
Hoje, em Portugal, já não se discute política. As pessoas pensam que sim, mas não. O mais importante já não é a discussão acerca das políticas do governo nas várias áreas - que, pessoalmente, acho calamitosas. Nem se trata de saber quel o melhor partido para dirigir Portugal...
Antes disso, a questão é, simplesmente, anterior a isso. Numa democracia saudável, sim, discute-se se este ou aquele partido apresenta um programa melhor ou pior que aqueloutro, se esta equipa partidária tem quadros melhor ou pior qualificados, se este líder está mais preparado que outro, as diferenças ideológicas... Isso é o normal. Só que Portugal não é uma democracia saudável.É por isso que em Portugal a questão prévia não chega a ser política: é um problema de falta de credibilidade pessoal e moral de um líder, o actual primeiro ministro, para se manter em funções.
Em qualquer democracia normal, um líder que carregasse às costas tantos casos como o freeport, a licenciatura marada, o caso do apartamento de luxo comprado a preço módico, o caso cova da beira, o caso dos projectos Guarda/Covilhã, a «famiglia» mencionada como estando envolvida num caso de licenciamento público de um projecto privado - o freeport -, o primo de shaolin, o novo primo que também não está no país e é citado como intermediário no caso freeport, o escandaloso silenciamento da redacção da TVI, ufff, etc, etc, etc, tudo isto é demais e só fiz uma pequena selecção assim de memória...
Não se trata de política, trata-se em primeiro lugar de um padrão: são casos a mais para uma só pessoa, que não podem ser pura e simples propaganda da oposição. Trata-se de lodo a mais! Encarados com um mínimo de seriedade, todos estes casos só podem levar a uma conclusão: socas não tem condições para continuar a governar, quanto mais para vencer ou sequer apresentar-se a eleições. Socas é, no mínimo, suspeito em demasiados casos nunca cabalmente esclarecidos e isso devia ser mais que suficiente para que se demitisse ou fosse obrigado a tal.
Uma sociedade que permite, sem se indignar, que um indivíduo ligado a tanto caso, continue no poder, é uma sociedade que está doente. Doente de fraqueza, sem energia, sem cojones, como diriam nuestros hermanos. Acho espantoso como é que ainda não se deu neste país um movimento de impeachment. Num país evoluído há muito que socas estava no olho da rua. Mas aqui as pessoas continuam a espantar-me com os argumentos acéfalos e desesperados com que continuam a defendê-lo. «Mas o homem não fez nada de bom?» Claro que sim. Até Hitler e Mussolini fizeram algumas coisas boas. É só isso que esperamos de um político - que faça «alguma coisa de bom» em quatro anos, seja lá o que for e quanto ao resto, vale tudo porque «todos fazem»? Como é que os portugueses não se indignam? Não compreendo quando me dizem «mas os políticos são todos assim» sem sequer concretizarem, sem sequer perceberem que não houve nunca neste país um político com tanto caso suspeito às costas.
A apatia com que a sociedade portuguesa reage a tudo isto é mais grave que os factos em si. É o sintoma de uma doença, de uma doença terrível da nossa sociedade - a da degenerescência da consciência cívica. Estamos doentes, não temos o mínimo grau de exigência perante aqueles que nos governam. E, o que é mais grave, ainda não percebemos que a maior falta de respeito que a nossa indiferença encerra não é para com os outros: é para connosco próprios.
















