo»! Nestes momentos, estala o verniz e vêm ao de cima os nossos modos rudes e primitivos que, afinal, não desapareceram. Foram apenas enclausurados. Mas agora, soltam as amarras e libertam-se. E lá continuo eu aos pulos:
- Mambó, caralho! Foda-se! Chupa-mos! Pimba!
Lá atrás, no buraco 4, os ingleses, sem entenderem as minhas imprecações, assistiam a tudo e batiam palmas. Eu ouço-os. Começo a descer à realidade e apercebo-me então que, do outro lado do muro, aquele autocarro que a Câmara Municipal arranjou para passear os turistas, descapotável e de dois andares, passava na estrada. No andar de cima do autocarro, uma dúzia de turistas assistira a tudo e aplaudia de pé. Foi o meu momento de glória. É como um golo no estádio da Luz cheio. Vos garanto: um hole-in-one é melhor que foder. Quem acha que não, nunca fez nenhum!

28/07/09

O MAIOR ESPECIALISTA VIVO EM ARROZ, por Lletraferits


Já vai sendo tempo de vos apresentar mais um Titã aqui do Tapor e da Confraria. Esta terceira personagem nada tem a ver com o Maior Especialista Vivo em Saladas, que muitos conhecerão pelo cognome de Camus ou Venenoso, assim como nada tem a ver com esse espécime raro do Pior Estalajadeiro do Mundo, que responderá também ao nome de Granítico, Adelino, Avelino ou Asdrúbal.

Nada de confusões. Hoje falamos, nem mais nem menos, do que do Excelentíssimo Senhor Doutor Abranches Y Menezes, também conhecido por Capitão Nemo ou Octávio Malvado, aka, O Maior Especialista Vivo Em Arroz, Queijadas de Pereira & Peixinhos do Rio. Já se tratou aqui em postas anteriores das queijadas de pereira, bem como dos peixinhos do rio, mailo descascar dos morangos e o tirar do caroço à banana. São águas passadas.

Hoje vamos ao Arroz. E lembrei-me do meu amigo arrozeiro e descaroceiro da banana, precisamente porque ao atravessar a desinteressante e poluída avenida Fernão de Magalhães, dei de caras com um engarrafamento monumental à conta de uma manifestação dos arrozicultores do baixo Mondego, que ocuparam a dita cuja, com os seus mastodontes de quatro rodas mais reboques e animalejos de porte atacante.

E qual não é o meu espanto que enquanto fazia gincana em volta de uma vaca de olhar vesgo e assassino, tropeço no Dr Abranches Y Menezes, que por ali evoluía entre os seus pares. Em defesa do Arroz o Dr Abranches estava presente. E supera o medo das vacas. Abaixo o Ministro! Abaixo o Jaime Silva! Abaixo o Agulha! Vivó Carolino do Baixo Mondego!

É que o Dr Menezes é o maior defensor vivo do Arroz Carolino do Baixo Mondego. Então quando lhe servem o dito cujo, mas do talhão da família Temudo Laranjeira e Filhos, o homem derrete-se e afunda-se no banco em estado de beatitude gastronómica.

Ao invés, é homem para sacar da Montblanc subitamente transformada em arma branca de açougueiro, sempre que lhe apresentam no prato arroz agulha ou ignomínia das ignomínias e com licença da palavra: basmati. Scchhh…, leiam baixinho que o homem ainda ouve…

Em certa altura, o pessoal satânico resolveu ir comer a excelsa Lampreia em poiso diverso do Bernardes e do Boa Viagem e vai de amesendar no novel tasco Mondego, do Porto da Raiva. Apesar de todas as combinações e avisos à navegação, a encantadora e juvenil estalajadeira teve a suprema infelicidade de servir o ciclóstomo com outra coisa que não o Carolino do Mondego. Foi feio. E arrepiante:

- Ó minha senhora, então o que é isto?
- Arroz de Lampreia, pois então, não foi isto que encomendaram?
- Está a brincar, pois não é, é uma partida aqui dos animais, que foram por detrás de mim falar consigo e acertar esta palhaçada…
- Peço desculpa, mas a Lampreia não está bem?
- Ai é a sério, você quer mesmo que a gente coma esta mistela com um arrozeco em molhaca solta e desensaborida?
- Mas o arroz tem algum problema?
- Ó Minha senhora, pelo amor da santa, atão acha que isto é arroz carolino do vale do Mondego? Foi esta mistela que eu combinei consigo?
- Mas não é…?
- Não, isto é arroz agulha, de marca branca e pelo aguadilha e cor, isto é prá aí do norte de Itália, do vale do pó, que são experts em porcarias deste género. Este arroz não tem os esporos do carolino, está a ver?
- Esporos?
- Pois claro, os abundantes esporos do bago do carolino, que absorve o dobro da água do mísero agulha e ensopa e engrossa o arroz, que até o sabor é outro. Isto que aqui está é uma coisa deslavada que não tem nada a ver com o se encomendou!

A simpática serviçal já tinha a lágrima ao canto do olho e o Abranches Y Menezes continuava à desfilada a afiambrar na estalajadeira e já falava em ir tudo embora e não pagar. A moçoila choramingava e quanto mais ajoelhava, mais o Y Menezes farpeava tão dorido e belo lombo.

Acontece que a malta estava esgalgarada com fome e com carolino ou sem carolino, a Lampreia cheirava muita bem e a mocinha era coisa que embevecia e vai dai travámos o ímpeto assassino do purista arrozeiro e saltámos todos em defesa da donzela apanhada nas mandíbulas do dragão.

Mas é certo que nunca mais se lá voltou. Com arroz não se brinca e com o Abranches Y Menezes também não. O São Jorge safou-se uma vez com o Dragão, mas não é certo que se safasse segunda vez.

21/07/09

O MAIOR SALADEIRO VIVO contra O PIOR ESTALAJADEIRO DO MUNDO na arena do PAELLADOR, por PaellaFerits


Calma, pessoal! É certo que o título é gongórico e estridente, mas tenham lá calma que não é caso para menos. No Domingo, perante estes olhos que a terra há-de comer, evoluíram juntos e ao vivo estes dois titãs, estas duas massas brutas de potência e ardor. Oh, e como arderam meu Deus. Arderam como deve ser! Vinde Demónios!


Antes da gesta, um pontito prévio. Como qualquer alma de deus que se preza, é questão de honra e de respeito dos pergaminhos antigos, que quando se recebe alguém em nossa casa, isto é, quando assumimos o papel de Estalajadeiro, há que fazer um esforço mínimo. O bem receber ou pelo menos o receber com um mínimo de dignidade por parte do Estalajadeiro é o paradigma base da essência humana. Do português, ao chinês, passando pelo guatemalteco e pelo esquimó, toda a gente faz algum esforço. É ponto de honra.


Toda a gente? Toda não! Quando se tropeça num empedernido e serrano exemplar da máfia granítica, a coisa chia fino! No passado Domingo, esta maltosa porcina tropeçou nO PIOR ESTALAJADEIRO DO MUNDO!


O nosso especialista em Paellas e Água Valenciana (Champanhe e Sumo de Laranja no ponto certo e de modo a que não se note o álcool), de seu nome O Mau, entendeu fazer uma Paelha para o pessoal, regada a Água Valenciana, no passado Domingo. E se bem o pensou, pior o fez, acertando que a coisa seria feita em casa do Granítico.


Coube-me a mim avisar a malta e vejam só com que esforço e custo estas coisas se fazem, que esta malta com comida não brinca:

- Tá lá, Mágico, ó pá é só pra te dizer que às 19 horas vamos papar uma Paella feita pelo Mau em casa do Granítico, como é, apareces?

- Ó pá, não dá muito jeito, mas eu arranco já e daqui a duas horas tou aí, chego lá prás 19.15.

- Mas onde é que tu estás, animal?

- Arcos de Valdevez, mas arranco já!


Fim de tarde. Paella a apurar em Paelhador próprio, mailos preciosos filamentos do caríssimo açafrão de La Mancha, sobre fogo de lenha aromática que o Mau não brinca em serviço. Outra coisa com que o Mau não brinca é com o golfe. Galo do catano. À hora precisa em que a Paella mais precisava de atenção, começou a dar na televisão o torneio de Golf de Augusta, Aurora, Adelaide ou da puta qui ló parió e zás, lixou-se a Paella e lixámo-nos nós que a comemos esturricada e mais se lixou ainda o coitado do Mágico que vindo de Arcos de Valdevez não conseguiu impedir a tempo que as manitas esfaimadas do Mangas e do Maior Saladeiro Vivo lhe limpassem a dose que supostamente lhe caberia. Esturricada e tudo. Com fome, esta gente comia a própria família enquanto o diabo esfrega um olho.


O Mangas, que era suposto escolher excelsas laranjas à razão de três quilos por toinada, veio-se com um quilito de laranjas valencianas secas, que deram uma Água Valenciana alcoolizada e praticamente imbebível. Foi limpa pelo Mangas e pelo Maior Saladeiro Vivo. Quem mais poderia ser?


E eis que entra em cena o nosso primeiro Titã, nada menos que O MAIOR SALADEIRO VIVO. O homem que nas suas próprias palavras é inigualável na feitura de salada, que até leva “dressing” e com um sabor tal que é capaz de ressuscitar o Pedro Páramo. Se ele o quisesse, o que duvido, siga o enterro. Adiante.


Restava a salada. A ser feita pelo dito cujo Maior Saladeiro Vivo. O qual arranjou um panelão e abriu lá para dentro um sacola de alface já cortada e lavada marca Continente, mais idêntica sacola de Rucula, e outra de Agrião, e vai de meter o Mangas a cortar meia dúzia de cebolas, mailos rabanetes, uns tomatitos cherry, e pimentos em barda. Seguiu tudo pró panelão e tudo regado com o famoso dressing, também conhecido por frasco de molho de vinagreta marca Continente. Ah, e esqueci-me de outro Continente, que era mais uma sacola de gorgonzola manhoso sob a forma de bolitas em cama de molhaca leitosa. Mistura e remistura e VOILÁ! A especialidade dO Maior Saladeiro Vivo. Uma coisa em forma de assim.


O pessoal olhou uns prós outros e voltámo-nos para o Estalajadeiro. O Granítico. Azar. Batemos com as fuças no segundo Titã: O PIOR ESTALAJADEIRO DO MUNDO. Como se já não bastassem os copos em forma de jarras de cemitério e a falta de serviço condigno, eis que se foi ao rabusco da cozinha do Demo. Num armário demos com um pacote de bolachas trincadas e bolorentas. Prazo de validade: 12-2004. Na parte de baixo do frigorifico, quatro ou cinco ameixas vivas, que aproveitaram a reincarnação para se metamorfosearem noutra coisa qualquer, que mexia e gemia. Por respeito ao sagrado não quisemos interferir com o processo. Numa gavetas, três peras verdinhas por fora e negras por dentro, agradeceram-nos o fim da penitência e o remanso do caixote de lixo. No congelador umas réstias de pão, congelado, mas com ar de ser do tempo dos mamutes. Na porta do Frederico, meia cola de litro e um quarto de água mineral. The End.


O Mangas sacou um amendoim dos calções de praia e houve mortos e feridos na disputa da alcagoita. Foi mais afoito o Xeko, que nestas coisas das cacáuhétas não perdoa.


E prontos, lá foi uma brigada expedicionária direita à excelentíssima Churrasqueira da Pedrulha para o very tipical portuguese grilled chicken. Os dois titãs também comeram que se fartaram do frango de churrasco.

20/07/09

A Geração dos Transístores, por Rádio Pirata


Fez hoje anos 40 anos que o homem foi à lua pela primeira vez. Foi uma coisa espantosa e, depois destes anos todos, a principal pergunta que me faço a mim próprio é: como foi possível? Não «como foi possível termos ido à lua», mas, pelo contrário, como foi possível nunca mais lá termos voltado. Estamos em 2009. Como foi possível que desde 1972, ano da última missão Apolo 17, nunca mais tenhamos posto um astronauta noutro planeta, ao menos, de novo, na lua?

Fico estarrecido quando penso que a Apolo 11 que pôs Arsmtrong, Aldrin e Collins na lua pela primeira vez foi em 1965! Estes homens foram à lua com a tecnologia do transístor! Os computadores da Apolo, sofisticadíssimos na época, hoje dar-nos-iam vontade de rir. Se os astronautas tivessem, à data, os computadores de brinquedo que agora oferecemos às nossas crianças ficariam eufóricos. E no entanto com meios que hoje ultrapassámos largamente, com tecnologia que consideramos primitiva, a geração dos nossos avós fez viagens à lua de 65 a 72! É fabuloso!

Que foi feito da coragem, da ambição, do pioneirismo, da curiosidade e das vistas largas da geração de 60? Dos anos 70 atá 2009 avançamos alguma coisa - principalmente no envio de sondas espaciais à superfíceie de Marte. Mas é tudo muito incipiente ao pé das missões Apolo. Esperava-se mais, muito mais... Deixou de haver homens de visão e inteligência na NASA, como o grande Carl Sagan? Já não há heróis, como Armstrong, Aldrin e Collins? Com a tecnologia de que hoje dispomos não há uma razão séria para termos desinvestido tanto da exploração espacial.

Eu sei que a corrida espacial foi acicatada pelo contexto da guerra fria, que foi uma espécie de guerra simbólica entre os USA e a URSS, mas se a lógica não fosse uma batata a cooperação internacional deveria, agora, permitir-nos ir ainda mais longe. E também é verdade que muita gente distinta criticou o projecto de exploração espacial, como Martin Heidegger, um dos maiores génios do século XX. Heidegger confessou-se chocado com o abandono do planeta mãe. Mas ele enganou-se muito, noutros temas também, como na política...

O semi-abandono da exploração espacial foi, para mim, um dos maiores escândalos da nossa geração. Neste aspecto, não mostrámos ser dignos daqueles homens que acreditaram numa viagem impossível a outro mundo. Não fomos dignos da sua coragem, nem da sua dádiva. Fomos mesquinhos e achámos que era muito caro, que fazíamos melhor em aplicar as avultadas verbas da exploração espacial a equipar exércitos com felinos aviões invisíveis e armas atómicas capazes de estoirarem com o nosso planeta num ápice.

Nos séculos XV e XVI, quando homens como D. Henrique, D. João II e D. Manuel, Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama e Cabral decidiramdesafiar, com as suas caravelas, monstros desconhecidos, também se levantaram as vozes do costume. Como os astronautas de Apolo as suas naves eram obsoletas, à luz dos vindouros. Mas nada impediu os portugueses de darem início à viagem que Armstrong e os seus continuaram. Estamos em dívida para com uma geração. Mais: estamos em dívida para com a história! O repto é claro: para a lua primeiro e depois para Marte! O maior sonho do velho Buzz Aldrin é não morrer sem ver um homem em Marte. Infelizmente, creio que já não vamos a tempo de lhe dar essa alegria.

16/07/09

Pastéis de Belém e Tentugal, por Mangas

Confesso que nunca fui especialmente amante de doçaria, conventual ou regional. Os meus gostos são simples e não exigem requintes elaborados de ovos e açúcar, para além do arroz doce submerso em canela feito pela minha mãe, ou de uma mousse de chocolate que ela faz todos os natais absolutamente soberba, camadas finas de natas cobertas de outras mais espessas e duradouras de chocolate até ao topo, e pelo meio, escondidas entre duas bem aventuradas colheres de paraíso, amêndoas torradas, cortadas a meio ou inteiras que conferem aos maxilares, ao palato e ao gosto, breves, mas inextinguíveis razões de existência. Abro aqui uma excepções para os meus dois doces regionais favoritos e dos quais nunca me abstenho, assim essa oportunidade venha ao meu encontro, de comer e saborear meia dúzia ou os necessários até consolar a pança. O pastel de Belém e o pastel de Tentugal. Sobre o primeiro não me vou alongar muito, pois é sobre o segundo que vos queria falar. Conheci os pastéis de Belém quando era estudante e fui estagiar para o Hospital Egas Moniz em Alcântara, em 1986. Recordo-me bem que saía do hospital às 3h da tarde, em Março já o sol me apanhava na rua a espreguiçar os apontamentos e os processos dos doentes, mortinho para me pôr dali a andar em direcção a Carnaxide estava eu!, apanhava o eléctrico até Belém numa viagem curta sem pausas e com Tejo a poente, descia em Belém e passo acelerado entrava na Antiga Confeitaria de Belém (penso que é assim que se chama), e já saía dali aviado. Nada de açúcar em pó! O pastel de Belém já tem doce quanto baste e o único complemento que admite é a canela! Não precisa, nem deve levar açúcar correndo o risco de se tornar excessivamente adocicado e ser cortado naquele travo único do creme macio e sereno ao paladar, quando saboreado abundantemente com dentadas frugais mas respeitosas, porque majestoso é o pastel. A besta que considera um pastel de Belém igual ou uma variante do pastel de nata, é bronco ao paladar, simplista na apreciação e ofensivo à verdadeira essência das coisas, da vida e dos deleites que a sustentam. Adiante. O pastel de Tentugal chegou ao meu conhecimento pela televisão. Era eu miúdo e via sempre um programa chamado Sopa de Pedra, com um fulano gordo e barbudo que vestia o hábito de monge e visitava as capelinhas gastronómicas deste país. Lembram-se? O tipo aparecia nas cozinhas, falava com os cozinheiros das iguarias, dos pratos que celebrizaram cada região ou ermo perdido e alambuzava-se no final, antes de seguir caminho de rota batida para outro paraíso à mesa. Um desses episódios foi filmado em Tentugal. Muitos anos mais tarde, comi finalmente um desses pastéis. Hoje, esse gesto tornou-se uma rotina mais ou menos desprezada. Não terá em si, o mesmo significado místico de provar um vinho ou saborear um cubano, mas continua a ser uma invocação de prazer e bem estar. Um dia destes, estava eu sentado a ver o GNT, quando sou surpreendido com uma reportagem sobre os pastéis de Tentugal. Os brasileiro vieram cá e pasme-se, demoraram três quartos do programa a mostrar passo a passo a feitura, não do recheio ou do pastel no seu todo, mas do folhado que o cobre. E fiquei a saber o que até então nunca eu tinha imaginado. A coisa faz-se assim: no centro de uma sala enorme e preparada para o efeito, coloca-se sobre um tecido branco com a largura e comprimento da sala, um bloco de massa feita exclusivamente com farinha e água, segundo a D. Fátima que até tem nome de santa e abençoadas devem ser as suas mãos. Depois, de forma progressiva, firme, e segura, vai-se esticando essa massa do centro para a periferia. Movimentos a duas mãos, sincronizados para não abrir brechas na elasticidade da massa, no sentido dos ponteiros do relógio. Estica, puxa, estica, puxa. A massa vai-se tornando cada vez mais fina e extensa, como devem calcular. A certa altura, após uma ou outra esticadela, o ar invade o espaço entre a massa e o chão criando um efeito de balão: a massa chega quase a tocar o tecto, como um enorme pára-quedas a abrir-se para logo a seguir, descer quando o ar se escapa, muito lentamente, até ao pano branco outra vez, onde assenta. Incrível! Nem um golpe na sua integridade, nem uma brecha por ali se mostra. No final, a massa ocupa agora todo o perímetro da sala. Não imagino, mas seguramente alguns 10mx10m, talvez. Está agora reduzida à espessura de uma folha de papel transparente. Literalmente! É então que os bordos irregulares são cortados de forma geométrica, para em seguida se proceder ao corte de pequenos quadrados, centenas deles, que sobrepostos em quantidades proporcionais vão receber o recheio de ovos, ser enrolados e acabar no forno. Achei aquilo tudo de uma mestria absolutamente única. A manualidade, a simplicidade e ao mesmo tempo a complexidade do processo, fizeram-me achar que era algo digno de pertencer a este espaço e olhar para os pasteis de Tentugal com outros olhos, ainda que com a mesma boca.

13/07/09

A Sinfonia Pastoral de André Gide, por Canibal


Gide é um dos nomes maiores da literatura francesa contemporânea, Nobel da literatura em 1947. Admiro-lhe a fluidez e naturalidade da escrita, bem como as suas tensões permanentes e a densidade psicológica dos seus personagens. Trata-se de um autor que já estava na minha lista há anos, mas cujos livros nunca encontrei. Até que, na semana passada, fui à FNAC dos Fornos. Saí de lá com três Gides, este, A Porta Estreita e Os Moedeiros Falsos. Já li os dois primeiros e vou a meio do terceiro. Não sei, pois, se este post é sobre um livro de Gide, se sobre o papel incontornável da FNAC dos Fornos na minha educação literária…

O argumento deste Sinfonia Pastoral é uma coisa poderosa que, em certos aspectos, remete para Dorian Gray de Oscar Wilde. O cenário é o de um triângulo amoroso: uma rapariga cega, gradualmente, apaixona-se pelo seu preceptor, um pastor protestante, que também está apaixonado por ela mas que sublima essa paixão. O filho do pastor também se apaixona pela rapariga mas não é correspondido.

Entretanto há a possibilidade de uma operação devolver a visão à rapariga. E com esta perspectiva o pastor entra em pânico: será que, ao recuperar a vista, ela vai deixar de gostar dele? Passará a amar o filho dele? O dilema remete para a parábola bíblica - e a ressonância religiosa está sempre presente na obra de Gide - do «Olhar». Não será o cego, ou seja, aquele que está livre da ilusão da aparência física, quem vê mais profundamente? Como vemos melhor - com a visão física ou com os olhos da alma? O que é que é mais determinante - o ser físico, que apreendo pelos olhos, ou o ser «espiritual» que apreendo pelos «olhos da alma»?


12/07/09

How can I Stop

Uma Pérola Escondida na Discografia Recente (bem recente é como quem diz, Bridges to Babylon, o disco da canção é de 1997) dos Stones ou O Keith Richards é Mesmo o Maior, Fónix!

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10/07/09

Betos? Era matá-los!, por Ni-ga!


Sem mais comentários descnecessários, segue-se a publicação do excelente post do Ni-Ga,editado em estreia mundial absoluta no http://vaipaselva.blogspot.com/.

Decidi corresponder ao apelo do Mau-r-à-dona e fazer um texto sobre os betos. Vocês têm tanta aversão por Mitras ou Sangokus como eu tenho por Betos. Principalmente pelos "betos-da-solum" e pelos "betos-do-dona".


Quando olhamos para um Sangoku lembramo-nos logo do vegeta ou do Son Goku. Eu quando olho para um beto lembro-me do Fernando Pessoa. Ou, outro tipo de betos, fazem-me lembrar morangos. Mas não são uns morangos quaisquer: são Morangos Com Açúcar.


Eu explico. Há dois tipos de betos: os betos rebeldes (morangada) e os betos-certinhos (Fernandos Pessoas).


Os betos-certinhos são o tipo de pessoa que só se topa através de uma curta conversa. Normalmente são tímidos e usam as calças e camisas bem engomadinhas que a mãe lhes prepara, quer tenham 10, 15 ou 20 anos. Andam com a roupa escolhida pela mãe, não sabem o que são gajas, passam a vida em explicações e não fazem nada do que é politicamente incorrecto.


Sempre que olho para eles imagino-os com um chapéu e uns óculos como o Fernando Pessoa. Imagino-os a ler livros profundos e a fazer reflexões em voz alta ou a declamar poemas enquanto jogam xadrez com os amigos:

“O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.”


Este tipo de betos é criticável mas não tão irritante como o segundo tipo. Os Fernandos Pessoas não vivem. Não sabem o que é divertir-se. Será que alguém pode dizer que já viveu sem nunca ter fumado um cigarro, sem nunca ter snifado qualquer coisa, sem nunca ter posto alguma cena para a veia, sem beber álcool, sem ter pertencido a um gang urbano ou sem nunca ter andado à porrada? Acham que a vida é ler, jogar xadrez ou declamar poemas? A vida é curta e dura, sócios! Aproveitem-na. Não é por se drogarem uma vez ou outra que vão morrer muito mais cedo!


O segundo tipo de betos é o dos betos-morangos. São os típicos betos-da-solum: passam a vida no S. José do Gira com os seus capacetes das motos que os pais riquinhos compraram aos meninos porque eles fizeram birrinha. Andam sempre de camisinha mete-nojo, às vezes para dentro das calças, óculo de sol e sapatinho lambidão, com o cabelo à frente dos olhos e a ser afastado com um movimento de pescoço que puxa o cabelo para trás e o volta a meter à frente dos olhos (para ser afastado mais uma vez e outra e outra…). E, claro, fazem a depilação, como bons maricas que são… É por isto e por outras razões que – não digo para não me alongar mais – que acho que os betos (suínos) da solum são uns parasitas sociais!


São mais irritantes porque são ricos, filhos de bons papás e com a mania que são superiores. Drogam-se, bebem e fumam tal como os Mitras ou os Sangokus. Mas têm uma diferença essencial: estilo! Acham-se os donos do mundo e das gajas. Normalmente andam rodeados delas, com aquela meiinha puxada até ao joelho e as calças um bocado mais curtas, para se poder ver a meia de marca e o sapato de vela. Metem-me um nojo! Ia aos cornos a todos no momento!


É que ainda por cima estes moranguitos têm a mania que são maus. Mas na altura da porrada é que se vê quem manda. Os Mitras são muito superiores. Estes morangos não gostam de ler nem de escrever. Têm más notas e chumbam montes de vezes. São pessoas fracas intelectualmente mas que acham que por ter dinheiro são os donos do mundo. A única diferença intelectual e mental entre este espécime e os Sangokus é que os Betos se acham os donos do mundo. O dinheiro compra tudo, não é verdade?


Ah! E outra coisa que me irrita: estou farto de ver aqueles putos que no 6º ano usam calças da resina e são bueda maus, e depois quando crescem, mesmo que não queiram, mudam a sua identidade deixando crescer o cabelo e ficando betolas. O que é isto? Só querem babes? Se não se sentem bem com isso porque mudam? Têm medo de ser chacinados pela sociedade? A sociedade é hipócrita sócios. A sociedade é hipócrita! Ninguém se respeita. Ninguém respeita a diferença. Quando ando na rua ouço risinhos. E daí? Caguei e andei! Afinal ser diferente é ser à frente.


Agora vou-vos falar dos momentos mais felizes da minha vida enquanto mitra: quando chega o verão e vou para a figueira com os meus primos de França e passamos o dia no aquapark! Isso sim é vida! Temos muito a aprender com os mitras franceses, vulgarmente chamados “Avecs”. Eles são o santo graal do estilo. São uma epopeia da expressão! Estão na vanguarda da moda! E eles lá não são criticados como cá! Por isso tirem as vossas ilações e vejam se não chegam à conclusão de que se respeitassem os mitras o mundo era muito melhor!


Como nós dizemos: mas que vida a nossa… Comer, beber e andar de carroça!