
Um dos efeitos mais perversos dos acordos de Bolonha é a forma miserável como as antigas licenciaturas de quatro e cinco anos foram desvalorizadas. Como é sabido, as licenciaturas actuais passaram a ter a duração de três anos. Mais dois anos e o licenciado é Mestre.
Ora, antes de Bolonha, uma licenciatura durava quatro anos e nalguns cursos cinco, como por exemplo, nos cursos de letras que incluíam um ano terminal de formação psico-pedagógica, findo o qual se entrava em estágio. Seis ao todo, portanto.
É pois evidente que há uma desvalorização destas formações. Não creio que o caminho seja o de negar a licenciatura aos actuais estudantes que frequentam os actuais currículos de apenas três anos. Mas parece-me de meridiano bom senso equiparar as licenciaturas anteriores a Bolonha ao grau de Mestre. Não se trata de passar à frente dos actuais estudantes: ao fim e ao cabo, eles acabam por fazer os mesmos cinco, seis anos que os outros, só que, nesse caso, já saem com o título de Mestre. É só uma questão de repôr para os outros a mesma habilitação.
Parece-me, pois, pelas mesmas razões, que os mestrados tirados no regime anterior a Bolonha deviam ser, imediatamente, equiparados ao grau de Doutor. Esses mestrados - pelo menos os que conheço, tirados no fim dos anos 80 - eram feitos depois de cursos de 4 anos (licenciatura), mais um de psico-pedagógicas e outro de estágio. Ou seja, depois de 6 anos de trabalho, fazia-se então o mestrado que ocupava ainda mais dois anos - a componente curricular com aulas efectivas. Só após o aproveitamento na parte curricular de mestrado ( e havia muito quem chumbasse) é que se podia começar a preparar a tese final, sob orientação de um especialista. Havia então um prazo de três anos para preparar a tese, embora se pudesse apresentar apenas em mais um ano. Três era o limite.
Resumindo: para se sair com o grau de Mestre era necessário, dependendo dos cursos:
- quatro anos de licenciatura;
- um de formação psico-pedagógica;
- um de estágio profissional;
- dois anos de aulas de mestrado (parte curricular);
- um mínimo de um e um máximo de três para apresentar e defender a tese final.
Total: 9 anos no mínimo e 11 no máximo!
Só então se obtinha o título de Mestre. Hoje nem os doutoramente exigem um percurso tão duro, conheço mesmo casos em que se passa da licenciatura para o doutoramento sem passar pelo mestrado...
É, portanto, de elementar justiça que as correspondências sejam efectuadas: um Licenciado no regime que descrevo no post, deve ser equiparado a Mestre; e um Mestre a Doutor. Não se trata de tirar a quem estuda hoje aquilo a que tem direito, mas de conferir aos outros a equivalência das suas habilitações na actual era bolonhesa.
Num país em que o exemplo da «licenciatura» do primeiro ministro é um escândalo que dá do esforço de vidas inteiras dedicadas ao estudo e ao trabalho académico uma imagem pífia, creio que esta luta ganha ainda mais sentido. Devíam, todos os que são lesados com esta aberração, organizarem-se e exigirem aquilo a que têm direito: o reconhecimento académico devido! Para quem não foi bafejado com a sorte de lhe sair uma licenciatura no Omo, isto é muito importante!
P.S. - O pic refere-se a uma das famigeradas queimas de livros dos nazis. Embora os responsáveis pela situação de que falo no post não sejam nazis, bem se pode dizer que o não reconhecimento das habilitações é uma verdadeira queima de todos os muitos livros, saberes e competências que foram adquiridos mas que não são, presentemente, reconhecidos.