
De Lisboa à Tunísia são apenas duas horas e meia de voo. Mas é impressionante como um sítio tão próximo geograficamente seja, ao mesmo tempo, tão distante culturalmente. Da Palermo a Cap Bon vai-se de ferry boat; de Barcelona a Tunes é uma hora de avião. E, no entanto, a tunísia é, para nós, um mundo insomensuravelmente tão distante...
Viajar para a Tunísia é viajar para outra civilização, é fazer uma mudança cultural, apesar de demorarmos o dobro do tempo a chegarmos de carro ao Algarve, se sairmos de Coimbra. O Brasil fica a cerca de 10 horas de voo de Lisboa; e no entanto sentimo-nos em casa, está logo ali, em termos culturais...
Sim, bem sei que há países muçulmanos muito mais duros, portanto, muito mais distantes de nós, culturalmente. A Tunísia é até apontada - juntamente com Marrocos - como o país mais moderado e ocidentalizado do Magreb. Os próprios Tunisinos estão sempre a dizer que são gente calma e que os argelinos e os líbios, esses sim, é que são agressivos e nervosos. Mas, mesmo assim, sente-se e não é pouco, a mudança de registo e o impacto do abismo civilizacional.
Pode ser que eu volte ao tema, um destes dias. Por agora deixo-vos com esta foto de um lugar fantástico chamado Korbous, situado na província de Cap Bon. Desce-se da montanha com paisagens rochosas mediterrânicas de cortar a respiração, a água azul, a brilhar lá ao fundo das falésias, e chega-se a Korbous. É um lugar famoso entre os nativos pelas qualidades termais das suas águas. Sentimos logo, ainda longe, um cheiro intenso a enxofre, porque a este sítio vai desaguar uma nascente da montanha de águas quentes. Os nativos, gente humilde, muitos com o típico «bronzeado à pedreiro», acotovelam--se para se apinharem no sítio mais próximo da cascata de águas ferventes milagrosas. Há centenas de pessoas e uma vaca a paseear na estrada, como na ìndia. Estilhaços de polvo esvoçam por todo o lado (os nativos estão constantemente a apanhar polvos que estilhaçam contra os rochedos).
Experimento mergulhar ao pé daquela multidão dos homens e das poucas mulheres que se banham com os seus púdicos fatos islâmicos. A sensação é excelente, à medida que me afasto a temperatura da água vai esfriando, junto às cascatas é quase fervente. É interessante: para os padrões ocidentais Korbous pode parecer um lugar ascoroso. «Que nojo! Isto é uma porcaria», diz o R. Mas eu não acho. Não sinto nojo nenhum naquele sítio, a água quente vem de uma nascente na montanha, o cheiro intenso é do enxofre e não de esgotos a céu aberto, como na Figueira da Foz, e o mar é azul, límpido e infinito. O que será mais nojento - Korbous, a da foto, ou uma piscina de hotel, tratada a baldes de cloro e povoada de hordas de ingleses vermelhos do sol a suarem em bica?
















