31/03/10

O que aconteceu a Vercingetorix?


A Esfinge de Ouro (1971), segundo álbum da série de BD Alix, da autoria do Francês Jacques Martin, levanta um problema interessante. Martin procura em A esfinge de Ouro fazer uma homenagem de contornos nacionalistas à origem gaulesa de Alix. A saga de Vercingetorix, herói mítico da Gália na resistência contra as legiões invasores de Júlio César é uma figura incontornável. Martin não lhe resiste e promove, neste álbum, o encontro de Alix com o grande chefe gaulês. Isto não tem nada de estranho: Goscinny e Uderzo, segundo reza a lenda, ter-se-hão inspirado, precisamente, em Vercingetorix, para criarem Asterix…
No entanto, um problema depara-se a Martin que quer conservar o respeito que nutre por uma figura como Júlio César. Se Goscinny não teve qualquer problema em ridicularizar César – vide o pic deste post – já em Martin sentimos uma admiração óbvia pelo conquistador. O dilema é este: como ser elogioso para com o grande Vercingetorix sem denegrir César?
Há um momento histórico particularmente relevante na história destes dois grandes líderes. Trata-se da rendição de Vercingetorix. A história é conhecida – estamos na fase terminal do cerco de Alésia. Vercingetorix resiste em desespero aos romanos, até que chega um momento em que a rendição se torna imperiosa. Vercingetoriz decide então entregar-se aos romanos, tentando assim, poupar a vida dos seus homens. Plutarco narra-nos este momento:
«Vercingétorix não esperou que os centuriões romanos o arrastassem de pés e punhos atados até os joelhos de César. Montando um cavalo ajaezado como para um dia de batalha, vestindo ele próprio sua mais rica armadura, saiu da cidade e atravessou a galope a distância entre os dois acampamentos, até o lugar onde estava o procônsul. Fosse pois que a rapidez da corrida o levasse muito longe, fosse porque estivesse cumprindo apenas um cerimonial antiquado, ele girou em círculo em volta do tribunal, saltou do cavalo e tomando a espada, o dardo e o capacete, lançou-os aos pés do romano, sem pronunciar uma palavra. Esse gesto de Vercingétorix, seu brusco aparecimento, seu porte elevado, seu rosto orgulhoso e marcial causaram entre os espectadores uma comoção involuntária. César ficou surpreso e quase assustado. Guardou o silêncio por alguns instantes. Mas em seguida, explodindo em acusações e invectivas, censurou o gaulês por "sua antiga amizade, por seus benefícios que ele havia retribuído tão mal". Depois, fez um sinal a seus lictores para que o atassem e o arrastassem pelo acampamento. Vercingétorix sofreu em silêncio. Os lugares-tenentes, os tribunos, os centuriões que cercavam o procônsul, mesmo os soldados, pareciam vivamente comovidos. O espetáculo de um tão grande e nobre infortúnio falava a todas as almas. Somente César permaneceu frio e cruel. »
Adrian Galsworthy, um dos melhores biógrafos contemporâneos de César, confirma que o Romano se descontrolou em vez de manter a fleuma devida à nobreza do gesto do gaulês. O mesmo dizem a velhinha história de C. Cantu e o historiador contemporâneo Simon Baker («Roma - Ascensão e Queda de Um Império»). Segundo as várias versões, César estava «passado» pelo tempo improvável (10 anos!) que a campanha da Gália tinha durado, afastando-o assim dos seus interesses vitais em Roma. E, desde logo, fez pagar bem caro a Vercingetorix a sua ousadia, como admite Plutarco («Depois, fez um sinal a seus lictores para que o atassem e o arrastassem pelo acampamento»).
Ora bem, Jacques Martin, no seu Alix, contorna completamente esta visão dos factos. Em Alix César reconhece a nobreza do guerreiro gaulês e apenas lhe diz, cito, «devido à coragem excepcional deste homem (…) não me quero deixar arrastar pelo ressentimento. Tratem-no com todas as honras devidas à sua categoria. Vai, podes retirar-te.»
Na última tira deste episódio vemos um Vercingetórix imponente a afastar-se de César, numa pose de grande dignidade. E a seguir César preocupa-se com Alexandria que a Gália está conquistada…
Mas como reconhecem os historiadores, o que se passou foi exactamente o contrário: infelizmente, César deixou-se mesmo levar pelo ressentimento e castigou o gaulês. Martin resolveu assim o seu dilema, apresentando os dois adversários como dois dignos e nobres adversários. E, em particular, deixou-nos a imagem de um César magnânimo… Era bom, era...
Martin é ainda por cima omisso numa outra questão: o que foi feito de Vercingetorix a partir daqui? Que tratamento lhe deram os romanos? Muito se passou depois disto. Vercingetorix vive ainda mais seis anos e é conduzido a Roma, mas o criador de Alix, foge deste tema e prefere deixar os seus jovens leitores de Tintin com a versão «descafeinada» dos factos. Mas a crueldade de César, que Martin parece querer ocultar, vai muito mais longe.
A literatura a este respeito é unânime quanto aos aspectos gerais e, mais uma vez, Plutarco resume os factos:
«Vercingétorix foi conduzido a Roma e lançado num cárcere infecto, onde esperou durante seis anos que o vencedor viesse exibir no Capitólio o orgulho de seu triunfo. Pois somente nesse dia o patriota gaulês haveria de encontrar, sob o machado do carrasco, o fim de sua humilhação e de seus sofrimentos. »
O desgraçado Gaulês era para ser exibido como troféu em Roma e passou os seis derradeiros anos da sua vida numa prisão romana. Sobre a forma como foi morto, a versão de Plutarco («sob o machado») não é unânime. Galsworthy, por exemplo, diz que ele foi morto por estrangulamento, o que faz sentido pois era uma espécie de morte ritual que os romanos davam aos seus presos de guerra mais ilustres.
O que é certo é que Martin, preso da sua ideia de César e do facto de ser um autor de uma série juvenil, fugiu destas matérias mais hard. Mas entre o episódio da rendição de Vercingetorix e a sua morte em Roma, muito mais se passou. Porém é sobre esse período de tempo que me tem sido muito difícil encontrar informação. O único escritor, que não historiador, que li que diz alguma coisa sobre este período de tempo é o francês Max Gallo na sua biografia romanceada de César. Segundo ele, Vercingetorix terá sido obrigado a passar pelas linhas perfiladas das legiões romanas, para ser golpeado por cada romano. Terá sobrevivido – não sei quanto tempo terá demorado esta tortura. Depois, ainda segundo Gallo, ter-lhe-ão quebrado os braços e as pernas e tê-lo-ão atirado para uma gaiola minúscula. Vercingetorix foi assim conduzido a Roma, neste estado, numa gaiola que seguia na retaguarda das legiões. Durante a viagem terá sido do vítima do escárnio e da crueldade dos romanos. Não li esta versão dos factos em mais nenhum livro e Gallo é assumidamente um romancista e não um historiador. Mas terá inventado? Afinal o que aconteceu realmente a Vercingetorix?
P.S. Vercingetorix foi vítima da crueldade romana. Mas também estava longe de ser um santo. Uma das histórias mais impressionantes a seu respeito narra a sua cruel decisão de, em desespero de causa, é certo, ter obrigado todas as mulheres, velhos e crianças a abandonarem Alésia cercada para pedirem acolhimento aos Romanos. Já não havia mantimentos para aquela gente inútil e Vercingetorix tentou que ela se tornasse um fardo para César. Só não contou com a frieza glacial deste. César impediu os romanos de acolherem aqueles desgraçados que foram obrigados a voltar para Alésia. Como Vercingetorix também não os acolheu de volta, para ali ficaram entre os dois exércitos a morrerem ao frio e de fome. Tanto César como o chefe Gaulês assistiram a tudo numa espécie de braço de ferro cruel. Martin também nunca nos apresenta, em Alix, este lado lunar de Vecingetorix…

28/03/10

Bibliofagia!, por Zé Critério

Do ponto de vista literário 2010 não está a correr nada mal. Descobri dois autores que me entusiasmaram, dois Nóbeis que valem a pena (nem todos valem): V. S. Naipaul e a sueca Selma Lagerlof. Do primeiro devorei numa semana A Vida a Metade. Numa escrita depurada, quase seca, very british, Naipaul tece uma narrativa que nos conduz à África portuguesa dos anos 50-60. É um óptimo livro que nos toca ainda mais, Portugueses, por nos falar da nossa própria história recente.

Depois, andava eu à procura do aclamado A Curva do Rio, do mesmo autor, eis que me deparo com a escritora sueca, primeira mulher a receber o Nóbel da Literatura, num saldo da Fnac... Comecei e já não larguei Os Milagres do Anti Cristo, uma escrita quase oposta à depuração de Naipaul. Lagerlof é uma das grandes representantes do Romantismo literário. Gosto daquele universo esotérico, da recuperação das lendas, dos santos populares, de um certo «goticismo» que por ali se pressente. Ainda não acabei o livro, mas estou a adorar.

Mas eis que hoje recebo um sms da Fnac. A minha encomenda chegou e eu corri a levantá-la. Trata-se de Baphomet de Pierre Klossowski, o irmão mais velho do genial artista, Balthus. Vi uma escultura de Klossowski que me impressionou no museu Berardo (Mr De Max et Mlle Glissant dans les Rôles de Diane et Actéon, 1991-92, no pic) e fiquei curioso sobre o autor. Depois fiz uma pesquisa sobre ele e descobri que foi um grande escritor, para além de artista plástico. Como é mais fácil encomendar um livro que uma escultura ou até um quadro, fui à Fnac e pedi Baphomet que chegou hoje. Ainda tenho na cabeça (e no coração) os ecos de Naipaul que já li, ainda devoro Selma Lagerlof que ainda não acabei de ler e já estou ansioso com Klossowski que nem comecei a ler! A literatura é uma coisa do caraças...

20/03/10

Místicos!, por Vata

Ontem o Glorioso fez história ao eliminar os franceses do Marselha (clientes já habituais) com duas ameixas. Eu vi o jogo no sofá cá de casa com o João e com o Rui que são os meus filhos. Quando o jogo ainda estava empatado a uma bola, há um livre contra o Marselha. O Aimar dirige-se para o esférico, tira as medidas à grande área, respira fundo e, entretanto, sentado ao meu lado no sofá cá de casa, o R. diz:
- Se o livre der golo não como doces durante um dia!

Pablito Aimar corre para a bola, coloca milimetricamente à entrada da área, há um ressalto, a bola sobra para Kardek que chuta e... GOOOOOLOOOOOOO, é goolooo do Glorioso! Já está, o Benfica passa a eliminatória!

Delírio na minha sala de estar, eu salto, o João salta, o Rui salta e no meio da euforia o João lembra ao Rui:
- Estás um dia sem comer doces.

Bem, o jogo acabou e passada meia hora, acalmadas as emoções da jornada, fui à cozinha buscar umas gomas para matar a fome enquanto via o rescaldo do jogo. O Rui apanhou-me a tempo e disse-me «guarda-me uma» e eu estendi-lhe o pacote com gomas. Mas eis que surge o João, qual Adamastor de voz tonitroante, voz implacável da consciência benfiquista, e adverte o Rui:
- Tu prometeste que não comias doces durante um dia. Vê lá se agora começamos a perder os jogos todos e não somos campeões. Devias deitar fora a goma, não queiras ficar com uma responsabilidade dessas...

Eu apoiei, assim como assim, não creio em bruxas, pero que las hay las hay... Para quê arriscar, Rui - o Rui parou de mastigar - é só um dia, vá lá, é o futuro do Glorioso que está em causa.
O Rui é um benfiquista consciente e também achou melhor cuspir a goma para o lixo. É uma responsabilidade muito grande para uma criança de treze anos, de facto, arriscar o destino glorioso do Benfica por uma simples goma e um dia de gula. E eu pensei para mim que a educação dos meus filhos foi um sucesso.

Hoje fui buscar o Rui à escola e a seguir fomos almoçar uma francesinha ao Buraco que é um restaurante só de clientes menores 16 anos, que fica ao pé da escola dele. O restaurante foi sugestão do Rui e as francesinhas são, de facto, óptimas. Quando acabámos perguntei-lhe:
- Queres sobremesa, Rui? Há profiteroles... - e ele:
- Não posso... A minha promessa...
Eu já nem me lembrava da promessa da véspera, mas o Rui não brinca em serviço.
- Não vou correr o risco de que os Deuses do Benfica se chateiem comigo.
Amanhã compro-lhe o maior bolo que houver na pastelaria onde tomo café!

18/03/10

Endless Summer, por Super Tubo

Endless Summer é um clássico filme de culto, realizado em 1968. O filme é basicamente uma boa ideia. Bob Brown, o realizador, acompanhou dois jovens surfistas americanos que tiveram e concretizaram um sonho: seguir o verão por todo o planeta a surfar. Michael e Robert saíram da califórnia, no fim do verão, passaram pelo Hawai, pela América do Sul, deram um salto a África, Índia, Indonésia, Austrália, Nova Zelândia, Taiti, Hawai de novo...O filme consiste na montagem de horas e horas de filmagens pelo narrador/realizador. Não se passa nada a não ser muito surf, ondas perfeitas, umas longas outras curtas, umas grandes outras pequenas, mais ondas e mais surf e as reacções dos locais que vão contactando com Robert e Michael. Como o filme já tem mais de 40 anos (!!!!) e é um trabalho mais ou menos amador, mantém uma aura de credibilidade que lhe advém da fotografia «envelhecida». Adorei o filme e o conceito. E gostava imenso - se soubesse surfar - de correr o mundo em cima de uma prancha, durante um verão sem fim.

15/03/10

Da Pastilha Elástica ao Farmville, por Ex-Tóxicodependente

Antes de mais queria agradecer ao meu professor de História Económica e Empresarial por me ter ajudado a libertar-me da tortura do Farmville. Obviamente que o professor não conhece o Tapornumporco, não sabe quem eu sou, nunca vai ler o meu agradecimento e, certamente, nunca saberá que me ajudou. Mas eu agradeço na mesma. E explico porquê.

Numa dessas aulas de História, o professor fala do gestor como alguém que começa, a partir de certa altura, a ter a obrigação de antecipar as necessidades do mercado e até a criar essas mesmas necessidades. E deu-nos um exemplo que me deixou a pensar: o da pastilha elástica. Reparem: a pastilha elástica faz mal. A pastilha elástica engorda apesar de não se poder engolir. A pastilha elástica nasce algures (uns dizem que foi no actual México, outros na Grécia Antiga, outros ainda que foi nuns índios da Guatemala) porque houve algum doidinho que resolveu levar resina à boca e começar a trincar. Houve um gestor qualquer que decidiu metê-la no mercado e hoje em dia quase toda a gente consome pastilhas mesmo sabendo do mal que fazem e ainda pagam por elas! Isto já para não falar de que há muito boa gente que está viciada nestas mesmas (malvadas) pastilhas elásticas.

Das pastilhas elásticas e da necessidade estúpida criada por elas passei para o Facebook e, mais especificamente, para uma coisa que me andou a queimar miolos durante muito tempo: o Farmville. O Farmville, para quem não sabe, é um jogo completamente estúpido em que a pessoa tem uma quinta virtual e tem de cuidar dela tentado aumentar a sua experiência, seja apanhando fruta das árvores, plantando e colhendo cereais ou flores, tratando dos animais etc.. Acontece que, depois de certo tempo a tratar da quinta, uma pessoa fica agarrada àquilo. Seja por uma questão de competição (de querer ultrapassar os amigos que têm mais pontos do que nós) ou por uma questão puramente sentimental (de não querer ver morrer as plantas e a quinta que tanto trabalho deu a construir) vamos continuando a jogar. Dei por mim a perder horas de vida a colher ervilhas ou a ordenhar vacas cor-de-rosa que dão qualquer coisa como leite ou iogurte de morango (já não me lembro bem).

Dei, entretanto, e em grande parte graças ao meu professor, conta de que tinha uma vida para além da quinta que era importante manter. Estes palhaços destes gestores não têm mais nada que fazer senão criar necessidades estúpidas como ordenhar vacas cor-de-rosa a darem iogurte de morango ou vacas castanhas a darem leite com chocolate? E nós não temos mais nada que fazer senão ir na conversa deles?!

Vim de faculdade para casa, liguei o computador, abri a página do Facebook e acabei com a minha Farmville. E, acreditem ou não, acho que recuperei a vontade de alimentar a minha Selva em detrimento de alimentar as vacas cor-de-rosa. Tenho para mim que escrever é uma actividade mais nobre do que a de tratar de bichos virtuais... só espero que não apareça por aí nenhum sacana de nenhum gestor a convencer-me do contrário!

12/03/10

Xuxa Inês!, por Paris Je T`Aime

A actriz inês de medeiros eleita deputada pelo partido xuxialista reside em Paris ao fim de semana. E pretende que lhe sejam pagas as viajens Paris-Lisboa-Paris que tem que fazer semanalmente para poder comparecer no parlamento português. E eu pasmo quando verifico que esta estapafúrdia reclamação, que devia ser liminarmente recusada porque completamente indecorosa e desavergonhada, é considerada pelo ps como sendo de inteira justiça! Para dizer a verdade não pasmo nada - deste partido pilha galinhas e trapalhão já espero tudo.

Mas enfim, convém lembrar que ao contrário do que defendem os xuxas, a senhora não tem direito a nenhum subsídio de deslocação por residir em Paris. É verdade que são pagas despesas de deslocação aos deputados da Madeira, dos Açores, de Trás os Montes, etc. Mas a enorme diferença entre eles e a dona inês é que foram eleitos por aqueles círculos eleitorais, enquanto a dona inês foi eleita por Lisboa, tendo apresentado residência oficial na capital. Tem compromissos profissionais em Paris? Azar. Eu também tinha umas coisas em vista em Sidney, Miami ou Los Angeles se o parlamento me pagasse as deslocações. Se a moda pega, estamos bem lixados.

Há atitudes que, ainda que não dêem em nada (espero que seja o caso), dizem muito acerca da personalidade quem as toma: neste caso, da dona inês-reclamante e do seu partido que a apoia, o mesmo que pede ao «bom povo» que aperte o cinto...

10/03/10

Pentapé nas balls, por Pentágono

E o fóculporto lá conseguiu atingir o principal objectivo para este ano... Não era o penta que queriam? Pois foi o que tiveram no jogo de ontem com o Arsenal.

09/03/10

TIC, TAC, TIC, TAC, TIC, TAC..., por Dromofilo

Pum! Explodiu, súbita, a retórica das T.I.Cs. Não sabem o que é? Sabem mas estão fartos de acrónimos ininteligíveis? Acham que nas escolas e no ministério da educação se fala um dialecto tribal? Em verdade vos digo que não há visão salvífica da educação em Portugal que as não contemple, não há demagogo/pedagogo que não faça a sua apologia, não há discurso redentor de ministro que não fale delas, não há lei de bases em que não seja o mote, não há projecto educativo que não glose o mote. Em França, o acrónimo é mais extenso - N.T.I.C - e suscitou as reacções habituais:o infognosticismo crédulo, também habitual, de quem julga ter encontrado o antídoto para a ignorância generalizada dos alunos e para decénios de orientações educativas erradas; o cepticismo prudente, mais pontual, de quem compreende o poder encantatório das TI.Cs mas, previdentemente, desconfia da omnipotência das suas virtudes pedagógicas.

Jean-Marc Lévy-Leblond, fisico e epistemólogo francês, homem avisado, muito distante do intelectual pronto-a-pensar, considera que o desafio das TI.Cs nas escolas não é tanto e só o da formação técnica (como fazer?), mas sim o domínio dos seus usos sociais(para quê fazer?). Assim, por exemplo, explorar a Internet na aula seria também uma excelente oportunidade para a desmistificar, mostrando que nela não se encontram as maravilhas anunciadas e a solução dos problemas do acesso ao trabalho e à cultura.

Mais recentemente, Umberto Eco,filósofo e homem atento aos sinais, veio dizer-nos que a conjugação compulsiva do verbo googlar está a imbecilizar meteoricamente os adolescentes; só que o étimo baculus (bastão), do qual deriva a palavra imbecil, já não é o instrumento de ajuda à mobilidade do bambo de perna ou mole de miolo, mas é sim o rato que aponta o cursor à infoesfera. Quase sempre ao vácuo e à vacuidade.

(com a devida vénia, picado - com autorização, claro - daqui: http://dromofilo.blogspot.com/. ò Administrapor, já agora linka lá este nos favoritos do Tapor...)

Ora isto, meus amigos, é inaceitável!, por Cottonete

Estava aqui a pensar num problema e gostava de ouvir a vossa opinião. Hoje fui comprar cottonetes. Na farmácia, a srª mostrou-me uma série delas. Várias cores, várias marcas, diferentes embalagens, das 50 às 500 unidades, umas de plástico oco, outras maciço, umas mais compridas, outras mais curtas, enfim, vocês não acreditam na diversidade disponível neste particular das cottonetes. foi então que tive uma ideia genial. Face a tanta diversidade, lembrei-me de perguntar à srª se não tinha só com algodão numa ponta. A srª ficou surpreendida e disse que não, «claro que não, as cottonetes têm algodão nas duas pontas».

No momento não liguei àquilo, comprei e pronto. Mas vim para casa a pensar: «por que é que as cottonettes têm algodão nas duas pontas e só há com algodão nas duas pontas?» Onde raio é que está a lógica? Mas «claro» porquê, caralho? Então e se eu só utilizar uma ponta? Comé que é? Ou guardo a cottonette com uma ponta suja e outra limpa, para que a ponta limpa seja usada em ocasião posterior, o que é uma porcaria, ou mando a cottonete fora, o que é um desperdício. Por isto mesmo, não é nada claro, é tudo menos claro. E se formos ao fundo da questão, podemos até supor que, inicialmente, as cottonetes seriam de uma só ponta algodoada. Sim, porque nestas coisas, contrariamente a outros domínios em que a evolução se faz do complexo para o simples, nestas coisas da tecnologia a mudança é orientada no sentido da progressiva sofisticação. Vejam o caso dos telemóveis, p. ex. São cada vez mais sofisticados, mais complexos, com mais funções, etc. ou as tv's, ou as hi-fis, etc. etc. Ora, eu creio que as cottonetes se encontram neste grupo, portanto, procedendo a uma tipologia das cottonetes há que aceitar que as de uma ponta são cronologicamente mais antigas, porque menos sofisticadas, do que as cottonetes de duas pontas algodoadas. É até crível que as de duas pontas tenham surgido como uma novidade, obtendo-se assim a vantagem de poupar material, evitar desperdício e aproveitar todas as extremidades do palitinho da cottonette. sairia mais barato uma vez que cada cottonette podia ser usada duas vezes, em lugar de uma só.

Ora, para rematar, não deixa de ser curioso, irónico e paradoxal, que a inovação que teve por móbil a poupança e que determinou a emergência, e a hegemonia, da cottonette de duas pontas, seja agora encarada não como uma forma de poupança mas de desperdício. isto no caso de eu, no pleno uso da minha liberdade, só quiser usar a cottonete uma vez. A segunda vez, se repararem bem, é um gesto ditado apenas pela disponibilidade da outra ponta virgem e não exactamente pela necessidade de um segundo acto de limpeza. É uma verdadeira ditadura da cottonete. se eu já estou limpo, por que raio é que hei-de proceder a uma segunda limpeza só porque a puta da cottonete exibe mais outra ponta algodoada? Hein? Por isso, eu mando fora a cottonete só com uma ponta usada. E aqui, meus amigos, é que está o busilis da questão. É o desperdício de dinheiro e algodão. Tanto mais grave porquanto a cottonete dupla nos foi dada como forma de poupança e se revela afinal uma forma de desperdício! E o pior é que não há alternativa no mercado. As cottonetes são todas duplas! Ora isto, meus amigos, é inaceitável!

05/03/10

Agarra que é ladrão!, por Lim Pó Pó

Na passada Quarta-Feira a Selecção Nacional jogou em Coimbra contra a China. Os preços dos bilhetes eram uma barbaridade tendo em conta que a selecção Chinesa é, como dizê-lo(?!), FRAQUÍSSIMA! Para quem não sabe, este poderoso adversário conta com um jogador do Beira-Mar (2ª liga portuguesa) e outro do... Mafra (2ª Divisão B, terceiro escalão nacional!!!). No entanto, a cidade correspondeu e, apesar das noites frias que têm estado, foi ao Estádio Cidade de Coimbra pagando entre 10 e 20 euros na expectativa de ver a Selecção Nacional a golear e a dar espectáculo (era o mínimo que se lhe exigia contra uma selecção tão fraca como a China).

Ora acontece que o que se viu foi uma tremenda falta de respeito pelo público ali presente. Os jogadores estiveram nitidamente a jogar a passo e o espectáculo foi deprimente. O público, que pagara 20 euros para ver aquilo sentiu-se, naturalmente, roubado. Começou a assobiar e, no final do jogo, brindou os jogadores portugueses com "olés" sempre que a posse de bola estava em poder dos chineses.

Eu não assobio a minha equipa (seja ela a Selecção ou o Benfica) e muito menos grito "olé" contra ela. Mas uma coisa eu vos posso garantir: acabei o jogo a torcer pelos chineses. Ser-me-ia, aliás, difícil não festejar um golo por eles marcado.

No final do jogo os jogadores portugueses foram-se embora para os balneários e vieram os chineses ao centro do público. Escusado será dizer que o público presente no Estádio Cidade de Coimbra aplaudiu DE PÉ a única equipa que levou o jogo a sério.

Carlos Queiroz veio, mais tarde, criticar os adeptos. Disse que se o jogo fosse na China os portugueses seriam aplaudidos. Imediatamente lhe responderam que, se assim é, ele bem poderia ir treinar para o Médio Oriente.

Nota: a Espanha ganhou por 2 a 0 à França em Paris, a Argentina venceu a Alemanha, o Brasil jogou com a Irlanda, a Costa do Marfim com a Coreia do Sul e não foram poupados jogadores. Mas em Portugal, contra a poderosíssima selecção chinesa, o Cristiano Ronaldo só pode jogar 45 minutos, assim como o Simão. Devia ser o ritmo de jogo que estava a desgastar demasiado os jogadores. Foi de tal forma triste que, se olharmos para o 11 que acabou o jogo contra a China, não haveria (quase) nenhum jogador que com lugar no 11 inicial do Benfica (que, recorde-se, não levou ninguém à selecção).

Queiroz, ao pedir respeito esqueceu-se de um pormaior: se a Selecção quer ser respeitada tem, também, de respeitar os adeptos. E o que o seleccionador fez foi gozar com quem pagou 20 euros para ver um espectáculo. Agora sim: i've got a (really bad) feeling.

02/03/10

Nos Também Temos uma Peça da Joana Vasconcelos, por Tó Minimalista

O Centro Cultural de Belém apresenta actualmente uma exposição sobre a obra da artista portuguesa Joana Vasconcelos que merece o nosso destaque. Confesso que a obra dela já me tinha chamado a atenção. Muito particularmente aquele sapato alto enorme feito de panelas que é um verdadeiro desafio às leis da gravidade e um primor de engenharia. Gostei daquela obra porque tenho um fetiche confesso por sapatos altos - a peça mais importante do arsenal de sedução feminino - e também achei aquelas panelas luzidias um objecto plasticamente muito bonito. Nunca tinha reparado como as panelas podem ter um brilho tão glamouroso, assim novinhas, ainda não conspurcadas pelas fogueiras inquisitoriais das cozinhas. as panelas são uma coisa numa cozinha e outra diferente numa sala do CCB.

Recentemente a Joana Vasconcelos chamou-me a atenção, ainda por outra razão, esta um pouco a montante das nobres e puras razões artísticas: pelo preço exorbitante que uma peça sua - uma marilyn - atingiu na Sothebys, qualquer coisa como cerca de 500 mil euros! Pois bem, os manguelas dos Lisboetas estão, uma vez mais, cheios de sorte: o Joe Berardo resolveu fazer uma retrospectiva da obra da artista no CCB.

Mas eu queria lembrar toda a gente e, especialmente, os meus conterrâneos conimbricenses que nós aqui somos pequenininhos mas também temos uma peça da artista plantada mesmo no centro do nosso recreio. Refiro-me ao campo de pitch and putt da Quinta das lágrimas, onde passamos uma boa parte do nosso tempo (para dizer a verdade já passámos mais). Pois é verdade, quem conhece o campo e até quem não conhece, pode ver uma baliza plantada lá mesmo no meio. Aquela baliza é que é a tal peça da Joana Vasconcelos! Ainda me lembro quando ela lá foi plantada, aqui há uns anos, por altura do Euro no nosso país. A artista construiu uma rede com umas flores coloridas meio psicadélicas do género das que enfeitam os carros da Queima das Fitas e chamou à escultura «Ópio do Povo». Com o tempo as flores de papel bio-degradaram-se, de maneira que, agora, já só lá resta baliza.

Não sei se a ideia era essa, ficar ali no meio do campo de golfe uma baliza de futebol, mas creio que a intervenção perdeu força. Agora quando olho para aquilo já não vejo uma referência ao futebol-alienação. Vejo apenas uma baliza que dizem ter custado 8 mil contos ao Júdice. Mas, possivelmente, o homem ainda ganhou dinheiro com isso. O berardo não pagaria o dobro para ter a nossa baliza no seu museu? Vá lá malta, organizem-se e visitem a baliza da Joana de Vasconcelos que está na Quinta das Lágrimas. Enquanto podem, que daqui a uns tempos se a quiserem ver têm que se meter no carro e fazer 200 klm até Lisboa.

Pic - Dorothy de J. Vasconcelos

21/02/10

Que Viva La España, por Chibanga

Contada pelo nosso Basco genuíno hoje no Ranhoso. Parece que o Atlético Bilbau, baluarte maior do orgulho basco, foi recentemente até Bruxelas onde defrontou os belgas do Anderlecht. Pois bem, a coisa, terá descambado num verdadeiro festival de pancadaria entre adeptos euskadis e belgas. É que estes, sabendo de antemão do anti-espanholismo athleti, terão passarado o tempo a cantar nas bancadas o célebre hino nacionalista «E viva la españa». Os bascos sentiram-se provocados e zás, confusão... Aquilo que Carlos V e os Filipes jamais conseguiram pela força das armas o futebol foi capaz de fazer num ápice: levar Bruxelas a gritar vivas à Espanha!

18/02/10

A Minhas Leituras de 2009, por Adérito


É verdade que estamos no fim de Fevereiro. Mas um blog é assim mesmo: escreve-se quando apetece e só quando apetece. É por essa razão que só agora me decidi a apresentar aqui a minha lista de leituras de 2009. Espero então que os restantes escribas porcinos avancem a seguir com as deles, cumprindo assim uma tradição que já vem do tempo do D. Maria. Aí vai a minha Lista de 2009:

Oliveira Martins – História da Civilização Ibérica, Europa-América. Achei-o demasiado especulativo, com máximas discutíveis do estilo «o espírito espanhol é este, o árabe aquele, o africano aqueloutro». Há um capítulo que devorei pela pedagogia do relato que me fez recordar alguns apontamentos da aula da saudosa professora Deolinda. O capítulo sobre a conquista da Ibéria pelos mouros, as diferentes fases das invasões, os seus protagonista (o árabe Musa, o berbere Tarij, os Almóadas e os Almorávidas, Al Mansur e Yusef). Depois perde-se em metafísica a mais e história a menos..

Chico Buarque – Budapeste, D. Quixote. Comecei a medo, praticamente forçado por um berro do Grão que me espetou com o livro na cara e gritou: «LEVA!». Li as primeiras páginas cheio de preconceitos – afinal um músico genial não pode ser também, um escritor brilhante, há princípios, o Criador não pode deixar que o mesmo homem reúna tanto génio disperso em artes tão diferentes. Mas não é que Budapeste é um excelente livro? O músico Chico acaba por fazer sombra ao escritor Chico – mas este não sai diminuído do confronto e sabendo nós o que o músico vale, imagine-se em que patamar coloco o escritor Buarque.

Haruky Murakami – Sputnick, Meu Amor. Uma escrita solar, luminosa, meridiana. Murakami é um escritor de grande técnica. E o livro associa à técnica um misticismo-existencialista que lhe dá humanidade. Mal o li corri a comprar Norwegian Wood.

Murakami – Norwegian Wood. Manteve o registo que apanhei em Sputnick, E portanto não desiludiu...

Martin Dugard – A Última Viagem de Colombo, Casa das Letras. Naquele registo muito anglo-saxónico que torna a história acessível ao leigo. Venham mais desta escola que fazem falta no nosso país.

Robert Harris – Pátria (Fatherland). 1992, Bertrand. Este deu post no Tapor. Está por ali algures no histórico do blog...

Sérgio Luís Carvalho – O Retábulo de Genebra, Campo de Letras. Mais um que aqui deu post e até, em tempos idos, um feedback do próprio autor.

Cormac Mccarthy – Meridiano de Sangue, Relógio de água. Também deu post e uma boa polémica com o Grunfo. eu não gostei, ele sim...

Arturo Perez reverte – Um Dia de Cólera, Asa. Dos meus Revertes preferidos (e conheço muitos). Também deu post.

Irving Yalom, Quando Nietzsche Chorou, Bertrand. Uma revelação. Não acho que Yalom seja particularmente brilhante, mas consegue aqui uma narrativa muito interessante. Há aqui uma tentativa de deitar Nietzsche no divã que levaria o próprio ao desespero. Teve um efeito muito positivo em mim porque logo a seguir senti urgência em voltar à leitura do grande niilista alemão. o livro que li a seguir foi:

F. Nietzsche – Ecce Homo, Guimarães. Uma espécie de auto-reflexão do autor acerca de si e da sua obra. Inesquecíveis os capítulos «Porque Sou Tão sábio», «Porque sou tão sagaz» e «Porque escrevo tão bons livros»...

Arturo Perez-Reverte – o Mestre de Esgrima, Asa. Reverte é um vício, que hei-se fazer?

Francesco Alberoni e Salvatore Veca – O Altruísmo e a Moral, Bertrand. Não atinge a pertinência de outros do autor, como o célebre Enamoramento e Amor que o lançou a nível internacional.

Carl Sagan – Um Mundo Cheio de Demónios, Gradiva. Ler Sagan é sempre um prazer e uma aprendizagem permanente. Não deve ter existido muita gente com a capacidade pedagógica dele. No entanto - as lições do Mestre dizem-nos para sermos críticos - achei este livro o mais positivista de todos os livros de Sagan. A crença que ele aqui deposita na ciência chega a ser excessiva.

Greg e Paape – Luc Orient (vols 1 a 4). De entre a muita BD que me passou pelas mãos, destaco estas edições do saudoso Luc Orient que apareceram na Fnac no original francês. Um clássico da FC!

Jaques Lamy – A Verdadeira História dos Templários. Confesso: sou fascinado pelo esoterismo templário. Depois de ler alguma bibliografia sobre a Ordem fica-se com uma sensação de déjá vú. Mas há um núcleo duro de conhecimentos acerca do tema. E este livro é uma boa introdução. Sóbrio!

Manuel Vasquez Montalban – Galindez, Caminho. Uma revelação para mim! Um grande escritor catalão, cujos livros não consigo encontrar. Montalban é um mestre da escrita. Aqui cruza o universo pessoal das personagens com a história mais ou menos desconhecida da antiga ditadura da república Dominicana.

Umberto Eco, Baudolino, Difel. Como todos os romances de Eco, não se consegue parar de ler. No fim, como é hábito, fica-me sempre a sensação de que o autor poderia ter sido mais parcimonioso.

Oliveira Martins, Os Filhos de D. João I, Ulisseia. Adorei este livro! Foi uma espécie de regresso à História tal como a aprendi na minha infância e um reencontro com histórias que re-conhecia não sei bem de onde. Como se estivesse a ouvir um fado muito longínquo e ao mesmo tempo incrivelmente familiar.

Irvin Yalom, A Cura de Schopenhauer, Bertrand. Yalom, mais uma vez, a fazer render a receita que aplicou no livro anterior. Desta vez Schopenhuer faz de Nietzsche.

John Updike, Brasil, Civilização editora. Updike foi, para mim, a grande descoberta de 2009. adorei este livro e não parei - ainda não parei - de ler Updike a partir daqui. Saiu post.

André Gide – A Sinfonia Pastoral, Âmbar. Saiu post. Um livro genial de um escritor genial! Este foi só o primeiro Gide de 2009. Seguiram-se:

André Gide, A Porta Estreita, Visão. A matriz freudiana do livro é clara. A rapariga que ama mas que se impede de amar, que ama o fantasma que cria na distância mas que não o consegue suportar enquanto presença real.Outro grande livro!

André Gide, Os Moedeiros Falsos, âmbar.... E vão três Gides de seguida...

John Updike – S., Livros do Brasil. De Gide voltei a Updike que me tinha deixado exclente impressão. Confirmada por este S. de contornos budistas.

14 Novelas Históricas de Portugal, Vários (Eça, Júlio Dantas, D. João de Castro, Henrique Lopes de Mendonça, Alexandre Herculano, Antero de Figueiredo). A feira das velharias na praça 8 de Maio que o Grunfo tá sempre a recomendar tem destas coisas.

Indro Montanelli, História de Roma. Óptima leitura para uma viagem de avião. Foi o meu fiel companheiro nestas férias em Cartago.

Pierre Grimal – História de Roma, Texto Gráfica, 2003. Depois de ler o anterior, a leitura deste Grimal tornou-se redundante.

John Updike – O Terrorista, Civilização editora. Acerca dos meandros psicológicos dos jovens terroristas islâmicos. Não é do melhor de Updike. Mantém a qualidade de escrita mas a narrativa é um pouco action movie.

Brian Ward-Perkins, A Queda de Roma e o Fim da Civilização, Aletheya, 2005. Este também deu post. Foi uma leitura diferente e marcante porque é uma obra de um arqueólogo.

Fernand Braudel – O Mediterrâneo. O livro é dirigido por Braudel mas tem vários autores. Achei particularmente interessante o texto de George Duby sobre a história e o fascínio do mediterrâneo. Foi leitura de Setembro quando andei particularmente interessado na civilização do mar do meio.

The Best stories of superman evertold, vol.2, vários. Descobri-o na Fnac e devorei-o. Tenho pena que sejam tão raras as minhas histórias de infância do Super Homem.

Dostoievsky – O Jogador, Presença. Um clássico de um grande escritor.

José Norton – O Último Távora, D. Quixote. Para além de ter mandado quase toda a família Távora para o cadafalso, o marquês de Pombal ainda se deu ao luxo de educar, sob seu controlo, o descendente directo da família, Pedro de Almeida Portugal, futuro marquês de Alorna. Este livro segue a sua história, desde menino até à morte, passando pela crepuscular participação na campanha napoleónica na Rússia.

J. Lúcio de Azevedo, O Marquês de Pombal e a Sua Época, Alfarrábio. Mais um documento sobre um os maiores sanguinários da história moderna de Portugal.

Manuel Vasquez Montalban – Erec e Eneide, Caminho. Yesss! O grunfo tinha lá este Montalnán perdido. Devorei-o rapidamente e fiquei a chorar por mais. Desta vez a referência é a mitologia céltica.

Dan Brown – O Símbolo Perdido, Bertrand. Uma perda total e absoluta de tempo. Dan Brown segue a receita que tanto sucesso lhe deu no Código Da Vinci. Mas nem sequer é mais do mesmo porque para isso tinha que ter a garra do Código e é demasiado plástico. Pergunto-me como suportei tal estopada até ao fim...

A. Perez-Reverte – O Clube Dumas, Bertrand. Eu não digo que o Reverte está sempre a aparecer? Em todo o caso, achei-o um dos seus livros menos conseguido. Pese embora ter sido precisamente este que deu origem a um filme de Roman Polansky.

J. Updike – Corre Coelho, Bertrand, Civilização. Lynchiano! A aparente modorra existencial conflui para um epílogo trágico. Em certos aspectos faz lembrar Camus, mas com uma dimensão trágica que este não tem nos seus romances. Um dos melhores Updikes que li...

Carlos Oliveira – Uma Abelha na Chuva. Ainda não tinha lido este quase conterrâneo, natural de Febres (hello Tinó, are you there?). O livro é, obviamente, marcado pelo neo-realismo: os maus são os agrários e os ricos; os pobres são simplesmente inocentes e explorados pelos primeiros…

Audrey Niffnegger – A Mulher do Viajante do Tempo, Presença.
Uma boa ideia, um indivíduo que sofre de uma disfunção temporal que o leva a dar saltos no tempo involuntariamente. Interessantes as micro-narrativas. Mas o livro torna-se palavroso e redundante. É como na arquitectura ou na escultura: há aqui um problema de volumetria. Seria um bom ponto de partida para um outro livro muito melhor.

17/02/10

When Quico Meets G.I. Joe, por Primo Ribeiro

A 26 de Setembro de 1953 o ditador espanhol Franco assinou com os EUA o Pacto de Madrid. Mediante este acordo, Franco põe fim a um longo período de isolamento internacional da Espanha. As consequências da abertura ao investimento estrangeiro e, em particular, aos americanos, mudam, gradualmente, a face do país. O impacto da televisão, dos livros e das revistas, do consumismo, do turismo e o contacto com novas culturas e formas de estar trazem a Espanha até à modernidade. O velho Franco, que nunca se adoptou a este Novo Mundo, comentou então, numa tentativa irónica de ver um lado positivo na abertura que foi obrigado a promover:
«A melhor coisa que os EUA fizeram por nós foi esvaziar de putas os bares e cabarés de Madrid, pois quase todas elas casam com sargentos e soldados americanos» (A. Hodges, Franco, p.219)